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segunda-feira, 16 de julho de 2018

GOTAS DE SANGUE REPOUSAM EM MINHAS BOTAS PRETAS ep2


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Imagem de Apollonia Saintclair


Finalmente é segunda feira e o celular desperta freneticamente até que eu o escuto. Abro um dos olhos apenas para apertar a opção soneca e repito isso várias vezes até que acordo finalmente. Preferia estar morto, mas tenho que trabalhar. As contas não serão pagas sozinhas e os problemas no escritório não serão resolvidos sozinho.
Primeiro o cigarro como de costume. Me apresso o máximo possível para fazer o café? Claro que não. Não me arrisco à levantar da cama antes de terminar o primeiro cigarro. Enquanto isso penso em dezenas de motivos para não ir trabalhar e nenhum deles me convence.
No banheiro descarrego todo o álcool que bebi há dias com certa dificuldade já que o pau está tão duro quanto um pedaço de madeira. Chega a doer e por isso decidi terminar na pia para facilitar. Já estou atrasado antes mesmo de começar e preciso fazer café.
Fico me perguntando por que afinal eu já não faço café antes de dormir para que já o tenha pronto quando acordar e chego a conclusão que de noite estou bêbado e só consigo pensar se tem ou não álcool suficiente para alimentar meu vício.

Café pronto, volto ao banheiro para beber e fumar e pensar na vida. Na verdade não há muito a ser feito exceto ir vivendo os dias conforme o Destino nos apresenta. Todas as conversas inúteis, as amizades falsas, os mendigos pedindo esmolas. Todos os olhares de escanteio por causa de um sapato diferente, um penteado mal arrumado, um pelo na barba fora do lugar. As pessoas mais estranhas parecem comum para outras e isso funciona também com ações e todos fingimos sermos educados em busca de aprovação e eu não sou diferente. Não para buscar aprovação, mas para não levantar suspeitas, já que no dia anterior deixei quatro cadáveres para trás. Assim que saio do banho ouço rádios de polícia na minha porta e vou olhar pela janela. Na verdade estão em frente a casa do vizinho. Alguém não voltou para casa naquele domingo. Ouço os policiais comentando sobre a cena. Palavras como banho, sangue, massacre parecem querer erotizar a coisa toda. Porém são só pessoas, mortas, bem como animais são mortos em abatedouros todos os dias e ninguém dá a mínima. Não vejo como somos tão diferentes deles. Fedemos e matamos tanto quanto. Enfim chegam à minha casa perguntando se ouvi ou vi algo e nego dizendo que cheguei tarde no sábado e passei o domingo dormindo. O que não é de todo uma inverdade. O policial parece compreender já que está com uma cara de ressaca tão incriminadora quanto a minha. Muito simpático para um policial. Não quis esticar muito o assunto talvez pelo meu roupão de banho ser rosa com grandes flores lilás. Não o culpo, mas o roupão era de uma garota que esqueceu ao partir da minha casa. Peço um cigarro e ele tem. Só não é dos meus. Pena. O meu estava acabando e antes de nos despedimos ele pergunta como eram os vizinhos ou se eu havia presenciado alguma briga entre o casal. Digo que não pois não fico muito em casa já que estou sempre trabalhando, por fim entro e vou me vestir.
Muitos policiais, muito barulho. Pessoas amontoando-se na rua para tentar ver alguma coisa. Um ou dois carros da imprensa, mas nada demais. Só mais um crime banal na cidade grande. Cada vez mais as pessoas estão habituadas à violência e sangue e crimes e famílias inteiras matando-se por motivos fúteis. Crimes passionais, crimes por motivos mesquinhos e tudo o mais. Ninguém se importa, só querem ver, saber para poder ter assunto no almoço com o pessoal do trabalho, postar no Facebook ou YouTube. Mas na verdade, ninguém se importa realmente que dois casais morreram assassinados num almoço de domingo. Um simples almoço de domingo. A sociedade está calejada de crimes ediondos tão ou mais devastadores que este. Nem morte de crianças impacta esta geração. E eu sigo andando pela rua à caminho do trabalho.
Meus cigarros finalmente acabam e acho melhor não parar na padaria perto de casa. Muitos policiais me deixam nervoso e a segunda feira mais a ressaca já mexem demais com meus nervos. Continuo andando até um mercadinho e peço minha marca favorita. Só temos Eight, ela diz. Com um sorriso simpático que me dá nojo. Sorrisos simpáticos forçam você a devolvê-lo com mais simpatia e eu já sou obrigado a trabalhar e conviver com pessoas que eu não gosto, sorrir para elas é sacrificante para mim. Pergunto se não tem outra marca, ela diz que não, mas que aqueles cigarros importados ilegalmente do Paraguai são ótimos também. Eu estou prestes a sair com sua negativa, mas depois de querer me oferecer cigarros ilegais, que sonegam impostos, que não geram empregos, que matam nossa economia, sem falar na saúde de quem os consome, foi praticamente como cagar na minha cara e querer que eu agradeça depois. Sempre com aquele sorriso simpático de merda colado em seu rosto enrugado de quem abriu um mercadinho para ajudar na aposentadoria.

Decidi colocar meu sorriso mais simpático no rosto e digo que vou aceitar sua sugestão e assim que virou-se acerto o lado de sua cabeça com a máquina de cartões. Ela cai para o lado como um presunto gordo e velho. Dou a volta no caixa e passo a pisar em seu rosto com minha bota de solado militar. Uma, duas, três... Até que sinto quebrar algo como a casca de um ovo quebra ao ir para frigideira, então paro. Satisfeito, mas com uma puta vontade de fumar. Limpo a sola da bota na calça da velha até ouvir um barulho vindo do fundo do mercado. Um rato escondendo-se do gato, estava satisfeito e calmo, mas não poderia deixar ninguém para trás. Seria injusto com a velha e comigo. Na geladeira pego uma garrafa de cerveja, um bom trago com certeza ajuda qualquer crise de estresse. Geladinha, quase de doer o dente. Me aproximo sem muita pressa, mais um gole e acho o rato. Um garoto, não mais que dezesseis anos, magricela como uma garota se escondendo atrás do balcão de pães e frios. Ele se assusta soltando um grito agudo assim que quebro metade da garrafa no balcão derramando o restante da cerveja. Acho um desperdício jogar fora metade do líquido delicioso principalmente quando é importada, mas são ossos do ofício. Agarro seu cabelo com força pressionando contra os pães e a garrafa corta-lhe a garganta entrando bem fundo enquanto o garoto está abaixado com lágrimas nos olhos. Gotas de sangue repousam em minhas botas pretas. Fácil de limpar. No relógio ao lado dos frios reparo que estou atrasado. Não era um bom dia até eu sair da cama, mas as coisas estão melhorando. Cigarros! Lembro que preciso fumar.
Parto em direção à porta. Fui inconsequente penso. Alguém poderia aparecer nesse ninho de rato e eu ter de acabar com mais um cadáver na conta. Ao passar pelo caixa, reparo, ao lado da caixa registradora, quase não notei. Como sou burro! Ou sortudo. Danadinha, digo ao corpo da velha morta atrás do caixa. Se tivesse falado que era fumante... E ainda mais da minha marca favorita. Pego o maço na caixa registradora, retiro um e foi um trago delicioso. Devolvo o maço. Melhor correr para o trabalho.


Bento.


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

SOU O JESUS CRISTO DO RUM [A BARBA]

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Então eu estava muito nervoso. Era noite. Daqueles dias cansativos que você demora mais pra voltar pra casa que o período todo de trabalho. E o relógio te informa que em algumas horas você já precisará estar de pé e acordado novamente para ir trabalhar. Só que você não quer dormir. Você quer aproveitar a noite. Olha pela janela e vê a lua que te convida a beber e se divertir. Mas isso é só para quem tem direito. Nós trabalhadores não podemos. Nós, telefonistas, pedreiros, balconistas, eletricistas, encanadores, professores, vendedores, motoristas, lavadores de carros, limpadores de vidraças, atendentes, expositores, estoquistas, dentre todas as outras coisas, nós não temos este direito. Nós apenas dormimos e acordamos e trabalhamos, pois o mundo precisa de nós. O mercado e a economia precisam de nós. Inclusive aqueles que têm o direito de beber numa noite dessas, no meio da semana, eles também precisam de nós. E eu estava lá, em frente ao espelho, vendo meus olhos cansados de acordar quase sem dormir, querendo sair e me divertir sem poder. Mas confesso que antes de chegar em casa passei no boteco e pedi duas doses. Da forte. Por este motivo, talvez, eu quisesse trocar a janta pelo gargalo de uma boa cerveja gelada. Eu disse uma?

Um calor de sentir-se sujo. Duas doses no estômago depois de um dia cansativo e já me sinto poderoso. Quase como quando ouço The Doors no último volume. Olho no espelho e sou só sobrancelhas e bigode e barba. O cabelo já passa da hora de cortar e sinto calor. Lembro-me que escondido na cômoda, para as horas de emergência, tenho um meio litro de rum pela metade. Já ajuda em alguma coisa. Para fazer durar mais adiciono em cada dose dois dedos d'água. De meio faço quase um inteiro. É o milagre da multiplicação. "Sou o Jesus Cristo do rum", eu grito sem me importar com os vizinhos. Um pirata com a barba ruiva tomando rum como quem bebe água. Mais uma dose e agora fico nu para suportar o calor, mas ainda não é suficiente. Meu rosto não faz questão de esconder as marcas do tempo e dos incontáveis porres. Das noites sem dormir. Dos desamores. Há muito que contar em cada ruga, cada cravo, cada pelo de barba. E a barba? Enorme, com pelos eriçados, rebeldes, precisando aparar, mas que tempo tenho? Quando minhas horas de descanso reservam-se para dormir e beber e escrever. Algo me incomoda e a barba pode ser quem vai pagar o pato. Então entre o cigarro aceso e mais uma dose de rum eu acho a tesoura e começo a cortar a barba. A cada chumaço de barba largada no lavatório é um pouco de sofrimento que vai pelo ralo. Leva tempo para manter uma barba deste tamanho. Porém, não mais tempo que economizei quando optei por não perder tempo fazendo a barba.

A verdade é que de lua, como sou, por vezes preciso de uma grande mudança em minha rotina para sentir-me vivo. Vivo e ativo. Vivo e útil. E ainda tem a garota do Bourbon que permanece preenchendo meus finais de semana. Uma linda esta garota. De uma paciência ímpar. Também pudera, para me aturar, somente tendo uma paciência de monge tibetano, mas ao invés disso, ela é descendente de nordestinos mesmo, talvez seja isso. Além de paciente ela é quase tão preguiçosa quanto eu, logo, não se importa de ficar deitada tomando cerveja, falando sobre qualquer coisa e transando.

Não existe muito mais o que se possa querer numa garota quando esta não reclama de seus cigarros, sua vontade incontrolável de algo alcoólico e seu vício em sexo, dito isso, por vezes eu abro mão de meu casulo para levá-la em lugares que queira ir, afinal, quando se está com uma garota como ela é preciso abrir mão de algumas coisas para mantê-la por perto. É uma via de duas mãos. Não se pode viver sem abrir mão de coisas. Abri-se mão da cerveja importada de trigo para poder investir em quantidade de cervejas nacionais e assim poder comprar garrafas que vão te deixar suficientemente bêbado. Abre-se mão, por vezes, da garrafa de Bourbon importado para poder tomar um bom café da manhã a cada três dias de ressacas consecutivas. Abre-se mão de comer em restaurantes boca-de-porco, que servem comida como quem serve para um batalhão, com quase um porco inteiro frito em seu prato clamando para ser saboreado com as mãos para poder impressionar uma garota num restaurante que serve comida como se fosse alpiste, com pratos decorados como aquela tia perua. Vivemos abrindo mão de coisas esperando conseguir outras, porque ainda somos daqueles que têm que escolher entre dormir ou aceitar o convite da lua que nos chama para beber e ficar bêbado e vomitar metade do que bebemos para poder beber mais e não lembrar do que fizemos na noite passada. Nós ainda somos os telefonistas, pedreiros, balconistas, eletricistas, encanadores, professores, vendedores, motoristas, lavadores de carros, limpadores de vidraças, atendentes, expositores, estoquistas, faxineiros, porteiros, zeladores, carteiros, ajudantes, auxiliares... E continuaremos até que a morte nos convide para dançar.



Bento.

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domingo, 8 de fevereiro de 2015

COMENDO A PRÓPRIA BABA COM UMA COLHER DE SOBREMESA

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Então eu vinha embora do trabalho pensando em meu banheiro. Não propositalmente. Era forçado a desejar chegar cada vez mais rápido, afinal, eu precisava evacuar o mais depressa possível. Porém ou lembrei que em casa não tinha uma gota de álcool sequer e isso é inadmissível. Travei o reto e passei no posto de gasolina para comprar cervejas e cigarros.
Resumindo; consegui chegar em casa sem nenhum acidente. E aqui estou eu. Sentado na privada dando uma boa cagada, ouvindo Albert King com a gaita de fundo e tomando uma cerveja que ameniza, um mínimo de qualquer coisa neste calor infernal. Neste momento eu penso; puta momento feliz. Eu sou feliz agora. Estou feliz. O homem que não puder pagar pela sua própria cerveja não passa de um verme. O homem que não puder cagar em seu próprio banheiro é um homem desesperado. Não há futuro.

Agora já é Robert Johnson que canta e eu fixo os azulejos do banheiro feliz da vida. Não saio daqui enquanto não terminar o cigarro, pois acredito piamente que cagar e não fumar um cigarro é um pecado mortal. Bem como os religiosos acreditam em seu deus e suas doutrinas eu acredito que cagar sem tempo de terminar um cigarro é um insulto aos deuses de qualquer espécie.

A verdade é que além deste momento único e sem sentido, porém feliz, outra coisa me fez uma criança novamente de tão animado. Somente uma coisa poderia arrancar sorrisos idiotas e piadas infantis em meio ao mau humor que prevalece em minha existência. Uma garota. Da qual resolveu dar o ar da graça. Uma esmola de atenção qualquer e isso já fez de mim o cara mais feliz do mundo. Ninguém pode dizer o contrário. Pelo contrário. Todos aparentemente perceberam. Minha garota, ela não sabe, mas sempre foi minha garota e a única da qual eu sou fiel. Até hoje. E eu acredito, talvez errado, mas acredito, que ela só voou pelo mundo com tanta segurança porque sabia que sempre haveria um coração abandonado do qual definhava de amor para que ela pudesse voltar.

A musa das musas dá um sorriso e eu começo a regurgitar inspiração. Seu título não é à toa.
Confesso que fui conferir quantas latas de cerveja eu tinha bebido na noite anterior para ter certeza que não era o álcool me pregando peça. Depois disso belisquei-me, sei que não faz sentido, mas nunca se sabe o que nossa mente pode fazer conosco quando desejamos muito uma coisa.

Perdi o jeito de falar com esta garota. Meço as palavras e mesmo assim depois de ditas me sinto um idiota, por isso acabo falando demais. Ainda não sei como não babo como um retardado, mas chego próximo. Piso em ovos e quase não respiro porque ela é meu dente-de-leão, qualquer brisa e ela pode partir como todas as outras vezes. Talvez soe gay para quem está acostumado com os padrões de minha escrita, mas é difícil escrever sobre isso de forma diferente. Baixo a guarda, transbordo de bundamolice, e agora sim eu já estou necessitando de um babador.

Ela é dona de uma poção do amor que me tira dos quintos dos infernos e me faz cheirar flores em parques, sorrir para crianças e dar atenção a velhos na rua. Logo eu que vivo nos porões mais putrefatos na cidade, ser da noite endiabrado, odiado por onde passo, de discursos intensos e desaforados me pego elogiando o sol e a chuva e aplaudindo o por do sol. Vejo-me brincando com crianças e suspirando por canto de pássaros de manhã. Onde já se viu? Logo eu.
Como faz, quando um filho da puta como eu sai na rua querendo distribuir abraços? Provável que quem ver vai pensar que estou bêbado, mas nem alto eu faço umas merdas dessa. É quando começo achar que ela é meu maior entorpecente. Senão o mais forte pelo menos o mais viciante.

Há tanta coisa pra dizer e as palavras simplesmente me engasgam lutando para não soar. Nunca sei o que dizer. As mãos transpiram e receio magoá-la. Mas não minto tentando parecer algo que não sou, afinal ela não acredita em nada que eu digo mesmo. Gastar imaginação mentindo seria perda de tempo, porém me assusta espantá-la com qualquer coisa de minha personalidade velha e caótica.

Mas se você estava achando este texto feliz demais para os padrões aqui vai uma boa notícia - pra vocês que gostam de má notícia. Assim como esta garota voltou de repente ela se foi instantaneamente. Apareceu solteira e logo depois comprometeu-se novamente. Foi só o tempo de criar fantasias e histórias e engolir toda a baba novamente, com uma colher de sobremesa. Babar e voltar a comer o mingau de esperança. Excluir-me de novo e eu voltar a reconhecer a raiva estacionando na frente de casa, buzinar antecipando a campainha. E eu ir olhar com curiosidade.

- Entre, eu tenho cervejas. Se prepare, pois hoje vamos ficar bêbados até não acertarmos mais a boca.Eu disse à Raiva, velha companheira.

- Mas ela vai excluí-lo e depois procura-lo novamente, pois é isso que ela faz. Disse a Raiva. E eu respondi cabisbaixo.

- E eu vou aceitá-la mais uma vez! Afinal é só o que eu faço em todos esses anos. Espero que ela me procure e procure e procure novamente.

- Então me sirva àquela cerveja que prometeu. Você sempre tem as mais geladas. Disse a Raiva.

- Um brinde. Eu disse.

E brindamos. Velhos parceiros de bebedeira.



Bento.

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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

UM VICIADO EM SEXO COM ASCO DE CALCINHAS É COMO UMA VACA COM ALERGIA A LACTOSE

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Eu estou no segundo copo de whisky e tenho escrito algumas coisas um tanto fortes para o perfil das pessoas que leem o que escrevo. Eu não me importo, pois mais prazer que ter pessoas lendo o que eu escrevo eu tenho quando escrevo o que eu quero então foda-se. Esse whisky que eu tomo hoje eu ganhei de uma garota, e uma vez ou outra eu ganho esses tipos de agrados. Além, claro, dos agrados sexuais. E tenho de dizer que uma garrafa de Jack é sempre um bom presente a se receber.
Digo isso pois tenho alguns vícios que vocês já devem conhecer todos muito bem. Logo, dentre tantas discussões medíocres por aí sobre política e a porra toda, ao invés de ir ao bar eu prefiro ficar em casa tomando grandes goles de Jack e mantê-lo na boca por alguns segundos até sentir todo seu sabor.

Houve um tempo que passei a odiar calcinhas. Não sei dizer ao certo de onde veio isso, mas era só ver uma garota no meu quarto, começarmos a nos beijar, o sexo pedindo passagem e eu imediatamente arrumava um jeito de tirar a calça da garota com calcinha e tudo para que não tivesse que olhá-las. Calcinhas feias, bonitas, grandes ou pequenas, renda ou algodão. Eu só odiava calcinhas. Perdia um terço do meu tesão caso me deparasse com elas. Eu nunca gostei de lingerie vermelha - isso também não é segredo - mas nesta época eu não gostava de calcinha nenhuma. De nenhuma cor. Só de ouvir uma música do Wando eu já ficava enjoado imaginando um mundaréu de calcinhas em cima de mim. Era complicado e nada saudável. As calcinhas penduradas nos varais dos vizinhos faziam meu corpo se contrair. Bem, dito isso, deixo claro aqui que um dos meus vícios, dentre tantos, é o sexo com garotas e de preferência magrelas e tatuadas, e não é nada - nada mesmo - saudável ter asco de calcinhas quando se está todo fim de semana bebendo, fumando e baixando calças junto com calcinhas para que não às veja. Uma hora ou outra o truque falha. Um viciado em sexo com asco de calcinhas é como uma vaca com alergia a lactose. Não faz muito sentido. De qualquer forma, assim como veio passou esse negócio das calcinhas.

Não muito depois disso eu comecei a trocar as garotas magrelas e peitos grandes por garotas de peitos pequenos e bundas enormes. O que vai contra tudo o que eu prezo numa garota. Mesmo assim troquei todas. Até aquelas que iam até minha casa regularmente eu deixei de lado, pedi espaço, aquela coisa de homem de precisar respirar ares novos, precisar de um tempo só. Como eu escrevo, para algumas garotas eu dizia que precisava focar mais na escrita, pois estava relaxado, perdendo a mão. Curioso é que esta desculpa foi a que teve mais aceitação. As garotas diziam: Ok, amor. Me manda um texto para eu ler.
- Certeza que mando. Eu respondia.

Então comecei a procurar as bundas enormes por bares e conhecidas que eu não reparava por não se tratarem do estereotipo que até então admitia. Tudo transcorreu perfeitamente bem. Conheci belas bundas. Brancas, negras, bundas grandes, muito grandes e as gigantes e desproporcionais. Bundas que batiam nas minhas coxas de tão grande quando colocadas por cima para trabalharem. Nesta época eu percebi que eu não ligava tanto para a beleza dos rostos - vejam que heresia - afinal, eram as bundas que eu olhava. Ter uma grande bunda nas mãos e não aproveitá-las da melhor maneira possível é estupidez. Para quem gosta de tamanho as brancas são as melhores, pois aparentam ser bem maiores, só que tudo é uma questão de ótica.

Então essa fase das bundas também passou e eu voltei às magrelas. Nunca me decepcionei com garotas ossudas. A flexibilidade, a agilidade, a safadeza...

Tem uma coisa também e isso parte mais de uma particularidade que qualquer outra coisa. As melhores transas da minha vida foram com magrelas. E muita gente acha que eu critico as gordas pelo simples fato de nunca ter tido uma boa transa com uma gorda e eu respondo: É verdade. Mas não é isso. Entendo eu que gordas são gordas e que essas mesmas gordas têm um desejo imenso de serem magras e não conseguem. Eu entendo isso. O que eu não entendo é essa mania das gordas de tentarem nos convencer de que estão bem sendo gordas e que nós homens é que somos uns fúteis por preferirmos beleza e magreza e não nos importarmos com - muita atenção para o termo que eu usarei agora - "beleza interior". Como se as gordas fossem melhores que as magras só pelo fato de serem gordas. Como se nossos neurônios estivessem ligados à quantidade de banha que temos em nossos corpos. É só pra mim que soa arrogante uma pessoa achar que é mais inteligente que todas as outras que são mais atraentes sexualmente que ela? É visível só pra mim que o mesmo preconceito que as gordas dizem sofrer elas têm com as garotas magras?
Bem, sinto em dizer - mentira, não sinto - mas eu prefiro as magras, pois é bem mais fácil ensinar uma equação matemática à um macaco que convencer um elefante a parar de comer.

Então eu tenho essa insistência com gordas e muita gente diz que vou acabar terminando meus dias ao lado de uma obesa. Pode até acontecer, contudo isso é tão possível quanto eu acabar casando com um saco de berinjela, pois eu não gosto tanto quanto.

Eu também falo uma porção de coisas sobre os religiosos e por incrível que pareça esses enchem menos o meu saco com essas crises de hipocrisia. Esses são hipócritas só com a vida e o mundo, comigo nem tanto. Mas é bem capaz - segundo diz a lenda - que eu casarei com um saco de berinjelas, morrerei esmagado por uma gorda e partirei sem escalas para o inferno, deixando órfãos duas ou três crianças berinjelas, afinal também não suporto criança. Isso, claro, se nenhuma gorda aparecer para comer meus filhos.



Bento.

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sábado, 15 de março de 2014

UM SUJEITO SEM DEMÔNIOS NÃO É SEQUER UM SUJEITO

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Acredito que estou em débito com minha inspiração, ela que já me ajudou tanto, não estou fazendo quase nada para ajudá-la. Não estou fazendo e isso é fato. Um escrevinhador como eu precisa de musas para dar um empurrão na maldita escrita e eu tratei de afastar todas elas. Afastei porque eu tenho essa mania de afastar as coisas, às vezes acerto, às vezes nem tanto, mas ninguém se importa quanto aos meus acertos, não se importam porque simplesmente não é importante. Bem, quero confessar que quando digo "ninguém" quero dizer "eu". Se você que está lendo isso achou confuso, volte e leia do começo, mas com atenção desta vez, estou sem tempo para ficar explicando.

Na verdade estou sem tempo para quase tudo. Com exceção das coisas básicas eu quase não faço nada a não ser vestir qualquer coisa e sair para trabalhar. Aliás, trabalhar tem sido cada vez mais sacrificante, porém um sujeito como eu, cheio de vícios, precisa de um salário no fim do mês para dar conta do recado. Curioso que estou tão sem tempo que mesmo meus demônios não me acham para uma conversa de fim de noite e um sujeito sem demônios não é sequer um sujeito. Veja então minha situação.

Por vezes me sinto num grande vazio, só ar e vazio e paredes sem cor e poucos idiotas que levantam-se da merda e me fazem desviar o olhar, no entanto não por muito tempo porque estou sem tempo até para indignar-me com idiotas.
Estou há dias de fazer uma viagem no intuito de pintar as paredes, pois preencher o vazio é querer demais, se ainda fosse Vegas, mas não, então temos de nos contentar com o que temos.

Esses dias me peguei pensando sobre um bom amigo que tenho, que creio eu, está passando por seu momento mais feliz, em toda sua vida, curta, mesmo assim o melhor momento. Fora inevitável a comparação, pois o que ele vive hoje eu já vivi e estraguei. Pensei e torci e ainda torço para que ele seja mais esperto que eu. Caso não seja mais esperto, então que seja menos explosivo, isso com certeza ira ajudá-lo a não estragar tudo.

Estou fazendo as malas aos poucos e a cada dia jogo lá uma peça de roupa, sem me importar muito. Eu dei férias a minha vaidade exatamente por não estar com disposição para ajudar minha inspiração, então tanto faz. Penso na viagem e juro, a trocaria por uma dor de barriga no intuito de sentir algo, mesmo que dor, porém mesmo as doenças não me encontram. Bebo e não sinto a ressaca, durmo antes do bocejo e acordo antes do despertador. Até a dor de tatuar a pele dói com tanta insignificância que só as faço como forma de manter o vício. "Somos movidos a sentimentos" uma garota me disse uma vez e eu assenti, mas se não sinto, sequer ódio, ou riso, não sinto nem frio nem calor o que resta então? Membros, uma barba enorme e a sensação de que vou apagar essas letras antes mesmo de terminá-las.

Esses dias sonhei que estava caindo. Belo sonho para quem quase não sonha. Caía num poço extremamente profundo, apertado, caía de cabeça. As paredes do poço eram espelhadas e eu me via caindo durante horas. Era estranho, pois cada vez que olhava para meu reflexo eu estava mais e mais velho. Percebi que era um sonho quando me vi aparentando uns cem anos, afinal, com os meus vícios seria um milagre eu chegar a tanto. Meus cabelos iam ficando cada vez mais grisalho, meu rosto cada vez mais cheio de rugas, o nariz e as orelhas ficavam maiores que já são e os cabelos que já estavam brancos ficavam ralos e por fim caíam assim como eu caía naquele poço. Enfim quando eu ficava tão velho quanto um tomate seco eu voltava para a idade atual. Uma coisa de doido, um sonho de maluco, mas não se pode julgar os sonhos. Quando acordei tive que me esforçar para lembrar o sonho todo, porque sonhos vivem escapando de nós, qualquer vacilo e pronto. É claro que pensei sobre o assunto pelo menos durante os três primeiros cigarros do dia, ou seja, mais ou menos meia hora e a conclusão mais razoável que cheguei foi que o tal sonho nada mais é que um reflexo de toda a minha vida. Sim, pois eu vivo me repetindo, entre jeans velhos, erros, defeitos, eu sempre repito as mesmas merdas, uma após as outras, de tempos em tempos, um ciclo infinito.

A última semana eu fiquei sem um gole de nada alcoólico, nada mesmo. Às vezes faço isso só para provar que sou capaz, porém não gosto. Há poucos prazeres na vida para me privar de qualquer um deles, portanto, faltando um dia para completar uma semana resolvi que já era hora de tomar um trago forte e amargo de qualquer coisa. Parte de mim gostaria de ficar bebendo o dia todo e escrever, escrever até que a inspiração bata em minha porta para que eu possa lhe oferecer um café. Outra parte gostaria de ler algumas coisas novas, originais, visceral, só que tudo que acho na internet não passa de baboseira hipócrita e lenga-lenga de jovens que acham que estão escrevendo algum roteiro para a Walt Disney. Logo, só acho essa brecha nos velhos autores de costume. No entanto eles estão mortos, ou quase, e quando terminar de ler tudo não sobrará mais nada. Então, quando penso nisso é que outra parte de mim gostaria de tocar o foda-se pra tudo isso e sair por aí com meus amigos mais retardados e maníacos fazendo um monte de merda por todos os lugares que passarmos e de preferência não deixar uma gota sequer de álcool fora da garganta. E nós faríamos isso muito bem porque é o que fazemos de melhor, beber, fazer merda, arrumar confusão e depois contar histórias. Fazemos isso porque aceitamos totalmente quem somos, sem forçar, sem fingir, sem lamentar. Não somos grande coisa, temos ciência disso e estamos pouco nos fodendo, pois só um idiota finge ser uma coisa que não é.

Eu conheci uma garota uma vez com asas nas costas. Ela tinha um lema; um dia de cada vez. E isso não era só porque ela já tinha sido uma cheiradora de marca maior, isso era para a vida. "Um dia de cada vez". Não se pode atrasar ou adiantar o relógio, então as merdas de outrora você tenta não repeti-las no futuro. No meu caso, eu tento e por vezes não consigo e isso me incomoda, mas às vezes me faz rir, afinal, sou como um mecânico de minha própria vida, das engrenagens de meu Destino, vivo de concertá-las, calibrá-las, trocar peças. Trocar peças é o meu ponto forte, no entanto, algumas peças são mais belas que outras, mais geniosas que outras, mais esperta que outras, mais sexy que outras, mais leoninas que outras e por isso o encaixe não é perfeito. Fazer o quê?



Bento.

sábado, 21 de setembro de 2013

O ASSASSINATO DE BÁRBARA

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Doutor Quaresma chegara ao seu escritório como fazia todos os dias. Deixou sua maleta 007 com Cassandra e deu bom dia aos pacientes na recepção.

 - Cassandra. Na minha sala, por favor.

Cassandra, a recepcionista seguiu o psicólogo até sua sala.

 - A recepção está cheia hoje Doutor.

 - Pois é. Como tem gente retardada nesse mundo. Todos eles esperando que eu posso ajudá-los com uma palavra de conforto ou que mostre o caminho certo para eles. Uns imbecis...

 - Não fala assim doutor, esqueceu que estou quase me formando?

 - Mas eu dou o maior apoio. Não tem jeito melhor de tirar dinheiro de idiotas do que a psicologia. Claro, exceto se você for algum pastor ou político.

 - Ou os dois. Disse Cassandra.

Hahaha

 - Anda. Temos que ser rápidos.

Os dois riram e Cassandra começou a tirar a roupa.
Quaresma abriu a braguilha e Cassandra sentou em seu colo.

Dez minutos depois Cassandra estava na recepção.

 - Senhor Carlos?

 - Sim.

 - Me acompanhe por gentileza, o Doutor Quaresma vai atendê-lo.

 - Ah sim. Pois não.

Carlos então acompanhou a recepcionista até a sala do psicólogo. A garota fechou a porta e deixou os dois homens sozinhos.

 - Olá, bom dia. Como vai? O psicólogo estendeu a mão para o paciente para cumprimenta-lo.

 - Bem, eu acho. Carlos respondeu.

 - Benedito Quaresma, muito prazer.

 - Muito prazer, Carlos Rodrigues.

 - Sente-se Carlos. Fique o mais à vontade que conseguir.

Carlos sentou-se numa poltrona à frente do psicólogo. De veludo, macia e com suporte para os pés. Muito confortável. Passou os olhos pela sala e pôde ver diplomas emoldurados numa das paredes à sua frente e abaixo deles havia uma escrivaninha de madeira maciça de cor escura. A sala não era muito bem iluminada. Quaresma estava de pé à sua esquerda mexendo num gravador e ajeitando um bloco de anotações. Carlos também pôde ver um pequeno bar do outro lado da sala, com garrafas de whisky e outros destilados. Carlos conhecia todas aquelas marcas de bebidas, pois ultimamente vinha abusando do álcool.

 - Senhor Carlos, o senhor fuma?

Quaresma estava agora com uma cigarreira prateada com suas iniciais "BQ" impressas e apontava para Carlos oferecendo-o cigarros.

 - Posso? Perguntou o paciente estendendo a mão para se servir de um cigarro.

 - Fique a vontade. Gosto de pacientes que fumam, pois assim posso fumar também.

 - Um vício maldito esse, não?

 - Nenhum vício é maldito, maldito é não tê-los.

Doutor Quaresma finalmente sentou-se à frente de Carlos, repousou o gravador na mesinha de centro e começou a fazer anotações em seu bloco de papel.

 - Agora senhor Carlos, quero que relaxe e saiba que tudo que me disser ficará restrito a nós dois devido a confidencialidade entre psicólogo e paciente. Portanto, fique tranquilo para me dizer o que quiser para que eu possa ajuda-lo da melhor maneira possível. Você me entende?

 - Claro.

 - Vou começar confirmando os dados da ficha que preencheu na recepção. Ok?

Carlos balançou a cabeça confirmando.

Carlos Rodrigues, 29 anos, brasileiro, nasceu em São Paulo, solteiro e sem filhos. Profissão: assistente de produção e escritor nas horas vagas. Fuma e bebe socialmente. Enquanto Quaresma lia a ficha de Carlos ele passava mais uma vez os olhos pela sala sem janelas e carpete cor de vinho. Quadros e algumas estatuetas faziam do ambiente um lugar confortável, mas com ar arcaico. Perto do bar um objeto destoava de todas as coisas velhas que tinha ali. Uma guitarra Les Paul vermelho sangue.

 - Está correto?

 - Esse sou eu.

 - Ótimo. Bem, vamos lá. O que te trouxe até meu humilde consultório, Carlos? Posso te chamar só de Carlos?

 - Sim. Bom... É... Estou um pouco nervoso, me desculpe. Nunca fiz isso.

 - Todos ficam. Se quiser posso te servir uma bebida.

 - Não está muito cedo para beber?

 - Melhor cedo do que tarde não é?

Carlos sentia muita confiança na forma de falar do psicólogo. Além da chupada na parte lateral de seu pescoço e a braguilha aberta de sua calça social mais justa que o normal, fazia Carlos ter quase certeza que ele dera uma rapidinha com a recepcionista gostosa antes de atendê-lo. E pelo preço da consulta, as roupas caras, o relógio europeu e a cara de ressaca que Quaresma apresentava, Carlos podia jurar que a recepcionista não era a única vagina que o doutor tinha desfrutado recentemente.

Quaresma apertou o botão REC do gravador e foi até o bar. - Whisky?

 - Sem gelo, por favor.

Benedito serviu duas doses. Entregou o copo para Carlos e voltou a sentar-se.

 - Então, comece me dizendo o que você gosta de escrever.

 - Em geral eu escrevo romances policiais, mas meu primeiro trabalho não conquistou muito a atenção das editoras.

 - Por qual motivo?

 - Porque disseram eles que havia muitos tiros e nenhum mistério.

 - Mistério é importante para um romance policial. Mas mortes me agradam muito se quer saber Carlos. E como se sentiu com a rejeição?

 - Nada demais. Comecei a escrever outro agora com mais mistério.

 - Ótimo ótimo. Confiança é muito bom.

 - É...

 - E o trabalho?

 - Vai bem, serei promovido em breve.

 - Bom, bom.

Quaresma continuava fazendo anotações.

 - Tem namorada?

 - Não.

 - Alguém?

 - Bem, tinha...

 - E?

 - Pois é. É por isso que estou aqui.

 - Então me diz.

 - Tem uma garota...

 - Qual o nome dela?

 - Bárbara.

 - Faz jus ao nome?

 - Sim. Faz sim com certeza.

 - E onde ela está agora?

 - Para falar a verdade, não tenho a mínima ideia.

 - Vocês se veem com frequência?

 - Mais do que eu gostaria.

 - Como assim?

 - Eu a vejo em alguns lugares estranhos.

 - Desculpe, ainda não entendo. Quaresma deixou finalmente o bloco de anotações de lado e bebeu um gole de seu whisky.

 - É... É estranho.

Carlos mostrou-se desconfortável em sua poltrona. Também deu um gole em seu whisky e continuou.

 - Eu não sei quem é essa garota entende?

 - Explique melhor.

 - Não me lembro de onde a conheci. Não sei onde mora, não sei seu sobrenome. Eu simplesmente a vejo em lugares estranhos e ela está sempre linda. Mas não tenho certeza se as outras pessoas conseguem vê-la.

 - Então você acha que essa garota não existe?

 - Não! Sei que ela existe. Só não sei se ela existe para as outras pessoas.

 - Hum, interessante. Benedito voltou a anotar. - Quando foi a primeira vez que a viu?

 - No bar.

 - E ela estava sozinha?

 - Sim.

 - E falou com ela?

 - Na verdade ela quem falou comigo.

 - E como foi?

 - Foi ótimo. Ela é engraçada, boca suja e bebe bastante. Sexy, linda...

 - E você se apaixonou?

 - Sim. Mas não sei... Talvez ela esteja na minha cabeça.

 - Qual foi a última vez que a viu?

 - Ontem de noite?

 - E onde estava ontem?

 - Em casa, bebendo sozinho até ela aparecer.

 - E alguma vez você a viu quando não estava bebendo?

 - No começo não.

 - E agora?

 - Bem, eu estou sempre bebendo.

 - E você não quer mais vê-la?

 - Não.

 - E se parar de beber?

 - Cara. Eu sou escritor. Que espécie de escritor eu seria se parasse de beber?

 - Você está certo. E mesmo assim quer parar de vê-la?

 - Sim. Está me atrapalhando. Quero dizer, eu saio com outras garotas e tal. Mas sempre que acontece ela aparece e fica me olhando e eu me sinto como se estivesse a traindo.

 - Você diz quando está sozinho com uma garota no quarto e ela aparece assim, do nada?

 - Isso.

 - Bom, eu acho que você é muito louco.

 - Como? Carlos assustou-se com a afirmação do psicólogo.

 - Sim, acho que você tá chapado. Um Zé Pinga que tá vendo uma mulher que não existe. Doidão. Mas eu não te julgo. Eu gosto de tomar umas coisas pra ficar louco às vezes.

Carlos não sabia o que dizer. Já vira alguns filmes sobre psicólogos e nunca tinha visto nenhum falar daquele jeito. Quaresma continuou.

 - Eu no seu lugar, se ela é gostosa como você diz, eu faria de tudo para continuar vendo-a. Pense pelo lado bom. Uma garota que transa com você e some sem que você precise ligar no dia seguinte? É quase a mulher perfeita. Mas se você quer deixar de vê-la eu vou tentar te ajudar.

 - É... Nunca pensei desta forma. Mas não acho que seja saudável.

 - Não. Não é mesmo, mas eu não ligo muito pra isso. De qualquer forma... Eu poderia te receitar algumas pílulas, porém, você não vai parar de beber e a mistura de antidepressivos com álcool só vai piorar as coisas. Vamos tentar fazer isso de uma forma não convencional.

 - Como?

 - Mate-a!

 - Matá-la? Carlos agora quase tinha certeza que aquele doutor só podia estar louco. - Está louco?

 - Hahaha não sou eu quem está vendo mulheres que não existem, Carlos.

Carlos calou-se.

 - Preste atenção. A Bárbara não existe, certo?

 - Não tenho certeza.

 - Ora homem. Se ela aparece no quarto enquanto você tá enrabando uma garota qualquer, ou ela é uma ladra que te segue por aí - o que seria melhor ainda - ou um fantasma - e eu não acredito em fantasmas - ou ela está dentro da sua cabeça. Portanto, se matá-la, você estará matando uma coisa que não existe.

 - É. Pensando desta forma...

Quaresma então tomou seu último gole de whisky, olhou o relógio e com um sorriso satisfeito no rosto disse para Carlos voltar na próxima semana para dizer como foi.

 - Acabou o tempo Carlos. Faça isso e volte semana que vem para me dizer como foi. Cassandra marcará um horário pra você.

 - Ok. Obrigado pelo whisky.

 - Não agradeça. Até logo.

***

No mesmo dia, Carlos marcou um encontro com Bárbara, em seu apartamento. Na verdade não tinha como contatá-la, sem celular, sem endereço, no entanto sabia que toda vez que estava sozinho e começava beber conhaque, sozinho e ouvindo música, ela aparecia. Colocou todos os seus vinis antigos e nada da Bárbara aparecer. Estava quase no fim da garrafa e caso ela chegasse ao seu fim ele teria de sair e ir até o posto de gasolina mais próximo para buscar algo mais forte para ficar bêbado e finalmente ver Bárbara. A garrafa acabou e lembrou-se que tinha um pouco de erva numa das gavetas do armário da cozinha. Assim enrolou um cigarro de maconha e decidiu fumar para ver se obtinha sucesso e nada da Bárbara aparecer.

 - Parece que ela está prevendo, porra!

Parecia que ela estava prevendo. Carlos fumou o cigarro, ficou sonolento, mole, quase dormindo. Porém sabia que não podia dormir. Aquilo teria de acabar naquele dia. Resolveu levantar-se do sofá e ir até o posto buscar uma garrafa de vodca. Sabia que com vodca era quase certeza que Bárbara apareceria. Voltou ao apartamento, abriu a garrafa e serviu-se de um copo longo de chope cheio de vodca. Virou o primeiro com dificuldade. Quase gorfou, mas conseguiu se segurar. Serviu outro e esse bebeu devagar.

Depois de algum tempo bebendo e ouvindo música finalmente Bárbara apareceu.

 - Você sequer me citou em seu último texto...

 - Desculpe. Mas foi um texto encomendado. Por mim eu só escreveria sobre você.

 - Hahaha mentiroso. Estava me esperando?

 - Desde cedo. Você demorou!

 - Desculpe. Estava bebendo com uns amigos.

 - Venha aqui. Sente-se. Quer vodca?

 - Não sei. Estou meio bêbada.

 - Ah venha. Só um pouco...

 - Ok.

Os dois beberam durante mais algum tempo e conversaram sobre futilidades.
Carlos confessou-lhe que fora ao psicólogo para entender a relação dos dois.

 - E o que ele disse?

 - Me deu força. Disse que se eu gosto de você então que leve isso pra frente. Inventou Carlos.

Os dois já estavam um pouco sonolento quando Carlos decidiu usar a almofada do sofá da sala para agredir Bárbara. Com a almofada pressionada com muita força no rosto de Bárbara tentava fazê-la perder o ar. A garota debatia-se e tentava gritar, porém o som era abafado pela almofada. Carlos manteve a almofada pressionada com força depois mesmo da garota parar de se debater e tentar gritar. Para ter certeza de que tinha obtido sucesso.



sexta-feira, 6 de setembro de 2013

LISTA DOS 10 + INÚTEIS DA CATEGORIA DE ESCRITORES INÚTEIS E MAIS MAL PAGOS DA HISTÓRIA DE TODOS OS ESCRITORES INÚTEIS E MAIS MAL PAGOS

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Há mil anos eu queria ser rico, muito rico. Tão rico a ponto de queimar dinheiro. Porém pensei que só os loucos queimam dinheiro, logo, refletindo profundamente sobre meu desejo de infância, percebi que por trás de meu desejo de ser rico, na verdade eu queria ser louco. Vendo por esta ótica, hoje sou um homem realizado, já posso morrer em paz.

Mas não é disso que eu quero falar. O que eu realmente preciso deixar transparecer é o motivo de tudo isso. Não que eu tenha que justificar-me, pouco importa para você, eu sei. Sou só um babaca. Não faz nenhum sentido perder meu tempo, no entanto, odeio fazer sentido e eu tenho tempo de sobra. Se tempo é dinheiro então eu deveria estar na Forbes, como um dos jovens mais promissores da alta sociedade.
O que eu realmente quero dizer é que o excesso de tempo me deixa sem horizontes, eu sei, sei que eu sempre quis isso, desejei com todas as forças ter um tempo só para mim. Porém, descobri que esse tempo era todo seu.

A vida precisa fazer sentido, na minha opinião. Meu corpo pede, precisa fazer sentido. Não eu, a vida precisa. Pois então, tudo isso só faria sentido caso eu estivesse ganhando as fichas e neste caso eu apostava alto e só o que conseguia era ver minhas fichas indo para o centro da mesa sem volta. Tenho o vício do pôquer, então se não me entende em minhas alusões peço desculpas. A vida precisa fazer sentido e simplifico dizendo que fichas são beijos. Uma mão boa seria quando você me colocaria em seus planos e seus abraços ou qualquer carinho representaria um Full House. Nossas pernas finas entrelaçadas significariam um All Win sem precedentes. Entraria eu para o Hall Of Fame dos maiores jogadores de todos os tempos.

Eu sou um bom jogadores, droga! Eu sou um bom jogador e sei quando sair de uma mão que não irei ganhar. Esse é todo o segredo do jogo. Não basta saber blefar, haverá de se sair bem quando tiver a humildade de saber que está numa mão ruim e desistir para começar de novo na próxima rodada. O jogo só acaba quando termina as fichas. Só que fora isso eu ainda estou na lista dos dez mais inúteis da categoria de escritores inúteis e mais mal pagos da história de todos os escritores inúteis e mais mal pagos.

Agora eu chego num devaneio para explicar algo maior que pode ser que chegue a um sentido maior nisso tudo, não espero sucesso, mas se tiver sucesso você pode me dizer depois.
Eu tenho um grande amigo de infância que me conhece como a palma da mão dele. Nós já fomos grandes atletas e quem me conhece sabe que eu não tenho nem trejeitos de atleta, mas já fomos. Poderíamos ter sido grandes atletas profissionais, talvez nossa loucura e vício em álcool nos tenha impedido de chegar lá.
Éramos grandes atletas, com qualidades singulares em todo nosso grupo de amigos e jogávamos futebol numa quadra pública com todos os piores elementos de nosso bairro. Ladrões, drogados, traficantes, garotos de programa, políticos e etc. A quadra era pública, logo, qualquer um que chegasse com disposição jogava contra nós e tínhamos um talento nato de humilhar pessoas com nosso talento.
Num dia como qualquer outro chegou um grupo de chilenos, mas bem que poderiam ser bolivianos, peruanos, nunca se sabe. Eles eram todos brutamontes e eu era só isso que eu sou, pele e ossos e cigarros. Venceu a origem brasileira para o futebol, o talento clichê para o tipo de esporte. Fizemos o que queríamos, quando e quanto queríamos. Coube ao grupo partir, da quadra, não do país. Todavia, humilhados. É praticamente isso, em seu talento clichê de me deixar para escanteio, eu parto - da quadra, não do país - sem mais.



Bento.

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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

CLÍNICA DE REABILITAÇÃO ZACARIAS BARBACENO

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Sabe quando baixa uma coisa na carne e você não sabe de onde vem? Simplesmente vem e pronto. Foi assim. Desisti. Não sei porque veio, nem como veio, só veio.
Bem, por vezes é melhor descomplicar as coisas. Não existe meio termo. Odeio meio termo. Sou de extremos e pronto! Ou é meu ou não é.

Estou num processo de enclausuramento. Muito tempo sem fazer nada e isso pode estar me deixando mais desequilibrado do que eu normalmente sou. Esse afastamento, esse casulo antissocial faz parte de um processo literário, um fim de ciclo purificador de mente, ou melhor dizendo, destilador de ideias.

Não. Se perguntar se estava totalmente são quando tomei tal atitude derradeira responderei na lata: claro que não. Caso contrário não teria coragem de abrir mão, de dilacerar a libido, tornar mais distante o que eu sequer tinha. Mas foi para o bem, não vou negar. Fará o bem, ou não. Porém, devo arriscar. Como eu disse, sou de extremos. Me dou melhor com o drama da realidade de não ter do que com a esperança de que um dia terei. Não sou de futuro, doo-me ao presente, o resto é resto.

Sou de presente, do que posso tocar, beijar, desejar o minuto seguinte, nunca a semana seguinte. O mês então...
Prefiro a morte a aguardar a vontade alheia. O que não quer dizer que darei uma de macaco e pularei em outro galho. Simplesmente tornar-me-ei só, como de costume. Serei eu e a companhia de mim mesmo. Muito mal comportado como sempre.

Abro mão de roubar-lhe os sonhos, os devaneios e etc. Prometo-lhe, farei isso em silêncio, só pra mim. Não mais usufruirei de suas frases, exceto nos diálogos comigo mesmo. Não mencionarei mais seu nome, com exceção quando para chamar a gata. Não passarei mais que meia hora olhando suas fotos. Não desejarei mais seus lábios, sequer suas mãos em meus ombros.

Ainda creio que te inventei. Criei defeitos e qualidades, parentes e inimigos. Como toda personagem, criei enredo e cenário.
Por isso também acredito que assim como te criei, terei o poder de descriar. Como você mesma quis e pediu. Passarei a borracha, ou apertarei o botão Delete para afastar-te de minha mente. Sem final feliz, então sem final. Haverá de alguém interpretar um fim que me favoreça. Caso contrário, será só mais um fim.

Então descobri uma coisa sobre mim com a sua ajuda. Descobri que me exponho vorazmente aos olhos alheio porque preciso. Descobri que de tanto afastar os outros por vezes preciso deles por perto. Que deixo meus defeitos na vitrine para não cometerem o erro de se aproximarem sem aviso prévio, como as placas de "Cuidado com o Cão". Que escrevo não para mudar sua opinião, mas para sentir-te por perto, fazendo-me companhia. Descobri que tenho carência de você, abstinência de você e por isso, só por isso, me internarei nos Carentes Anônimos para curar-me de meu vício.



Bento.

sábado, 12 de maio de 2012

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DA RESSACA


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Confesso que penso em minha insistência de exaltar o álcool, bem, convenhamos, me saio melhor falando sobre o que gosto.

Então estamos todos no bar e o testemunho da alegria está estampado no rosto de todos em volta. É uma fraternidade talvez ilusória -- sei que alguns vão dizer -- e eu não vou argumentar, porém acredito que transborda a sinceridade no porre, pois bêbado não mente, assim como as crianças e quem não gosta de voltar a ser criança mesmo que só nas verdades vomitadas?

Eis que tenho a ressaca como uma das minhas melhores amigas, tanto que a trato como senhora Ressaca, assim como trato o tédio como Tédio. Tanto respeito que sinto que merecem nomes próprios.
Sempre disse que escrevo melhor quando a Ressaca me faz companhia, assim, desacelerando meus pensamentos e dando um rumo as palavras como um quebra-cabeça. Recita em meus ouvidos frases flutuante de meu inconsciente.

Eu não tenho a pretensão de explicar o que é uma ressaca daquelas de deixar os pelos do corpo arrepiados e as mãos trêmulas. Prefiro que sintam na pele, mas como disse para uma amiga “nipo-nordestina”, gosto de analisar as coisas, mais que isso, dentre tantos vícios, sou viciado em análise. A ponto das pessoas próximas dizerem "Bento e suas teorias", a reflexão é o lubrificantes das engrenagens do cérebro.

Então eu falo de ressaca como se fôssemos parentes próximos. Ela me dá o que eu quero e eu tiro proveito disso.
É desnecessário dizer que em toda relação existem abalos nas estruturas e nem sempre são flores.

 Quem conhece sabe que a Ressaca é tendenciosa, tenderá sempre para a falta de escrúpulos que tem consigo mesmo, o segredo está em colocá-la em seu devido lugar.
Não sei quanto ao resto, mas a pós-embriaguez possui personalidade, portanto haverá dias que ela te visitará com um humor totalmente lamentável, que chega a lembrar o Tédio, é quando ela inspira músicas, parábolas e apelidos como "Maldita Ressaca".

Tem dias que ela baterá na sua porta com flores e chocolates fazendo você sorrir com as histórias da noite anterior, mesmo daquelas que não nos orgulhamos tanto. É como encontrei-a parada no pé da minha cama hoje cedo, vigiando meu sono  e coleções de sonhos esquecíveis. Me deu um belo beijo de bom dia e serviu-me de café fresco e cigarros. Então sentei na cama para ouvi-la e juntos criamos planos mirabolantes para consertar as falências de pudor da noite anterior. Como é sábia a Ressaca.

Vou confessar aqui que algumas vezes bebo só para ter a ressaca em minha companhia, uso os destilados como convite -- venha tomar um café comigo e colocamos a fofoca em dia. Eu digo.

Agora eu vou mais longe e dizer que existe uma purificação na ressaca, há um desprendimento das canalhices mundanas no sentido de criar uma hegemonia dos sentimentos passionais que ficam todos ao seu favor na intenção de arquitetar uma compreensão mútua entre você e esses sentimentos.

Dito isso, sinto uma imensa vontade de achar que a origem da palavra ressaca deveria ser "cura da alma" mesmo em sua falência.

Mas eu sei que sou um romântico e possuo a tendência de fazer parecer "bom moço" todos e tudo que me faz bem, porém tenho adquirido uma política de "morde e assopra" que nem mesmo eu entendo e sei donde houve início. Sendo assim, fingirei polemizar citando àquelas características físicas e lúcidas como dores de cabeça, apologia à preguiça e sede que beira a demência. Bom, na verdade eu mudei de ideia, não vou cometer a sobriedade -- até porque não estou sóbrio -- de citar as características físicas da ressaca. 


Bento.

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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

DORINHA E ADALTO

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Vou contar uma história.
Sou péssimo para dar nomes até para gatos, portanto, me desculpem por uma possível estranheza ou desaprovação de tal nomeação.

Dorinha era namorada de Adalto, há tempos Dorinha queria casar, mas Adalto sempre se esquivara do compromisso do matrimônio.
Sempre que Dorinha propunha ou supunha o casamento, Adalto arrumava logo uma desculpa e saia de escanteio.
Por falar em escanteio, Dorinha tentou tocar no assunto quando Adalto assistia o jogo de futebol na sala de sua casa e desta vez ele nem precisou de esquiva, disse sem pestanejar, assim à seco: - Agora não Dorinha, sabe que quando tô vendo o jogo não consigo pensar em outra coisa.

Mas a paixão por futebol - e no caso das mulheres elas acham que estão sendo substituídas pelo time do coração- era apenas um dos defeitos que Adalto tinha que causava cólica em Dorinha.
Adalto falava alto, fazia brincadeira com tudo, fumava, bebia, era um tanto quanto mal educado, além de estar sempre no vermelho quando o assunto era dinheiro.
Dorinha amava Adalto, porém as coisas estavam chegando ao limite para ela. Dorinha resolveu dar um ultimato no namorado: - Ou casa comigo, ou eu vou embora de sua vida!

Adalto conseguiu segurar seu vício de fazer piada com tudo, engoliu à seco ao perceber que Dorinha não estava brincando. Então Adalto resolveu explicar de uma vez por todas o motivo pelo qual não poderiam casar naquele momento: - Dorinha meu amor, sabes que eu a amo mais que o céu, que a terra, posso jurar que a amo mais que posso amar eu mesmo, mas entenda que a gente não pode se casar agora porque...

Adalto ainda explicou que não poderiam casar porque o dinheiro que ele ganhava em seu emprego que ocupava doze horas do seu dia mal dava para pagar as contas dele, que o diga de duas pessoas. Que seria impossível manter uma casa, uma esposa, um possível filho caso fossem contemplados com tal graça, e que não queria vê-la passando por necessidades como ele mesmo já havia passado, mas Dorinha já não estava mais ouvindo, estava lá, na casa de Adalto, na frente de Adalto, em presença, mas em espírito já estava em outro lugar, lá onde mora o rancor, a raiva e entre outros sentimentos que cegam as mulheres e fazem elas tomarem decisões precipitadas. Mulheres são assim, quando querem uma coisa, ou às tem, ou vão em busca em outro lugar ou em busca de outra coisa.

Dorinha então se levanta, sai pela porta da casa de Adalto e nunca mais volta...


Bento.




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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

ESTAMOS EM REFORMA PARA MELHOR ATENDÊ-LOS

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Texto exibido na Coluna Fala Bento! na worknet.
Andando por aí me deparei com uma placa com o seguinte dizer: “Estamos em reforma para melhor atendê-los”. Achei genial.

Já parou para pensar que nós aplicamos isso nas nossas vidas também?
Eu estou falando de recomeços, olha em volta e veja como nos reinventamos diariamente, quando somos largados, deixados de lado, abandonados por quem amamos, quando tomamos aquele famoso “Pé na Bunda”, a primeira coisa que pensamos é em nos demolir, e realmente nos demolimos. Depois pensamos num projeto de reconstrução, colocamos esse projeto num papel como uma planta e começamos a reconstrução.

Mudamos de amizades, resgatamos algumas amizades deixadas de lado, mudamos de corte de cabelo, renovamos o guarda roupa, baladas novas ou diferentes, fazemos algum curso de seis meses só para nos ocupar, viajamos para lugares que ainda não conhecemos, nos reinventamos totalmente. Acontece com todo mundo.
Fazemos de tudo para afastar as lembranças, provar que somos melhores do que isso, e que estamos muito bem sozinhos, obrigado.
Porém, com toda reforma vem estresse, bagunça, sujeira, incomodo. Toda reforma gera perdas e ganhos, nos modificamos como a um mutante, é impossível permanecermos os mesmos depois de sofrermos por algo ou alguém.

Mudamos até o caminho de casa para não lembrar da antiga companhia.
Aquela rádio que você ouvia todo dia incomoda pelo fato de tocar aquelas mesmas musicas que ouviam juntos, logo você muda de rádio, você muda até de gênero musical.
Aquela roupa que ela ou ele adorava te ver com ela, você doa, rasga, poe fogo, e nunca mais compra se quer algo parecido com aquilo, você muda até de estilo, melhor andar fora de moda do que lembrar.
Aquele livro que você ganhou de presente dele ou dela e que você estava prestes a terminá-lo você jamais saberá o final, afinal, para que terminar de ler se você não tem mais ninguém para comentar sobre ele.
E aquele passeio que planejam fazer juntos, naquele parque, deseja que nunca mais passe nem perto e se passar fechará os olhos até que o destino fique para trás. Se não for com a companhia que você queria para quê ir? Você muda de endereços.

Até o jeito que você falava, as gírias e vícios você se esforça para perder, pois, qualquer palavra dita com certa ênfase te faz lembrar, então você muda mais uma coisa em você.
Os dias passam e você vive encontrando aquelas pessoas desavisadas que insistem em perguntar daquela pessoa, e você com um sorriso amarelo tenta disfarçar e ser o mais educado possível, fingindo não sentir mais nada, mas você lembra e vai lembrar o dia todo, a semana toda, logo agora que faziam alguns dias que você não lembrava. Então você muda de amigos, só para não ouvir mais os comentários.
O pior é mudar de personalidade, você que vivia sorrindo fazendo piadas parece seu bisavô ex combatente de guerra que vive de mal humor e acha que tudo que as pessoas dizem e fazem é para te enganar e te estressar, ou você era um sujeito tímido e agora vive falando com todos querendo ser o mais popular possível, é a vontade de aparecer.

Mas as pessoas não mudam nunca. Logo essa reforma acaba, e vemos no momento da inauguração que tudo estará como sempre, apenas alguns azulejos novos.

Bento.
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