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Tem uma coisa em relações que precisa ser dita. Nada é o que parece. Sei, é meio clichê. Chega a parecer título de livro erótico que se vende em banca de jornal. Contudo, eu conheci Bukowski na banca de jornal, logo não julgue sem conhecer antes. Pensando nisso, digo logo, nada é o que parece. Entenda; as pessoas escondem o que não aprovam, ou o que acreditam não ser aprovado pela sociedade e hoje em dia se vive cagando regra sobre o que se é permissível ou não. “Será que aprovam?”. “Será que vou ganhar likes?”. “O que será que vão comentar sobre isso?”. Conceitos são ditados pelas mídias sociais, que basicamente se consiste em velhas que ganharam smartphone de seus filhos sentindo-se culpados por não dedicarem tempo suficiente aos idosos e jovens virgens que não fazem amizades na escola e se sentem poderosos quando online. Aliás, somos todos lindos online, é como Nárnia, poderosos e fodões. Aos olhos alheios, claro. Postamos “cozinhando" e logo imaginam que você é basicamente um Master Chef anônimo, mas você está fritando um ovo com bastante dificuldade. Relações são assim também. Ao olharmos um casal de mãos dadas passeando numa noite quente, com a lua desnuda, logo imaginamos que devem ser o casal mais feliz do mundo. É normal imaginar que todas as pessoas do mundo são mais felizes que você. Contudo, o que você não sabe e provavelmente acontece é que a garota deve chupar o irmão dele apenas por vingança, pois ele já a traiu várias vezes confiando que ela sempre vai perdoar, afinal, já perdoou tantas vezes.
Quando vê um casal saindo do mercado e você olha o cara, de rosto marcado pelo tempo e peito avermelhado à mostra carregando sacolas e o saco de carvão. E sua esposa empurrando um carrinho de bebê num sábado ensolarado logo imagina que será um maravilhoso churrasco em família. Um baita pai, uma mãe exemplar e sua pequena cria abraçados e transbordando amor. O que você pode não saber é que talvez este cara quando fica bêbado espanca a esposa na frente da criança, que ele ainda não sabe, mas não é dele e a esposa tem certeza que o dia que souber ele vai matá-la na porrada. E talvez torcer o pescoço do bebê.
E provavelmente você vomite arco íris ao ver um casal de adolescentes. Tão jovens e com tanta coisa para viver e nesse mundo de tanta tecnologia, informação em abundância e com tanta comunicação instantânea eles escolheram descobrir o mundo juntos. Em par. Ao mesmo tempo que se descobrem juntos. O que você pode não enxerga devido a distância é que existe a possibilidade do garotão se sentir extremamente atraído pela rola do amigo quando estão no vestiário do futebol. Que ele já acordou com a cueca molhada depois de um sonho onde ele se lambuzava com a porra quente escorrendo pelo seu rosto vendo seu amigo satisfazer-se com aquilo. O que você talvez não consiga imaginar é que a garota foi constantemente abusada pelo tio, que divide a casa com sua mãe, herança da avó. Que enquanto sua mãe ia trabalhar o tio vestia as calcinhas da garota e obrigava ela massagear suas partes íntimas. Isso tudo aconteceu durante boa parte da sua infância e agora que cresceu ainda acha que ninguém vai acreditar nela. Por isso ela pensa todos os dias em matar o tio e depois cortar os pulsos, mas ainda não se decidiu se mata o tio com uma martelada na cabeça, ou várias, enquanto aquele vagabundo tira o cochilo da tarde, ou apenas corte o pau dele e enfie em sua boca igualzinho ele fazia quando ela era mais nova.
Para não dizer que não falei de amizades, aquelas mesmas que não passa uma semana sequer sem juras de amor e fotos antigas no Facebook. O que elas não contam é que um torce para o outro permanecer na merda, mais forte que torcem por seu próprio sucesso, afinal, ser um falido de merda em companhia de um amigo é até tolerável. O que dói só de imaginar é continuar um verme e ainda ter que presenciar seu amigo ou amiga arrumando um amor, que sendo feliz e realizado. Amigos para sempre, mesmo que seja na merda.
Tudo é uma questão de ótica. O filme que você viu na adolescência jamais te trará a mesma sensação de antes. Algumas coisas são boas só na primeira vez. A maioria de nós tenta reviver relacionamentos de anos atrás achando que dessa vez dará certo, agora que o tempo fez seu trabalho e ambos então mais maduros e melhores. O que você não sabe é que algumas pessoas apenas não melhoram. Outras ainda pioram e tornam-se desconfiadas e traiçoeiras, talvez o responsável por essa pessoa se tornar assim seja você. Sim, temos grande influência nas pessoas que passam por nossas vidas, mas sempre para pior. Afinal, não é maravilhoso poder fazer um monte de merda e responsabilizar nosso passado ou pessoas que passaram? Só o que não admitimos é nos responsabilizarmos pelo monte de bosta que virou nossa vida. Seria demais para nós. Alguém precisa pagar por isso. Não eu. E você?
Bento.
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terça-feira, 12 de junho de 2018
domingo, 10 de janeiro de 2016
AS RELIGIÕES, AS PUTAS, A MÚSICA E AS ARTES CÊNICAS, TUDO ESTAVA VAZIO
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| Imagem de Apollonia Saintclair |
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Alarme falso.
Uma vez levantei e corri para o banheiro ainda com as
remelas grudando os olhos, com muito sacrifício sento no vaso e percebo que
eram só gases. Achei que iria cagar, mas fui ludibriado pelo peido. Já que
estava ali decido terminar o cigarro antes de levantar.
Isso às vezes acontece e não é só dos gases que falo. Há
muito alarme falso na minha vida. Um dia desses mesmo, jantei e passei mal.
Comi, deitei e foi só encostar a cabeça no travesseiro e a boca encheu d'água,
era o vômito se anunciando e sei que vão lembrar que eu digo que nunca vomito e
é verdade. Há dois dias eu não bebia e gorfei todo o almoço e janta na privada.
Bebi água e voltei correndo para ajoelhar de novo no chão do banheiro e colocar
o resto de Deus-sabe-o-que para fora. Depois de três, quatro vezes que bebi
água e voltei a vomitar decidi tomar uma dose de whisky. Batata! Alarme falso.
Pensei que iria morrer, mas era só falta de álcool. Pensei no whisky, pois já
não havia nada para por pra fora.
Poucas coisas são tão ruins quanto vomitar. Seu corpo vira
autônomo e decide que você não vai sair do banheiro enquanto ele não mandar.
Mesmo quando tentamos lutar contra, os músculos da barriga deixa claro que
somos fracos insistindo em colocar para fora tudo que ele não quer mais. De
qualquer forma, há momentos que é melhor por cima que por baixo. Hoje mesmo,
estou há alguns dias sem beber. Não tenho um centavo no bolso e enxuguei todas
as garrafas que tinha em casa. Acreditem, até o enxaguante bucal com álcool
acabou. As coisas passam a ter outro sentido quando se está sóbrio. Eu
sinceramente não entendo como as outras pessoas aguentam o mundo sem alguma
coisa para ficar doidão. Mesmo assim fui trabalhar num calor de cinco infernos
e eu com um humor de querer morder os cachorros na rua. Uma ou duas vezes tive
vontade de correr atrás do rabo só para ver se tonto, as pessoas ficariam menos
tediosas. Na empresa desligaram o ar-condicionado por causa do racionamento de
energia e eu transpirava como um macaco. Por vezes tive de ir ao banheiro lavar
o rosto e percebi minhas mãos trêmulas. Talvez eu precisasse de um médico, mas
com o dinheiro que eu NÃO tenho não podia me dar ao luxo de perder um dia de
trabalho. O espelho mostrava meu rosto cansado de quem tem uns quarenta anos e
eu ainda não cheguei nos trinta. Estranho como quando estamos alto por causa de
uma birita não reparamos nessas coisas. Os fios brancos da minha barba
brilhavam como sabres de luz de Star Wars. Bebia água como um desesperado para
repor o líquido que perco devido o calor e também por hábito de estar sempre
bebendo algo. Mastigava a água até, pois tinha fome como um mendigo. O café da
máquina era péssimo como água de um copo sujo de cinza de cigarro.
O cigarro era outro problema. Estava prestes a acabar, por
isso eu fumava metade e apagava para guardar a outra metade pra mais tarde. Não
damos o devido valor a um cigarro até perceber que é o último do maço e que não
existe outro maço. Eu poderia usar isto como metáfora para muitas coisas nessa
vida medíocre, mas até escrever é difícil quando se está sóbrio. Sempre odiei
poetas sóbrios. E vendedores sóbrios, artistas sóbrios, balconistas sóbrios,
enfim. Acho que me fiz entender.
O fato é que tudo me lembrava álcool. As pessoas exalavam
álcool. Tudo piorou quando a senhora da limpeza me deixou maluco depois de
limpar minha mesa com álcool perfumado e caprichou tanto que eu me segurei para
não acabar lambendo o móvel. A secretária, por alguns instantes ao me passar um
telefonema me deixou confuso e eu tive que pedir para que ela repetisse o
recado que aos meus ouvidos soaram como "quer que eu te leve uma cerveja
bem gelada"? quando na verdade ela perguntou se eu queria que retornasse
ao Bezerra do almoxarifado que estava atrás de falar comigo e já tinha ligado
duas vezes. Eu respondi que não podia falar no momento. Precisava de um
cigarro, de muitas cervejas e um chinelo para amenizar o calor. Pernilongos
pairavam sobre nossas cabeças e eu poderia comê-los na esperança de terem
picado algum bêbado por aí e quem sabe absorver um pouco de etanol misturado
com sangue. Talvez não fosse a primeira vez, pois já misturei álcool com tanta
coisa. Última vez que me lembro misturei xarope à vodca para curar uma tosse e
de quebra a gripe. Sempre fui bom de improviso. Uma vez estava tão falido que
tive que usar o Bom-Ar como desodorante porque não tinha nem para comprar uma
Minâncora, não via problema algum em pegar um pouco do álcool hospitalar que a
empresa comprava para a limpeza dos banheiros e alcançar uma pequena brisa
sequer.
Se eu tinha esperança que ao transpirar evaporasse um mínimo
de álcool que continha em meu fígado ou estômago entrando em minha corrente
sanguínea agora já se fora. Eu estava sóbrio e duro. Que vida ingrata. De
pensar que eu já havia dado tanto lugar para velhinhas sentarem nos ônibus e
como Deus me retribuía? Sem uma gota sequer de álcool para aturar essa vida
maldita. Sentia-me tão desambientado neste lugar como quando estive num noivado
evangélico à base de refrigerante quente e salgadinhos frios. E a maior prova
de que essas igrejas não são de Deus é eu acreditar piamente que ao adentrar
qualquer lugar sagrado eu entraria em combustão tão rápido quanto um acendedor
de churrasqueira e muito disso devido ao álcool tomando meu organismo. Mas não
agora.
Pensei em churrasco e me deu calafrios. Lembrei da cerveja no gelo e sal grosso. A carne grelhando. Infinitas batidas e caipirinhas de todas as frutas da temporada. Precisava sair dali e beber alguma coisa antes que enlouquecesse, se é que já não estou louco. Eu poderia matar o primeiro que surgir na minha frente e beber de seu sangue com um canudo se tivesse a certeza de que aquilo me tiraria dessa realidade maluca e tediosa. Já estava ouvindo vozes. Mate mate mate mate!!!!!!!!!! As veias pulsantes no pescoço fino e liso da garota que senta-se à mesa ao meu lado. Morda! Arranque um pedaço! Mastigue! Corte, esquarteje, pique, beba!! Beba!! A voz continuava. O calor e os mosquitos me irritavam. O ar, o barulho e até o silêncio me tirava do sério. Estava enlouquecendo. Os barulhos das teclas que as outras pessoas insistiam em pressionar. O click do mouse, as ventoinhas dos computadores, os ácaros nos carpetes todos malditos barulhentos. Simplesmente não conseguiam ficar em silêncio e respeitar a minha dor. Me ofendiam apenas por estarem vivos e existir. Mate mate mate mate!! Aquela voz continuava. Eu precisava sair dali, mas minhas pernas tremiam. Meu corpo tremia. Eu desejava mais que a vida um copo, umas garrafa de algo amargo, forte, rasgando a garganta ao descer. Batendo no estômago e me lembrando que estou vivo. VIVO! E que a vida podia ser melhor que esses pedaços de carne ambulante que perambulam por aí com seus sorrisos falsos, suas peles oleosas, seu fedor. Eu precisava matá-los, precisava limpar o mundo desses nojentos. Mas mais importante, eu precisava beber, então minha faxina rancorosa poderia esperar. Sentia firmeza nas pernas pela primeira vez no dia e corria. Saí dali e corri até o hall. Não tinha elevador disponível então corri pelas escadas. De dois em dois degraus tropecei duas vezes e quase parti a cabeça ao meio. Do lado de fora do prédio continuei correndo e fui como um alucinado até o bar mais perto que conhecia e estava fechado. Continuei correndo e encontrei mais bares fechados. Nem era feriado, era um dia de semana como qualquer outro. Corria e corria e mais bares com suas portas de aço abaixadas e trancadas e mercados fechados, padarias e Casas do Norte, mercearias e qualquer lugar que vendia álcool estavam fechados. Finalmente avistei um posto. Continuei correndo e a loja de conveniência estava fechada então tive uma ideia genial. A bomba! Claro. A bomba de etanol, álcool puro e da fonte. Parei ao lado do frentista sem fôlego. Não sei dizer como consegui correr tanto. Não com os trinta cigarros diários. Mas logo que parei comecei a sentir o resultado de tanto esforço. Meus pulmões colados nas costas e sem ar. Minhas pernas começaram a tremer novamente. A garganta seca quase não permitia que eu falasse. Álcool! Álcool, pedi ao frentista. Ele não entendeu e então eu repeti e tive que fazer um esforço enorme para isso. Álcool! Me dê um pouco de álcool. E daí que era álcool automotivo? E daí que aquilo poderia corroer meus órgãos e me matar? Eu já estou morto. A sociedade estava morta. Com todos os seus demônios e sua hipocrisia e suas doenças. Herpes, AIDS, gonorreia, mau hálito, caspas, furúnculos anais, hemorroidas, diabetes, gastrite e um mundaréu de enfermidades. E os gordos, os idosos, os pais de família. Eu só precisava beber. Morreria por uma gota de álcool e para melhorar o meu dia, o frentista olhou bem nos meus olhos, sem respeitar meus sentimentos e jogou a realidade toda em meus ombros novamente.
Pensei em churrasco e me deu calafrios. Lembrei da cerveja no gelo e sal grosso. A carne grelhando. Infinitas batidas e caipirinhas de todas as frutas da temporada. Precisava sair dali e beber alguma coisa antes que enlouquecesse, se é que já não estou louco. Eu poderia matar o primeiro que surgir na minha frente e beber de seu sangue com um canudo se tivesse a certeza de que aquilo me tiraria dessa realidade maluca e tediosa. Já estava ouvindo vozes. Mate mate mate mate!!!!!!!!!! As veias pulsantes no pescoço fino e liso da garota que senta-se à mesa ao meu lado. Morda! Arranque um pedaço! Mastigue! Corte, esquarteje, pique, beba!! Beba!! A voz continuava. O calor e os mosquitos me irritavam. O ar, o barulho e até o silêncio me tirava do sério. Estava enlouquecendo. Os barulhos das teclas que as outras pessoas insistiam em pressionar. O click do mouse, as ventoinhas dos computadores, os ácaros nos carpetes todos malditos barulhentos. Simplesmente não conseguiam ficar em silêncio e respeitar a minha dor. Me ofendiam apenas por estarem vivos e existir. Mate mate mate mate!! Aquela voz continuava. Eu precisava sair dali, mas minhas pernas tremiam. Meu corpo tremia. Eu desejava mais que a vida um copo, umas garrafa de algo amargo, forte, rasgando a garganta ao descer. Batendo no estômago e me lembrando que estou vivo. VIVO! E que a vida podia ser melhor que esses pedaços de carne ambulante que perambulam por aí com seus sorrisos falsos, suas peles oleosas, seu fedor. Eu precisava matá-los, precisava limpar o mundo desses nojentos. Mas mais importante, eu precisava beber, então minha faxina rancorosa poderia esperar. Sentia firmeza nas pernas pela primeira vez no dia e corria. Saí dali e corri até o hall. Não tinha elevador disponível então corri pelas escadas. De dois em dois degraus tropecei duas vezes e quase parti a cabeça ao meio. Do lado de fora do prédio continuei correndo e fui como um alucinado até o bar mais perto que conhecia e estava fechado. Continuei correndo e encontrei mais bares fechados. Nem era feriado, era um dia de semana como qualquer outro. Corria e corria e mais bares com suas portas de aço abaixadas e trancadas e mercados fechados, padarias e Casas do Norte, mercearias e qualquer lugar que vendia álcool estavam fechados. Finalmente avistei um posto. Continuei correndo e a loja de conveniência estava fechada então tive uma ideia genial. A bomba! Claro. A bomba de etanol, álcool puro e da fonte. Parei ao lado do frentista sem fôlego. Não sei dizer como consegui correr tanto. Não com os trinta cigarros diários. Mas logo que parei comecei a sentir o resultado de tanto esforço. Meus pulmões colados nas costas e sem ar. Minhas pernas começaram a tremer novamente. A garganta seca quase não permitia que eu falasse. Álcool! Álcool, pedi ao frentista. Ele não entendeu e então eu repeti e tive que fazer um esforço enorme para isso. Álcool! Me dê um pouco de álcool. E daí que era álcool automotivo? E daí que aquilo poderia corroer meus órgãos e me matar? Eu já estou morto. A sociedade estava morta. Com todos os seus demônios e sua hipocrisia e suas doenças. Herpes, AIDS, gonorreia, mau hálito, caspas, furúnculos anais, hemorroidas, diabetes, gastrite e um mundaréu de enfermidades. E os gordos, os idosos, os pais de família. Eu só precisava beber. Morreria por uma gota de álcool e para melhorar o meu dia, o frentista olhou bem nos meus olhos, sem respeitar meus sentimentos e jogou a realidade toda em meus ombros novamente.
- Não temos nenhum combustível. Estamos vazios. Ele disse.
Vazios! Claro que estão. Não só o posto. O mundo estava
vazio. As religiões, e as putas, a música, e as artes cênicas, tudo estava
vazio. De um vazio absolutamente tedioso e é por isso que eu precisava de
álcool. Então eu corri. Continuei correndo como se não houvesse amanhã e
possivelmente estava certo. Vi a avenida. Os carros indo de um lado para o
outro com seus condutores e suas vidas patéticas e vi um caminhão. Enorme e
vinha rápido. Vinha como quem estivesse atrasado para algo. Dois passos. Apenas
dois passos seria o suficiente para dar cabo daquilo. Dois passos e o caminhão
espalharia meus órgãos podres devido o consumo excessivo de álcool pela
avenida. Fazendo uma festa de sangue e pele e tripas. Dei os dois passos e
esperei. Mais espera. Em toda a minha vida não houve um segundo sequer que eu
não estivesse esperando alguma coisa. O garçom trazendo meu drink, a garota
sair do banheiro para transarmos e um monte de outras coisas. Travei os dentes
com toda a força que restava em meu corpo. Era a hora e quando estava a um
milímetro de distância, tão perto que podia sentir o calor do radiador em
minhas narinas, no último instante, fui surpreendido com o som do contrabaixo
de Lemmy tocando Aces Spades saindo do meu celular. Era o despertador me
acordando para ir trabalhar de novo.
Então, você que lê isso agora, se é que há alguém lendo
isso, deve estar respirando aliviado achando que estou contando apenas um sonho
que tive. E tudo seria maravilho se realmente fosse isso mesmo. Um sonho e
pronto. Porém, hoje completa 36 dias que não consigo sair deste sonho. Todos os
dias, sem exceção, o contrabaixo, o alarme falso do peido, o calor, os bares
fechados e o caminhão. Tudo de novo e novo e de novo. Preso num ciclo vicioso,
infinito, como um rato correndo em sua roda dentro de sua gaiola. Sempre igual.
Sempre. Igual.
Bento.
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quarta-feira, 12 de agosto de 2015
SOU O JESUS CRISTO DO RUM [A BARBA]
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Então eu estava muito nervoso. Era noite. Daqueles dias
cansativos que você demora mais pra voltar pra casa que o período todo de
trabalho. E o relógio te informa que em algumas horas você já precisará estar
de pé e acordado novamente para ir trabalhar. Só que você não quer dormir. Você
quer aproveitar a noite. Olha pela janela e vê a lua que te convida a beber e
se divertir. Mas isso é só para quem tem direito. Nós trabalhadores não
podemos. Nós, telefonistas, pedreiros, balconistas, eletricistas, encanadores,
professores, vendedores, motoristas, lavadores de carros, limpadores de
vidraças, atendentes, expositores, estoquistas, dentre todas as outras coisas,
nós não temos este direito. Nós apenas dormimos e acordamos e trabalhamos, pois
o mundo precisa de nós. O mercado e a economia precisam de nós. Inclusive aqueles
que têm o direito de beber numa noite dessas, no meio da semana, eles também
precisam de nós. E eu estava lá, em frente ao espelho, vendo meus olhos
cansados de acordar quase sem dormir, querendo sair e me divertir sem poder.
Mas confesso que antes de chegar em casa passei no boteco e pedi duas doses. Da
forte. Por este motivo, talvez, eu quisesse trocar a janta pelo gargalo de uma
boa cerveja gelada. Eu disse uma?
Um calor de sentir-se sujo. Duas doses no estômago depois de
um dia cansativo e já me sinto poderoso. Quase como quando ouço The Doors no
último volume. Olho no espelho e sou só sobrancelhas e bigode e barba. O cabelo
já passa da hora de cortar e sinto calor. Lembro-me que escondido na cômoda,
para as horas de emergência, tenho um meio litro de rum pela metade. Já ajuda
em alguma coisa. Para fazer durar mais adiciono em cada dose dois dedos d'água.
De meio faço quase um inteiro. É o milagre da multiplicação. "Sou o Jesus
Cristo do rum", eu grito sem me importar com os vizinhos. Um pirata com a barba ruiva tomando rum como quem bebe água. Mais uma dose e
agora fico nu para suportar o calor, mas ainda não é suficiente. Meu rosto não
faz questão de esconder as marcas do tempo e dos incontáveis porres. Das noites
sem dormir. Dos desamores. Há muito que contar em cada ruga, cada cravo, cada
pelo de barba. E a barba? Enorme, com pelos eriçados, rebeldes, precisando
aparar, mas que tempo tenho? Quando minhas horas de descanso reservam-se para
dormir e beber e escrever. Algo me incomoda e a barba pode ser quem vai pagar o
pato. Então entre o cigarro aceso e mais uma dose de rum eu acho a tesoura e
começo a cortar a barba. A cada chumaço de barba largada no lavatório é um
pouco de sofrimento que vai pelo ralo. Leva tempo para manter uma barba deste
tamanho. Porém, não mais tempo que economizei quando optei por não perder tempo
fazendo a barba.
A verdade é que de lua, como sou, por vezes preciso de uma
grande mudança em minha rotina para sentir-me vivo. Vivo e ativo. Vivo e útil.
E ainda tem a garota do Bourbon que permanece preenchendo meus finais de
semana. Uma linda esta garota. De uma paciência ímpar. Também pudera, para me
aturar, somente tendo uma paciência de monge tibetano, mas ao invés disso, ela
é descendente de nordestinos mesmo, talvez seja isso. Além de paciente ela é
quase tão preguiçosa quanto eu, logo, não se importa de ficar deitada tomando
cerveja, falando sobre qualquer coisa e transando.
Não existe muito mais o que
se possa querer numa garota quando esta não reclama de seus cigarros, sua
vontade incontrolável de algo alcoólico e seu vício em sexo, dito isso, por
vezes eu abro mão de meu casulo para levá-la em lugares que queira ir, afinal,
quando se está com uma garota como ela é preciso abrir mão de algumas coisas
para mantê-la por perto. É uma via de duas mãos. Não se pode viver sem abrir
mão de coisas. Abri-se mão da cerveja importada de trigo para poder investir em
quantidade de cervejas nacionais e assim poder comprar garrafas que vão te
deixar suficientemente bêbado. Abre-se mão, por vezes, da garrafa de Bourbon
importado para poder tomar um bom café da manhã a cada três dias de ressacas
consecutivas. Abre-se mão de comer em restaurantes boca-de-porco, que servem
comida como quem serve para um batalhão, com quase um porco inteiro frito em
seu prato clamando para ser saboreado com as mãos para poder impressionar uma
garota num restaurante que serve comida como se fosse alpiste, com pratos
decorados como aquela tia perua. Vivemos abrindo mão de coisas esperando
conseguir outras, porque ainda somos daqueles que têm que escolher entre dormir
ou aceitar o convite da lua que nos chama para beber e ficar bêbado e vomitar
metade do que bebemos para poder beber mais e não lembrar do que fizemos na
noite passada. Nós ainda somos os telefonistas, pedreiros, balconistas,
eletricistas, encanadores, professores, vendedores, motoristas, lavadores de
carros, limpadores de vidraças, atendentes, expositores, estoquistas,
faxineiros, porteiros, zeladores, carteiros, ajudantes, auxiliares... E
continuaremos até que a morte nos convide para dançar.
Bento.
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sábado, 18 de outubro de 2014
VIAGEM SÓ DE IDA AO INFERNO E FANTASIAS DE GAROTAS
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Eu sempre penso no passado e no futuro. Penso pois sou de
pensar muita coisa. Não vou negar, sou um arrogante e um egocêntrico que quando
penso, logo penso em mim e em minha vida. Sou um egoísta porque prometi que
seria há tempos e cumpro até hoje.
Penso que alguns anos atrás eu estava voltando para casa tão
bêbado quanto se pode estar. Eu não sabia onde estava, mas sabia para onde ia.
Instintivamente eu sabia. Bêbado nunca esquece o rumo de casa, quando esquece
está morto. Eu sou um bêbado, nunca escondi de ninguém, no entanto eu sou. Há
tanta gente por aí que sequer é alguma coisa.
Então uns quatro anos atrás, ou mais eu diria, eu estava
muito bêbado e andarilho, isso porque tinha perdido o último metrô. Tinha
parado no meio do caminho para mijar, pois quem bebe sabe que chega um momento
que não se pode mais segurar. É como o vômito, se pede passagem dê boas vindas,
não há o que fazer. Eu já não vômito há uma década, mijar é outra história. Eu
estava há quilômetros da minha casa e precisava andar muito. Meus pés já não
aguentavam mais e meus cigarros estavam acabando. Minhas pernas entrelaçavam
uma na outra e minhas mãos e cotovelos em carne viva de tanto se apoiar nos
muros. Por duas vezes quase ganho uma mordida de cachorro por enfiar o braço em
um portão perigo. Beber é para quem tem o dom. Não se pode decidir da noite
para o dia ser um beberrão, é preciso talento e coragem, destreza e habilidade
e isso eu sempre tive de sobra. O fato é que cansei, e surpreendam-se se
quiserem, eu cansei de andar. Mesmo bêbado cansei. Meus pés latejavam a ponto
de me fazerem esquecer dos ralados nas mãos e braços. Eu fumava e sentia
embrulho no estômago, quase que vomitando, porém como eu disse, eu nunca
vomito. Sentei e dormi. Dormi o sono dos vencidos. Olha que nunca fora fácil
derrotar-me, não para o álcool. Sempre brigamos de igual para igual. Mas como
profissionais, daqueles que se respeitam e se cumprimentam ao final de cada
luta. Nesta fui vencido e dormi. Ali, na sarjeta, com a bituca do cigarro ainda
entre os dedos. Acordei com os mendigos, com o sol e as portas de aço dos
comércios se abrindo para um novo alvorecer do capitalismo e só depois cheguei
em casa.
Vou ser sincero, não foi a primeira nem a última vez que
dormi na sarjeta. Não eu. Num outro texto eu falei sobre homens que perdem um
amor e o quão eles deixam de existir. Bem, vendo o homem que sou hoje tenho de
dizer que há três ou quatro anos eu não era nem dez por cento, não chegava a
dez por cento. Era um maltrapilho metido a esperto e de uma arrogância tamanha
simplesmente porque tinha lido dez vezes mais livros que qualquer outra pessoa
que eu conhecia. Mas o que isso queria dizer, eu me pergunto hoje e eu mesmo
respondo: nada, exatamente nada. Enfim, eu não passava de um estragado que
vivia estragando a minha vida e a vida das pessoas que me rodeavam. Tive amigos
ficando depressivos para acompanhar minha fossa. Vê se pode? Não quer dizer
necessariamente que eram todos bons amigos, não, definitivamente não. Alguns
eram, mas nem todos. De toda forma eu era um lixo, e mesmo que eu pudesse não
teria meu amor de volta. Também pudera, quem gostaria de ter ao lado alguém
como eu? Muita gente, se querem saber. Foi uma época que transava como ninguém
e por incrível que pareça, mesmo bêbado como um porco ainda tinha saúde a ponto
de transar e merecer que elas voltassem. Não todas, só as que eu queria que
voltassem. Desta época tenho garotas que voltam até hoje, pois sabe como é,
algumas coisas são como andar de bicicleta. Mas definitivamente não foi a primeira
vez que eu acabei dormindo com a cara na sarjeta. E pela primeira vez eu vou
dizer aqui: tudo culpa de uma mulher. Tudo culpa dela. Do primeiro copo ao
último cheiro na carreira. Todas as
brigas, os porres, as transas de esquina, as esporradas na cara de estranhas,
os gorfos alheios em meu pau e etc. O lixo, a podridão, a destruição do meu
corpo e minha alma, o pacto com o Diabo, é tudo culpa dela. Claro que houve uma
cooperação de minha autoflagelação e minha persona
non grata no mundo dos inocentes, mas de resto a culpa é unicamente de uma
mulher. Eu sei qual é, algumas pessoas sabem de quem eu falo, talvez você mesma
esteja lendo isso e me acusando de calúnia, porém a culpa é sua. Pronto.
Resolvido. Vida que segue. E seguiu, mais ou menos. Pois assim como a culpo
pelas mazelas eu também dou credito pelos louros. Sempre disse aqui que não
comecei a escrever do nada. De início escrevia letras de músicas, mas eu era um
jovem e não sabia nada da vida. Com a tragédia passei a escrever outras coisas
até que cheguei aqui. E depois, só depois de quatro anos e pouco a culpo por
qualquer coisa ruim. Acontece. Tarda mas não falha.
Mas queria falar sobre outra coisa. Queria falar como as
coisas simplesmente acontecem. Eu nunca fui daqueles de decorar frases feitas para
soprar aos ouvidos das garotas e esperar que elas caíssem de amores por mim.
Talvez fosse minha rejeição aos clichês falando mais alto desde cedo. Eu sempre
fui o sujeito que fui chegando aos poucos, com cuidado, me aproximando como um
gato da folha seca. E sem que elas dessem conta do perigo lá estava eu com as
garras afiadas na carne crua e macia, pronto para me deliciar. Ainda hoje as
coisas seguem da mesma forma, o destino coopera porque ele gosta de se divertir
e eu sou um bom entretimento para ele. Como um serial killer eu me aproximo
fingindo-me de inocente mas sendo denunciado pelo olhar e este sempre me trai,
afinal de inocente ele não tem nada.
Pronto.
Acaba que somos dois seres desejando a mesma coisa nas ainda
disfarçando e é dessas situações que saem as melhores transas. Uma casal de
mineiros se comendo secretamente. Aprendi que o maior segredo da conquista esta
no cotidiano. Artificialmente consigo fazer com que uma coisa leve a outra,
todavia tudo foi planejado, inclusive as falas. A cerveja ajuda a afastar a
inibição e brincadeiras vão virando verdades conforme as garrafas vão esvaziando
e pronto, simples assim. Parece fácil, só que não é. Necessita de talento para
tanto. Falando em talento, se este é a
primeira vez que lê algo meu precisa saber que eu sou um egoísta do tamanho do
mundo e que possuo tamanha arrogância de escrever só para mim. No entanto,
hipócrita não sou e não vou fingir que torno meus pensamentos públicos para
regar minha vaidade. Então estava conhecendo um novo bar com alguns amigos e
todos começaram a falar de meus textos. Uma garota dizia que inspirava-se neles
para escrever. Um cara dizia que esperava ansiosamente cada publicação
imaginando-me no ato da escrita com máquina de escrever, whisky, cigarros e os
demônios à sobrevoar minha imaginação. Eu poderia ter dito a ele que em toda
minha vida estive diante de uma máquina de escrever apenas duas ou três vezes,
porém não se pode podar a imaginação de ninguém. Por fim começamos a lembrar de
alguns textos e eles se saíram melhor que eu, pois possivelmente os destilados
ajudaram a acabar com o pouco de memória que eu tinha.
Dias depois descobri que arrumei uma nova paixão, daquelas
que já citei por aqui e insisto - se você nunca leu nada sobre mim precisa
saber - tenho um fraco por garotas lindas, tatuadas, magras, de pernas finas e
barriga reta. Esta nova garota que conheci só não é tatuada e me vi apaixonado
em pouquíssimo tempo. Trata-se de uma perfeita combinação de tudo que almejo e
é claro que ela deve ter todos os defeitos do mundo como todas as outras
pessoas do universo e seria tedioso caso não tivesse. Como aqueles momentos que
você leva um choque quando toca em alguém, foi assim quando toquei sua cintura,
por um leve momento. Mais um esbarrão que um toque e eu pude sentir sua cintura
fina, barriga lisa e naquele momento eu a vi nua - só em minha imaginação,
claro - estendida em minha cama, com rosto sonolento enquanto eu a observava do
lado oposto do quarto fumando um cigarro e desejando que aquele momento não
acabasse nunca. Imaginei-a com as pernas levemente dobradas, uma mais que a
outra, uma mão abaixo do queixo e a outra repousada na barriga. Magérrima e
linda, cabelos emaranhados e eu com dor na bexiga de segurar o mijo sem querer
desviar os olhos daquele quadro maravilhoso. Sua cicatriz no rosto perfeito
lembrando-me que todo paraíso tem seu porém. Um dramático eu sou? Sim! Um
grande romântico? Com certeza!
Sentindo-me um adolescente que sonha acordado com a
professora, neste momento eu corei e tão rápido meu devaneio fora que não creio
que ela notou minha timidez momentânea. A diferença é que neste caso eu seria o
professor do ginásio, afinal, por mais vivida que ela possa ser nada se compara
às merdas que eu já fiz, aos infernos que eu já habitei, aos esgotos em que eu
já dormi.
Digo que sou um romântico, pois como qualquer tarado - não
descarto que eu seja um e dos piores - eu deveria imaginá-la nua e amarrada,
nua e bem acordada, nua e realizando as minhas fantasias mais secretas, afinal,
devaneio é devaneio, no entanto quis minha mente levar-me para meu quarto e
espiá-la dormindo. Talvez isso deva-se ao fato de que tê-la, ali, repousando
após o esforço de nos deliciarmos seja a minha fantasia mais secreta, tão
secreta que mesmo eu não tinha conhecimento. E eu que sou um rebelde achando
que minha maior fantasia obrigatoriamente teria de ser selvagem e violenta. Ao
contrário, tão leve como a fantasia de uma garota. Vai entender.
Agora, quero que entendam o motivo pelo qual eu escolhi
dividir este pensamento entre tantos que possam ser mais importante ou até mais
divertido. Começarei dizendo que meus finais de semana são todos ao extremo
como minha vida toda. Ou passo solitário apenas com a companhia do Tédio, ou
passo os dias de descanso cometendo das mais intensas colaborações para minha
viagem só de ida ao inferno, de acordo com os religiosos. Das maiores
atrocidades, até a pele sangrando por unhas femininas. Garrafas e mais garrafas
vazias e cama cheia. Então posso dizer que o último fim de semana nada teve de
tedioso. Todavia, mesmo com os lábios dormentes, as pernas bambas, as paredes
sussurrando pornografias, eu não conseguia me desprender de um pequeno esbarrão
da cintura da garota com a pequena cicatriz no rosto.
Bento.
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sexta-feira, 9 de maio de 2014
GIULIARD BORSANDI IX
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Indica-se ler os episódios anteriores: GIULIARD BORSANDI VIII
Indica-se ler os episódios anteriores: GIULIARD BORSANDI VIII
Quando finalmente parei de correr percebi que
inconscientemente ia à direção do Planalto
Night Club, o bar que tem a Barwoman mais gostosa da cidade, Jamaica. Isso
era um sinal do destino para que eu voltasse a beber. Bem, talvez o destino não
tivesse nada a ver com isso, no entanto estava com sede e sóbrio, duas coisas
que não combinam. Eu também precisava comemorar mais um caso encerrado, onde
finalmente tinha pegado Janaina.
Na frente do motel, sabia que não teria mais que uma
chance para tirar as fotos do seu caso, pois o flash denunciaria que eu era um cagueta mal intencionado. O monte
de merda, digo, monte de músculos que estava com a mulher do pastor com certeza
iria querer mostrar sua virilidade e tentaria arrancar a câmera de mim, assim
como tentou. Ajustei a máquina para 10 poses simultâneas e esperei o momento
certo e a sorte estava ao meu lado. Fechei o caso com dez fotos de um beijinho
de boa noite, foi lindo.
Assim que Janaina e o retardado viram a luz do flash iluminar a rua corri como um
maluco com o Pitbull em forma de
gente no meu calcanhar, mas eu fui mais rápido. Sempre corri bem, hoje em dia
não tenho muito fôlego por causa dos quarenta cigarros que fumo diariamente,
então sabia que além de rápido eu teria que despistá-lo antes de meus pulmões desintegrassem
e foi o que fiz. O cara era muito músculo e muito lerdo, provavelmente não
exercitava as pernas.
Entrei no bar e comecei a ficar bêbado novamente.
- Olha só quem apareceu novamente. Me
recepcionou Jamaica assim que voltei a me sentar no bar - Se arrependeu e foi atrás da coroa?
- Não. Fui terminar um trabalho. Respondi.
- E teve sucesso?
- Muito. Vou ganhar um bom dinheiro e quem
sabe tirar alguns dias de férias.
- Humm bom pra você. Está mesmo com cara de
quem precisa descansar. Disse Jamaica tocando meu rosto com a mão e logo
depois ajeitando os pelos de minha sobrancelha. Era isso que me tirava do
sério, mesmo com gestos simples parecia que ela sempre cuidava de mim.
Fiquei no bar mais algumas horas, quase até a hora de
fechar e estava bêbado, muito bêbado.
Segui cambaleando até o escritório pelas ruas apertadas e
idênticas do centro de São Paulo. Estava quase perdido, mas estranha e
inconscientemente sabia em quais ruas virar e atalhos pegar. Bêbado que é
bêbado sempre chega em casa. No meu caso, ao escritório. Eu estava cansado de
andar, pode-se dizer que virei uma rua errada e logo depois me achei e voltei
ao caminho certo, porém, essa esquina errada me fez andar por mais de meia hora
sem necessidade. Na condição que eu tava, andar não era tão fácil como parece.
Tanto tempo sem comer e a alta quantidade de whisky em meu corpo fez com que minha visão ficasse turva como se
eu estivesse usando óculos fundo de garrafa sem precisar. Para conseguir
acender o cigarro ou olhar as horas no celular eu precisava parar de andar e
tapar um dos olhos com a mão. Então eu continuei andando e faltavam algumas travessas
para finalmente eu poder esticar minhas pernas e dormir boas horas de sono no
colchonete que guardo num canto do escritório do detetive particular mais
bêbado do mundo.
O bom de estar alcoolizado é que aquela sensação maldita
de solidão, baixa autoestima, depressão e autopiedade iam para o ralo com
litros de urina que eu mijava de cinco em cinco minutos andando. Minha bexiga
sempre foi uma merda. Talvez todos os bêbados do mundo usem esse argumento como
desculpa para beber, mas no meu caso era uma verdade incontestável e eu tinha
muita coisa para esquecer e me esquivar.
Após andar tanto, parei em frente a uma lixeira na
calçada de uma agência do correio e coloquei boa parte do destilado que Janaina
tinha me servido para fora em fortes jatos de vômito. Era pura água com cor de
bosta e um cheiro horrível de algo podre e cítrico, era nojento. Mais um jato e
depois outro e outro. Os olhos derramavam lágrimas por causa do esforço
involuntário que o corpo fazia para expelir o álcool e o nariz derramava vômito
misturado com catarro que juntavam-se com o líquido estomacal que saia da boca
e era um festival de coisas nojentas e fétidas.
Bento.
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domingo, 27 de abril de 2014
GOZOLÂNDIA ETERNA É PARA OS FRACOS. A MELHOR GOZADA É A DE AGORA
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De tempos pra cá tenho percebido mais que nunca que a idade
inevitavelmente chega para todo mundo e eu não sou um privilegiado. A cada
ressaca nova vejo os anos escorrerem entre meus dedos sem que eu possa fazer
muita coisa para mantê-los como estão hoje. O corpo acusa e a recuperação é
mais lenta. Ele quer me impor limites que eu nunca tive e com certeza não os
tomarei pra mim a essa altura do campeonato.
Eu escrevo isso enquanto observo Roxanne caminhando pelo
banheiro com suas pernas finas e seu andar elegante. Roxanne é minha aranha de
estimação que vive no meu banheiro e fez de um buraco rente ao teto sua
moradia, religiosamente ela sai de lá para me dar bom dia. Eu respeito o espaço
dela e ela o meu.
Eu sou das antigas, com o passar dos anos passei a cultivar
a barba para assumir a idade ao invés de escondê-la como todos fazem. É mais
uma forma de expurgar as garotas de 18 anos e não é porque meu corpo está
ficando velho, mas sim porque minha mente está velha faz tempo. Sou desses
caras que vê mais romantismo na garota espremendo cravos nas costas do namorado
que qualquer clichê exibicionista que se vê nas redes sociais por aí.
Por isso venho com meu saudosismo de velho para dizer que
nem mesmo a ressaca se faz como antigamente. Eu não sei o que fazem os velhos
da minha geração, mas eu tenho feito o mesmo que fazia há dez anos, com raras
exceções e só o que mudou foi mesmo a demora de meu corpo em recuperar-se das
bebedeiras, alguns cabelos brancos e por aí vai.
Uma garota leu meu último conto e fez uma declaração um
tanto quanto dramática levando-se em conta que era apenas um conto. Porém eu
sempre mastigo as coisas devagar para refletir sobre e talvez ela esteja certa,
talvez meus olhos estejam ofuscados pelo hábito, o hábito da amabilidade com o
singular, a coexistência com o sofrimento, a empatia com o flagelo. No entanto
isso pode ser só sintomas de minha veia poética e caso seja isso, a garota
estaria errada e foi só uma declaração um tanto quanto dramática. Porém, quem
sou eu para falar de dramaticidade?
Sabe, eu sigo uma cartilha, apesar de algumas pessoas
acharem que eu levo a vida sem lei ou regras eu sigo uma cartilha, coisas que
eu penso como certo ou errado e esse tipo de coisa. Sigo conceitos e rituais,
não passo sem o café e cigarros e são as primeiras coisas que eu faço ao
acordar. Durante muito tempo eu fiquei sem pisar em riscas nas calçadas mas
parei de repente. Tenho um pouco de superstição por isso sempre tenho um maço
de cigarros extra e uma garrafa de algo forte, pois nunca sei quando a
inspiração me tomará horas de cigarros e tragos numa quantidade incrível.
Esses dias tive uma crise de vômito ao ponto de
desidratar-me. Coisa da idade. Há cinco anos atrás meu corpo não desperdiçava
uma gota sequer de álcool.
Entre um vômito e outro alguém comentou: - Também, você bebe
como se o mundo fosse acabar.
- Mas vai que acaba.
Respondi.
Quando a idade chega ela vem com um convite para a morte.
Não estou dizendo que estou tão velho a ponto de morrer, porém uma hora todos
morrem e eu não sou um privilegiado. Também não me apetece essa história de
vida eterna e paraíso, isso só serve para postergar toda a diversão. Não se
deixa para gozar - supostamente - pela
eternidade quando se pode gozar muito agora. Vamos lá, acredito que estejam
entendendo meu raciocínio.
Uma das minhas qualidade é fazer festas que se arrastam por
dias e já adianto, essas festas não são frequentadas por nenhum idiota que
acredita nessa promessa de Gozolândia eterna, portanto todo mundo nessas festas
procura sair satisfeito e geralmente saem. Essas festas geralmente acontecem
nos meus melhores dias porque nos piores a última coisa que eu quero é um monte
de gente perto de mim com a libido a flor da pele, bêbadas, tomando da minha
cerveja e assustando minha gata para o telhado. Não se pode fazer festa o tempo
todo simplesmente porque não se faz festa o tempo todo. Já falei muito aqui
sobre as qualidades de uma boa solidão esvaziando garrafas.
Desses meu amigos, não há nenhum que não tenha pelo menos
uma história de loucuras e apuros para contar da qual eu não estivesse
envolvido e isso me leva a pensar no que minha mãe dizia quando eu era jovem:
não se misture com má influência. Nesta época ela ainda não sabia que a má
influência era eu. Então volto a dizer que se você busca a esporrada divina
trate de não se aproximar, mas caso queira viver libidinosamente aperte os
cintos, pois vou te apresentar algumas coisas e algumas pessoas.
Na festa mais recente que fiz um cara entrou no quarto com
uma garota e ele saiu de lá duas horas depois como se houvesse apanhado de um
peso pesado, com marcas roxas e arranhões. E esta garota só tinha quinze anos.
Realmente o ambiente, as músicas e as companhias ajudam a aflorar o pior lado
das pessoas, pior lado, claro, na opinião de vocês, pois na minha este é sempre
o melhor lado.
Acredito que o melhor lado de qualquer pessoa é justamente
aquele que a maioria das pessoas não aprovam. Já reparou como as coisas que são
unanimidade geralmente são uma merda? Nelson Rodrigues já dizia isso há
trocentos anos e isso nunca deixará de ser verdade.
Alguns amigos, até estes das festas, bem, estes amigos
acham-me inquebrável, inviolável. Algumas garotas acham que eu sou
intransponível e inacessível, mas digo que isso não passa de incompetência,
talvez delas, talvez minha. Eu também já tive meu tempo de lamentar-me, só que
já passou. Eu simplesmente desvio o olhar. E tudo que vejo é sempre sem muito
apetite, pois nada é duradouro. Também sei que minha forma de pensar afasta
mais gente do que aproxima. Eu poderia mudar isso, ou posso pensar que isto é
apenas um filtro, ou não pensar muito nisso. As coisas são sempre como devem
ser.
Bento.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
NÃO SE CORROMPA TANTO PARA ESCREVER
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Tenho então, certa
peculiaridade em viver. Uma coisa diferente em dar meus passos pelo asfalto
neste mundo de malucos. Uma vez eu disse e nem sei de onde tirei isso, mas
disse. Foi um vômito, não alcoólico, porém, bêbado quando disse: "gosto de fazer tudo com estilo próprio, sem inspirações".
Eu nem sei o motivo pelo qual disse isto. Nem sei se concordo com o que disse.
Só que as coisas me fazem mais feliz quando saem do meu jeito. Então eu saio na
rua para comprar cigarros com a mesma roupa que dormi e não me importo muito,
foco apenas no objetivo, que são os cigarros que me faltam naquele momento.
É certo que não ligo
muito para situações rotineiramente planejadas. Não suporto nenhum compromisso
religiosamente assumido. Odeio trabalhar, o problema é que eu gosto mais de
dinheiro do que certos princípios, logo, o trabalho é a única coisa que aceito
fazer obrigatoriamente.
Assim muita gente deve
olhar para o meu estilo de vida e pensar que seja tudo maravilhoso, ou que eu
não tenha nenhum futuro e só a segunda opção pode ter algum sentido. Estou
dando voltas para dizer que o fato de acordar ao meio dia e que meus cafés da
manhã geralmente são meia dúzia de garrafas de Heineken após uma boa dose de
whisky para abrir o apetite, e que acendo um cigarro antes mesmo de abrir os
olhos quando acordo não é tão bom quanto uma porção de gente pensa. E essa
porção de gente que lê minhas narrativas sobre minha vida e adoram, sequer
teriam estômago para viver elas mesmas de tal forma. As pessoas sempre admiram
aquilo que não podem ter. Não se pode medir as coisas que eu abro mão para
sobreviver da maneira que eu acho ideal e normalmente o que serve para mim não
servirá para a maioria das pessoas que assistem ou leem uma situação como esta.
Não servirá, pois como eu disse: é preciso estômago, mais até que estômago é
preciso abdicar de um conforto sociável.
Meus amigos, por
exemplo, além de poucos, não são tão presentes quanto os amigos comuns. No
entanto, não os culpem, eu prefiro assim, afinal, com uma personalidade
característica como a minha, para mantê-los é preciso que afastem-se para
deixar que a saudade ajude-os a me aturar. O eu em excesso é prejudicial para
qualquer sanidade e ainda assim só tenho amigos desequilibrados.
Com as garotas é a
mesma coisa. É preferível que não se mantenham por muito tempo. Repare em seus
olhos e perceba o quanto eles brilham ao ouvir minhas histórias. Sempre tão
agradecidas retribuem uma preliminar ou outra, mas ainda assim é preferível que
não se mantenham por muito tempo. Perde-se o encanto, pois eu não deixo de
tomar os meus cafés da manhã alcoólicos, não deixo de escrever sobre minhas
insanidades e de exercer minha displicência em relação ao futuro. E nenhuma
garota se vê ao lado de um escritor possivelmente falido falando sobre as desgraças
da vida. Então eu lembro do que me disseram uma vez, que um dia eu vou
envelhecer, ficar feio, ultrapassado e o número de garotas entrando e saindo do
meu quarto diminuirá drasticamente e que eu olharei para o passado com grande
arrependimento. O que essa pessoa que me disse isso não sabe, é que eu já olho
para o passado com grande arrependimento, ou seja, sem novidades. Se alguém aí
não tem o mesmo problema me conte o segredo. E tem mais, odeio palpiteiros.
Olhe para o mundo de
um débil com olhar de telespectador e tudo parecerá maravilhoso até os nossos
caminhos se cruzarem e perceber que minha cama é muito mais aconchegante ao
dormir do que quando acordar. E que apesar de prazerosas, muito prazerosas,
todas as bebedeiras geram muito mais prazeres que as ressacas. E que a vida de
Bon Vivant escrevinhador de contos desgraçados somente é atraente em películas
e livros. Que a abstinência de álcool e nicotina torna-me um ser irreconhecível
e insuportável. Que eu sou um sujeito calamitoso e que odeia cortar as unhas. E
que eu passo metade dos meus dias sentado numa cadeira de praia, no telhado,
ouvindo Rock em discos antigos, bebendo cervejas e escrevendo, já a outras
metade eu passo dormindo. Por isso, não há motivo para invejar-me por qualquer
coisa. Por mais que sua vida pareça ruim, eu sou o resultado de tudo que possa
dar errado e me orgulho de tornar isso público. Levando sempre em conta que
aumento algumas tragédias e fatos para dar um tom de dramaticidade e estilo
próprio em tudo que eu escrevo.
Bento.
-
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