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segunda-feira, 24 de junho de 2019

PRIMEIRO PASSO




É preciso reaprender a conviver consigo mesmo.

Só.

Como era antes.
Não que já não o fosse, mas ter alguém que depende de você para tudo como um filho não é bem ter companhia. Não é a companhia que se espera quando se é um casal.

Só.

É necessário reaprender a conviver consigo mesmo.
Todos os demônios e traumas e a culpa.
Inevitável.
É inevitável que em alguns momentos você se culpe por tudo. Será que o errado é você? Será que poderia ter feito mais? Será que poderia ter sido mais paciente? Será que poderia ter dado mais sangue mesmo depois de ver seu corpo cadavérico em frente o espelho? De lábios roxos até as costelas saltando pela pele.

Será?

Será que não exigiu demais do outro?
Será que o problema não está em você exigir mais que as pessoas podem lhe oferecer?
Será que o erro está em você ser romântico demais e talvez passou tanto tempo com a cara enfiada em romances de autores infelizes idealizadores de dramalhões impossíveis de acontecer na vida real? Onde empregos, boletos e peidos e bafos e porres nunca são mencionados.

O quão difícil é dormir e acordar debaixo do mesmo teto que vocês planejaram o futuro que jamais vai acontecer? E as paredes que olham e te julgam? Será que você não se precipitou? Você tem um histórico de ansioso e que mete os pés pelas mãos.
Você nunca foi o tipo que conversa. Pelo menos não sóbrio. Arrancar-lhe sentimento sempre foi sofrível exceto depois de uma bateria de doses de whisky. É por isso que nunca consegue escrever uma linha sincera sem despertar o fígado. Seu corpo é uma máquina de absorver álcool e autoflagelo.
Você consegue ser o cara que dorme na sarjeta de bêbado, porém não atrasa um boleto.

Equilíbrio?

Logo você?

Difícil imaginar que alguém como você tenha esse tipo de equilíbrio, contudo para continuar fazendo o que mais gosta precisa disso. É como uma missão. Desaponte todos, inclusive você, mas mantenha um maço de notas para a garrafa e um lugar para voltar quando os sentidos estiverem embaralhados ao ponto de não pensar mais no que está fazendo.

Só?

Você foi o primeiro a chegar na sua vida e provavelmente será o último a sair. Tão só quanto chegou e só o que lhe resta são as lembranças, boas e ruins.
Você que já se meteu em cada enrascada e teve anos de marasmo e estava disposto a tomar isso como regra. Já tinha desistido de ser o grande cavaleiro solitário e destemido. Acreditou que desta vez iria entregar tudo que tinha de melhor e que seria a última vez que teria que juntar seus cacos. No fim viu que a solidão apesar de uma companhia indesejável ela ainda permanecia ali. Quando decidiu tornar-se o porto de alguém reparou estar à deriva. Tão só como sempre foi. Logo, solitário de um jeito ou de outro, que pelo menos tenha liberdade.


Bento

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O PEIDO É TÃO PESSOAL E INTRANSFERÍVEL COMO NOSSOS PENSAMENTOS MAIS OBSCUROS

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Quando eu era jovem sempre fiquei intrigado quando ouvia os professores falarem sobre pensadores. Nas salas de aulas cheias de moleques encrenqueiros como eu, e eu era sempre o pior - segundo estes mesmos professores - por que eu entendia que o cara ganhava um salário só para pensar. E lá ficava eu pensando com meus botões, imaginando um cara que colocava seu despertador programado para acordar às seis da manhã, tomava seu banho, ligava a TV no jornal matinal enquanto vestia-se e tomava o café da manhã. Colocava comida para os cachorros, para o gato e ao invés de sair de casa rumo ao emprego como fazia minha mãe e meus irmãos de manhã enquanto eu me arrumava para ir para a escola o pensador simplesmente sentava numa varanda com sua xicara de café e com seu dedo indicador pressionando a têmpora ficava lá, pensando. Soprava a fumaça do café fumegante pensando e anotando as coisas que entendia ser importantes. Então de repente, nota-se a hora do almoço e pronto! Para de pensar um pouco para alimentar-se e uma hora depois voltar ao trabalho. Sempre imaginei isso como a coisa mais chata do mundo, ou pelo menos UMA das mais chatas. Perguntava-me eu, quem em sã consciência, escolheria ser um pensador? Depois de velho fui perceber que trabalhar num escritório enviando relatórios, atendendo telefones, tendo que pegar ônibus e metrô lotados de gente que fazem coisas bem parecidas com as minhas é bem pior que a vida que eu imaginava que o pensador levava.

Mais velho ainda comecei a invejar tanto a vida dos pensadores que passei a desejar uma vida igual. Afinal, trabalhar em casa, para gente como eu que suava frio quando ouvia notícias sobre greve do metrô seria maravilhoso.
No fim descobri que pensador pode ser qualquer um de nós e não necessariamente ganhamos algo para isso. Mais ou menos como a música, nem sempre os melhores são reconhecidos. Com isso cheguei à conclusão que o problema não são os pensadores ou os músicos, ruim mesmo é envelhecer. Tantas ilusões.

Por esses dias peguei uma gripe e me entupi de remédios. Todos aqueles conhecidos que prometem curar a gripe e até um ou outro que consegui clandestinamente sem receita para curar-me. Adiantou momentaneamente, pois cinco dias depois cai de gripe de novo.

Tenho um grande problema com medicamentos e contra eles, pois enquanto os consumo não posso beber e isso é um problema enorme. Está certo que vez ou outra misturei vodca com xarope para curar a gripe e fiquei numa loucura tamanha, mas isso é uma história para contar em outro momento. Por isso só me medico em último caso, pois acredito piamente que não há doença que o álcool não possa curar, com exceção da doença da idiotice, essa... Nem Deus poderia. Enfim, estava com uma gripe longínqua e devido a conselhos familiares e de minha namorada resolvi tomar antigripal e antibiótico. Veja minha situação, sou corintiano desde que nasci, qualquer coisa que envolva a palavra anti já me causa descrença instantânea. Bom, resumindo; claro que não deu certo. Acabou que eu fiquei no remédio, sem beber uma gota de álcool e não melhorei. Mas... E friso o "mas" por que realmente deve-se chamar atenção ao fato. Então, é justo que pare, respire profundamente e se diga, lá do âmago; MAS... bastou uma boa noite de bebedeira com destilado e escrita para a coriza recolher-se ao nariz, a garganta dar a pausa à tosse e tudo mais ir pra casa do caralho. Tem gente que não acredita. Acha exagero. Acha que é mentira de bêbado, porém afirmo que nunca tive uma doença que o álcool não curasse.

Pensando nisso, enquanto doente e tomando minha cagibrina, lembrei que a muito não parava para beber sem preocupação. Digo, de pausar qualquer pensamento mesmo. Sem pensar em contas, em relações, em trabalho. Apenas sentar, beber e sair escrevendo. Reparar em cada aranha que faz moradia nos cantos do quarto. Em cada mancha de umidade. No barulho do motor da geladeira da vizinha. No salto alto da nora da outra vizinha quando ainda vira a esquina, que chega de madrugada voltando da balada, e logo depois pega o molho de chaves na bolsa para abrir o portão. Os carros que passam e raspam o assoalho na lombada. E os gatos correndo brincando no telhado. E no momento que escrevo isso lembro de quando adolescente, quando trabalhava de office-boy sonhava em estar em casa, ouvindo Frank Sinatra, com a chuva de dez dilúvios batendo na janela, frio de matar, e eu dentro de casa tomando uma boa xícara de café preto para esquentar o corpo vestido de calça de moletom e seres me pagando só para escrever. Vê que desde muito jovem eu era velho e solitário? Nunca fiz questão de companhia. Nunca me senti sozinho comigo mesmo. Sempre tive algo para reclamar, é claro, afinal escreveria sobre o quê? Mas sempre fiz questão de manter-me sozinho pois minha companhia sempre me foi suficiente. Evidente que vez ou outra você precisa da companhia de outras pessoas para que não passe a vida dependendo de uma alegria masturbatória, uma mão amiga vez ou outra é indispensável. Porém a solidão assusta a maioria das pessoas. Hoje em dia solidão demais é confundida com depressão, não sei se por influência da indústria farmacêutica, da mídia ou dos analistas, mas acho que subestimamos uma boa solidão, estar só, falando apenas consigo mesmo, e desvendando nossos próprios segredos. Tem gente que se assusta com seus próprios pensamentos e por isso tenta sempre estar rodeado de pessoas. Se o sujeito não consegue se abrir com ele mesmo, algo está errado. Quer um exemplo? Somos tão mais tolerantes com nosso peido que com os dos outros, claro. Peidamos debaixo das cobertas e cobrimos a cabeça. Cheiramos nossos gases e damos risada. Já qualquer flatulência alheia nós achamos o fim do mundo, pois o peido é tão pessoal e intransferível como nossos pensamentos mais obscuros, mas ainda assim dividimos com poucos que conquistam nossa confiança.

Digo mais, passei meses segurando peido no começo de meu namoro. Tanto que por várias vezes tive que sair do quarto só para peidar e era um alívio do tamanho do mundo. Hoje, ainda bem, eu e minha namorada dividimos nossos peidos como dividimos uma mesa num restaurante, ou uma pizza.

Sendo assim, acredito piamente que a solidão nos ensina humildade. É preciso reconhecer nossos defeitos para lidar com o defeito dos outros, qualquer coisa diferente disso se transforma em hipocrisia. Então depois disso tudo, digo para aqueles que ainda permanecem descrentes com a solidão, friso que a pior solidão não é aquela que você sente quando está só, num quarto escuro ouvindo blues e tomando algo forte. Ou quando se está numa cabana no meio do mato tomando café e relendo um livro clássico. Não é a solidão de término de namoro onde se fica em casa comendo chocolate e assistindo comédia romântica, nem a solidão de uma prisão tão pequena que mal consegue ficar ereto. Não, pois esse tipo de solidão tem também a ausência de esperança. Você não espera nada dela. É tão somente você e um grande vazio. Assim ficamos alheios a tudo, nada pode nos atingir. Somos invencíveis, inabaláveis, imortais e inatingíveis.
Digo que a pior solidão é aquela que sentimos quando estamos no meio de uma multidão ou num relacionamento de via única. Quando percebemos que o próximo não tem tanto interesse em nós como temos deles. Afinal, nestes casos, a solidão vem junto da frustração de esperar e esperar que o outro indivíduo sinta prazer de sua companhia e se alegre pelo simples fato de te ver feliz. Essa solidão, sequer um mar de whisky poderá dar jeito.



Bento.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

SÓ QUE SOMOS SÓ UM AMONTOADO DE CARNE, BANHA, PUS E TRIPAS

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É curioso como podemos fazer coisas repetidamente, todos os dias, mecanicamente e nunca nos darmos conta. Como um aparelho doméstico, funcionando e funcionando e é só. Dias atrás eu me vi no meio do caminho para o trabalho e sequer me dei conta de como fui parar ali. Simplesmente parei e pensei; mas como foi que vim parar aqui? Olhei-me e estava vestido, com as chaves, cigarros e celular no bolso, tudo em ordem. Cabelo penteado, passei a língua nos dentes e estavam escovados, mas eu não me lembrava de ter feito nada disso. Digo, lembro-me de acordar e acender um cigarro e depois disso PUFF! Qualquer memória foi pro saco, como se eu estivesse ficado bêbado e aparecido ali, acordado do porre ali. Só que era de manhã e eu estava indo trabalhar. Tudo daquele momento para trás se perdeu. Não lembrava dos cigarros que fumei, nem das canecas de café que tomei. Não lembrei de ter cagado, de tomar banho, de pegar o ônibus ou o metrô, de nada. Estava ali automaticamente, fiz o caminho inconsciente porque eu faço todos os dias. Não lembro da cara de cu do cobrador, não lembro dos velhos que fazem questão de acordar cedo e encher o transporte coletivo. Não lembro dos gordos que ocupam o dobro de espaço num transporte que já não cabe mais ninguém. Não lembro se li meu livro, se usei o banheiro da estação. NADA. Só lembro de estar ali, no meio do caminho para o trabalho como faço todos os dias. Um lapso? Seria loucura? Finalmente minha mente estava pedindo, ou clamando, por uma aposentadoria? Então meu corpo vagaria por aí sem mim ou sem minha mente, ou eu seria apenas um passageiro de meu corpo, sentindo, vendo, cheirando, porém sem controle nenhum sobre qualquer músculo. Com consciência, mas sem autonomia. Espectador da minha própria vida. O interessante é que meu corpo, em carreira solo, possivelmente teria mais sucesso que eu (quem não teria?). Talvez eu esteja com dislexia. Talvez eu esteja morto sem me dar conta, mas as contas continuam chegando, então estou vivo, pois os cobradores são os primeiros, a saber, das nossas vidas ou mortes. Reparei que quando me dei conta do meu lapso eu estava andando rápido, quase correndo, mas por quê? Bem, estou sempre atrasado e também estava naquele dia, mas se sempre estou atrasado então qual a diferença? Correr por quê? Aliás, esta é uma pergunta que eu vivo me fazendo e eu não consigo responder nunca.

O Tédio. O Tédio e as outras coisas. Por quê? Pra quê? Acordar por quê? Levantar pra quê?
Por que comer se daqui a pouco estarei com fome novamente? Por que tomar banho? Por que tenho que sair de casa? Por que levantar da minha cama? Trabalho todos os dias, de segunda à sexta, o mês inteiro, pago as contas e começo tudo de novo, por quê? Pelo final de semana? Trabalho exclusivamente pelo final de semana. É nisso que minha vida se resume? Trabalho e final de semana. Uma semana toda de martírio para poder passar o final de semana todo na minha cama esvaziando garrafas. Pra quê? Por quê?

As pessoas são decepcionantes, a vida é decepcionante. Talvez você ainda não tenha passado por situações ruins suficientes para perceber que nenhum de nós vale o esforço de um pequeno músculo sequer. O curioso é que todos nós nos superestimamos. Sempre achamos que somos um pedaço de carne selecionado por Deus. Inventamos que existe alma apenas para nos sentirmos importantes, só que somos só um amontoado de carne, banha, pus, tripas, tudo isso misturado com altas doses de egocentrismo. Todo homem acha que seu pinto é maior e melhor que os dos outros. Toda mulher acha que trepa melhor que todas as outras. Tem caras que gastam o que não tem para comprar carros enormes e caros para se sentirem mais e melhor. Mulheres que colocam silicone e passam horas no salão de beleza tentando ser a droga de uma boneca inflável ambulante. E aí você pensa; o cara se resume a dois braços musculosos. Tudo bem se você preferir um pedreiro em tempo integral, tudo é uma questão de gosto. Tudo bem se você prefere comer uma garota com os glúteos tão rijos quanto seu pau. Tudo é uma questão de gosto. Mas é exatamente aí que você começa a perceber que a vida já não representa grande avanço e que as pessoas não estão demonstrando seu melhor. É uma mecânica que eu particularmente não aprovo, se é que aprovo qualquer coisa mecânica.

Enquanto isso vou escrevendo no ritmo que a inspiração mandar. Esperando a falência do mundo como espero do fígado. Vivo a vida em meia dúzia de latas de cerveja por vez. Exercitando a arte de menosprezar a humanidade e lamentar por estar certo. Vejo pernas e bundas e peitos passeando pelas calçadas. Pedaços de carne, por vezes suculentas, mas na maioria não passa de banha crua e molenga. Poucos cérebros, pouca consciência, nenhuma aptidão para tomar as rédeas de suas próprias vidas. Transeuntes vegetativos. Zumbis babando e escarrando e cagando. Não mais que isso. Um exército, se prestar bem atenção, não passa de uma massa de gente, um exército de seres repetindo gestos, imitando falas, frases e comportamento. São coadjuvantes da vida real, não se fazem notar.

Conversando com um amigo uma vez, ele me contava sobre uma transa que teve com uma garota. Ela despiu-se e deitou na cama de pernas abertas. Este meu amigo olhou a garota branca como um palmito e seu corpo não era tão diferente. Nada de peitos, o pouco de bunda que tinha a posição que ela escolhera não favorecia. O maior volume de carne que tinha em seu corpo estava na região do abdômen e o que foi bem pior, quando pensou em levantar suas pernas para ensaiar um frango assado pode reparar em restos de papel higiênico picados como quem limpou a bunda depois de cagar com uma marca de papel da bem vagabunda. Bêbado como estava na hora, ele pensou; já que estou aqui...
Bem, meteu-se dentro de uma camisinha e como um cientista maluco com sua veste protetora entrou de cabeça naquele mundo subterrâneo. Fico eu aqui pensando com meus botões; ainda não inventaram camisinha ou nada parecido que protege contra a humanidade, além da solidão.



Bento.

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segunda-feira, 20 de abril de 2015

GÊNESIS - O EVANGELHO SEGUNDO BENTO

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CAPÍTULO 1 - A MORTE


2:1 – Ao contrário do que pensam, não trata-se de um erro colocar o segundo capítulo e chamá-lo de Gênesis. Afinal, para entender tudo o que eu vou dizer, primeiro é preciso familiarizar-se com a morte, pois somos um amontoado de quase nada tentando dar sentido para coisa alguma. Por isso, este capítulo aqui começa pelo final. O fim da vida. Nascemos, morremos e se fizermos tudo certo, seremos felizes neste meio tempo. Não há muito segredo.

2:2 - Então depois de entender que inevitavelmente morreremos e poderemos ir para um lugar melhor ou não, entendermos que poderemos ir para lugar algum, aí sim começamos a conversar e a viver, que é só o que importa.

2:3 - Quero partir do princípio que tudo o que sabe sobre religião, de qualquer origem, bem, esqueça isso. Não há nada mais usurpador que a religião. Não há nada mais controlador que a religião, por isso, aconselha-se sempre afastar-se deste tipo de tendência. Nunca será possível tomar estar palavras como reflexão se já está prefixado em sua mente que existe alguém superior a você capaz de lhe dizer o que é certo ou errado. Você estará quebrando a única regra da qual é baseado toda esta resenha. Mas ainda aproveitando para esfregar na face de qualquer idiota que se opor a essas palavras; se somos todos a IMAGEM e SEMELHANÇA do Homem, não há porque eu ser mais ou menos que meu próximo. Veja que até Deus concorda com esta regra que sugerimos aqui.

2:4 - Este evangelho não é nem de perto religioso, mas claro, também temos os nossos dogmas e cultos e louvores.

2:5 - Você que tem o conhecimento deste evangelho saiba que poderá alcançar a glória sempre que quiser. Mesmo em casa, em sua solidão. Sempre valorize a própria companhia, pois ninguém poderá ser-lhe tão fiel quanto você mesmo. Algum grande poeta já disse que se não consegue ser uma boa companhia pra si, não será para ninguém, todavia isso é outra história. Esqueça as velas, exceto se fizer questão, o verdadeiro fio condutor da paz interior é definitivamente o álcool.

2:6 - Uma boa dose de algo quente e forte, ou gelado e constante te deixará bem mais próximo de seu "eu" interior. Ficar bêbado sozinho exige um alto nível de autoconfiança e autossuficiência. Nunca menospreze seu inconsciente, você pode aprender muito com ele. Isso é quase como uma meditação, mas mantenha os olhos sempre abertos para ver até onde sua imaginação pode levá-lo.

2:7 - Celebre a solidão, celebre a dor, celebre a garrafa inteira à disposição de sua libido. Se você vai fazer isso pela primeira vez pode colocar um ou dois dedos de água por dose, mas aconselho diminuir a mistura gradativamente, pois se quer uma alma pura que a dose também seja. Cigarros são bem vindos. Com isso você já está pronto para ir onde sua imaginação quiser. Ao passado, ao futuro, ao céu ou inferno. A noite é sua, faça o que quiser. Quando fizer isso há algum tempo, quando já estiver num nível superior, perceberá que não é mais refém da vontade alheia. Só você, as paredes e o destilado poderão ditar as regras.

2:8 - Sem a necessidade de outras pessoas, sabendo que pode muito bem se divertir sozinho, passará a escolher cada companhia e aproveita-las cada segundo. Não vai se deixar levar por qualquer proposta ou o medo de permanecer sozinho, afinal, volto a dizer; é e sempre será sua melhor companhia.

2:9 - Contudo, preciso alertá-los; aos olhos alheios, aparentará estranho, sujeito a críticas, olhares esguios, preconceitos e palavras incrédulas contra sua lucidez, mas saiba que sempre poderá contar com a compreensão de seus irmãos de bar.

2:10 - O bar sempre será o lugar onde achará proteção e a sabedoria de uma força maior; a cumplicidade e a capacidade de encontrar sujeitos em situações piores que a sua para aliviar um pouco a tristeza.

2:11 - O bar é nosso templo e nossa morada. Depois de nossas casas é o lugar mais sagrado e protegido. Onde compartilharemos historias e aprendizados com nossos irmãos. Onde ensinaremos e aprenderemos. Onde seremos professores e alunos, pois é importante que saibamos que sempre podemos aprender com o próximo, mesmo que seja uma nova marca de cerveja ou um jeito novo de assar uma carne.



Bento.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

GIULIARD BORSANDI IX

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Indica-se ler os episódios anteriores: GIULIARD BORSANDI VIII

Quando finalmente parei de correr percebi que inconscientemente ia à direção do Planalto Night Club, o bar que tem a Barwoman mais gostosa da cidade, Jamaica. Isso era um sinal do destino para que eu voltasse a beber. Bem, talvez o destino não tivesse nada a ver com isso, no entanto estava com sede e sóbrio, duas coisas que não combinam. Eu também precisava comemorar mais um caso encerrado, onde finalmente tinha pegado Janaina.

Na frente do motel, sabia que não teria mais que uma chance para tirar as fotos do seu caso, pois o flash denunciaria que eu era um cagueta mal intencionado. O monte de merda, digo, monte de músculos que estava com a mulher do pastor com certeza iria querer mostrar sua virilidade e tentaria arrancar a câmera de mim, assim como tentou. Ajustei a máquina para 10 poses simultâneas e esperei o momento certo e a sorte estava ao meu lado. Fechei o caso com dez fotos de um beijinho de boa noite, foi lindo.

Assim que Janaina e o retardado viram a luz do flash iluminar a rua corri como um maluco com o Pitbull em forma de gente no meu calcanhar, mas eu fui mais rápido. Sempre corri bem, hoje em dia não tenho muito fôlego por causa dos quarenta cigarros que fumo diariamente, então sabia que além de rápido eu teria que despistá-lo antes de meus pulmões desintegrassem e foi o que fiz. O cara era muito músculo e muito lerdo, provavelmente não exercitava as pernas.
Entrei no bar e comecei a ficar bêbado novamente.

 - Olha só quem apareceu novamente. Me recepcionou Jamaica assim que voltei a me sentar no bar - Se arrependeu e foi atrás da coroa?

 - Não. Fui terminar um trabalho.  Respondi.

 - E teve sucesso?

 - Muito. Vou ganhar um bom dinheiro e quem sabe tirar alguns dias de férias.

 - Humm bom pra você. Está mesmo com cara de quem precisa descansar. Disse Jamaica tocando meu rosto com a mão e logo depois ajeitando os pelos de minha sobrancelha. Era isso que me tirava do sério, mesmo com gestos simples parecia que ela sempre cuidava de mim.

Fiquei no bar mais algumas horas, quase até a hora de fechar e estava bêbado, muito bêbado.
Segui cambaleando até o escritório pelas ruas apertadas e idênticas do centro de São Paulo. Estava quase perdido, mas estranha e inconscientemente sabia em quais ruas virar e atalhos pegar. Bêbado que é bêbado sempre chega em casa. No meu caso, ao escritório. Eu estava cansado de andar, pode-se dizer que virei uma rua errada e logo depois me achei e voltei ao caminho certo, porém, essa esquina errada me fez andar por mais de meia hora sem necessidade. Na condição que eu tava, andar não era tão fácil como parece. Tanto tempo sem comer e a alta quantidade de whisky em meu corpo fez com que minha visão ficasse turva como se eu estivesse usando óculos fundo de garrafa sem precisar. Para conseguir acender o cigarro ou olhar as horas no celular eu precisava parar de andar e tapar um dos olhos com a mão. Então eu continuei andando e faltavam algumas travessas para finalmente eu poder esticar minhas pernas e dormir boas horas de sono no colchonete que guardo num canto do escritório do detetive particular mais bêbado do mundo.

O bom de estar alcoolizado é que aquela sensação maldita de solidão, baixa autoestima, depressão e autopiedade iam para o ralo com litros de urina que eu mijava de cinco em cinco minutos andando. Minha bexiga sempre foi uma merda. Talvez todos os bêbados do mundo usem esse argumento como desculpa para beber, mas no meu caso era uma verdade incontestável e eu tinha muita coisa para esquecer e me esquivar.


Após andar tanto, parei em frente a uma lixeira na calçada de uma agência do correio e coloquei boa parte do destilado que Janaina tinha me servido para fora em fortes jatos de vômito. Era pura água com cor de bosta e um cheiro horrível de algo podre e cítrico, era nojento. Mais um jato e depois outro e outro. Os olhos derramavam lágrimas por causa do esforço involuntário que o corpo fazia para expelir o álcool e o nariz derramava vômito misturado com catarro que juntavam-se com o líquido estomacal que saia da boca e era um festival de coisas nojentas e fétidas.


Bento.

domingo, 27 de abril de 2014

GOZOLÂNDIA ETERNA É PARA OS FRACOS. A MELHOR GOZADA É A DE AGORA

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De tempos pra cá tenho percebido mais que nunca que a idade inevitavelmente chega para todo mundo e eu não sou um privilegiado. A cada ressaca nova vejo os anos escorrerem entre meus dedos sem que eu possa fazer muita coisa para mantê-los como estão hoje. O corpo acusa e a recuperação é mais lenta. Ele quer me impor limites que eu nunca tive e com certeza não os tomarei pra mim a essa altura do campeonato.

Eu escrevo isso enquanto observo Roxanne caminhando pelo banheiro com suas pernas finas e seu andar elegante. Roxanne é minha aranha de estimação que vive no meu banheiro e fez de um buraco rente ao teto sua moradia, religiosamente ela sai de lá para me dar bom dia. Eu respeito o espaço dela e ela o meu.

Eu sou das antigas, com o passar dos anos passei a cultivar a barba para assumir a idade ao invés de escondê-la como todos fazem. É mais uma forma de expurgar as garotas de 18 anos e não é porque meu corpo está ficando velho, mas sim porque minha mente está velha faz tempo. Sou desses caras que vê mais romantismo na garota espremendo cravos nas costas do namorado que qualquer clichê exibicionista que se vê nas redes sociais por aí.

Por isso venho com meu saudosismo de velho para dizer que nem mesmo a ressaca se faz como antigamente. Eu não sei o que fazem os velhos da minha geração, mas eu tenho feito o mesmo que fazia há dez anos, com raras exceções e só o que mudou foi mesmo a demora de meu corpo em recuperar-se das bebedeiras, alguns cabelos brancos e por aí vai.

Uma garota leu meu último conto e fez uma declaração um tanto quanto dramática levando-se em conta que era apenas um conto. Porém eu sempre mastigo as coisas devagar para refletir sobre e talvez ela esteja certa, talvez meus olhos estejam ofuscados pelo hábito, o hábito da amabilidade com o singular, a coexistência com o sofrimento, a empatia com o flagelo. No entanto isso pode ser só sintomas de minha veia poética e caso seja isso, a garota estaria errada e foi só uma declaração um tanto quanto dramática. Porém, quem sou eu para falar de dramaticidade?

Sabe, eu sigo uma cartilha, apesar de algumas pessoas acharem que eu levo a vida sem lei ou regras eu sigo uma cartilha, coisas que eu penso como certo ou errado e esse tipo de coisa. Sigo conceitos e rituais, não passo sem o café e cigarros e são as primeiras coisas que eu faço ao acordar. Durante muito tempo eu fiquei sem pisar em riscas nas calçadas mas parei de repente. Tenho um pouco de superstição por isso sempre tenho um maço de cigarros extra e uma garrafa de algo forte, pois nunca sei quando a inspiração me tomará horas de cigarros e tragos numa quantidade incrível.

Esses dias tive uma crise de vômito ao ponto de desidratar-me. Coisa da idade. Há cinco anos atrás meu corpo não desperdiçava uma gota sequer de álcool.
Entre um vômito e outro alguém comentou: - Também, você bebe como se o mundo fosse acabar.

 - Mas vai que acaba. Respondi.

Quando a idade chega ela vem com um convite para a morte. Não estou dizendo que estou tão velho a ponto de morrer, porém uma hora todos morrem e eu não sou um privilegiado. Também não me apetece essa história de vida eterna e paraíso, isso só serve para postergar toda a diversão. Não se deixa para gozar - supostamente -  pela eternidade quando se pode gozar muito agora. Vamos lá, acredito que estejam entendendo meu raciocínio.

Uma das minhas qualidade é fazer festas que se arrastam por dias e já adianto, essas festas não são frequentadas por nenhum idiota que acredita nessa promessa de Gozolândia eterna, portanto todo mundo nessas festas procura sair satisfeito e geralmente saem. Essas festas geralmente acontecem nos meus melhores dias porque nos piores a última coisa que eu quero é um monte de gente perto de mim com a libido a flor da pele, bêbadas, tomando da minha cerveja e assustando minha gata para o telhado. Não se pode fazer festa o tempo todo simplesmente porque não se faz festa o tempo todo. Já falei muito aqui sobre as qualidades de uma boa solidão esvaziando garrafas.

Desses meu amigos, não há nenhum que não tenha pelo menos uma história de loucuras e apuros para contar da qual eu não estivesse envolvido e isso me leva a pensar no que minha mãe dizia quando eu era jovem: não se misture com má influência. Nesta época ela ainda não sabia que a má influência era eu. Então volto a dizer que se você busca a esporrada divina trate de não se aproximar, mas caso queira viver libidinosamente aperte os cintos, pois vou te apresentar algumas coisas e algumas pessoas.

Na festa mais recente que fiz um cara entrou no quarto com uma garota e ele saiu de lá duas horas depois como se houvesse apanhado de um peso pesado, com marcas roxas e arranhões. E esta garota só tinha quinze anos. Realmente o ambiente, as músicas e as companhias ajudam a aflorar o pior lado das pessoas, pior lado, claro, na opinião de vocês, pois na minha este é sempre o melhor lado.
Acredito que o melhor lado de qualquer pessoa é justamente aquele que a maioria das pessoas não aprovam. Já reparou como as coisas que são unanimidade geralmente são uma merda? Nelson Rodrigues já dizia isso há trocentos anos e isso nunca deixará de ser verdade.

Alguns amigos, até estes das festas, bem, estes amigos acham-me inquebrável, inviolável. Algumas garotas acham que eu sou intransponível e inacessível, mas digo que isso não passa de incompetência, talvez delas, talvez minha. Eu também já tive meu tempo de lamentar-me, só que já passou. Eu simplesmente desvio o olhar. E tudo que vejo é sempre sem muito apetite, pois nada é duradouro. Também sei que minha forma de pensar afasta mais gente do que aproxima. Eu poderia mudar isso, ou posso pensar que isto é apenas um filtro, ou não pensar muito nisso. As coisas são sempre como devem ser.




Bento.

quinta-feira, 6 de março de 2014

A SOLIDÃO É COMO AQUELA CALÇA JEANS FAVORITA

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Idiotas costumam denegrir os solitários, mas desfazer de uma boa e límpida solidão é burrice.  Os maiores gênios de nossa historia eram solitários convictos, singulares em todos os aspectos, homens que dialogavam consigo mesmo e isso prova que você é o melhor amigo que se pode ter. Só você. Mas tudo isso soa como um clichê imenso, o que eu quero dizer é que a maioria das pessoas, quase que em sua totalidade, não merecem sua companhia. Sim, eu estou dizendo que a maior parcela da sociedade sequer merece a bosta que cagamos, tamanha mediocridade, no entanto, isso é chover no molhado, pois de tão medíocres não se dão conta do que estão perdendo.

Isso é mais ou menos como o ser inútil que permanece próximo só que não ouve. Saber ouvir é bem importante, apesar de contraditório. Contraditório sim, com tanta ignorância desses invertebrados disfarçados de homens, mulheres, pais de família, ouvir é o caminho mais curto para a alienação. Saber ouvir e não ter senso crítico é o mesmo que estar numa guerra armado até os dentes, mas com seu arsenal apontado para o próprio peito. E nós estamos numa puta de uma guerra e estamos perdendo, cara. Olhe para o lado e me diga o que vê. Longe de mim querer ser o mensageiro de más notícias, nem quero que me confundam com algum profeta apocalíptico, mas este país vai de mal à pior. É o fim dos tempos e em algum momento seremos dominados pelos idiotas, como zumbis apontando seus dedos julgadores e fétidos para os que não se adaptarem aos idiotas. Um colapso nos aguarda. Nunca nossa política foi tão corrupta aos nossos olhos sem que ninguém se manifeste, nunca a indústria foi tão mesquinha e débil, a TV está dominada por pastores e ignorantes. As ruas já foram tomadas há tempos por bandidos e polícias corruptos e medrosos. Sem falar nos jovens dementes reboladores e sem cérebros. Se você consegue me compreender vai concordar comigo, porque acredite, a maioria não tem a mínima ideia do que eu estou falando, também pudera, sequer sabem o que estão fazendo.

Mas quero voltar a falar de solidão, que nestes tempos de guerra não é de toda uma má ideia. Só que eu também não sou o antissocial que alguns pensam, eu me misturo como todos os outros, é claro que com um pessoal seleto e mesmo assim, depois de algum tempo me misturando preciso me desintoxicar, preciso conversar comigo mesmo e a sós. Alguns imbecis confundem isto com carência, porém, se existe uma coisa neste mundo que não se deve levar a sério, esta coisa é o imbecil. A solidão é como aquela sua velha calça jeans favorita, que de tempos em tempos você tira do guarda-roupa para se sentir melhor. Existem algumas garotas que me lembram exatamente esse jeans velho. Mesmo com o passar dos anos elas continuam ali, conhecem seu corpo como ninguém, ajustam-se a ele como ninguém mais faz. Sabem o que você está pensando só de olhar. E por vezes você gostaria de tirar certas garotas do fundo do baú sem ressentimentos. A última coisa que se pensa, neste momento, são os acasos que os fizeram afastar-se, neste momento a garota vira uma santa e por alguns segundos você passa a se culpar. Mas é só um jeans rasgado entre tantas lojas oferecendo uma porção deles por preços baixíssimos e o melhor, jeans novos não vem com ressentimentos. Seria tudo muito simples caso nós não gostássemos de dificultar as coisas. Sim, temos o péssimo hábito de sentir falta das coisas que não possuímos mais, isso nos torna menos racionais, como se já fossemos muito. Então existem algumas garotas que nos causam isso e antes que me perguntam eu respondo; garotas também adoram jeans velhos. Eu mesmo sou um jeans velho de algumas, não há mal nisso e não é depreciação nenhuma assumir isso, afinal, jeans velho nunca sai de moda. Eu tive um amigo - e digo que tive, pois nos afastamos - que vou chamar de Fausto. Fausto tinha uma síndrome do jeans velho tão agressiva que chorava ao se masturbar pensando em suas antigas transas. Não era amor, nem saudade, nem arrependimento que magoavam Fausto, eram seus malditos jeans que ele procurava como um maluco dentro de seu guarda-roupa e não achava, às vezes, quando achava o jeans já não lhe servia mais e isso tornava seu momento de solidão um inferno.

Você pode se perguntar do porque alguns solitários se prendem ao passado ao invés de seguir com suas vidas em direção ao futuro e eu digo que é uma resposta simples; o passado é sempre mais real e palpável. Dizem que não se pode mudar o passado e eu digo que podemos sim. Podemos torná-lo mais tragável, podemos mudar os culpados pelas tragédias de tempos atrás colocando a culpa nos outros ou em nós mesmos, fazemos isso o tempo todo. Toda vez que se olha para o passado ele mudou um pouco, pois é o que somos, um bando de moldadores de passados solitários. Por isso é tão mais difícil olhar para o futuro, pois este nós não controlamos nada, tudo pode acontecer, para o bem ou para o mal e o fato de não saber e não ter poder sobre ele nos afasta cada vez mais, fica mais fácil correr até uma costureira e mandar apertar um pouco a cintura daquele jeans velho.


Bento.

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terça-feira, 10 de setembro de 2013

QUAIS SUAS INTENÇÕES COMIGO?

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Sei que pode ser um pouco tarde para lhe perguntar isso: mas quais as suas intenções comigo? Pareço agora um pai inquisitor do século passado, mas qual a sua intenção comigo, ou melhor, quais eram suas intenções comigo? Afinal, acredito que isso já virou passado. Para mim virou passado recente, para você nunca foi presente, sequer futuro.

Bem, adianto-lhe: minhas intenções com você sempre foram as piores possíveis. Desejei lamber-te dos dedões dos pés até as orelhas. Passando por suas costelas à mostra devido a magreza e chupar-te até desatar a esfera do piercing que tenho na língua com a ajuda de sua pélvis. Incessantemente, incansavelmente, prazerosamente. Abriria mão de minha ereção, apesar de ser inevitável, afinal, trazendo-lhe tanto prazer eu chegaria ao ápice da libido tão logo. Claro que como um gentleman que sou, só após você, primeiro as damas. No entanto, quais suas intenções comigo?

Desculpe-me o linguajar. Talvez não esteja acostumada com tanta sinceridade, pelo menos com uma verdade tão invasiva. Só que sou um homem que já não tenho nada mais a perder. Quais as suas intenções comigo?

Ora, ora. Não quero que pense que minhas intenções com você tratam-se somente de libido, todavia eu já expliquei-me tanto sobre todas as outras coisas que me tornei clichê e eu odeio clichês. Para não cometer tamanho pecado com minha literatura deixo de lado e falo somente sobre o que ainda não disse. Menos açúcar, mais limão e neste caso, me dou razão quando digo: o limão é sempre mais azedo quando está só.

Abro um parêntese agora para dizer que nossa atual relação de ação e reação através da escrita é o mais próximo da realidade do que qualquer diálogo que tivemos durante meses Só que sinto em dizer: Foi fraco, bem fraco. Fico imaginando sua vontade de dar uma resposta aos meus textos e penso que ainda falta muito. Precisa praticar mais. Eu já achava que você era melhor que isso, hoje não tenho tanta certeza. Na intenção de usar palavras fortes para despejar toda sua melindragem em forma de insultos no máximo faz lamentar-me, não pela tentativa de agressividade, mas pela mediocridade do insulto. Eu creio que merecia, pelo menos, um texto melhor. Não é opinião, é a verdade. Gosto assim.

Deixando todo o clichê de lado e destilando toda a minha amargura de solitário por todo o processo de enclausuramento que eu já citei antes assumo que de todas as suas opções eu sou talvez a pior. Talvez? Não, não. Sou a pior opção de todas as opções em toda a história. Enquanto você, que diz utilizar-se da razão está mais que certa. Mas qual a sua intenção comigo? Pois se for como amigo, esquece! Sou o pior amigo de todos os tempos. Um amigo horrível, tanto que eu mesmo desdenho de minha amizade.
Tenho amigos com filhos que sequer conheci. Tamanho meu insucesso em amizades que estes filhos atingirão a maioridade, entrarão na faculdade e sequer terão um rosto ou um timbre de voz para ligar a minha imagem. Logo, não cometerei a heresia de ser seu amigo. Jamais!

Pode me chamar de cuzão, covarde, caipira, bundão, calhorda. Crie insultos se quiser, tão criativa que tu és, estará sempre certa. Só não me peça o que eu não posso te dar. Como amante sou melhor, sempre fui.
Melhor que ser filho, irmão, amigo, empregado, fui amante. Não sempre, mas aprendi com os erros. Talvez devido aos traumas, me tornei um amante incrível e um ser humano péssimo. Sou desatento e escroto até comigo mesmo, mas me cobro para ser um amante venerável. Os fins justificam os meios.

Quais são suas intenções comigo?

Insulte-me, me bata, me maltrate, porém me ame. Eu até gosto de uns tapinhas de vez em quando. Uma vez ganhei um tapa no rosto em público tamanho a canalhice que fiz e me senti orgulhoso. Não por ter sido canalha, claro que não, mas por tamanho sentimento que aquele tapa significou. Ninguém estapeia outra pessoa por nada, sem motivo. Expurgue-me, porém me deseje.

Ou você pode continuar com sua autoflagelação e vitimismo fazendo de si o veneno do mundo. Entretanto confesso-lhe que este não é seu melhor personagem. Eu sei, porque já atuei na mesma peça, com o mesmo personagem e ele cai melhor em mim, mesmo assim abandonei-o, mesmo traindo minha vaidade. Fez um sucesso danado, só que neste caso, o fim não justifica os meios. Por muito tempo ele impregna na pele e é quase impossível largá-lo. Saia dessa antes que seja tarde. Caso contrário tornar-se-á uma poetisa ranzinza igual a mim e já temos tanto em comum não precisamos de mais. Prefiro perder-te para outro alguém do que para você mesma.



Bento.

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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

VÉSPERA DE QUINZE DE AGOSTO AINDA ME INCOMODA

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Existe uma literalidade dentro de mim que não cabe ao autor julgar se tens qualidade ou não. Isso pode impressionar às vezes, pode causar estranheza em outras, até alcanço certos objetivos interessantíssimos por meio desta, só que não me apetece. Mas tenho de confessar, um dia houve a caretice cravada em meu peito que arranquei-a sem medo de sangrar. Não que eu me esforce para isso ou aquilo, as coisas simplesmente acontecem. Para alguns eu sou só um metido a poeta e o que escrevo não tem significado nenhum. O que eu posso dizer? Sou um poeta autossuficiente e deixei as amabilidades já faz algum tempo. É preciso lamber a sarjeta para sentir o sabor das minhas letras.

Eu passo muito tempo pensando nas anomalias características de minhas escolhas imprecisas e inconscientes, sem expectativas, sem lamentações no final, pois com o tempo você se acostuma sempre com o pior de todo mundo. Outro dia me disseram que meus textos, minhas histórias, são todas muito cheias de depressão, cabalísticas talvez. Eu digo que são só mais próximas da realidade, da realidade da maioria, afinal nem tudo começa com "era uma vez" e termina com "felizes para sempre" como todo mundo espera. Algumas pessoas passam a vida toda como se estivessem nus em plena Avenida Paulista e morrem com a solidão do sol, bom só quando longe, bem longe.

Por um bom tempo da minha vida eu vivi nos piores lugares da cidade, bebendo coisas da pior qualidade, pois nos meus bolsos tinham apenas cigarros amassados e algumas moedas para manter-me por fora da realidade por algumas horas. Muitos pensam que beber é como fugir, ou um ato de covardia e isso não é nem de longe verdade. Na verdade é de uma imbecilidade do tamanho do mundo, uma coisa que beira o ridículo e a ignorância. É preciso culhões para abrir as portas dos seus mais profundos sentimentos e consciência. É preciso coragem para querer descobrir a verdadeira personalidade que escondemos por debaixo da máscara e de nossos conceitos básicos de regras que escolhemos como base para forjar a imagem que desejamos que o mundo veja. Não é fácil abrir mão disso e não é fácil conhecer-se verdadeiramente, é bem possível que não gostemos do que vemos. É isso que o álcool faz com você, liberta-o das mentiras, da mediocridade de podar a insanidade aprisionada neste corpo.

Durante muito tempo eu via-me morando num porão úmido, com a companhia de lesmas, ratos e baratas. Traças e teias de aranhas faziam a decoração do lugar e havia textos e músicas espalhados por todas as paredes. Talvez tenha sido a minha pior fase, ou o final dela. É preciso estar no fundo de tudo, no cú do inferno astral, é preciso enfiar a cabeça na merda para buscar fôlego e sair dela depois.  Eu não estou dizendo que todos precisam conhecer o abismo da morte para continuar vivendo, algumas pessoas passarão pela vida sem sequer compreender o motivo de tudo ou de nada. Porém, não conheço nenhuma pessoa que valha a pena ser citada que não tenha passado por boas sucessões de insucessos. Depois disso, tudo muda e você não vai querer ser outra coisa. Quando sentimos algo à flor da pele, queremos que tudo seja assim e viciamos. Só que a maioria das coisas e pessoas são tão insignificantes que elas não nos bastam, queremos mais e mais. Viciados em sentir.

Bom, hoje eu me vejo em tempos bem melhores e não dou a mínima, pelo menos não dou o valor que eu dava há anos. Alguns hábitos nunca nos abandonam. A visão do submundo nunca nos deixa. Então quando ouço sobre fossos de lamentações entre outras coisas me soa como convite para um parque de diversões.

E depois de passar por escuridões e por algumas vinganças contra meu próprio ego, mesmo depois de tudo, as vésperas dos dias quinze de agosto ainda me incomodam, assim como um peito mofado me faz querer passear por ele.


Bento.

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sábado, 12 de janeiro de 2013

O QUE É MEU É SEU E O QUE É NOSSO É SÓ SEU


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Eu já tive crises existenciais sobre minha escrita. Daquelas de pensar em tocar o foda-se e não escrever uma linha sequer. Digo isso pelo fato de por um bom tempo achar que as pessoas deveriam ler o que escrevo e entender da forma que eu gostaria. Interpretar do jeito que transpirei cada palavra e vírgula, mas isso é de uma utopia tamanha. Quando você vai ao cinema e paga para assistir um filme o final é de quem escreve, a história é de quem escreve, mas a sensação que você tem quando a tela escurece, ou quando joga o saco de pipoca no lixo é só sua.

Quando você ouve uma música a história é do autor, mas a emoção das lágrimas é só sua e de mais ninguém. E é aí em que tudo faz sentido. Um texto nunca é só um texto, um conto nunca é só um conto. São vários dentro de um mesmo esqueleto, como se houvessem várias personalidades dentro de um mesmo indivíduo. É só por isso que escrever é um ato tão solitário, a companhia está nas letras que preenchem os espaços vazios como a alma. Os nomes das personagens de um livro são do autor, do âmago mais profundo de uma imaginação doente de vaidade, mas a face, o tom da voz, os cenários, os sorrisos, são frutos da imaginação de cada leitor. Ninguém pode prever nem controlar isso. É como a primeira impressão, você não conhece nada de um sujeito que acabaram de lhe apresentar, no entanto já tem todo um perfil e uma história improvisada na sua mente sobre ele que, claro, depois de se conhecerem melhor você verá o tamanho da discrepância da realidade para o que acreditou ser.

Cada linha, cada estrofe, só é assinada para alimentar e fomentar a vaidade do artista, pois, na prática, o dono é quem lê, não importa para onde a história te leva, sempre é possível dar um rumo diferente se quiser. Cada obra é uma vida sem destino.



Bento.

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sexta-feira, 27 de julho de 2012

BEATAS DE CAUSAS PERDIDAS

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Sempre disse que a mulher é o ser de mais fé que existe no mundo. Beata de causas perdidas.
Nada é por acaso, as palavras "esperança" e "fé" só estão no feminino por ser inspiradas na força de vontade da mulher.

Toda mulher acredita que pode consertar tudo e todos. O cafajeste só existe porque a mulher insiste que pode fazer com que ele tome jeito. Mesmo com o fracasso de tantas que vieram antes, elas sempre acham que podem.

Ao criar um filho também não é muito diferente. O pai desiste depois de algumas tentativas frustradas, "esse não tem jeito mesmo". Já a mãe nunca abandona a cria. Santa esperança.

A certeza que eu tenho de que Deus não pode ser uma mulher se deve ao fato de que até Ele desiste em algum momento. Se não buscar Sua ajuda não terá nada. Já o diabo só pode ser uma mulher, afinal, por mais bom moço que seja, o diabo sempre espera que você desvie do caminho. Ele espera, não importa quanto tempo demore, ele tem esperança e tem tempo para isso.

Só que a mulher não tem todo tempo do mundo, logo, perde anos preciosos de sua vida acreditando em relações de uma mão só. Relações onde somente ela se arrisca, somente ela se doa, somente ela deseja.

Alguns homens tem fé como as mulheres, porém são raros.
A paciência de esperar da mulher é compreensível, afinal, até para dar a luz ela espera vários meses. Espera a primeira menstruação. Espera o príncipe encantado e o baile de quinze anos. Sempre esperando sem perder a esperança.

O que a mulher não sabe é que não se pode entrar numa guerra onde o inimigo não a deseja nem como amigo, nem como adversário. É entrar numa luta já como derrotado. Ninguém se arrisca por algo que não vislumbra, ninguém briga por algo que não almeja. O que tiver que ser seu, será. Afinal, é o Destino que dá as cartas desse maldito jogo mesmo. Nós não passamos de pessoas que portam as fichas. E blefar nesse jogo só nos faz perder mais e mais, por isso, só aposte na mão que está à seu favor.

Não se pode implantar amor onde não se pode implantar amor. Simples como os defeitos, não? Você pode plantar amor num solo fértil, aí sim, as chances de vitória aumentam consideravelmente. No entanto, se você já pratica a jardinagem de sentimentos durante meses e o solo não corresponde, não é agora, em período de seca de atenção e companhia que vai germinar o tal do amor que tanto deseja. Velhos ditado não são velhos por acaso e poucos são tão válidos quanto "quando um não quer dois não brigam".

Lutar por amor sozinho é como ser atirado num campo de batalha desarmado. Desculpem-me se insisto no comparativo de amor e guerra. Mas é isso que o amor é. Uma guerra entre a solidão e a felicidade. O bem contra o mal, onde só podem haver dois vencedores, ou nenhum.

Só que já adianto. Tudo isso é só suposição, pois quem é que entende essas coisas de amor? Ninguém, ninguém...


Bento.

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sábado, 9 de junho de 2012

O PERDEDOR NEM SEMPRE É O MAIS TRISTE, PENA


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Eu tenho alguns ídolos na minha vida. São pessoas nas quais eu me inspiro e me identifico.
Sempre gostei dos mais polêmicos, os mais autênticos. O anti-herói. Os que sofrem no final e depois do fim.
Os que perdem ou acham que vencem, mas perdem. Os dramáticos e solitários.
Abdiquei desde a infância de torcer pelos mocinhos pé no saco e chatos como corrida de São Silvestre.

Digo isso porque após anos, eu na mistificação de tornar o passado fresco - ninguém faz isso de caso pensado, eu não sou diferente disso, adianto - fico pensando sobre como é possível idolatrar uma lembrança. É como assistir um compacto de jogo de futebol e mesmo sabendo o placar final torcer para o atacante perna de pau fazer aquele gol perdido debaixo da trave, ou rezar para que o goleiro pegue aquele pênalti que mexeu o placar. E se sentir maravilhado com o jogo do campeonato passado mesmo com seu time perdendo.

Essas lembranças que me trazem você para perto por reflexo me faz chegar à conclusão que sou seu fã e só não peço autógrafo pelo fato de já ter um, dedicado ao meu nome, com cheiro e coração ainda guardado na caixa de charutos que chamei de "CAIXADE PANDORA DE AMORES FINADOS" num outro texto.

Sou presidente-fundador e único membro do fã clube mais antigo dedicado a você.
Não nego não nego. Busco sim algumas informações sobre sua vida, mas na maioria dos casos são os paparazzi que insistem em me manter informado sobre affaires, festas e aquela coisa toda de ídolos que deixam os fãs satisfeitíssimos de compartilhar.

Em resumo, sou seu fã por tudo que você pôde e pode fazer e eu não. Sou fã de sua beleza e sua liberdade de pensar e agir, não necessariamente nessa mesma ordem.
Sou seu fã por saber enganar-me - e aos paparazzi - tão bem e só deixar vazar notícias felizes. Eu não. Como já citei acima, invariavelmente gosto da dramatização, do final trágico e épico. E isso, claro, é culpa sua. Mas não vou entrar neste mérito.

Prefiro reforçar que tenho em meus ídolos uma inspiração e você definitivamente é a campeã em me inspirar. No intuito de fazer bem a você e mal para mim partindo, me deixou de presente um leque de opções e a força de me levantar da lona após o nocaute. E ainda hoje, sempre que dá o ar da graça - aliás, me pego pensando no último sorriso de meses atrás e não consigo desvendá-lo - sou atirado contra a lona e obrigado a beijá-la, porém me levanto antes do fim da contagem.

E caio, levanto, caio, levanto. Ali no ringue, na disputa de pontos perdi de lavada e continuo caindo e você permanece me vencendo.

Mas para quem ainda não entendeu eu repito pela última vez:
Sempre gostei dos mais polêmicos, os mais autênticos. O anti-herói. Os que sofrem no final e depois do fim.
Os que perdem e acham que vencem, mas perdem. Os dramáticos e solitários.


Bento.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A MORTE DA BEZERRA

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Dias nublados sempre me deprimem e pedem para que eu fique em casa escrevendo. É como medo do escuro, nojo de barata e dia religioso. Nublou, minha cama fala comigo: Psiu! Volte a deitar.
Não é só preguiça.

Então levanto e vou trabalhar, claro. Preciso ganhar dinheiro, pois escrever não paga meus cigarros. Curioso que ultimamente o fato de não ganhar nada para escrever tem me afetado mais que antes. Quer dizer, nunca me afetou, mas de uns tempos para cá...

E me perguntam: vai ficar em casa sozinho? Evidente. Com quem mais?
Quanto menos melhor. Às vezes só o que preciso é lidar com o silêncio. Ou mais que isso, é colocar os pensamentos em ordem, fazer o que bem quiser. Talvez eu tenha me tornado antissocial, se é que isso existe. Porém não me vejo aturando uma imbecil do meu lado só para dizer que tenho companhia. As coisas não são tão simples quando se é sincero como eu.

No caminho para o trabalho começo a pensar sobre isso, olho as garotas que passam e me pergunto sobre o que elas pensam? Funk? Um sapato novo? Na morte da bezerra? Não, obrigado.

Conheci uma garota um tempo atrás e ela tinha uma bela bunda. Mais que isso eu estaria exagerando. E o que eu iria fazer? Não posso conversar com uma bunda, contar piadas para uma bunda. Posso abraçar, até beijar uma bunda, mas o que eu faço, levo a bunda para jantar? Não, obrigado de novo.

Existem coisas maiores nesse mundo. Vejam meu caso, estou num metrô lotado, absurdamente lotado, me contorcendo para continuar escrevendo esse texto que vou publicar sabe Deus quando.
As pessoas estão todas estressadas e eu não sou diferente. Gosto muito do silêncio e do vazio para me animar com um cenário desses.
É um ambiente típico de terceiro mundo e nessas situações não existem cidadania nem gentileza. É cada um por si numa corrida para o trabalho e quem chegar no horário vence. Eu mantenho o equilíbrio graças aos fones de ouvido, mas no tumulto do entra e sai dos vagões eu agradeço por proibirem o porte de armas.

Agora basta. Não gosto de falar sobre isso, afinal, não vai mudar, as pessoas não mudam. São todos como a bunda. Andam, falam, até se excitam, mas não pensam.
Se pensam, é somente no Funk, no sapato novo e na morte da bezerra.


Bento.

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domingo, 22 de abril de 2012

PARECE CLICHÊ

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Parece clichê.
Sei que isso é um tiro no pé, um antisserviço contra minha própria escrita.
Começar um texto com a palavra "clichê" é isso. Um tiro pela culatra.
Digo isso, pois, ninguém gosta de clichês, na verdade, logo eu corro o risco de não ter um leitor sequer. Na verdade, todos gostamos de clichês, mas pensamos não gostar, dizemos a nós mesmos que não gostamos, mas gostamos. Músicas clichês, cantadas clichês, roupas clichês. Se perguntar, ninguém gosta de clichê.
Então, quando eu assumo logo na primeira linha do texto que trata-se de um clichê, as pessoas se assustam. Paciência.

Vamos então ao clichê em questão.
Tenho um conhecido, uma amizade recente eu quero dizer, que pode se tornar amigo ou não, o tempo vai dizer.
Esse conhecido chama-se Rubens. Este é um tipo Bon Vivant, vive a beber, fumar e fazer sexo com inúmeras garotas.

E logo as pessoas o rotulam de todos os nomes possíveis que caracterizam seus atos como canalha, cafajestes, galinha, só para citar os mais comuns.

Eu mesmo um dia desses falava ao Rubens: Reclamas do que Rubens? Todos por aqui o invejam pela vida que leva.

E Rubens me respondeu com seu sorriso de diabo que me fez entender. Primeiro vou falar do tal "sorriso de diabo". Existem sorrisos espontâneos, tem aquele sorriso de quando vemos uma criança acenando para nós, o sorriso amarelo quando somos pegos na arte. Sorriso do diabo é um sorriso que não emite felicidade, emite desespero. Emite solidão e desesperança.
Neste sorriso só sorri os dentes e a boca, os olhos não.

Claro que eu só fui perceber a diferença do seu sorriso quando Rubens me contou.
Contou que todos adoravam a vida que ele levava, menos ele. Todos queriam parte do que ele vivia, menos ele.
Rubens então com os olhos marejados dizia viver a procura de algo que ele, em algum momento, no meio do caminho esquecera o que era.

Ele continuou então sua história revelando a existência de um ex-amor. Ele deu esse nome, mas não sabia se era ex, ou se era amor. Então o amor se foi e ficaram as sobras. Sobras estas que ele tratou de tentar afogá-las com álcool sem sucesso. Tentou matá-las com sexo, muito sexo e não via méritos nisso.

Eu mesmo que fico sabendo das coisas sempre em penúltimo lugar, pois o último, dizem ser sempre o corno, eu mesmo já sabia de umas duas dúzias de amantes de Rubens.
Ele dizia saber menos que eu, não que não fossem verdadeiros os números, mas não queria lembrar.
Só o que ele sabia é que não conseguia amar ninguém, não gostava de ninguém.
Talvez nem dele mesmo.
E me mostrou a ironia quando disse que quem ele amava o odiava e quem o amava, ele desprezava.

Então eu via Rubens e sua multidão de amantes que ele mesmo gostaria de negá-las, de esquecê-las. Era um conquistador sem mérito, sem glória, ele dizia. Não fazia força, simplesmente acontecia, muitas vezes eram as garotas que ofereciam suas carícias e ele carente como todo homem largado aceitava mesmo sabendo que se arrependeria no momento seguinte.

Eu bebia meu conhaque, ele o dele, e pensava com meus botões o que poderia dizer para acabar com aquele desabafo incomum, digo, parecia-me muito triste o relato sim, sincero também, não duvidava nem por um momento de sua tristeza, mas eu também pensava naqueles que queriam ter todas as mulheres que Rubens tinha em seus braços. E não pensem vocês que a quantidade diminuía a beleza, eram todas lindas, cada uma com suas características, mas ainda assim, lindas.

Rubens que pareceu ler meus pensamentos, após passar todo o conhaque que havia no copo pela sua goela de uma vez só, me disse com um olhar suplicante: É uma maldição, Bento.

E ao ver sua suplica fiz o mesmo com meu conhaque. Apontei o dedo para ele: Rubão, faça só o que tens vontade! Só o que tens vontade...

Não sei por que o dedo em riste, talvez eu quis colocar a mesma dramaticidade na minha frase, assim como tinha feito Rubens na sua. Logo eu recebi a réplica: Mas e os domingos? O que eu faço com os domingos?


Bem, essa... Eu não soube responder.


Bento.



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sexta-feira, 23 de março de 2012

QUEM NÃO FALA SOZINHO É O PIOR DOS SOLITÁRIOS

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Sempre digo que tenho imã para malucos, loucos, débil mentais, retardados, desafortunados, doidos varridos, leprosos, petistas, apolíticos, amaldiçoados, delinquentes, crentes, bêbados, depressivos e bêbados depressivos. O que é bem pior.

Minha mãe sempre disse para me misturar com pessoas iguais ou melhor que eu e eu levo isso comigo até hoje.

Dizem que nós atraímos exatamente àquilo que transmitimos e eu jamais vou discordar.

Por isso mantenho a promessa de um dia ter um pequeno apartamento no centro de São Paulo. O centro é o lugar que existe o maior número de malucos por metro quadrado do mundo todo. É um eterno tributo ao Raul Seixismo e como me vejo no maluco beleza e em sua dedicação de aprender a maluquice da vida.

Gosto dos malucos, pois não dependem de nada no caminho da felicidade. Sempre digo que quem não fala sozinho é o pior dos solitários. E o maluco é o maior dos tagarelas.
Fico pensando na excentricidade e na falta de limites do doido e chego a conclusão de que é isso que o mundo pede de você todo o tempo. Viva sem limites e seja original. (já vejo brotando a semente louca dentro de alguns coraçãozinhos ao ler isso) "eu também sou maluco, ora, veja" estão dizendo alguns. Outros devem estar pensando "eu também quero ser maluco, como eu faço?" e ao invés de buscar na internet eu lhes adianto o resumo da resposta: VIVA. Busque a vida e pare de tentar sobreviver.

Apesar de excêntrico, o maluco, como uma flor, não deixa notar-se quando morre. Ou você acha que os loucos do centro da cidade vivem para sempre? Morre e nem se vê, nem se fala. Não atrapalha o ir e vir da cidade que não para. Com exceção, em alguns casos, quando são forçados a morrer.

Estou lembrando agora um catador de papel que andava pelo bairro na minha infância. Ninguém sabia o nome dele, mas nós o apelidamos de "Verdade" e explico. Verdade era um negro, baixo, e usava um boné de eleição, não me lembro se de prefeito ou vereador, mas era um boné de eleição. Vermelho era o boné.
Verdade tinha uma carroça, dessas de pegar papel e bagulhos e sempre parava em frente ao mesmo poste que contava com o nome da praça e fazia o mesmo gesto. Tirava o boné como faziam os mais antigos na hora do cumprimento e ficava a conversar com o poste. O curioso é que ele mexia os lábios, mas não conseguíamos ouvir o que dizia, a única coisa audível era o "É verdade, é verdade...".
A praça tinha o nome de Platão, e ali ficava Verdade conversando talvez com o próprio e ouvindo os conselhos do grande filósofo. Em busca da sua própria verdade.

Sem me estender demais sobre o Verdade, digo que ele, um dia parou de passar pela velha praça. De repente, alguém perguntou, não sei se um garoto, ou a dona do bar, talvez o funileiro ou um qualquer, alguém notou e perguntou:- Cadê o Verdade? Sumiu.
Por isso digo que o maluco só se deixa notar quando quer, que é
quase nunca.

O mundo, tenho por mim que foi feito pelos doidos, para os doidos. Veja Adão, era louco porque amava. Mesmo depois de Eva ter trocado o paraíso por uma simples maçã continuou a amá-la.

O débil grita quando tem de falar baixo e sussurra quando tem de gritar, afinal, quem disse que tem de ser ao contrário?



Bento.


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domingo, 26 de fevereiro de 2012

TODO POETA É TRISTE POR PROFISSÃO

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Ser sozinho é observar o silêncio como um semelhante.
A solidão é a madrasta rechonchuda que compartilha de suas derrotas, mas nunca o seu sucesso.
A solidão será sempre mais requintada, sempre mais bela e admirada. É por isso que filmes dramáticos sempre ganham o Oscar e não as comédias.

Esse negócio de "tô sozinho, tô feliz" é tão inventivo como os contos que eu crio.

O solitário não é feliz porque não tem com quem compartilhar a felicidade, não tem com quem dividir piadas e sorrisos e rir sozinho é tão constrangedor como chorar em público.

O feliz esconde o sucesso com medo de lhe roubarem a felicidade. Já o solitário é exibido, faz questão de chamar atenção, por isso alguns suicidas preferem morrer com platéias.

O solitário não é infeliz pela abstinência de felicidade, ele é infeliz pela overdose de autopiedade.

Mas uma coisa devemos admitir, o solitário será sempre mais intelectual, pois tem mais tempo para refletir sobre os problemas do mundo na esperança de resolvê-los diante da impossibilidade de resolver os próprios problemas.

Toda solidão deve vir sempre acompanhada de uma boa dose de pessimismo, assim como o vinho para ser bom tem de ter rolha.

É dessa intelectualidade que surgem os poetas e todo poeta é triste por profissão. Assim como o solitário é autodidata, não existem escolas para poetas.

O diploma do poeta é o insucesso na vida sentimental. Só é reconhecido quando passa, no mínimo, por mais de três casamentos. Exceto se a morte vir antes.

A diferença do solitário e o feliz é que o solitário tomou consciência de que a felicidade é algo impossível de ser alcançado, só que mesmo assim não desiste, pois apesar de pessimista todo solitário é teimoso. Já o feliz é iludido e acomodado.

As pessoas tomam o solitário como o exemplo a não ser seguido, "tudo que ele disser, faça o contrário e assim será feliz" o que nem sempre é verdade, afinal grande parte deles agem diferente do que dizem.

Você deve se perguntar "por que os solitários não se juntam e são felizes?" É simples, nem os solitários se aguentam.
Principalmente aqueles que passam o tempo todo lamentando o sofrimento.

O feliz se aproxima do solitário porque a tristeza alheia potencializa a felicidade, no entanto a recíproca é verdadeira e assim, permanecem solitários.

Outra coisa do solitário é que ele é exigente demais, ele não vai entregar-se diante de qualquer declaração de amor. O feliz sim vai até se enganar diante de um falso amor porque tem medo da solidão, mas não o solitário, pois ele já é mestre na arte de ser sozinho.

E é por isso que no meio de tanta tragédia, roubos e corrupção ainda tem gente que deseja com todas as forças ter seu peito invadido e o coração roubado.

Ter seu corpo tomado pelo terremoto de uma paixão, mesmo que de verão e ter seus pensamentos e sonhos sequestrados por um bandido ou bandida linda, sexy, compreensiva, carinhosa...


Bento.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

DE CORPO E ALMA

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É incrível como seu corpo acusa exatamente os sentimentos mais profundos de sua alma.

O ódio é anunciado pela garganta seca.
As mãos trêmulas entregam o nervosismo.
O medo faz a pele perder o brilho e a cor.
A ansiedade divide as borboletas do estômago com a paixão.
A solidão pega o tempero do paladar para si.

E a sua felicidade causa tudo isso nas outras pessoas.


Bento.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

BOLA DE SABÃO

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Quem é você? Onde está que não atende minhas chamadas? Chamadas maquiadas de intransigência.

Quem sou eu que estou aqui a imaginar donde estas e me pego pensando quanto tempo é necessário para compor-me refrão para alguém? Ó vida real...

Quem é você que supunha que o amor nunca fora o bastante e suportou a distância como quem nascera para isso? E é possível que nascera.

Quem sou eu para criticá-la se ao menor sinal de fumaça eu mesmo ateava fogo no meu próprio corpo na intenção de chamar sua atenção. Como os índios. Olha eu aqui ó!

Quem é você que passou pela minha vida e como um arrastão levara tudo o que havia de mais valor? Amor, alegria, sonhos e até o coração. Ficaram os anéis, o cofre, os carros, a prataria, ou seja, nada que eu pudesse penhorar em troca de barganhar qualquer sentimento.

Quem sou eu que ainda assim mantinha a oração agradecendo por ter você em minha vida, mesmo não tendo mais?

Eu descobri quem é você, pena que fora tarde demais.

Descobri quem sou eu, um trago num dia frio e cinza que pode ser bom ou ruim, porém sempre levará alguém a ilusão da capacidade de ser aquilo de que não pode.

Você é o amor que estava no ar, se foi com o sopro, que deu vida a bola de sabão, que subiu ao céu e explodiu.
Deixando pedacinhos de solidão.


Bento.

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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

LENÇOS UMEDECIDOS

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Ao caminhar sente o peso dos olhares em suas contas.
Ah! Mas aqueles olhares...
O que são aqueles olhares?
Nada mais que entretenimento gratuito da suposição de caráter.
Utiliza-se como panos umedecidos, desobstruem os poros da face fazendo nascer o sorriso límpido e joga-o fora.

Continuemos fazer valer a obstinação do dedo gangrenado para que tenhamos do que reclamar. Olá! Eu não me excluo disso. Mas estou do outro lado da moeda, aquele com cara de paisagem olhando o desdém.

Observo e é tão claro quanto um albino, não está dando certo, nem o seu problema, e é um enorme problema, partindo do princípio que você não quer ver, ou vê, mas não aceita. Ou aceita, no fundo da sua alma você aceita, mas tem medo. Vê que gigantesco problema agora? Já os meus problemas são mais numerosos e irremediáveis, logo, quando caio na inutilidade de me preocupar trato logo de regar as lembranças com uma boa dose de esquecimento.

Agora já estou em outro canto esquivando-me da luz e vejo o quão solitário é brigar num relacionamento de um só indivíduo.
Formam-se DRs solitárias que duram horas, sozinho, todos de acordo, ninguém discute. Da DR não há o 'D' de discussão e tão pouco o 'R' de relação. Então é o quê?

Risos e mais risos e maquiamos os buracos que a vida tratou de estocá-los em nossa face, e permanecem abaixo do pó e só será revelado no quarto com o dramático e sincero lenço umedecido.

Quero frisar que se às vezes maquio uma análise ou comentário, se troco os fatos pela analogia é em prol da observação, assim forço um pouco mais o exercício de interpretação de cada leitor.
É mais ou menos como na vida selvagem que o animal a notar que está sendo observado foge para esconder-se. Digo que a fiscalização por aqui tem sido grande e não faltam personagens para tomar cada história para si.

É bem verdade que ao observar o coelho prestes a ser devorado pelo coiote, surge o mais comum reflexo de ajudar o coelho, nos de bom coração é bem mais comum. No entanto o coelho nem sempre quer ser salvo.
Em alguns casos o leão quer salvar o coelho para trocar a refeição de estômago. Concorrência animal ou puritanismo momentâneo?
Leões só são amigos de coelhos feios, eu insisto em dizer. Sei que a analogia pode parecer indigna do texto e o autor pode parecer indigno da escrita, porém, querer que o leão se torne vegetariano é pedir demais. É a natureza.

Ah! Mas a fé das mulheres, sempre tão apegadas ao credo que chega me dar inveja. Pena que são fiéis sempre do santo do milagre errado.

Agora penso que estou de repouso na coroa da estátua, observando...

Observo e vejo a tentativa de se mostrar tão segura, tanta segurança traduzida pela fala alta e os palavrões constantes, ou é segura a ponto de manter-se fora dos padrões, ou ainda não sente segurança para se padronizar.
Segura ou não, o padrão, neste caso como regra, à de ser excesso, um excesso maravilhoso.


Bento.

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domingo, 3 de julho de 2011

ESCREVENDO CARTAS

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Sempre fico atento com as frases postadas nas redes sociais porque elas refletem exatamente as ansiedades, os medos e os perjúrios dos locatários dessas lascas de dor escrita.

Reparei também que elas possuem validade, sei disso, pois algumas frases que colhi e até mesmo as que criei mudam de sentido com seu estado de espírito e grau de solidão.

Quem nunca recebeu um e-mail com um texto romântico e achou piegas no momento em que leu? Saiba que o mesmo texto pode te fazer chorar numa possível fossa futura, afinal essa é a magia dos textos e dos poetas. Fazer com que pareça que cada letra foi dedicada a ti. Quem não quer ser musa ou muso no momento de carência? No momento que fomos abdicados de todo afeto e importância de outrora.

Por isso um texto nunca envelhece.

Ah! Mas quem dera se o amor fosse assim, quem dera se os diminutivos e apelidos melosos fossem mantidos até depois da rotina, talvez não houvesse a própria.

Mas note que você pode usar quantas frases quiser, do poeta que escolher. Nem Shakespeare poderia ser tão singelo, tão intimista, e tão verdadeiro quanto você num momento de perda.

Aprendi isso com uma antiga namorada que nunca se contentava com as letras de músicas que dedicava a ela.
Ela queria mais, ignorava minha voz, ela queria mesmo era ouvir minhas entranhas.

Ela queria palavras soltas mesmo que sem sentido para que pudesse colocá-las em ordem como um quebra-cabeça.

Ela não queria a obrigação da rima.

Ela queria erros de português, seu coração batia mais forte ao ver o rabisco da caneta Bic provando que houve dúvidas na tentativa de demonstrar o tamanho do amor.

O rabisco é a tentativa de agradá-la ainda mais. E quanto mais rabiscos mais amor, pois o amor não pode ser passado a limpo.

E amor sem dúvidas não é amor, sem medo não é amor.


Bento.

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