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segunda-feira, 16 de julho de 2018

GOTAS DE SANGUE REPOUSAM EM MINHAS BOTAS PRETAS ep2


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Imagem de Apollonia Saintclair


Finalmente é segunda feira e o celular desperta freneticamente até que eu o escuto. Abro um dos olhos apenas para apertar a opção soneca e repito isso várias vezes até que acordo finalmente. Preferia estar morto, mas tenho que trabalhar. As contas não serão pagas sozinhas e os problemas no escritório não serão resolvidos sozinho.
Primeiro o cigarro como de costume. Me apresso o máximo possível para fazer o café? Claro que não. Não me arrisco à levantar da cama antes de terminar o primeiro cigarro. Enquanto isso penso em dezenas de motivos para não ir trabalhar e nenhum deles me convence.
No banheiro descarrego todo o álcool que bebi há dias com certa dificuldade já que o pau está tão duro quanto um pedaço de madeira. Chega a doer e por isso decidi terminar na pia para facilitar. Já estou atrasado antes mesmo de começar e preciso fazer café.
Fico me perguntando por que afinal eu já não faço café antes de dormir para que já o tenha pronto quando acordar e chego a conclusão que de noite estou bêbado e só consigo pensar se tem ou não álcool suficiente para alimentar meu vício.

Café pronto, volto ao banheiro para beber e fumar e pensar na vida. Na verdade não há muito a ser feito exceto ir vivendo os dias conforme o Destino nos apresenta. Todas as conversas inúteis, as amizades falsas, os mendigos pedindo esmolas. Todos os olhares de escanteio por causa de um sapato diferente, um penteado mal arrumado, um pelo na barba fora do lugar. As pessoas mais estranhas parecem comum para outras e isso funciona também com ações e todos fingimos sermos educados em busca de aprovação e eu não sou diferente. Não para buscar aprovação, mas para não levantar suspeitas, já que no dia anterior deixei quatro cadáveres para trás. Assim que saio do banho ouço rádios de polícia na minha porta e vou olhar pela janela. Na verdade estão em frente a casa do vizinho. Alguém não voltou para casa naquele domingo. Ouço os policiais comentando sobre a cena. Palavras como banho, sangue, massacre parecem querer erotizar a coisa toda. Porém são só pessoas, mortas, bem como animais são mortos em abatedouros todos os dias e ninguém dá a mínima. Não vejo como somos tão diferentes deles. Fedemos e matamos tanto quanto. Enfim chegam à minha casa perguntando se ouvi ou vi algo e nego dizendo que cheguei tarde no sábado e passei o domingo dormindo. O que não é de todo uma inverdade. O policial parece compreender já que está com uma cara de ressaca tão incriminadora quanto a minha. Muito simpático para um policial. Não quis esticar muito o assunto talvez pelo meu roupão de banho ser rosa com grandes flores lilás. Não o culpo, mas o roupão era de uma garota que esqueceu ao partir da minha casa. Peço um cigarro e ele tem. Só não é dos meus. Pena. O meu estava acabando e antes de nos despedimos ele pergunta como eram os vizinhos ou se eu havia presenciado alguma briga entre o casal. Digo que não pois não fico muito em casa já que estou sempre trabalhando, por fim entro e vou me vestir.
Muitos policiais, muito barulho. Pessoas amontoando-se na rua para tentar ver alguma coisa. Um ou dois carros da imprensa, mas nada demais. Só mais um crime banal na cidade grande. Cada vez mais as pessoas estão habituadas à violência e sangue e crimes e famílias inteiras matando-se por motivos fúteis. Crimes passionais, crimes por motivos mesquinhos e tudo o mais. Ninguém se importa, só querem ver, saber para poder ter assunto no almoço com o pessoal do trabalho, postar no Facebook ou YouTube. Mas na verdade, ninguém se importa realmente que dois casais morreram assassinados num almoço de domingo. Um simples almoço de domingo. A sociedade está calejada de crimes ediondos tão ou mais devastadores que este. Nem morte de crianças impacta esta geração. E eu sigo andando pela rua à caminho do trabalho.
Meus cigarros finalmente acabam e acho melhor não parar na padaria perto de casa. Muitos policiais me deixam nervoso e a segunda feira mais a ressaca já mexem demais com meus nervos. Continuo andando até um mercadinho e peço minha marca favorita. Só temos Eight, ela diz. Com um sorriso simpático que me dá nojo. Sorrisos simpáticos forçam você a devolvê-lo com mais simpatia e eu já sou obrigado a trabalhar e conviver com pessoas que eu não gosto, sorrir para elas é sacrificante para mim. Pergunto se não tem outra marca, ela diz que não, mas que aqueles cigarros importados ilegalmente do Paraguai são ótimos também. Eu estou prestes a sair com sua negativa, mas depois de querer me oferecer cigarros ilegais, que sonegam impostos, que não geram empregos, que matam nossa economia, sem falar na saúde de quem os consome, foi praticamente como cagar na minha cara e querer que eu agradeça depois. Sempre com aquele sorriso simpático de merda colado em seu rosto enrugado de quem abriu um mercadinho para ajudar na aposentadoria.

Decidi colocar meu sorriso mais simpático no rosto e digo que vou aceitar sua sugestão e assim que virou-se acerto o lado de sua cabeça com a máquina de cartões. Ela cai para o lado como um presunto gordo e velho. Dou a volta no caixa e passo a pisar em seu rosto com minha bota de solado militar. Uma, duas, três... Até que sinto quebrar algo como a casca de um ovo quebra ao ir para frigideira, então paro. Satisfeito, mas com uma puta vontade de fumar. Limpo a sola da bota na calça da velha até ouvir um barulho vindo do fundo do mercado. Um rato escondendo-se do gato, estava satisfeito e calmo, mas não poderia deixar ninguém para trás. Seria injusto com a velha e comigo. Na geladeira pego uma garrafa de cerveja, um bom trago com certeza ajuda qualquer crise de estresse. Geladinha, quase de doer o dente. Me aproximo sem muita pressa, mais um gole e acho o rato. Um garoto, não mais que dezesseis anos, magricela como uma garota se escondendo atrás do balcão de pães e frios. Ele se assusta soltando um grito agudo assim que quebro metade da garrafa no balcão derramando o restante da cerveja. Acho um desperdício jogar fora metade do líquido delicioso principalmente quando é importada, mas são ossos do ofício. Agarro seu cabelo com força pressionando contra os pães e a garrafa corta-lhe a garganta entrando bem fundo enquanto o garoto está abaixado com lágrimas nos olhos. Gotas de sangue repousam em minhas botas pretas. Fácil de limpar. No relógio ao lado dos frios reparo que estou atrasado. Não era um bom dia até eu sair da cama, mas as coisas estão melhorando. Cigarros! Lembro que preciso fumar.
Parto em direção à porta. Fui inconsequente penso. Alguém poderia aparecer nesse ninho de rato e eu ter de acabar com mais um cadáver na conta. Ao passar pelo caixa, reparo, ao lado da caixa registradora, quase não notei. Como sou burro! Ou sortudo. Danadinha, digo ao corpo da velha morta atrás do caixa. Se tivesse falado que era fumante... E ainda mais da minha marca favorita. Pego o maço na caixa registradora, retiro um e foi um trago delicioso. Devolvo o maço. Melhor correr para o trabalho.


Bento.


domingo, 10 de janeiro de 2016

AS RELIGIÕES, AS PUTAS, A MÚSICA E AS ARTES CÊNICAS, TUDO ESTAVA VAZIO

Imagem de Apollonia Saintclair

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Alarme falso.
Uma vez levantei e corri para o banheiro ainda com as remelas grudando os olhos, com muito sacrifício sento no vaso e percebo que eram só gases. Achei que iria cagar, mas fui ludibriado pelo peido. Já que estava ali decido terminar o cigarro antes de levantar.

Isso às vezes acontece e não é só dos gases que falo. Há muito alarme falso na minha vida. Um dia desses mesmo, jantei e passei mal. Comi, deitei e foi só encostar a cabeça no travesseiro e a boca encheu d'água, era o vômito se anunciando e sei que vão lembrar que eu digo que nunca vomito e é verdade. Há dois dias eu não bebia e gorfei todo o almoço e janta na privada. Bebi água e voltei correndo para ajoelhar de novo no chão do banheiro e colocar o resto de Deus-sabe-o-que para fora. Depois de três, quatro vezes que bebi água e voltei a vomitar decidi tomar uma dose de whisky. Batata! Alarme falso. Pensei que iria morrer, mas era só falta de álcool. Pensei no whisky, pois já não havia nada para por pra fora.

Poucas coisas são tão ruins quanto vomitar. Seu corpo vira autônomo e decide que você não vai sair do banheiro enquanto ele não mandar. Mesmo quando tentamos lutar contra, os músculos da barriga deixa claro que somos fracos insistindo em colocar para fora tudo que ele não quer mais. De qualquer forma, há momentos que é melhor por cima que por baixo. Hoje mesmo, estou há alguns dias sem beber. Não tenho um centavo no bolso e enxuguei todas as garrafas que tinha em casa. Acreditem, até o enxaguante bucal com álcool acabou. As coisas passam a ter outro sentido quando se está sóbrio. Eu sinceramente não entendo como as outras pessoas aguentam o mundo sem alguma coisa para ficar doidão. Mesmo assim fui trabalhar num calor de cinco infernos e eu com um humor de querer morder os cachorros na rua. Uma ou duas vezes tive vontade de correr atrás do rabo só para ver se tonto, as pessoas ficariam menos tediosas. Na empresa desligaram o ar-condicionado por causa do racionamento de energia e eu transpirava como um macaco. Por vezes tive de ir ao banheiro lavar o rosto e percebi minhas mãos trêmulas. Talvez eu precisasse de um médico, mas com o dinheiro que eu NÃO tenho não podia me dar ao luxo de perder um dia de trabalho. O espelho mostrava meu rosto cansado de quem tem uns quarenta anos e eu ainda não cheguei nos trinta. Estranho como quando estamos alto por causa de uma birita não reparamos nessas coisas. Os fios brancos da minha barba brilhavam como sabres de luz de Star Wars. Bebia água como um desesperado para repor o líquido que perco devido o calor e também por hábito de estar sempre bebendo algo. Mastigava a água até, pois tinha fome como um mendigo. O café da máquina era péssimo como água de um copo sujo de cinza de cigarro.
O cigarro era outro problema. Estava prestes a acabar, por isso eu fumava metade e apagava para guardar a outra metade pra mais tarde. Não damos o devido valor a um cigarro até perceber que é o último do maço e que não existe outro maço. Eu poderia usar isto como metáfora para muitas coisas nessa vida medíocre, mas até escrever é difícil quando se está sóbrio. Sempre odiei poetas sóbrios. E vendedores sóbrios, artistas sóbrios, balconistas sóbrios, enfim. Acho que me fiz entender.

O fato é que tudo me lembrava álcool. As pessoas exalavam álcool. Tudo piorou quando a senhora da limpeza me deixou maluco depois de limpar minha mesa com álcool perfumado e caprichou tanto que eu me segurei para não acabar lambendo o móvel. A secretária, por alguns instantes ao me passar um telefonema me deixou confuso e eu tive que pedir para que ela repetisse o recado que aos meus ouvidos soaram como "quer que eu te leve uma cerveja bem gelada"? quando na verdade ela perguntou se eu queria que retornasse ao Bezerra do almoxarifado que estava atrás de falar comigo e já tinha ligado duas vezes. Eu respondi que não podia falar no momento. Precisava de um cigarro, de muitas cervejas e um chinelo para amenizar o calor. Pernilongos pairavam sobre nossas cabeças e eu poderia comê-los na esperança de terem picado algum bêbado por aí e quem sabe absorver um pouco de etanol misturado com sangue. Talvez não fosse a primeira vez, pois já misturei álcool com tanta coisa. Última vez que me lembro misturei xarope à vodca para curar uma tosse e de quebra a gripe. Sempre fui bom de improviso. Uma vez estava tão falido que tive que usar o Bom-Ar como desodorante porque não tinha nem para comprar uma Minâncora, não via problema algum em pegar um pouco do álcool hospitalar que a empresa comprava para a limpeza dos banheiros e alcançar uma pequena brisa sequer.
Se eu tinha esperança que ao transpirar evaporasse um mínimo de álcool que continha em meu fígado ou estômago entrando em minha corrente sanguínea agora já se fora. Eu estava sóbrio e duro. Que vida ingrata. De pensar que eu já havia dado tanto lugar para velhinhas sentarem nos ônibus e como Deus me retribuía? Sem uma gota sequer de álcool para aturar essa vida maldita. Sentia-me tão desambientado neste lugar como quando estive num noivado evangélico à base de refrigerante quente e salgadinhos frios. E a maior prova de que essas igrejas não são de Deus é eu acreditar piamente que ao adentrar qualquer lugar sagrado eu entraria em combustão tão rápido quanto um acendedor de churrasqueira e muito disso devido ao álcool tomando meu organismo. Mas não agora.

Pensei em churrasco e me deu calafrios. Lembrei da cerveja no gelo e sal grosso. A carne grelhando. Infinitas batidas e caipirinhas de todas as frutas da temporada. Precisava sair dali e beber alguma coisa antes que enlouquecesse, se é que já não estou louco. Eu poderia matar o primeiro que surgir na minha frente e beber de seu sangue com um canudo se tivesse a certeza de que aquilo me tiraria dessa realidade maluca e tediosa. Já estava ouvindo vozes. Mate mate mate mate!!!!!!!!!! As veias pulsantes no pescoço fino e liso da garota que senta-se à mesa ao meu lado. Morda! Arranque um pedaço! Mastigue! Corte, esquarteje, pique, beba!! Beba!! A voz continuava. O calor e os mosquitos me irritavam. O ar, o barulho e até o silêncio me tirava do sério. Estava enlouquecendo. Os barulhos das teclas que as outras pessoas insistiam em pressionar. O click do mouse, as ventoinhas dos computadores, os ácaros nos carpetes todos malditos barulhentos. Simplesmente não conseguiam ficar em silêncio e respeitar a minha dor. Me ofendiam apenas por estarem vivos e existir. Mate mate mate mate!! Aquela voz continuava. Eu precisava sair dali, mas minhas pernas tremiam. Meu corpo tremia. Eu desejava mais que a vida um copo, umas garrafa de algo amargo, forte, rasgando a garganta ao descer. Batendo no estômago e me lembrando que estou vivo. VIVO! E que a vida podia ser melhor que esses pedaços de carne ambulante que perambulam por aí com seus sorrisos falsos, suas peles oleosas, seu fedor. Eu precisava matá-los, precisava limpar o mundo desses nojentos. Mas mais importante, eu precisava beber, então minha faxina rancorosa poderia esperar. Sentia firmeza nas pernas pela primeira vez no dia e corria. Saí dali e corri até o hall. Não tinha elevador disponível então corri pelas escadas. De dois em dois degraus tropecei duas vezes e quase parti a cabeça ao meio. Do lado de fora do prédio continuei correndo e fui como um alucinado até o bar mais perto que conhecia e estava fechado. Continuei correndo e encontrei mais bares fechados. Nem era feriado, era um dia de semana como qualquer outro. Corria e corria e mais bares com suas portas de aço abaixadas e trancadas e mercados fechados, padarias e Casas do Norte, mercearias e qualquer lugar que vendia álcool estavam fechados. Finalmente avistei um posto. Continuei correndo e a loja de conveniência estava fechada então tive uma ideia genial. A bomba! Claro. A bomba de etanol, álcool puro e da fonte. Parei ao lado do frentista sem fôlego. Não sei dizer como consegui correr tanto. Não com os trinta cigarros diários. Mas logo que parei comecei a sentir o resultado de tanto esforço. Meus pulmões colados nas costas e sem ar. Minhas pernas começaram a tremer novamente. A garganta seca quase não permitia que eu falasse. Álcool! Álcool, pedi ao frentista. Ele não entendeu e então eu repeti e tive que fazer um esforço enorme para isso. Álcool! Me dê um pouco de álcool. E daí que era álcool automotivo? E daí que aquilo poderia corroer meus órgãos e me matar? Eu já estou morto. A sociedade estava morta. Com todos os seus demônios e sua hipocrisia e suas doenças. Herpes, AIDS, gonorreia, mau hálito, caspas, furúnculos anais, hemorroidas, diabetes, gastrite e um mundaréu de enfermidades. E os gordos, os idosos, os pais de família. Eu só precisava beber. Morreria por uma gota de álcool e para melhorar o meu dia, o frentista olhou bem nos meus olhos, sem respeitar meus sentimentos e jogou a realidade toda em meus ombros novamente.

- Não temos nenhum combustível. Estamos vazios. Ele disse.

Vazios! Claro que estão. Não só o posto. O mundo estava vazio. As religiões, e as putas, a música, e as artes cênicas, tudo estava vazio. De um vazio absolutamente tedioso e é por isso que eu precisava de álcool. Então eu corri. Continuei correndo como se não houvesse amanhã e possivelmente estava certo. Vi a avenida. Os carros indo de um lado para o outro com seus condutores e suas vidas patéticas e vi um caminhão. Enorme e vinha rápido. Vinha como quem estivesse atrasado para algo. Dois passos. Apenas dois passos seria o suficiente para dar cabo daquilo. Dois passos e o caminhão espalharia meus órgãos podres devido o consumo excessivo de álcool pela avenida. Fazendo uma festa de sangue e pele e tripas. Dei os dois passos e esperei. Mais espera. Em toda a minha vida não houve um segundo sequer que eu não estivesse esperando alguma coisa. O garçom trazendo meu drink, a garota sair do banheiro para transarmos e um monte de outras coisas. Travei os dentes com toda a força que restava em meu corpo. Era a hora e quando estava a um milímetro de distância, tão perto que podia sentir o calor do radiador em minhas narinas, no último instante, fui surpreendido com o som do contrabaixo de Lemmy tocando Aces Spades saindo do meu celular. Era o despertador me acordando para ir trabalhar de novo.

Então, você que lê isso agora, se é que há alguém lendo isso, deve estar respirando aliviado achando que estou contando apenas um sonho que tive. E tudo seria maravilho se realmente fosse isso mesmo. Um sonho e pronto. Porém, hoje completa 36 dias que não consigo sair deste sonho. Todos os dias, sem exceção, o contrabaixo, o alarme falso do peido, o calor, os bares fechados e o caminhão. Tudo de novo e novo e de novo. Preso num ciclo vicioso, infinito, como um rato correndo em sua roda dentro de sua gaiola. Sempre igual. Sempre. Igual.



Bento.

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terça-feira, 22 de setembro de 2015

SÓ QUE SOMOS SÓ UM AMONTOADO DE CARNE, BANHA, PUS E TRIPAS

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É curioso como podemos fazer coisas repetidamente, todos os dias, mecanicamente e nunca nos darmos conta. Como um aparelho doméstico, funcionando e funcionando e é só. Dias atrás eu me vi no meio do caminho para o trabalho e sequer me dei conta de como fui parar ali. Simplesmente parei e pensei; mas como foi que vim parar aqui? Olhei-me e estava vestido, com as chaves, cigarros e celular no bolso, tudo em ordem. Cabelo penteado, passei a língua nos dentes e estavam escovados, mas eu não me lembrava de ter feito nada disso. Digo, lembro-me de acordar e acender um cigarro e depois disso PUFF! Qualquer memória foi pro saco, como se eu estivesse ficado bêbado e aparecido ali, acordado do porre ali. Só que era de manhã e eu estava indo trabalhar. Tudo daquele momento para trás se perdeu. Não lembrava dos cigarros que fumei, nem das canecas de café que tomei. Não lembrei de ter cagado, de tomar banho, de pegar o ônibus ou o metrô, de nada. Estava ali automaticamente, fiz o caminho inconsciente porque eu faço todos os dias. Não lembro da cara de cu do cobrador, não lembro dos velhos que fazem questão de acordar cedo e encher o transporte coletivo. Não lembro dos gordos que ocupam o dobro de espaço num transporte que já não cabe mais ninguém. Não lembro se li meu livro, se usei o banheiro da estação. NADA. Só lembro de estar ali, no meio do caminho para o trabalho como faço todos os dias. Um lapso? Seria loucura? Finalmente minha mente estava pedindo, ou clamando, por uma aposentadoria? Então meu corpo vagaria por aí sem mim ou sem minha mente, ou eu seria apenas um passageiro de meu corpo, sentindo, vendo, cheirando, porém sem controle nenhum sobre qualquer músculo. Com consciência, mas sem autonomia. Espectador da minha própria vida. O interessante é que meu corpo, em carreira solo, possivelmente teria mais sucesso que eu (quem não teria?). Talvez eu esteja com dislexia. Talvez eu esteja morto sem me dar conta, mas as contas continuam chegando, então estou vivo, pois os cobradores são os primeiros, a saber, das nossas vidas ou mortes. Reparei que quando me dei conta do meu lapso eu estava andando rápido, quase correndo, mas por quê? Bem, estou sempre atrasado e também estava naquele dia, mas se sempre estou atrasado então qual a diferença? Correr por quê? Aliás, esta é uma pergunta que eu vivo me fazendo e eu não consigo responder nunca.

O Tédio. O Tédio e as outras coisas. Por quê? Pra quê? Acordar por quê? Levantar pra quê?
Por que comer se daqui a pouco estarei com fome novamente? Por que tomar banho? Por que tenho que sair de casa? Por que levantar da minha cama? Trabalho todos os dias, de segunda à sexta, o mês inteiro, pago as contas e começo tudo de novo, por quê? Pelo final de semana? Trabalho exclusivamente pelo final de semana. É nisso que minha vida se resume? Trabalho e final de semana. Uma semana toda de martírio para poder passar o final de semana todo na minha cama esvaziando garrafas. Pra quê? Por quê?

As pessoas são decepcionantes, a vida é decepcionante. Talvez você ainda não tenha passado por situações ruins suficientes para perceber que nenhum de nós vale o esforço de um pequeno músculo sequer. O curioso é que todos nós nos superestimamos. Sempre achamos que somos um pedaço de carne selecionado por Deus. Inventamos que existe alma apenas para nos sentirmos importantes, só que somos só um amontoado de carne, banha, pus, tripas, tudo isso misturado com altas doses de egocentrismo. Todo homem acha que seu pinto é maior e melhor que os dos outros. Toda mulher acha que trepa melhor que todas as outras. Tem caras que gastam o que não tem para comprar carros enormes e caros para se sentirem mais e melhor. Mulheres que colocam silicone e passam horas no salão de beleza tentando ser a droga de uma boneca inflável ambulante. E aí você pensa; o cara se resume a dois braços musculosos. Tudo bem se você preferir um pedreiro em tempo integral, tudo é uma questão de gosto. Tudo bem se você prefere comer uma garota com os glúteos tão rijos quanto seu pau. Tudo é uma questão de gosto. Mas é exatamente aí que você começa a perceber que a vida já não representa grande avanço e que as pessoas não estão demonstrando seu melhor. É uma mecânica que eu particularmente não aprovo, se é que aprovo qualquer coisa mecânica.

Enquanto isso vou escrevendo no ritmo que a inspiração mandar. Esperando a falência do mundo como espero do fígado. Vivo a vida em meia dúzia de latas de cerveja por vez. Exercitando a arte de menosprezar a humanidade e lamentar por estar certo. Vejo pernas e bundas e peitos passeando pelas calçadas. Pedaços de carne, por vezes suculentas, mas na maioria não passa de banha crua e molenga. Poucos cérebros, pouca consciência, nenhuma aptidão para tomar as rédeas de suas próprias vidas. Transeuntes vegetativos. Zumbis babando e escarrando e cagando. Não mais que isso. Um exército, se prestar bem atenção, não passa de uma massa de gente, um exército de seres repetindo gestos, imitando falas, frases e comportamento. São coadjuvantes da vida real, não se fazem notar.

Conversando com um amigo uma vez, ele me contava sobre uma transa que teve com uma garota. Ela despiu-se e deitou na cama de pernas abertas. Este meu amigo olhou a garota branca como um palmito e seu corpo não era tão diferente. Nada de peitos, o pouco de bunda que tinha a posição que ela escolhera não favorecia. O maior volume de carne que tinha em seu corpo estava na região do abdômen e o que foi bem pior, quando pensou em levantar suas pernas para ensaiar um frango assado pode reparar em restos de papel higiênico picados como quem limpou a bunda depois de cagar com uma marca de papel da bem vagabunda. Bêbado como estava na hora, ele pensou; já que estou aqui...
Bem, meteu-se dentro de uma camisinha e como um cientista maluco com sua veste protetora entrou de cabeça naquele mundo subterrâneo. Fico eu aqui pensando com meus botões; ainda não inventaram camisinha ou nada parecido que protege contra a humanidade, além da solidão.



Bento.

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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

SOU O JESUS CRISTO DO RUM [A BARBA]

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Então eu estava muito nervoso. Era noite. Daqueles dias cansativos que você demora mais pra voltar pra casa que o período todo de trabalho. E o relógio te informa que em algumas horas você já precisará estar de pé e acordado novamente para ir trabalhar. Só que você não quer dormir. Você quer aproveitar a noite. Olha pela janela e vê a lua que te convida a beber e se divertir. Mas isso é só para quem tem direito. Nós trabalhadores não podemos. Nós, telefonistas, pedreiros, balconistas, eletricistas, encanadores, professores, vendedores, motoristas, lavadores de carros, limpadores de vidraças, atendentes, expositores, estoquistas, dentre todas as outras coisas, nós não temos este direito. Nós apenas dormimos e acordamos e trabalhamos, pois o mundo precisa de nós. O mercado e a economia precisam de nós. Inclusive aqueles que têm o direito de beber numa noite dessas, no meio da semana, eles também precisam de nós. E eu estava lá, em frente ao espelho, vendo meus olhos cansados de acordar quase sem dormir, querendo sair e me divertir sem poder. Mas confesso que antes de chegar em casa passei no boteco e pedi duas doses. Da forte. Por este motivo, talvez, eu quisesse trocar a janta pelo gargalo de uma boa cerveja gelada. Eu disse uma?

Um calor de sentir-se sujo. Duas doses no estômago depois de um dia cansativo e já me sinto poderoso. Quase como quando ouço The Doors no último volume. Olho no espelho e sou só sobrancelhas e bigode e barba. O cabelo já passa da hora de cortar e sinto calor. Lembro-me que escondido na cômoda, para as horas de emergência, tenho um meio litro de rum pela metade. Já ajuda em alguma coisa. Para fazer durar mais adiciono em cada dose dois dedos d'água. De meio faço quase um inteiro. É o milagre da multiplicação. "Sou o Jesus Cristo do rum", eu grito sem me importar com os vizinhos. Um pirata com a barba ruiva tomando rum como quem bebe água. Mais uma dose e agora fico nu para suportar o calor, mas ainda não é suficiente. Meu rosto não faz questão de esconder as marcas do tempo e dos incontáveis porres. Das noites sem dormir. Dos desamores. Há muito que contar em cada ruga, cada cravo, cada pelo de barba. E a barba? Enorme, com pelos eriçados, rebeldes, precisando aparar, mas que tempo tenho? Quando minhas horas de descanso reservam-se para dormir e beber e escrever. Algo me incomoda e a barba pode ser quem vai pagar o pato. Então entre o cigarro aceso e mais uma dose de rum eu acho a tesoura e começo a cortar a barba. A cada chumaço de barba largada no lavatório é um pouco de sofrimento que vai pelo ralo. Leva tempo para manter uma barba deste tamanho. Porém, não mais tempo que economizei quando optei por não perder tempo fazendo a barba.

A verdade é que de lua, como sou, por vezes preciso de uma grande mudança em minha rotina para sentir-me vivo. Vivo e ativo. Vivo e útil. E ainda tem a garota do Bourbon que permanece preenchendo meus finais de semana. Uma linda esta garota. De uma paciência ímpar. Também pudera, para me aturar, somente tendo uma paciência de monge tibetano, mas ao invés disso, ela é descendente de nordestinos mesmo, talvez seja isso. Além de paciente ela é quase tão preguiçosa quanto eu, logo, não se importa de ficar deitada tomando cerveja, falando sobre qualquer coisa e transando.

Não existe muito mais o que se possa querer numa garota quando esta não reclama de seus cigarros, sua vontade incontrolável de algo alcoólico e seu vício em sexo, dito isso, por vezes eu abro mão de meu casulo para levá-la em lugares que queira ir, afinal, quando se está com uma garota como ela é preciso abrir mão de algumas coisas para mantê-la por perto. É uma via de duas mãos. Não se pode viver sem abrir mão de coisas. Abri-se mão da cerveja importada de trigo para poder investir em quantidade de cervejas nacionais e assim poder comprar garrafas que vão te deixar suficientemente bêbado. Abre-se mão, por vezes, da garrafa de Bourbon importado para poder tomar um bom café da manhã a cada três dias de ressacas consecutivas. Abre-se mão de comer em restaurantes boca-de-porco, que servem comida como quem serve para um batalhão, com quase um porco inteiro frito em seu prato clamando para ser saboreado com as mãos para poder impressionar uma garota num restaurante que serve comida como se fosse alpiste, com pratos decorados como aquela tia perua. Vivemos abrindo mão de coisas esperando conseguir outras, porque ainda somos daqueles que têm que escolher entre dormir ou aceitar o convite da lua que nos chama para beber e ficar bêbado e vomitar metade do que bebemos para poder beber mais e não lembrar do que fizemos na noite passada. Nós ainda somos os telefonistas, pedreiros, balconistas, eletricistas, encanadores, professores, vendedores, motoristas, lavadores de carros, limpadores de vidraças, atendentes, expositores, estoquistas, faxineiros, porteiros, zeladores, carteiros, ajudantes, auxiliares... E continuaremos até que a morte nos convide para dançar.



Bento.

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terça-feira, 14 de julho de 2015

AINDA HOJE NÃO SEI O QUE É SER CHUPADO POR UMA BANGUELA

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Uma vez estava eu saindo de um motel afastado, quase de improviso, com uma das garotas mais safadas que eu já conheci. Íamos do motel para o metrô e lá cada um de nós tomaria um curso diferente. Eram duas quadras e eu andava como um coxo, tamanha a dor no saco, pois eu transara com toda a força que tinha e ela queria mais e mais forte. Nem o homem mais forte do mundo poderia saciá-la. Eu pelo menos tentei. Mas foi a dor no saco mais deliciosa que eu me lembro.

Uma outra vez, estava em casa, numa daquelas festas que eu costumo fazer sem motivo e sem data para acabar. As pessoas apenas vão chegando e trazendo bebidas e trazendo mais gente que também vão trazendo mais bebidas e bem, parece nunca ter fim. Até que alguém gorfe, e outro alguém apague, uma garota ou duas urine nas calças, e em cada canto da casa tenha alguém transando ou tentando transar. Calhou que neste dia me sobrou o banheiro do meu quarto e era a terceira vez que eu entrava ali com uma garota diferente. Pela janela do banheiro ouvíamos a conversa sem sentido de bêbados falando sobre nada e gargalhadas insanas. Ela ajoelhada e eu resolvi que era um bom momento para umas palmadas em seu rosto. Primeiro um tapa, depois dois e vocês sabem como isso funciona. Ela nem parecia que gostava nem que não, mas de repente decidiu revidar e seus braços eram mais fortes que os meus. De supetão levei um tapa no rosto de baixo pra cima que quase me deixou sóbrio de novo, porém estava bêbado e o tapa fora tão forte que pendi para trás como quem estava prestes a cair. Então a garota dos braços mais fortes que os meus agarrou meu pau e me puxou junto dela impedindo minha queda. Poucas vezes me vi surpreso, mas nada supera o tapa, a quase queda e ser laçado por meu próprio pau. Rimos disso e ela continuou a fazer o que estava fazendo. Decidimos parar com os tapas por hora.

O que quero dizer com isso é que são sempre as pequenas coisas que me marcam. A minha memória que quase funciona raramente deixa passar esses pequenos momentos de que somos escolhidos pelo Destino para aprontar de bom humor. Não há muito que se esperar das pessoas nesta bagunça que chamamos de vida. Não há muito que esperar nem de nós mesmos, mas esses momentos simplórios fazem com que acordar cedo e sentir o azedo do suor que exala por debaixo da camisa do filho da puta que não tem coragem de tomar um banho antes de dividir o mesmo metro quadrado que você no ônibus lotado faça um pouco mais de sentido. Porém não muito.
Só que a vida é bem mais flagelos que momentos intrigantes como estes, logo, não vou negar que por vezes me passa pela cabeça morrer. Não morrer para sempre, não é isso. É morrer uns três ou quatro dias só. Assim, sem mais nem menos. Apenas morrer e não ter ninguém enchendo meu saco, sem cobradores ou Testemunhas de Jeová em minha porta. Sem carros do ovo, da cândida, ou do churros. Sem panfleteiros de pizzarias. Sem ter de me preocupar com cigarros e sem guarda noturno. Só morrer, pura e simplesmente morrer. Descansar a mente, o corpo, esquecer das coisas. Já reparou que passamos mais tempo tentando esquecer que lembrar? Isso pode ser um sinal. Um sinal de que a coisa está de mal a pior.

Estava lembrando desses casos assim, por acaso. Entre uma dose de Borboun e outra, analisava o conceito que tinha das mulheres e o conceito que as mulheres tinham sobre mim. Dizem que os amigos sempre lhe dizem a verdade, eu nunca acreditei nisso, porém tenho uma conhecida que já tomou porres homéricos comigo, que jura de pé junto que sou a pior pessoa do universo, aliás, não duvido que ela goste da minha companhia só por isso. É mais fácil de conviver com alguém que está mais fodido que você, não há pressão para melhorar. Em seus ápices de embriaguez chegou a me comparar com o próprio Diabo, mas acho que ela me superestima.

Então penso nas garotas das quais cometeram o erro de cruzar meu caminho. Todas elas santas, faço questão de frisar. O que pensam de mim? Não que seja importante a ponto de mudar a minha opinião, contudo pode ajudar a entender o porquê não permaneceram e qual a minha responsabilidade nisso tudo.

O fato é que algumas garotas gostam do que eu escrevo, no entanto não gostam tanto quando me conhecem e provam o que leem na vida real. Justo.

Lembro-me de uma garota, de olhos verdes como uvas verdes. Não se adaptou a liberdade que eu dava a ela. Talvez quisesse alguém ciumento, que quisesse saber onde ela estava a cada passo, que a proibisse de ter amizades masculinas e controlasse todas as suas ações e bem sei que apesar de reclamarem, existem muitas garotas que gostam desde tipo de cara machão. Eu poderia ser este cara? Claro que poderia, mas eu não poderia ser este cara e ainda por cima ser exatamente a pessoa que eu digo ser. Então começaria uma relação traindo, não ela, mas a mim mesmo. Não digo que hoje ela me odeia, porém acredita piamente que eu não quisesse nada com ela. Eu queria, só que gosto de analisar as coisas e as pessoas e isso leva algum tempo.

Penso na idosa de 500 anos. Meu único arrependimento quanto a esta garota de 20 anos é que, idosa que era, ainda possuía todos os dentes. Ainda hoje não sei o que é ser chupado por uma banguela, mas nunca é tarde. Esta, talvez me odeie, mas tenho sérias dúvidas. O que acontece é que ela se convenceu de que eu sou o pior do mundo, mas não consegue esquecer os bons momentos, logo, sempre quer reviver os bons momentos de outrora. Só que todos sabemos que há coisas que nunca se repetem.

Outro dia recebi uma ligação de uma garota casada. Em outros tempo traía seu marido comigo, mas isso faz muito tempo. Teve um filho recentemente e depois de tanto tempo de fidelidade forçada queria voltar a traí-lo. Esta não me odeia, tenho certeza. Poderia dizer que até me ama, do jeito dela, mas talvez seja amor. Contudo, não mais do que ama o marido. Melhor pra mim, pior pra ela.

Tive uma relação conturbada com uma garota de pernas finas uma vez. Digo conturbada, pois nunca estávamos disponíveis ao mesmo tempo. Quando ela quis eu estava ocupado me diminuindo, e quando eu estava disponível ela estava ocupada com outros relacionamentos. De qualquer forma, por mais que em algumas vezes quisesse me odiar ela não conseguia. Não conseguia, pois para odiar é preciso dar importância, nutrir qualquer sentimento para depois querer o mal. Mas a única coisa que a garota de pernas finas sentia era vaidade. Gostava do drama que eu fazia, e eu sou bom com dramas. Fazia bem ao seu ego estar entre as linhas dos meus textos e esperava ansiosa para ler sobre si. Sentia-se musa de seu autor predileto. E ela era. E eu era. Hoje não mais, nem pra mim, nem pra ela. Hoje ela lê outras coisas, eu escrevo sobre outras e assim a vida segue. Mas definitivamente não me odeia.

Já Nelia, talvez seja a única que nutre algum ódio e rancor por mim. Odeia porque me amou. Odeia, pois não pude ser o homem que ela queria que eu fosse. Odeia-me porque eu era só um garoto. Odeia porque eu não podia fazer malabarismo em faróis, porque não podia dormir em redes, porque não podia desvendar o mundo. Também pudera, sequer conseguia me desvendar. Meus segredos e sonhos, o que eram? Meus amigos e familiares, quem eram? Odeia então, porque eu não era capaz de acompanhá-la em sua jornada para desvendar seus traumas. E ainda pensando nisso, vejo que não tenho nada em comum com essas garotas nem com seus ideais e suas fantasias. Algumas delas queriam apenas um escritor falido para se sentirem o centro de algo importante, contudo, eu nem sou tão escritor assim e nem tão falido assim. E mesmo não sendo, vivendo a realidade da minha escrita, perceberam que não é tão fácil estar ao lado de um beberrão teimoso que precisa de sexo como um alcoólatra precisa de álcool e eu preciso tanto de ambos.



Bento.

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segunda-feira, 6 de julho de 2015

CAFÉ ESTOCOLMO - OUVIDOS DE ALGUÉM TÃO MAIS FODIDO QUE VOCÊ

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Então por esses dias, de um frio de encolher o pinto que fica difícil até de mijar, não saía de casa sem um bom Café Estocolmo. Se não sabem o que é um Café Estocolmo vou dizer; é quase um Café Irlandês - café e whisky-, mas como não tinha whisky misturei com Dreher mesmo. Aí me perguntam; mas por que café Estocolmo? Não sei, mas se inventei eu coloco o nome que quiser. Dúvida; posso fazer Café Estocolmo com qualquer outro conhaque barato? Claro que não. Estocolmo é só com Dreher, invente outro nome para o seu drink.

Mas como tudo que é bom acaba, o Dreher também acabou e tive que voltar para o café tradicional. O tempo também melhorou e não tive maiores problemas com o frio. Então chegou o final de semana e uma garota me presenteou com uma garrafa de Jack Daniel's que solucionou todos os meus problemas em relação a cafés. Cheguei à conclusão que uma garrafa de Jack me faz mais feliz que muita coisa nesta vida. Claro, é possível comprar uma garrafa a qualquer momento, mas ganhar... Bom, ganhar é outra coisa. Me dar um Jack Daniel's é como dar um buquê de rosas para uma garota, me ganha facilmente. Não sei se a garota sabia disso ou não, de qualquer forma parabéns a ela. Já estamos juntos há algum tempo e mesmo sem o Jack eu poderia citar alguns fatos aqui para justificar o tempo que estamos juntos, ela já tinha me ganhado pelas noites de sábado que dividimos a cama fumando e bebendo e transando, mas o Jack veio para acabar com qualquer suspeita.

Falando nisso, eu tenho um sério problema com cerveja. Não, meu problema não tem nada a ver com gastar todo meu salário no bar, muito menos as noites que dormi na rua, me meter em brigas de bar que não conseguiria dar conta, nem com as garotas que deixei de transar porque estava tão bêbado que meu pau mal conseguia levantar. Também não tem nada a ver com vício, pois eu posso parar de beber cerveja a hora que eu quiser, posso ficar dias sem beber cerveja, desde que tenha whisky ou qualquer coisa alcoólica para substituir. Nem tem nada a ver com religião e essa baboseira toda de céu e inferno. Meu problema com cerveja deve-se a minha bexiga. Depois de um tempo bebendo eu começo urinar desesperadamente. Mal saio do banheiro e já quero mijar de novo. É difícil manter uma conversa civilizada, com uma garota no bar, quando você quer mijar de cinco em cinco minutos. E quanto mais eu seguro pior é a sensação. Dói nos olhos, lacrimejando eles acusam meu desespero. Começo a transpirar e é um suor frio. Então tenho que beber em lugares onde existe um banheiro por perto, ou pelo menos uma esquina qualquer onde eu possa me aliviar sem pressão. Então você pensa; porra nenhuma de problema! Problema tem a África, o Oriente Médio, a economia do país. E eu respondo; só lido com os problemas que eu posso resolver.

Na verdade, eu só lido com problemas que me interessam. Sim, me chamem de egoísta se quiserem. Mal posso esperar por isso. A verdade é que pouco me interessa qualquer coisa que não tenha a ver com álcool, sexo e dinheiro, afinal, o que é mais importante que isso?

Outro dia estava falando com uma amiga. Ela dizia que estava em crise em seu namoro. Jurava ela com a certeza que as mulheres têm, e só as mulheres têm, que o cara iria terminar o namoro e que quando isso acontecesse ela iria me fazer uma visita. Eu respondi que seria bem difícil isso acontecer pelo mesmo motivo que citei logo acima; ganhei um Jack, estava transando com a mesma garota já fazia algum tempo e que eu não estava disponível. Não, se pensam que eu estava dando uma de orgulhoso, eu não estava, afinal transa é transa. Ela, para não ficar por baixo disse que só iria lá em casa para conversar, contudo, nunca houve uma vez que ela tenha ido em casa só para conversar. Todas às vezes, ou transou comigo ou com qualquer outro que estivesse de visita. Desta vez não seria diferente, certeza, senão pra mim para o meu cachorro, mas vai que meu cachorro não estivesse com vontade, aí acabaria sobrando pra mim e como eu já disse, não estaria disponível. Mas as mulheres sempre tentam nos convencer desta coisa de sexto sentido e tudo mais. Quando não há razão nenhuma para desconfiar elas colocam a culpa no sexto sentido. Lenda, pura lenda. Caso fosse verdade não haveriam tantas garotas enganadas por aí. Porém, sempre que acabamos com seus argumentos e tentamos colocar algum juízo na cabeça de uma garota, apelam para o sexto sentido.  Já o homem, na dúvida, vai lá e trai na esperança de ter sido o primeiro, pois corre o boato em qualquer roda de homens que quem traiu não pode ser traído. Besteira.

Eu acho tudo isso uma tremenda besteira. A maioria do que se considera de conhecimento popular é uma anomalia idiota. Tudo é uma tremenda babaquice. Ditados populares são toscos como conselhos de velhos. Achamos que com a idade vem a experiência mas sei que um adulto imbecil dificilmente se tornará um velho sábio, assim são as coisas. Por isso que digo que toda essa coisa de ciúme e traição e término de relacionamentos, geralmente acontece por um egoísmo sem fim. Traem para se sentirem seguros (egoísmo), são consumidos pelo ciúme por causa do sentimento de posse (egoísmo), e não importa o que dizem, mesmo o amor maior do mundo não impede você de levar um pé na bunda quando se tornar um estorvo para o outro. Tudo está relacionado ao interesse. As mulheres não amam estorvos, amam quem der mais, quem tem mais a oferecer. Assim que começar a ser um peso você ficará sozinho, como todo mundo. As mulheres aprenderam que os homens não podem demonstrar fraqueza. Quando um homem precisa de suporte, é o bar que estará lá para lhe estender a mão, um copo de algo forte e alcoólico, e se tiver sorte, os ouvidos de alguém tão mais fodido que você.



Bento.

sábado, 27 de junho de 2015

SOMOS TODOS EGOÍSTAS ENTÃO SÓ ME CHUPE SE FOR CONVENIENTE

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Com o tempo vamos afastando as pessoas de nossas vidas. É um processo natural. Depois de muito tempo, as pessoas que ficam do seu lado são aquelas que realmente merecem - o castigo de sua parte ou da deles - e estes têm seu valor. Quem de vocês podem se dar ao luxo de dizer que convive com alguém desde sempre? Isso é raro. Nós conhecemos várias pessoas ao longo da vida e algumas delas pensamos que permanecerão o resto de nossas vidas, mas invariavelmente partirão, ou nós partiremos, por falta de contato, por preguiça, ou simplesmente porque aquela pessoa acaba se tornando um grande e insuportável pé no saco.

A maioria das pessoas que eu conheço eu me afastei por preguiça. Também por não me importar, mas mais por preguiça mesmo. Por exemplo, odeio ir na casa dos outros. Se eu te encontro em meu caminho é bem possível que eu pare e tomaremos umas cervejas juntos, mas se eu tiver que ir até algum lugar para te encontrar e relembrar os velhos tempos, não me espere, pois não vou. Não vou porque tenho preguiça. Com exceção é claro, se valer a transa.
Basicamente a vida se resume em quem quer te dar somado ao tempo que ninguém dá pra você. É tudo uma coisa se demanda e oferta. Se a oferta é grande não há porque se preocupar em percorrer caminhos tortuosos em busca de uma transa que você pode facilmente conseguir ao lado de casa. Pode perguntar para qualquer virgem, ou idiota, estes dão a volta ao mundo para transar.

Tive um amigo que namorava uma garota que morava em outra cidade e todo fim de semana ele viajava só para transar. Você pode dizer a si mesmo que era por amor, mas eu garanto que se ele tivesse a possibilidade de transar com qualquer outra que morasse mais perto ele faria.

Conheci uma garota uma vez que vendeu seu carro para ajudar o namorado a pagar a faculdade. Esta garota, apesar de simpaticíssima, era de uma falta de beleza sem igual, também era gorda e os dentes da frente separados, contudo, o que fazia dela a última na face da terra em matéria de sexo era o grande calombo que tomava praticamente sua nuca inteira. Este calombo impedia que nascesse cabelo ali. Então ela tentava esconde-lo com o cabelo da parte de cima da cabeça, uma tentativa até que válida, mas que não adiantava muita coisa. De qualquer forma, como toda desgraça ainda é pouca, o tal calombo dava de soltar um liquido viscoso e fétido, logo, nenhum cara em sã consciência, nem os mais bêbados, queriam se arriscar a colocar o pau ali dentro, com exceção do já citado namorado. Digo, pelo menos ele deveria transar com a garota, afinal, ninguém se dispõe a vender o próprio carro para ajudar alguém sem levar nada em troca. Mesmo os ignorantes religiosos doam suas coisas em troca da promessa - infundada - de um bem maior futuro. Resumindo, o cara se formou e deu um pé na bunda da garota do calombo. As coisas são assim, as pessoas são assim, bem como chegam, partem.

Eu estou dizendo isso talvez para justificar o fato de que eu simplesmente não me importo. Não me importo porque já vivi tempo suficiente para saber que as pessoas partem e nem sempre a culpa é minha. Não estou me eximindo de culpa, eu sou o primeiro a apontar o dedo pra minha cara e me julgar, mas nem sempre sou o culpado disso. Não me importo porque sei que as bundas mudam, os peitos mudam, mas num todo, geralmente trata-se da mesma coisa. Garotas que me acham interessante pelo modo que penso, que escrevo, mas principalmente pelo meu jeito de quem não se importa. É um ciclo, entenda; o que me torna interessante é a mesma coisa da qual vai deixa-las emputecida depois de algum tempo.

Eu nunca destrato ninguém, já disse isso aqui. Se destratasse não voltariam e a ideia é que elas sempre voltem, pelo menos até o momento que elas são interessantes. Dito isso, sou culpado quando dizem que se sentiram importantes, mas na verdade a culpa é dos seus relacionamentos passados com imbecis que as trataram como bosta. Faço tudo intensamente, também já disse isso, então olho nos olhos enquanto as penetro, agrido quando me pedem e faço tudo como se fosse a última vez, afinal, com meu estilo de vida pode mesmo ser. De repente um orgasmo pode se transformar em um enfarte e meu coração pedir arrego, pode acontecer, não seria nenhuma surpresa, e caso aconteça quero chegar ao lugar que tenham reservado pra mim com um belo sorriso no rosto e a sensação de trabalho bem feito. Logo, sou culpado quando me acusam de comê-las de forma que lhes deem esperança de que houve sentimento, mas sou inocente delas tirarem a calcinha para qualquer cuzão que as comem como quem toma café de manhã apressado para o trabalho.

Mas eu também já me senti vítima. Algumas garotas aceitaram transar comigo apenas para serem citadas em meus textos. E depois disso partiram. É difícil passar por uma situação desta, quando você ainda não está saciado e a pessoa te deixa na mão porque já conseguiu o que queria. Porque no final é isso, estamos todos em buscas de recompensas, metas que almejamos atingir. No final, somos todos egoístas e não fazemos nada que não seja para o nosso próprio bem. A garota só dá para alguém por acreditar que aquilo a fará bem de alguma forma, se não for por prazer sexual, que seja pelo prazer sentimental - e tem muita mulher que continua dando pro cara errado pelo simples fato de gostar do cara - ou pelo prazer da vaidade - e as mulheres são expert em dar pro cara pelo simples fato dele lhe dar em troca roupas e plásticas e viagem para que ela possa alimentar a vaidade de postar as fotos no Facebook - ou o prazer de qualquer coisa que venha te fazer feliz. Os homens que aturam uma relação da qual não quer pelo simples fato de ter roupa lavada e sexo sem sacrifício - e o que tem de cara por aí que se sente preso como um animal em seus relacionamentos - ou os caras que ainda se prendem a garotas com medo de assumir que na verdade gostaria de ter sua próstata cutucada por uma rola grossa e cheia de veias - eu conheço alguns. É justamente por isso que eu não saio por aí chorando e falando mal das garotas que se vão e não voltam. Afinal somos todos egoístas, então só me chupe se for conveniente.



Bento

segunda-feira, 20 de abril de 2015

GÊNESIS - O EVANGELHO SEGUNDO BENTO

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CAPÍTULO 1 - A MORTE


2:1 – Ao contrário do que pensam, não trata-se de um erro colocar o segundo capítulo e chamá-lo de Gênesis. Afinal, para entender tudo o que eu vou dizer, primeiro é preciso familiarizar-se com a morte, pois somos um amontoado de quase nada tentando dar sentido para coisa alguma. Por isso, este capítulo aqui começa pelo final. O fim da vida. Nascemos, morremos e se fizermos tudo certo, seremos felizes neste meio tempo. Não há muito segredo.

2:2 - Então depois de entender que inevitavelmente morreremos e poderemos ir para um lugar melhor ou não, entendermos que poderemos ir para lugar algum, aí sim começamos a conversar e a viver, que é só o que importa.

2:3 - Quero partir do princípio que tudo o que sabe sobre religião, de qualquer origem, bem, esqueça isso. Não há nada mais usurpador que a religião. Não há nada mais controlador que a religião, por isso, aconselha-se sempre afastar-se deste tipo de tendência. Nunca será possível tomar estar palavras como reflexão se já está prefixado em sua mente que existe alguém superior a você capaz de lhe dizer o que é certo ou errado. Você estará quebrando a única regra da qual é baseado toda esta resenha. Mas ainda aproveitando para esfregar na face de qualquer idiota que se opor a essas palavras; se somos todos a IMAGEM e SEMELHANÇA do Homem, não há porque eu ser mais ou menos que meu próximo. Veja que até Deus concorda com esta regra que sugerimos aqui.

2:4 - Este evangelho não é nem de perto religioso, mas claro, também temos os nossos dogmas e cultos e louvores.

2:5 - Você que tem o conhecimento deste evangelho saiba que poderá alcançar a glória sempre que quiser. Mesmo em casa, em sua solidão. Sempre valorize a própria companhia, pois ninguém poderá ser-lhe tão fiel quanto você mesmo. Algum grande poeta já disse que se não consegue ser uma boa companhia pra si, não será para ninguém, todavia isso é outra história. Esqueça as velas, exceto se fizer questão, o verdadeiro fio condutor da paz interior é definitivamente o álcool.

2:6 - Uma boa dose de algo quente e forte, ou gelado e constante te deixará bem mais próximo de seu "eu" interior. Ficar bêbado sozinho exige um alto nível de autoconfiança e autossuficiência. Nunca menospreze seu inconsciente, você pode aprender muito com ele. Isso é quase como uma meditação, mas mantenha os olhos sempre abertos para ver até onde sua imaginação pode levá-lo.

2:7 - Celebre a solidão, celebre a dor, celebre a garrafa inteira à disposição de sua libido. Se você vai fazer isso pela primeira vez pode colocar um ou dois dedos de água por dose, mas aconselho diminuir a mistura gradativamente, pois se quer uma alma pura que a dose também seja. Cigarros são bem vindos. Com isso você já está pronto para ir onde sua imaginação quiser. Ao passado, ao futuro, ao céu ou inferno. A noite é sua, faça o que quiser. Quando fizer isso há algum tempo, quando já estiver num nível superior, perceberá que não é mais refém da vontade alheia. Só você, as paredes e o destilado poderão ditar as regras.

2:8 - Sem a necessidade de outras pessoas, sabendo que pode muito bem se divertir sozinho, passará a escolher cada companhia e aproveita-las cada segundo. Não vai se deixar levar por qualquer proposta ou o medo de permanecer sozinho, afinal, volto a dizer; é e sempre será sua melhor companhia.

2:9 - Contudo, preciso alertá-los; aos olhos alheios, aparentará estranho, sujeito a críticas, olhares esguios, preconceitos e palavras incrédulas contra sua lucidez, mas saiba que sempre poderá contar com a compreensão de seus irmãos de bar.

2:10 - O bar sempre será o lugar onde achará proteção e a sabedoria de uma força maior; a cumplicidade e a capacidade de encontrar sujeitos em situações piores que a sua para aliviar um pouco a tristeza.

2:11 - O bar é nosso templo e nossa morada. Depois de nossas casas é o lugar mais sagrado e protegido. Onde compartilharemos historias e aprendizados com nossos irmãos. Onde ensinaremos e aprenderemos. Onde seremos professores e alunos, pois é importante que saibamos que sempre podemos aprender com o próximo, mesmo que seja uma nova marca de cerveja ou um jeito novo de assar uma carne.



Bento.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

COMENDO A PRÓPRIA BABA COM UMA COLHER DE SOBREMESA

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Então eu vinha embora do trabalho pensando em meu banheiro. Não propositalmente. Era forçado a desejar chegar cada vez mais rápido, afinal, eu precisava evacuar o mais depressa possível. Porém ou lembrei que em casa não tinha uma gota de álcool sequer e isso é inadmissível. Travei o reto e passei no posto de gasolina para comprar cervejas e cigarros.
Resumindo; consegui chegar em casa sem nenhum acidente. E aqui estou eu. Sentado na privada dando uma boa cagada, ouvindo Albert King com a gaita de fundo e tomando uma cerveja que ameniza, um mínimo de qualquer coisa neste calor infernal. Neste momento eu penso; puta momento feliz. Eu sou feliz agora. Estou feliz. O homem que não puder pagar pela sua própria cerveja não passa de um verme. O homem que não puder cagar em seu próprio banheiro é um homem desesperado. Não há futuro.

Agora já é Robert Johnson que canta e eu fixo os azulejos do banheiro feliz da vida. Não saio daqui enquanto não terminar o cigarro, pois acredito piamente que cagar e não fumar um cigarro é um pecado mortal. Bem como os religiosos acreditam em seu deus e suas doutrinas eu acredito que cagar sem tempo de terminar um cigarro é um insulto aos deuses de qualquer espécie.

A verdade é que além deste momento único e sem sentido, porém feliz, outra coisa me fez uma criança novamente de tão animado. Somente uma coisa poderia arrancar sorrisos idiotas e piadas infantis em meio ao mau humor que prevalece em minha existência. Uma garota. Da qual resolveu dar o ar da graça. Uma esmola de atenção qualquer e isso já fez de mim o cara mais feliz do mundo. Ninguém pode dizer o contrário. Pelo contrário. Todos aparentemente perceberam. Minha garota, ela não sabe, mas sempre foi minha garota e a única da qual eu sou fiel. Até hoje. E eu acredito, talvez errado, mas acredito, que ela só voou pelo mundo com tanta segurança porque sabia que sempre haveria um coração abandonado do qual definhava de amor para que ela pudesse voltar.

A musa das musas dá um sorriso e eu começo a regurgitar inspiração. Seu título não é à toa.
Confesso que fui conferir quantas latas de cerveja eu tinha bebido na noite anterior para ter certeza que não era o álcool me pregando peça. Depois disso belisquei-me, sei que não faz sentido, mas nunca se sabe o que nossa mente pode fazer conosco quando desejamos muito uma coisa.

Perdi o jeito de falar com esta garota. Meço as palavras e mesmo assim depois de ditas me sinto um idiota, por isso acabo falando demais. Ainda não sei como não babo como um retardado, mas chego próximo. Piso em ovos e quase não respiro porque ela é meu dente-de-leão, qualquer brisa e ela pode partir como todas as outras vezes. Talvez soe gay para quem está acostumado com os padrões de minha escrita, mas é difícil escrever sobre isso de forma diferente. Baixo a guarda, transbordo de bundamolice, e agora sim eu já estou necessitando de um babador.

Ela é dona de uma poção do amor que me tira dos quintos dos infernos e me faz cheirar flores em parques, sorrir para crianças e dar atenção a velhos na rua. Logo eu que vivo nos porões mais putrefatos na cidade, ser da noite endiabrado, odiado por onde passo, de discursos intensos e desaforados me pego elogiando o sol e a chuva e aplaudindo o por do sol. Vejo-me brincando com crianças e suspirando por canto de pássaros de manhã. Onde já se viu? Logo eu.
Como faz, quando um filho da puta como eu sai na rua querendo distribuir abraços? Provável que quem ver vai pensar que estou bêbado, mas nem alto eu faço umas merdas dessa. É quando começo achar que ela é meu maior entorpecente. Senão o mais forte pelo menos o mais viciante.

Há tanta coisa pra dizer e as palavras simplesmente me engasgam lutando para não soar. Nunca sei o que dizer. As mãos transpiram e receio magoá-la. Mas não minto tentando parecer algo que não sou, afinal ela não acredita em nada que eu digo mesmo. Gastar imaginação mentindo seria perda de tempo, porém me assusta espantá-la com qualquer coisa de minha personalidade velha e caótica.

Mas se você estava achando este texto feliz demais para os padrões aqui vai uma boa notícia - pra vocês que gostam de má notícia. Assim como esta garota voltou de repente ela se foi instantaneamente. Apareceu solteira e logo depois comprometeu-se novamente. Foi só o tempo de criar fantasias e histórias e engolir toda a baba novamente, com uma colher de sobremesa. Babar e voltar a comer o mingau de esperança. Excluir-me de novo e eu voltar a reconhecer a raiva estacionando na frente de casa, buzinar antecipando a campainha. E eu ir olhar com curiosidade.

- Entre, eu tenho cervejas. Se prepare, pois hoje vamos ficar bêbados até não acertarmos mais a boca.Eu disse à Raiva, velha companheira.

- Mas ela vai excluí-lo e depois procura-lo novamente, pois é isso que ela faz. Disse a Raiva. E eu respondi cabisbaixo.

- E eu vou aceitá-la mais uma vez! Afinal é só o que eu faço em todos esses anos. Espero que ela me procure e procure e procure novamente.

- Então me sirva àquela cerveja que prometeu. Você sempre tem as mais geladas. Disse a Raiva.

- Um brinde. Eu disse.

E brindamos. Velhos parceiros de bebedeira.



Bento.

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domingo, 25 de janeiro de 2015

COM UMA RESSACA DE 23 ALCOÓLATRAS

Quem estivesse de fora da brincadeira e olhasse em volta provavelmente acharia que o quarto tinha sido cenário de guerra. Uma garrafa de Jack tombada em cima da cômoda e outra recém aberta ao lado. Bitucas espalhadas pelo chão bem como latas e mais latas de cerveja. Embalagens de camisinha pareciam confetes em noite de carnaval, mas estávamos no natal. A noite também não era de Tarantino, era mais que isso. Aquilo não foi cenário de guerra, fora uma festa improvisada de bebedeira e sexo. Um religioso diria que arderíamos eternamente no inferno. Deus olhara para o outro lado tamanha libido. Já imagino os demônios assistindo de camarote e dançando ao som de Matanza no volume mais alto. E pecávamos ao ritmo da bateria de Interceptor V6.
Eu estava lá, mas não estava lá. Até meu pênis tava dividido entre sim e não. Meia vida, ele continuava a trabalhar por hábito, talvez. Bem, cada um tem o que merece e alguém decidiu que eu não mereço muito mais que aquilo, logo não se deve reclamar de suas conquistas. Instantaneamente sai de lá para outro lugar...

***

Outro quarto, sete anos atrás, quem se encarregava da trilha sonora era o vinil do Deep Purple repetindo o mesmo lado, incansavelmente. A bebida era Dreher, afinal, cervejas era um luxo que não tínhamos naquela época. Mas a garota... a garota abaixo de mim era a mais linda de todos os tempos. O quarto tinha o mesmo cheiro de sexo, porém os demônios não sorriam desta vez. Não sorriam porque eu estava feliz. Em todo o mundo, no decorrer da história, ninguém foi tão feliz quanto eu naquele fatídico momento em que transava com a garota dos meus sonhos e não sei se por felicidade ou por estar bêbado como um porco eu dormi. Dormi em cima da garota mais sensacional que já conheci.

***

Volto a mente para o quarto atual e enquanto sou chupado e a música agora é Escárnio, olho para minha cama e vejo um amigo mandando ver na garota que outra noite estava montada em cima de mim com uma libido de tirar os móveis do lugar.
Eu acredito que não sou das melhores pessoas, se tem opção afaste-se, não serei eu quem lhe trará conforto. Não sou dos melhores amigos. Mas certos caras, daqueles que estão comigo desde os primórdios levam sempre alguma história pra contar onde eu faço parte, como personagem principal ou coadjuvante digno de um Oscar. Cedi a transa e a cama para o amigo. Cedi porque tenho dessas às vezes. Por um pequenino momento torno-me bom. Entenda: Eu, bom. É mais ou menos tão raro quanto achar um filme bom na TV aberta quando se está sem dinheiro num fim de semana em casa. Uma coisa rara. Mas se ficar por perto tempo suficiente vai se deparar com esses bons momentos.

Algumas pessoas dizem que o meu quarto, ou qualquer lugar que eu esteja, é sempre o pior lugar para se estar quando quer andar na linha. Bem como Jimmy diz em Amigo Nenhum ou Tombstone City, depende de como terminará sua noite. Eu nunca obrigo ninguém a nada, mas dizem que eu desperto sempre o pior lado das pessoas. Isso pode ser um dom ou uma maldição, porém eu não acredito no que dizem. As pessoas fazem exatamente o que querem fazer e quando podem colocar a culpa em alguém pelas merdas todas elas fazem. A ressaca moral fica mais fácil. Ter as mãos tremendo e o estômago colado nas costas no dia seguinte fica mais fácil de justificar quando se esta na companhia de um culpado como eu. Não quero com isso dizer que sou inocente, mas afirmo, ninguém é.

Quando eu digo que tenho cara de culpado eu quero dizer que a maioria das pessoas tem uma visão de mim que não necessariamente seja a correta. Eu, por exemplo, bebo muito menos que as pessoas acham que eu bebo. Mas também não significa que eu beba pouco. Eu bebo mais do que muita gente diz que bebe. Se parecer irrelevante ou sem sentido para você leia de novo. Pode ser só falta de atenção.

Ok, já leu. Viu? Da segunda vez sempre faz mais sentido.

Uma vez minha ex-garota perguntou se eu ainda bebia como antes. Eu me apressei em dizer que não, pois estou dizendo a verdade. Com "antes" ela queria dizer na época em que estávamos juntos e digo sem medo de errar que eu não bebo como antes pois hoje bebo para algo maior. Para dar a extrema unção à alma. Bebo para relaxar a mente e os músculos. Bebo atrás de inspiração. Antes eu só bebia e pronto. Entende a diferença?

De qualquer forma neste momento, onde tudo isso se passava em minha mente eu era chupado enquanto via um amigo mandando ver numa garota dez anos mais jovem que ele e estávamos todos numa boa. As cervejas tinham acabado e mamávamos uma garrafa de Jack Daniels. Era uma noite do terror para quem ama terror. Era o pecado tomando forma e se tornando adulto. Claro, que com toda minha contribuição eu deveria ter uma esquina com meu nome em algum quarteirão do Inferno. Senão uma esquina uma encruzilhada. Pelos serviços prestados. Porra. No mínimo uma foto de funcionário do mês. Mas não de propósito. Falo isso segundo as crenças de merda dos religiosos de bosta. Pode ser que estejam todos errados e que não existe nada mais além de nós, seres humanos medíocres que servem de adubo para plantas.

Whisky, cigarros. Matanza acabava de tocar Rio de Whisky e fazíamos sexo no ritmo da música. E o Jack suavizando a garganta, preparando o caminho para o cachimbo. Algumas pessoas acham que essa coisa de beber e fumar e fazer merda é ruim. Na verdade não é mesmo. Eu por exemplo, acho bem pior passar uma noite conversando com idiotas e tomando Coca Zero achando que isso vai te fazer mais saudável. Com a vida que eu levo eu poderia estar morto, mas não estou. E digo mais: Faz anos que não fico doente e a única dor que sinto é da agulha riscando a carne quando vou me tatuar. Alguma coisa nesta teoria maluca de não poder fazer nada de "errado" é falha.

Mesmo assim, enquanto pensava nisso me veio à mente um dos momentos que mais me assombra. Eu já disse que já fui melhor do que sou hoje, contudo acredito estar errado. Da época em questão eu melhorei bem, depois de melhorar eu piorei um pouco. Sabem como é, ninguém consegue manter o ritmo. De fato eu conheci algumas bêbadas depois disso e algumas santas. Ou seria o contrário? Não me lembro. Então eu lembrei da ex-garota lavando meus cachorros. Com os cabelos presos deixando à mostra a tatuagem na nuca. Uma blusa de alça preta deixava eu ver também a tatuagem no braço e uma saia até os joelhos, nada muito sexy, mas nela, qualquer coisa ficava maravilhosamente sensual, sexual. Mesmo uma camiseta minha velha esquecida na casa dela. Ela roubava minhas roupas para poder dormir sentindo meu cheiro e isso fora talvez, a maior demonstração de amor que eu já tive em toda a minha vida.

Minha mente volta do passado e segue direto ao futuro quando as garotas já foram embora e meu saco transpira devido o calor e o suor mistura com a baba da noite anterior. Há cabelos grudados em meu peito. Os lençóis da cama foram parar em algum lugar que não consigo desvendar de primeira. A ressaca é de 23 alcoólatras. A boca com gosto de merda, a cabeça pesando como uma bigorna. A fumaça do primeiro cigarro arranha a garganta como um ouriço. Ainda tem o catarro seco que quase que me sufoca. Mais ressaca. Ressaca moral também, mas não de arrependimento e sim por fazer o tipo de merda que a maioria dos caras matariam para ter a oportunidade de estar em meu lugar e eu simplesmente não dar a mínima, pois é evidente para muitos que eu preferia estar no mesmo lugar com uma só garota que sequer precisa estar no mesmo continente que eu para me inspirar. E é só pensar nisso que minha mente volta como se estivesse pilotando um Delorean e me vejo deitado em meu quarto brincando com os seios dela. Displicentemente tocando-lhe o mamilo com os lábios, mordendo e me divertindo tanto que passaria horas e horas fazendo aquilo. Lambendo-lhe e beijando e mordendo e morrendo aos poucos com as lembranças. Morro cada vez um pouco mais sempre que me perco em meio ao passado. Sempre um pedaço de brasa que já fora chama se esvai. Ficam as cinzas que partem com o menor sinal de brisa até o dia que não sobrará mais nada o que lamentar. E se já não somos derrotados por deixarmos que nos digam a hora de levantar e deitar, comer e beber, nestas horas não sobram dúvidas. Quando se é derrotado em seu próprio campo de batalha não é difícil imaginar que perderá dali pra frente e seguirá perdendo até que o Destino enjoe de você e passará humilhar algum outro imbecil. É nesta hora que pensamos que a sorte está de bem conosco e voltamos a cair do cavalo, pois a esperança serve apenas para te fazer de otário por algumas horas e depois basta. Só que é como o álcool, basta um gole para atiçar seu lado viciado e quando percebe está bêbado e aprontando de novo.



Bento.

sábado, 8 de novembro de 2014

NÃO EXISTE PROBLEMA NO MUNDO QUE NÃO PAREÇA INSIGNIFICANTE QUANDO SE ESTÁ SENDO CHUPADO DECENTEMENTE

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Somos todos estranhos mordedores de nada. Somos um monte de bosta sem saber pra onde ir. Digo que a única coisa da qual tenho conhecimento é meu gosto e disso eu entendo super bem. Por mais bêbado que se possa estar sempre sobra uma fagulha de consciência. Você está lá, em algum lugar dentro da sua mente assistindo na primeira fila as merdas que você faz. Claro que "merda", no meu entendimento é um termo ambíguo. Pode ser bom ou ruim dependendo da ótica.

Estamos num calor de 400 graus e eu estava deitado nu com as costas no chão, levantando a cabeça somente para mamar a garrafa de cerveja. A garota estava deitada de bruços na cama alisando meus cabelos e brincando com minhas sobrancelhas enormes. Lucia era o nome dela.

- Não sei o que você tem, mas você tem... Sabe? Ela dizia.

Eu não fazia ideia do que ela falava, mas eu ainda tinha cabelos dela grudados em meu peito magricela e era difícil raciocinar com todo calor que anda fazendo.

- Eu acho que você esta empolgada só porque gozou, amor. Não tem nada demais. Eu respondi.

Ela pegou a garrafa da minha mão e bebeu um gole longo. Pedi que ela acendesse um cigarro e me ajudasse a fumar. Ela acendeu e colocou na minha boca para que eu pudesse tragar e depois ela também fumava.

- Não é só porque eu gozei. Claro! Também é porque eu gozei, mas nem era pra eu dar pra você. Você é o cara mais podre que eu conheço. Ela disse.

Pedi mais um trago no cigarro e seus dedos compridos e magros levava-o até meus lábios. Eu não vou negar que senti um tremendo orgulho subindo pelo meu peito. Eu sempre disse que se é para ser melhor em alguma coisa então que isso lhe traga algo de bom. Ser o pior cara que ela conhecia deixava-a de cabelo em pé e com uma luz de alerta bem acesa. Ela transou comigo por uma inconsequência e já repetiu tal equívoco meia dúzia de vezes. O que ela queria saber é porque não conseguia sentir o mesmo tesão pelos cuzões que levavam ela a motéis caros em seus carros emprestados dos pais e correntes de prata no pescoço que poderiam me fazer tombar para frente. Ela não sabe a resposta até hoje, eu também não sei, mas suspeito que tudo é uma questão de estilo. Faça tudo com muito estilo, com originalidade, pode ser que não dê em nada, mas pode ser que você seja apontado na rua como O Cara. Nunca se sabe.

- Talvez você precise conhecer mais gente. Eu respondi a acusação dela com uma falsa modéstia

- Sem falsa modéstia, senhor Bento. Ela disse.

Eu sorri de olhos fechados e joguei o restante de cerveja da garrafa direto na boca. Um pouco escorreu pela minha barba e ela passou os dedos e chupou. Chupou como se chupasse algo maravilhosamente saboroso. Claro que isso foi o suficiente para que eu ficasse duro novamente e fossemos para debaixo do chuveiro transar mais uma vez.

Toda vez que ela vai embora sentencia que não voltará mais. Eu sinto receio de que um dia ela cumpra a promessa, no entanto não demonstro. Finjo que não ligo, que não acredito e ela parece não acreditar, tomando minha atitude como um desafio. Eu não quero que ela pare de vir, porém não consigo juntar forças para dizer que quero que volte sempre. Toda a minha força foi gasta com alguém que nunca voltou, logo, tenho por mim que quem quer fica, quem não quer parte sem retorno e isso independe de qualquer coisa que fazemos. As pessoas simplesmente fazem o que elas querem, sem se importarem com qualquer outro que não eles mesmos. Não podemos assumir responsabilidades por coisas que não são de nossa alçada, que não podemos controlar. Uma transa é só uma transa até que os dois resolvam dar mais significado a ela.

De qualquer forma, numa outra situação lá estava eu com outra garota. Esta não era tão magra quanto Lucia, nem tão bela, mas conseguia me fazer gozar com uma habilidade que só ela possuía.
Num dia desses lá estávamos bebendo cerveja até que ela decidiu me chupar.
Chamava-se Priscila e chupava como se sua vida dependesse disso. Um talento pouco visto em todos esses anos de bebedeiras e situações imprevisíveis que já tive. Eu sempre valorizei uma garota que chupe e pareça gostar de fazê-lo. Mas para não me afastar muito do assunto. Eu ganhava uma boa chupada e fumava meu cigarro intercalando com goles de cerveja. Para você que está lendo isso lhe garanto. Não existe problema no mundo que não pareça insignificante quando se está sendo chupado enquanto dá uns traguinhos. Tudo no mundo torna-se mesquinho e sem importância. Eu penso que os programas sociais do governo deveriam substituir as bolsas quase-nada e casas populares por belos e deliciosos boquetes. Todos seriam mais felizes. Você pode aguentar morar de aluguel, o que não se pode passar sem é um boquete bem babado.
Cheguei a pensar nos outros caras, quantos deles passaram ou passarão a vida inteira sem uma chupada sensacional? Ou pelo menos sem viver um momento como eu estava tendo a oportunidade de ter. Ela chupando e eu fumando. Quantos contadores, auxiliares administrativos, bancários, vendedores, garis, formarão famílias, farão tratamento de canal, morrerão de câncer sem serem chupados decentemente, ou terão o privilégio de serem chupados por duas garotas ao mesmo tempo? Olhar para baixo e ver duas cabeças brigando para abocanhar seus pintos. Esses caras podem até dizerem que a vida não é só isso, mas garanto a vocês que todos, sem exceção, lamentarão em seu leito de morte os boquetes de suas respectivas esposas. Digo isso, pois boa parte das mulheres chupam com um sacrifício na alma. Algumas mulheres usam o boquete como moeda de troca e só não conseguem mais porque não fazem decentemente. E eu me vi como um cara de sorte. O Destino tem lá suas crises comigo, mas de tempos em tempos me faz um agrado.

Mesmo assim, ainda existem aqueles caras que se contentam apenas com as calcinhas de suas esposas penduradas na lavanderia de seus apartamentos minúsculos com o fundo da peça amarelado virado para o vitrô da cozinha. E a cada garfada no purê de batata ele sente o gosto do que ele imagina ser o mesmo gosto do corrimento no fundo da calcinha. Tudo isso é só imaginação, claro.
Ainda existem os homens que preferem as garotas que deixam seus absorventes usados fora do lixo do banheiro ou que justamente no dia que vai deixar o sutiã a mostra elas escolhem o mais velho e encardido. Preferem a vida de dormir assistindo a novela e ir ao hipermercado aos domingos. Assim como existem mulheres que preferem os homens que tentam se parecer com o Gustavo Lima com tatuagens de arame farpado e cabelos lamentáveis. Ou os barrigudos que passam a vida mostrando o rego acima do cinto. Que levam as chaves penduradas no bolso da calça. Que usam cuecas vermelhas, amarelas e afins. Homens de sapatenis. Homens que vão até a venda de samba-canção. Aos meus olhos são todos estranhamente doentes, bem como eu deva ser insanamente incomum para alguns. Somos todos estranhos. De uma mediocridade tamanha.


Bento.

sábado, 18 de outubro de 2014

VIAGEM SÓ DE IDA AO INFERNO E FANTASIAS DE GAROTAS


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Eu sempre penso no passado e no futuro. Penso pois sou de pensar muita coisa. Não vou negar, sou um arrogante e um egocêntrico que quando penso, logo penso em mim e em minha vida. Sou um egoísta porque prometi que seria há tempos e cumpro até hoje.
Penso que alguns anos atrás eu estava voltando para casa tão bêbado quanto se pode estar. Eu não sabia onde estava, mas sabia para onde ia. Instintivamente eu sabia. Bêbado nunca esquece o rumo de casa, quando esquece está morto. Eu sou um bêbado, nunca escondi de ninguém, no entanto eu sou. Há tanta gente por aí que sequer é alguma coisa.

Então uns quatro anos atrás, ou mais eu diria, eu estava muito bêbado e andarilho, isso porque tinha perdido o último metrô. Tinha parado no meio do caminho para mijar, pois quem bebe sabe que chega um momento que não se pode mais segurar. É como o vômito, se pede passagem dê boas vindas, não há o que fazer. Eu já não vômito há uma década, mijar é outra história. Eu estava há quilômetros da minha casa e precisava andar muito. Meus pés já não aguentavam mais e meus cigarros estavam acabando. Minhas pernas entrelaçavam uma na outra e minhas mãos e cotovelos em carne viva de tanto se apoiar nos muros. Por duas vezes quase ganho uma mordida de cachorro por enfiar o braço em um portão perigo. Beber é para quem tem o dom. Não se pode decidir da noite para o dia ser um beberrão, é preciso talento e coragem, destreza e habilidade e isso eu sempre tive de sobra. O fato é que cansei, e surpreendam-se se quiserem, eu cansei de andar. Mesmo bêbado cansei. Meus pés latejavam a ponto de me fazerem esquecer dos ralados nas mãos e braços. Eu fumava e sentia embrulho no estômago, quase que vomitando, porém como eu disse, eu nunca vomito. Sentei e dormi. Dormi o sono dos vencidos. Olha que nunca fora fácil derrotar-me, não para o álcool. Sempre brigamos de igual para igual. Mas como profissionais, daqueles que se respeitam e se cumprimentam ao final de cada luta. Nesta fui vencido e dormi. Ali, na sarjeta, com a bituca do cigarro ainda entre os dedos. Acordei com os mendigos, com o sol e as portas de aço dos comércios se abrindo para um novo alvorecer do capitalismo e só depois cheguei em casa.
Vou ser sincero, não foi a primeira nem a última vez que dormi na sarjeta. Não eu. Num outro texto eu falei sobre homens que perdem um amor e o quão eles deixam de existir. Bem, vendo o homem que sou hoje tenho de dizer que há três ou quatro anos eu não era nem dez por cento, não chegava a dez por cento. Era um maltrapilho metido a esperto e de uma arrogância tamanha simplesmente porque tinha lido dez vezes mais livros que qualquer outra pessoa que eu conhecia. Mas o que isso queria dizer, eu me pergunto hoje e eu mesmo respondo: nada, exatamente nada. Enfim, eu não passava de um estragado que vivia estragando a minha vida e a vida das pessoas que me rodeavam. Tive amigos ficando depressivos para acompanhar minha fossa. Vê se pode? Não quer dizer necessariamente que eram todos bons amigos, não, definitivamente não. Alguns eram, mas nem todos. De toda forma eu era um lixo, e mesmo que eu pudesse não teria meu amor de volta. Também pudera, quem gostaria de ter ao lado alguém como eu? Muita gente, se querem saber. Foi uma época que transava como ninguém e por incrível que pareça, mesmo bêbado como um porco ainda tinha saúde a ponto de transar e merecer que elas voltassem. Não todas, só as que eu queria que voltassem. Desta época tenho garotas que voltam até hoje, pois sabe como é, algumas coisas são como andar de bicicleta. Mas definitivamente não foi a primeira vez que eu acabei dormindo com a cara na sarjeta. E pela primeira vez eu vou dizer aqui: tudo culpa de uma mulher. Tudo culpa dela. Do primeiro copo ao último cheiro na carreira.  Todas as brigas, os porres, as transas de esquina, as esporradas na cara de estranhas, os gorfos alheios em meu pau e etc. O lixo, a podridão, a destruição do meu corpo e minha alma, o pacto com o Diabo, é tudo culpa dela. Claro que houve uma cooperação de minha autoflagelação e minha persona non grata no mundo dos inocentes, mas de resto a culpa é unicamente de uma mulher. Eu sei qual é, algumas pessoas sabem de quem eu falo, talvez você mesma esteja lendo isso e me acusando de calúnia, porém a culpa é sua. Pronto. Resolvido. Vida que segue. E seguiu, mais ou menos. Pois assim como a culpo pelas mazelas eu também dou credito pelos louros. Sempre disse aqui que não comecei a escrever do nada. De início escrevia letras de músicas, mas eu era um jovem e não sabia nada da vida. Com a tragédia passei a escrever outras coisas até que cheguei aqui. E depois, só depois de quatro anos e pouco a culpo por qualquer coisa ruim. Acontece. Tarda mas não falha.

Mas queria falar sobre outra coisa. Queria falar como as coisas simplesmente acontecem. Eu nunca fui daqueles de decorar frases feitas para soprar aos ouvidos das garotas e esperar que elas caíssem de amores por mim. Talvez fosse minha rejeição aos clichês falando mais alto desde cedo. Eu sempre fui o sujeito que fui chegando aos poucos, com cuidado, me aproximando como um gato da folha seca. E sem que elas dessem conta do perigo lá estava eu com as garras afiadas na carne crua e macia, pronto para me deliciar. Ainda hoje as coisas seguem da mesma forma, o destino coopera porque ele gosta de se divertir e eu sou um bom entretimento para ele. Como um serial killer eu me aproximo fingindo-me de inocente mas sendo denunciado pelo olhar e este sempre me trai, afinal de inocente ele não tem nada.

Pronto.

Acaba que somos dois seres desejando a mesma coisa nas ainda disfarçando e é dessas situações que saem as melhores transas. Uma casal de mineiros se comendo secretamente. Aprendi que o maior segredo da conquista esta no cotidiano. Artificialmente consigo fazer com que uma coisa leve a outra, todavia tudo foi planejado, inclusive as falas. A cerveja ajuda a afastar a inibição e brincadeiras vão virando verdades conforme as garrafas vão esvaziando e pronto, simples assim. Parece fácil, só que não é. Necessita de talento para tanto.  Falando em talento, se este é a primeira vez que lê algo meu precisa saber que eu sou um egoísta do tamanho do mundo e que possuo tamanha arrogância de escrever só para mim. No entanto, hipócrita não sou e não vou fingir que torno meus pensamentos públicos para regar minha vaidade. Então estava conhecendo um novo bar com alguns amigos e todos começaram a falar de meus textos. Uma garota dizia que inspirava-se neles para escrever. Um cara dizia que esperava ansiosamente cada publicação imaginando-me no ato da escrita com máquina de escrever, whisky, cigarros e os demônios à sobrevoar minha imaginação. Eu poderia ter dito a ele que em toda minha vida estive diante de uma máquina de escrever apenas duas ou três vezes, porém não se pode podar a imaginação de ninguém. Por fim começamos a lembrar de alguns textos e eles se saíram melhor que eu, pois possivelmente os destilados ajudaram a acabar com o pouco de memória que eu tinha.

Dias depois descobri que arrumei uma nova paixão, daquelas que já citei por aqui e insisto - se você nunca leu nada sobre mim precisa saber - tenho um fraco por garotas lindas, tatuadas, magras, de pernas finas e barriga reta. Esta nova garota que conheci só não é tatuada e me vi apaixonado em pouquíssimo tempo. Trata-se de uma perfeita combinação de tudo que almejo e é claro que ela deve ter todos os defeitos do mundo como todas as outras pessoas do universo e seria tedioso caso não tivesse. Como aqueles momentos que você leva um choque quando toca em alguém, foi assim quando toquei sua cintura, por um leve momento. Mais um esbarrão que um toque e eu pude sentir sua cintura fina, barriga lisa e naquele momento eu a vi nua - só em minha imaginação, claro - estendida em minha cama, com rosto sonolento enquanto eu a observava do lado oposto do quarto fumando um cigarro e desejando que aquele momento não acabasse nunca. Imaginei-a com as pernas levemente dobradas, uma mais que a outra, uma mão abaixo do queixo e a outra repousada na barriga. Magérrima e linda, cabelos emaranhados e eu com dor na bexiga de segurar o mijo sem querer desviar os olhos daquele quadro maravilhoso. Sua cicatriz no rosto perfeito lembrando-me que todo paraíso tem seu porém. Um dramático eu sou? Sim! Um grande romântico? Com certeza!
Sentindo-me um adolescente que sonha acordado com a professora, neste momento eu corei e tão rápido meu devaneio fora que não creio que ela notou minha timidez momentânea. A diferença é que neste caso eu seria o professor do ginásio, afinal, por mais vivida que ela possa ser nada se compara às merdas que eu já fiz, aos infernos que eu já habitei, aos esgotos em que eu já dormi.
Digo que sou um romântico, pois como qualquer tarado - não descarto que eu seja um e dos piores - eu deveria imaginá-la nua e amarrada, nua e bem acordada, nua e realizando as minhas fantasias mais secretas, afinal, devaneio é devaneio, no entanto quis minha mente levar-me para meu quarto e espiá-la dormindo. Talvez isso deva-se ao fato de que tê-la, ali, repousando após o esforço de nos deliciarmos seja a minha fantasia mais secreta, tão secreta que mesmo eu não tinha conhecimento. E eu que sou um rebelde achando que minha maior fantasia obrigatoriamente teria de ser selvagem e violenta. Ao contrário, tão leve como a fantasia de uma garota. Vai entender.


Agora, quero que entendam o motivo pelo qual eu escolhi dividir este pensamento entre tantos que possam ser mais importante ou até mais divertido. Começarei dizendo que meus finais de semana são todos ao extremo como minha vida toda. Ou passo solitário apenas com a companhia do Tédio, ou passo os dias de descanso cometendo das mais intensas colaborações para minha viagem só de ida ao inferno, de acordo com os religiosos. Das maiores atrocidades, até a pele sangrando por unhas femininas. Garrafas e mais garrafas vazias e cama cheia. Então posso dizer que o último fim de semana nada teve de tedioso. Todavia, mesmo com os lábios dormentes, as pernas bambas, as paredes sussurrando pornografias, eu não conseguia me desprender de um pequeno esbarrão da cintura da garota com a pequena cicatriz no rosto.


Bento.

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domingo, 31 de agosto de 2014

A VIDA NÃO PASSA DE UMA GRANDE ESTEIRA LOTADA DE MERDA QUE VAI PASSANDO E PASSANDO

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Eu voltava do trabalho numa sexta-feira, o dia internacional do pecado, para mim e para o mundo - exceto os religiosos, estes pecam todos os dias. Eu digo voltava porque meu destino era minha casa. Não tinha um puto no bolso. Se for estranho para você ler que eu trabalhei o mês inteiro e estava voltando para casa por estar sem dinheiro, digo que você é uma pessoa feliz, pois a maioria das pessoas conhece o gosto amargo desta frase. O problema de voltar para casa na sexta-feira é que você não fica feliz de encontrar o metrô e o ônibus vazio, pois sabe que todas as outras pessoas estão em bares e puteiros e postos de gasolina, todos com suas cervejas geladas, soltando suas risadas com outras pessoas felizes das quais conseguiram fazer com que seus salários durassem o mês inteiro. Por isso digo que o caminho de volta para casa na sexta-feira tem sabor amargo. O excesso de sangue em sua corrente sanguínea e nada de álcool nas veias tem um sabor amargo. Mas tudo isso ainda pode ficar pior.

Eu tenho um problema com belas garotas. Tenho o problema de querer pra mim qualquer mulher que ultrapasse os limites possíveis de beleza. E ainda existe o fato de que alguns graus de beleza vêm embutidos com uma crueldade ferrenha de trazer-nos para a realidade de que não temos, e ainda potencializado pelo problema de voltar para casa no dia especialmente dedicado a beber e ficar bêbado, muito bêbado. Toda merda feita em consequência do álcool numa sexta deveria ser perdoada. Isso deveria ser lei. O 11° mandamento. As pessoas amam mais na sexta-feira, até. Caso Deus fosse um cara justo ele teria feito duas sextas na mesma semana. Porém, deixo de lamentar-me as injustiças divinas sobre o calendário para falar da tal garota que encontrei no metrô, afinal. Eu já disse aqui que sou um apaixonado por cabelos e mais cabelos negros e longos, no entanto, tenho uma coisa quase edipiana com cabelos loiros e olhos azuis. E digo mais: que se fodam todos os nacionalistas agora. Ela era um belo exemplar de europeia dos países baixos. Difícil até para mim, dramático que sou, traduzir em palavras o motivo da minha camisa ensopada de baba que eu derramava por causa de seu rosto. Tratava-se de um encaixe perfeito de queixo e nariz e olhos e testa e lábios e eu já estava apaixonado antes mesmo de pensar em escrever estas linhas. Quando eu era mais jovem e ainda tinha um bom relacionamento com Deus eu agradecia a Ele por ter minha visão perfeita e poder apreciar tais perfeições colocadas em nosso mundo para lembrarmos-nos de nossos defeitos e limites. Hoje não agradeço mais. Ainda tentando fazer com que vocês imaginem algo pelo menos próximo ao que eu havia presenciado, eu tenho um conhecido que diz que esse tipo de garota é para comer num papai-mamãe básico no intuito de não perder aquele rosto de vista. Tinha um outro que dizia que certas garotas são bonitas até cagando. Essa era um tipo deste.

Mas eu tenho outros vícios além de garotas tão lindas quanto nossas mentes possam imaginar, o álcool e a escrita. Eu sou um reparador irremediável. Você, seu bosta, que está apontando para a tela do computador com seu risinho estúpido desfazendo do autor e dizendo a si mesmo não existir a tal palavra "reparador" no intuito de reparar quero mais é que você morra com uma lança enfiada no cu, pois eu invento o que eu quiser. Então voltamos ao ato de reparar e analisar sobre roupas, dedos dos pés, manchas amarelas nas camisas abaixo das áxilas e por aí vai. Combinações de cores sempre mexem com minha libido por achar que é necessário um extremo bom senso para o êxito nas combinações e lhe digo, engolindo com gosto todas as injúrias que disse em todos esses anos sobre a vestimenta alheia. Digo, pois esta garota estava vestida com uma das piores combinações de todos os tempos e eu me omiti. Não disse uma palavra sequer. Sapatos vermelhos, calças listradas de branco e preto, blusa verde, cachecol roxo e bolsa laranja e eu não fiz uma critica nem mentalmente. Reparei e guardei pra mim no mais profundo âmago. Traí meus conceitos sem mesmo me lamentar, simplesmente pelo motivo de que algumas garotas têm rostos tão perfeitos que nada mais importa. Só fui lembrar-me da sexta-feira deprimente quando ela desceu na estação Paraíso e eu lembrei que talvez eu pudesse estar bebendo com paisagem, na Rua Augusta e me embebedar com a beleza das garotas de lá.

A sexta-feira passou sem maiores problemas e o final de semana também, bem como toda a semana seguinte de trabalho porque as coisas simplesmente passam. A maior parte da sua vida passa e é só isso que acontece. Nada de outro mundo, nenhum incrível fato que mereça comentário. Para quem lê, a sensação deve ser de que a vida de quem escreve é sempre ativa e singular mas a vida é uma merda para todo mundo. A vida não passa de uma grande esteira lotada de merda que vai passando e passando e o pedaço que tem menos merda você acaba por pensar que está melhorando. Então nós que escrevemos cortamos os momentos em que a esteira está cheia e só falamos, pelo menos na maioria das vezes, das partes com pouca merda.

Era uma quinta-feira, eu acho. O frio tinha ido embora e estava um clima agradável e eu estava voltando para casa com um livro de Bukowski aberto. Como ainda era quinta-feira não havia lugar para sentar e eu lia em pé. Até que começou a entrar mais e mais gente conforme as estações do metrô iam passando. Parando e pegando pessoas. Todos voltando ou indo para algum lugar. Do trabalho, da casa do namorado ou namorada. Velhos voltando do médico, crianças voltando da escola. Velhos voltando do médico com suas crianças. Tarados passeando de metrô a fim de esfregar algumas bundas e por aí vai. Eu estava em pé lendo alguns contos de Bukowski, voltando do trabalho numa quinta-feira e reparei ao erguer os olhos que na última estação haviam entrado duas garotas no vagão, desconhecidas uma da outra e além de seus rostos lindos como um gato brincando com uma folha seca, elas eram simplesmente incomuns. Uma era ruiva e a outra loira. Ruiva e loira de verdade. Com sardas e tudo. Vocês sabem como é raro encontrar ruivas e loiras de verdade hoje em dia? Ainda mais no mesmo vagão e horário. Então eu poderia interpretar aquilo do jeito que eu escolhesse e decide interpretar como um sinal positivo. O Destino por alguma razão estava de bom humor e queria que eu soubesse disso. Nunca escondi que o Destino e eu somos arqui-inimigos, mas mesmo nós damos uma trégua de vez em quando.

Então voltando para a sexta-feira maldita da qual eu não tinha dinheiro e nem lugar para ir. Acabei indo para casa. Abri o livro de Bukowski, abri a garrafa de whisky, pois mesmo sem dinheiro o álcool nunca falta. Sempre há uma garrafa de qualquer coisa no frigobar ou na cômoda para saciar minha sede e minha loucura. Abri o saco de fumo, adicionei ao cachimbo, estava pronto. Só faltava a trilha sonora. Fiz uma seleção das músicas de Albert King, Muddy Waters e mais algumas coisas parecidas. Eu lia e fumava e bebia e a sexta-feira dos infernos demorava a acabar. Só parei de ler quando a inspiração deu o ar da graça, deixei o livro de lado e servi mais uma dose enquanto digitava frases e mais frases sobre qualquer coisa. O Destino realmente tinha dado uma trégua. Fiz um brinde em sua homenagem, então.



Bento.

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