segunda-feira, 16 de julho de 2018

GOTAS DE SANGUE REPOUSAM EM MINHAS BOTAS PRETAS ep2


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Imagem de Apollonia Saintclair


Finalmente é segunda feira e o celular desperta freneticamente até que eu o escuto. Abro um dos olhos apenas para apertar a opção soneca e repito isso várias vezes até que acordo finalmente. Preferia estar morto, mas tenho que trabalhar. As contas não serão pagas sozinhas e os problemas no escritório não serão resolvidos sozinho.
Primeiro o cigarro como de costume. Me apresso o máximo possível para fazer o café? Claro que não. Não me arrisco à levantar da cama antes de terminar o primeiro cigarro. Enquanto isso penso em dezenas de motivos para não ir trabalhar e nenhum deles me convence.
No banheiro descarrego todo o álcool que bebi há dias com certa dificuldade já que o pau está tão duro quanto um pedaço de madeira. Chega a doer e por isso decidi terminar na pia para facilitar. Já estou atrasado antes mesmo de começar e preciso fazer café.
Fico me perguntando por que afinal eu já não faço café antes de dormir para que já o tenha pronto quando acordar e chego a conclusão que de noite estou bêbado e só consigo pensar se tem ou não álcool suficiente para alimentar meu vício.

Café pronto, volto ao banheiro para beber e fumar e pensar na vida. Na verdade não há muito a ser feito exceto ir vivendo os dias conforme o Destino nos apresenta. Todas as conversas inúteis, as amizades falsas, os mendigos pedindo esmolas. Todos os olhares de escanteio por causa de um sapato diferente, um penteado mal arrumado, um pelo na barba fora do lugar. As pessoas mais estranhas parecem comum para outras e isso funciona também com ações e todos fingimos sermos educados em busca de aprovação e eu não sou diferente. Não para buscar aprovação, mas para não levantar suspeitas, já que no dia anterior deixei quatro cadáveres para trás. Assim que saio do banho ouço rádios de polícia na minha porta e vou olhar pela janela. Na verdade estão em frente a casa do vizinho. Alguém não voltou para casa naquele domingo. Ouço os policiais comentando sobre a cena. Palavras como banho, sangue, massacre parecem querer erotizar a coisa toda. Porém são só pessoas, mortas, bem como animais são mortos em abatedouros todos os dias e ninguém dá a mínima. Não vejo como somos tão diferentes deles. Fedemos e matamos tanto quanto. Enfim chegam à minha casa perguntando se ouvi ou vi algo e nego dizendo que cheguei tarde no sábado e passei o domingo dormindo. O que não é de todo uma inverdade. O policial parece compreender já que está com uma cara de ressaca tão incriminadora quanto a minha. Muito simpático para um policial. Não quis esticar muito o assunto talvez pelo meu roupão de banho ser rosa com grandes flores lilás. Não o culpo, mas o roupão era de uma garota que esqueceu ao partir da minha casa. Peço um cigarro e ele tem. Só não é dos meus. Pena. O meu estava acabando e antes de nos despedimos ele pergunta como eram os vizinhos ou se eu havia presenciado alguma briga entre o casal. Digo que não pois não fico muito em casa já que estou sempre trabalhando, por fim entro e vou me vestir.
Muitos policiais, muito barulho. Pessoas amontoando-se na rua para tentar ver alguma coisa. Um ou dois carros da imprensa, mas nada demais. Só mais um crime banal na cidade grande. Cada vez mais as pessoas estão habituadas à violência e sangue e crimes e famílias inteiras matando-se por motivos fúteis. Crimes passionais, crimes por motivos mesquinhos e tudo o mais. Ninguém se importa, só querem ver, saber para poder ter assunto no almoço com o pessoal do trabalho, postar no Facebook ou YouTube. Mas na verdade, ninguém se importa realmente que dois casais morreram assassinados num almoço de domingo. Um simples almoço de domingo. A sociedade está calejada de crimes ediondos tão ou mais devastadores que este. Nem morte de crianças impacta esta geração. E eu sigo andando pela rua à caminho do trabalho.
Meus cigarros finalmente acabam e acho melhor não parar na padaria perto de casa. Muitos policiais me deixam nervoso e a segunda feira mais a ressaca já mexem demais com meus nervos. Continuo andando até um mercadinho e peço minha marca favorita. Só temos Eight, ela diz. Com um sorriso simpático que me dá nojo. Sorrisos simpáticos forçam você a devolvê-lo com mais simpatia e eu já sou obrigado a trabalhar e conviver com pessoas que eu não gosto, sorrir para elas é sacrificante para mim. Pergunto se não tem outra marca, ela diz que não, mas que aqueles cigarros importados ilegalmente do Paraguai são ótimos também. Eu estou prestes a sair com sua negativa, mas depois de querer me oferecer cigarros ilegais, que sonegam impostos, que não geram empregos, que matam nossa economia, sem falar na saúde de quem os consome, foi praticamente como cagar na minha cara e querer que eu agradeça depois. Sempre com aquele sorriso simpático de merda colado em seu rosto enrugado de quem abriu um mercadinho para ajudar na aposentadoria.

Decidi colocar meu sorriso mais simpático no rosto e digo que vou aceitar sua sugestão e assim que virou-se acerto o lado de sua cabeça com a máquina de cartões. Ela cai para o lado como um presunto gordo e velho. Dou a volta no caixa e passo a pisar em seu rosto com minha bota de solado militar. Uma, duas, três... Até que sinto quebrar algo como a casca de um ovo quebra ao ir para frigideira, então paro. Satisfeito, mas com uma puta vontade de fumar. Limpo a sola da bota na calça da velha até ouvir um barulho vindo do fundo do mercado. Um rato escondendo-se do gato, estava satisfeito e calmo, mas não poderia deixar ninguém para trás. Seria injusto com a velha e comigo. Na geladeira pego uma garrafa de cerveja, um bom trago com certeza ajuda qualquer crise de estresse. Geladinha, quase de doer o dente. Me aproximo sem muita pressa, mais um gole e acho o rato. Um garoto, não mais que dezesseis anos, magricela como uma garota se escondendo atrás do balcão de pães e frios. Ele se assusta soltando um grito agudo assim que quebro metade da garrafa no balcão derramando o restante da cerveja. Acho um desperdício jogar fora metade do líquido delicioso principalmente quando é importada, mas são ossos do ofício. Agarro seu cabelo com força pressionando contra os pães e a garrafa corta-lhe a garganta entrando bem fundo enquanto o garoto está abaixado com lágrimas nos olhos. Gotas de sangue repousam em minhas botas pretas. Fácil de limpar. No relógio ao lado dos frios reparo que estou atrasado. Não era um bom dia até eu sair da cama, mas as coisas estão melhorando. Cigarros! Lembro que preciso fumar.
Parto em direção à porta. Fui inconsequente penso. Alguém poderia aparecer nesse ninho de rato e eu ter de acabar com mais um cadáver na conta. Ao passar pelo caixa, reparo, ao lado da caixa registradora, quase não notei. Como sou burro! Ou sortudo. Danadinha, digo ao corpo da velha morta atrás do caixa. Se tivesse falado que era fumante... E ainda mais da minha marca favorita. Pego o maço na caixa registradora, retiro um e foi um trago delicioso. Devolvo o maço. Melhor correr para o trabalho.


Bento.


terça-feira, 12 de junho de 2018

MENSAGEM DE DIA DOS NAMORADOS

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Tem uma coisa em relações que precisa ser dita. Nada é o que parece. Sei, é meio clichê. Chega a parecer título de livro erótico que se vende em banca de jornal. Contudo, eu conheci Bukowski na banca de jornal, logo não julgue sem conhecer antes. Pensando nisso, digo logo, nada é o que parece. Entenda; as pessoas escondem o que não aprovam, ou o que acreditam não ser aprovado pela sociedade e hoje em dia se vive cagando regra sobre o que se é permissível ou não. “Será que aprovam?”. “Será que vou ganhar likes?”. “O que será que vão comentar sobre isso?”. Conceitos são ditados pelas mídias sociais, que basicamente se consiste em velhas que ganharam smartphone de seus filhos sentindo-se culpados por não dedicarem tempo suficiente aos idosos e jovens virgens que não fazem amizades na escola e se sentem poderosos quando online. Aliás, somos todos lindos online, é como Nárnia, poderosos e fodões. Aos olhos alheios, claro. Postamos “cozinhando" e logo imaginam que você é basicamente um Master Chef anônimo, mas você está fritando um ovo com bastante dificuldade. Relações são assim também. Ao olharmos um casal de mãos dadas passeando numa noite quente, com a lua desnuda, logo imaginamos que devem ser o casal mais feliz do mundo. É normal imaginar que todas as pessoas do mundo são mais felizes que você. Contudo, o que você não sabe e provavelmente acontece é que a garota deve chupar o irmão dele apenas por vingança, pois ele já a traiu várias vezes confiando que ela sempre vai perdoar, afinal, já perdoou tantas vezes.

Quando vê um casal saindo do mercado e você olha o cara, de rosto marcado pelo tempo e peito avermelhado à mostra carregando sacolas e o saco de carvão. E sua esposa empurrando um carrinho de bebê num sábado ensolarado logo imagina que será um maravilhoso churrasco em família. Um baita pai, uma mãe exemplar e sua pequena cria abraçados e transbordando amor. O que você pode não saber é que talvez este cara quando fica bêbado espanca a esposa na frente da criança, que ele ainda não sabe, mas não é dele e a esposa tem certeza que o dia que souber ele vai matá-la na porrada. E talvez torcer o pescoço do bebê.

E provavelmente você vomite arco íris ao ver um casal de adolescentes. Tão jovens e com tanta coisa para viver e nesse mundo de tanta tecnologia, informação em abundância e com tanta comunicação instantânea eles escolheram descobrir o mundo juntos. Em par. Ao mesmo tempo que se descobrem juntos. O que você pode não enxerga devido a distância é que existe a possibilidade do garotão se sentir extremamente atraído pela rola do amigo quando estão no vestiário do futebol. Que ele já acordou com a cueca molhada depois de um sonho onde ele se lambuzava com a porra quente escorrendo pelo seu rosto vendo seu amigo satisfazer-se com aquilo. O que você talvez não consiga imaginar é que a garota foi constantemente abusada pelo tio, que divide a casa com sua mãe, herança da avó. Que enquanto sua mãe ia trabalhar o tio vestia as calcinhas da garota e obrigava ela massagear suas partes íntimas. Isso tudo aconteceu durante boa parte da sua infância e agora que cresceu ainda acha que ninguém vai acreditar nela. Por isso ela pensa todos os dias em matar o tio e depois cortar os pulsos, mas ainda não se decidiu se mata o tio com uma martelada na cabeça, ou várias, enquanto aquele vagabundo tira o cochilo da tarde, ou apenas corte o pau dele e enfie em sua boca igualzinho ele fazia quando ela era mais nova.

Para não dizer que não falei de amizades, aquelas mesmas que não passa uma semana sequer sem juras de amor e fotos antigas no Facebook. O que elas não contam é que um torce para o outro permanecer na merda, mais forte que torcem por seu próprio sucesso, afinal, ser um falido de merda em companhia de um amigo é até tolerável. O que dói só de imaginar é continuar um verme e ainda ter que presenciar seu amigo ou amiga arrumando um amor, que sendo feliz e realizado. Amigos para sempre, mesmo que seja na merda.

Tudo é uma questão de ótica. O filme que você viu na adolescência jamais te trará a mesma sensação de antes. Algumas coisas são boas só na primeira vez. A maioria de nós tenta reviver relacionamentos de anos atrás achando que dessa vez dará certo, agora que o tempo fez seu trabalho e ambos então mais maduros e melhores. O que você não sabe é que algumas pessoas apenas não melhoram. Outras ainda pioram e tornam-se desconfiadas e traiçoeiras, talvez o responsável por essa pessoa se tornar assim seja você. Sim, temos grande influência nas pessoas que passam por nossas vidas, mas sempre para pior. Afinal, não é maravilhoso poder fazer um monte de merda e responsabilizar nosso passado ou pessoas que passaram? Só o que não admitimos é nos responsabilizarmos pelo monte de bosta que virou nossa vida. Seria demais para nós. Alguém precisa pagar por isso. Não eu. E você?



Bento.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

O FÍGADO É O MELHOR AMIGO DO HOMEM (Enquanto o quarto está mais vazio que de costume) ep1

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Imagem de Apollonia Saintclair

É domingo e acordo com a baba represada nos fios de barba. Gostaria de dormir um pouco mais. Dormir até de tarde, quando o estômago roncasse tão alto à ponto de acordar os vizinhos. Tão tarde talvez como um personagem de Edgar Allan Poe e só acordar em meu funeral, tendo de unhar a tampa da caixa funerária na esperança de chamar a atenção dos coveiros enquanto reclamam das condições de trabalho e o salário miserável. Ou interromper a discussão da última rodada do futebol quando os nervos estarão ferrenhos em busca de provar que seu time é melhor. Bem, mas quem eu estou querendo enganar? Eu trabalho na segunda e o máximo que consigo é dormir até às dez sendo despertado pela bexiga pressionando a uretra pedindo pelo amor de Deus para ser esvaziada. Os pés gelados como uma lata de cerveja num churrasco. Os olhos ardem ao menor sinal de luz. Por isso uso o tato para achar o maço de cigarros afim de que o primeiro trago do dia ajude no despertar. Acho-o e a luz da chama do isqueiro queima os olhos. A cama está mais vazia que de costume e só por isso ainda tenho parte do lençol cobrindo meu corpo. Não ouço pássaros, nem carros na rua. Apenas o barulho da pressão da panela que provavelmente vem da casa do vizinho e automaticamente imagino o almoço de domingo com pessoas que não se suportam fingindo uma tarde familiar sadia. Escondendo seus segredos e suas angústias para evitar discussões, até que um dos parentes beba demais e fale mais que o necessário, como uma faísca numa fábrica de fogos de artifício. Eu não preciso mais passar por isso, pois minha cama está mais vazia que de costume e é só por isso que bebi sozinho até às duas, ou três da manhã – não me lembro – como se não houvesse amanhã. Então lembro que os cigarros que tenho não vão durar até segunda, que as garrafas que tenho não vão durar até segunda se continuar bebendo neste rítmo e que se não levantar agora pode ser tarde demais para a minha bexiga.

Ao caminho do banheiro, tranço as pernas e agradeço por meu quarto ser estreito à ponto de meus braços abertos alcançar as duas paredes opostas. Reparo que o quarto está mais vazio que de costume, menos roupas, menos sapatos, menos coisas e me apresso para chegar ao banheiro evitando os espelhos, esvazio todo o álcool que meu fígado lutou para filtrar a noite inteira. Com uma das mãos apoiadas na parede acho graça e agradeço secretamente por meu fígado conseguir resistir à noite melhor que eu. Grande amigo eu tenho! E dizem que o cachorro que é o melhor amigo do homem. Quem diz isso é porque nunca matou uma garrafa de Bourbon e sobreviveu para contar história.

Então enquanto vistorio e aprovo o trabalho de meu fígado reparo que o banheiro está mais vazio que de costume. Sem cremes, xampus, sabonetes íntimos, toalhas e cheiro de menstruação. Apenas um pacote de lenço umedecido esquecida acima da caixa de descarga. Enquanto isso ainda sou incomodado pelo fato de que os cigarros não durarão até segunda e lamento o fato que terei de colocar meu par de botas e ver pessoas, falar com pessoas, dar sorrisos falsos e comentar sobre o tempo. Tempo este que olho pelo vitrô do banheiro e vejo que não é dos melhores. É domingo e não há uma sombra sequer. Ainda por cima cai uma garoa tão fina quanto o fio de uma lâmina. Suponho que tão cortante quanto o fio de uma lâmina e é neste momento que me arrependo de não ter comprado mais cigarros no dia anterior. Balanço o pau e dou mais um sorriso de canto de boca pensando que esse não é dos meus maiores arrependimentos. Há piores. Muito piores.

Preciso de café e desta vez terei de fazer eu mesmo, já que minha casa está mais vazia que de costume. Penso se vale o sacrifício de fazer café ou começo o dia continuando o que estava fazendo antes de cair no sono. Por hora, opto pelo café.

Forte e amargo. Não tão diferente quanto gosto dos meus drinques, pois bebemos para esquecer dos problemas, mas não podemos esquecer do sabor da vida. Ouço gargalhadas na casa dos vizinhos e isso me faz despertar do silêncio ensurdecedor. Enquanto ferve a água vou até a vitrola para abafar a alegria da vida alheia. Se eu não te incomodo com minhas aflições, não me venha exibir seu sucesso.

Só o cheiro de café entrando em minhas narinas já me faz despertar ao ponto de voltar a notar que talvez fosse melhor um par de meias para esquentar os pés que agora parecem tão frios quanto peixes mortos no supermercado. Dói ao tentar mexer os dedos para esquenta-los e a água parece preguiçosa ao descer pelo coador de pano levando consigo o café até a garrafa. Espero pacientemente e passo a lembrar do quanto bebi ontem, do quanto bebi antes de ontem e acendo mais um cigarro para esperar e esperar e vejo que a vida não é muito mais que isso. Esperar e esperar. Esperar que a música acabe. Esperar que o ônibus passe. Que o salário caia, que as contas cheguem. Esperar que alguém te ligue, ou pela resposta daquela promoção. Esperar pela nota da prova ou sua vez na fila do banco. Esperar pela mensagem de uma garota ou esperar que as pessoas vejam algo bom em você. Esperar que a vida mude ou que as próximas eleições cheguem. Esperar a estréia de um filme ou que a sexta feira chegue. A vida é muito mais esperar que realmente desfrutar de algo. Então enquanto a água escorre no coador a torneira da cozinha pinga e a garoa lá fora continua e a vida alheia segue e eu me sinto congelado não só pelo frio, mas pelo o tempo que não passa esperando pelo café e talvez eu tenha pegado no sono de novo enquanto espero. Engano meu. Sou despertado de meu devaneio pelo carro do ovo que anuncia mais alto que Sonny Boy Willison ame sua gaita na vitrola. Então meu estômago dá sinal de vida e diz que ovos no café da manhã seriam muito bem vindos, só que eu não vou colocar meus pés gelados nessa garoa fina apenas para satiafazê-lo.

Finalmente café, amargo, contudo forte. Mais um cigarro. Agora John Lee Hooker termina uma canção e ouço mais risadas. Histórias de vida alheia e aquilo me irrita. Misturo um pouco de vodca no café para acordar mais rápido. Penso em lavar o rosto, porém se a água estiver tão gelada quanto meus pés é melhor não. O café quente com sabor de vodca desce pela garganta e arrepia os pelos dos braços. Como o Popeye e seu espinafre. Todo o corpo desperta e se aquece, menos os pés, ainda blocos de gelo. Apelo pelas meias? Ainda não.

Agora os vizinhos além da conversa e gargalhada decidiram colocar música alta com um gosto discutível. Sento-me na beirada da cama como um canceriano sem lar que sou para tomar meu café e fumar meu cigarro desejando que aquele domingo pudesse durar para sempre, porém, sem carro do ovo, sem vizinhos e com os pés quentes. Mas quem eu estou querendo enganar? Eu tenho que acordar cedo na segunda para trabalhar como faço toda semana, independente se minha cama está mais vazia que de costume ou não. Então começo a pensar que todos temos direito de descansar no domingo. Dormir até morrer, mas cientes de que temos de acordar na segunda para morrermos aos poucos em coletivos lotados esperando que o salário caia e que as contas cheguem para esperarmos nas filas dos bancos e mais uma vez sou despertado de meu devaneio por gritos e gargalhadas e barulho de panelas e pratos caindo e talheres em atrito com pratos de porcelanas e de repente me vejo com uma chave Philips do tamanho de meu antibraço presa no elástico de minha calça de moletom tocando a campainha do vizinho e ele não pode ouvir o que digo do lado de fora do portão porque sua música de merda está alta demais. Então ele vem abrir a barreira de madeira, com sua caixa de correspondência pendurada por arames e me dá bom dia com uma lata de cerveja barata na mão. Me convida para entrar. Então sou eu, meus pés gelados e a música horrorosa e eu penso que eu não queria incomodar e digo isso a ele. Eu só queria curtir minhas aflições e agonias em paz enquanto bebia minha vodca com café na esperança de dormir e morrer e ao invés disso sou obrigado a escutar aquelas canções com letras desprezíveis e de duplo sentido. Então ando pelo corredor com meu vizinho à minha frente e decido que alguém precisa pagar por atrapalhar meu domingo. Sendo assim ele é o primeiro. Com a chave Philips acerto-lhe a nuca e a chave passa pelo couro cabeludo e o osso do crânio com mais facilidade que eu imaginava. A primeira serve para ele cair de joelhos em minha frente, com o pé direito gelado calçando um chinelo piso em suas costas para puxar a chave. Nisso um jato de sangue tão quente quanto o café acerta-me o peito manchando minha camiseta branca. Mais essa ainda, talvez tenha que tomar banho, neste frio. A segunda é só por garantia e estouro seu tímpano com o espeto de aço.
Continuo no corredor e vejo minha vizinha, esposa, responsável pelo cheiro de tempero de feijão que tomava conta de minha narinas fazendo meu estômago colar nas costas. Acerto-lhe o olho esquerdo e seu corpo desfalece escorrendo pela chave como o macarrão que ela fervia escorria pelo garfo. Na mesa, mais um casal, que congelou ao ver o rosto da anfitriã coberto de sangue brilhante e escuro. Belisco a carne semi assada na forma esperando as batatas e sinto uma dorzinha no dente. A mulher clama por Deus. O homem decide se mexer e pega a faca ao lado do prato tentando se proteger mais que proteger a mulher. Sinto que a carne ainda está meio dura e mastigo com firmeza, mais dor no dente. Pego a panela com água e macarrão e arremesso em sua direção. Na mesma hora ele cai no chão se debatendo de dor. Sua pele parece descolar do osso como frango frito. A mulher levanta de supetão e reza. Me amaldiçoa. Sua mão em meu peito tenta me afastar em vão. Acerto-lhe abaixo do queixo com força e vejo a ponta da chave Philips sair na parte de cima de sua cabeça desmanchando seu penteado. Parte do couro cabeludo na ponta da chave. Seus olhos apagados me encaram. Com a mão em seu pescoço apertando-lhe contra o armário cheio de louças combinando com aquelas que estavam à mesa retiro a chave. O sangue escorre pelo seu decote. Entro na sala e desligo a música finalmente. De fundo escuto minha vitrola rolando Mustang Sally e sinto paz.

Volto para meu quarto e ao término da música finalmente sou capaz de ouvir a agulha encontrando todos os arranhões do vinil. Com a camiseta suja limpo o meio dos dedos sujos de sangue. Por fim, visto uma nova camiseta, coloco um par de meias nos pés e agora eles estão quentes como pães recém saídos do forno. Finalmente um domingo feliz. Mais uma dose de café. A vida é boa. Se souber aproveita-la.



Bento.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O PEIDO É TÃO PESSOAL E INTRANSFERÍVEL COMO NOSSOS PENSAMENTOS MAIS OBSCUROS

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Quando eu era jovem sempre fiquei intrigado quando ouvia os professores falarem sobre pensadores. Nas salas de aulas cheias de moleques encrenqueiros como eu, e eu era sempre o pior - segundo estes mesmos professores - por que eu entendia que o cara ganhava um salário só para pensar. E lá ficava eu pensando com meus botões, imaginando um cara que colocava seu despertador programado para acordar às seis da manhã, tomava seu banho, ligava a TV no jornal matinal enquanto vestia-se e tomava o café da manhã. Colocava comida para os cachorros, para o gato e ao invés de sair de casa rumo ao emprego como fazia minha mãe e meus irmãos de manhã enquanto eu me arrumava para ir para a escola o pensador simplesmente sentava numa varanda com sua xicara de café e com seu dedo indicador pressionando a têmpora ficava lá, pensando. Soprava a fumaça do café fumegante pensando e anotando as coisas que entendia ser importantes. Então de repente, nota-se a hora do almoço e pronto! Para de pensar um pouco para alimentar-se e uma hora depois voltar ao trabalho. Sempre imaginei isso como a coisa mais chata do mundo, ou pelo menos UMA das mais chatas. Perguntava-me eu, quem em sã consciência, escolheria ser um pensador? Depois de velho fui perceber que trabalhar num escritório enviando relatórios, atendendo telefones, tendo que pegar ônibus e metrô lotados de gente que fazem coisas bem parecidas com as minhas é bem pior que a vida que eu imaginava que o pensador levava.

Mais velho ainda comecei a invejar tanto a vida dos pensadores que passei a desejar uma vida igual. Afinal, trabalhar em casa, para gente como eu que suava frio quando ouvia notícias sobre greve do metrô seria maravilhoso.
No fim descobri que pensador pode ser qualquer um de nós e não necessariamente ganhamos algo para isso. Mais ou menos como a música, nem sempre os melhores são reconhecidos. Com isso cheguei à conclusão que o problema não são os pensadores ou os músicos, ruim mesmo é envelhecer. Tantas ilusões.

Por esses dias peguei uma gripe e me entupi de remédios. Todos aqueles conhecidos que prometem curar a gripe e até um ou outro que consegui clandestinamente sem receita para curar-me. Adiantou momentaneamente, pois cinco dias depois cai de gripe de novo.

Tenho um grande problema com medicamentos e contra eles, pois enquanto os consumo não posso beber e isso é um problema enorme. Está certo que vez ou outra misturei vodca com xarope para curar a gripe e fiquei numa loucura tamanha, mas isso é uma história para contar em outro momento. Por isso só me medico em último caso, pois acredito piamente que não há doença que o álcool não possa curar, com exceção da doença da idiotice, essa... Nem Deus poderia. Enfim, estava com uma gripe longínqua e devido a conselhos familiares e de minha namorada resolvi tomar antigripal e antibiótico. Veja minha situação, sou corintiano desde que nasci, qualquer coisa que envolva a palavra anti já me causa descrença instantânea. Bom, resumindo; claro que não deu certo. Acabou que eu fiquei no remédio, sem beber uma gota de álcool e não melhorei. Mas... E friso o "mas" por que realmente deve-se chamar atenção ao fato. Então, é justo que pare, respire profundamente e se diga, lá do âmago; MAS... bastou uma boa noite de bebedeira com destilado e escrita para a coriza recolher-se ao nariz, a garganta dar a pausa à tosse e tudo mais ir pra casa do caralho. Tem gente que não acredita. Acha exagero. Acha que é mentira de bêbado, porém afirmo que nunca tive uma doença que o álcool não curasse.

Pensando nisso, enquanto doente e tomando minha cagibrina, lembrei que a muito não parava para beber sem preocupação. Digo, de pausar qualquer pensamento mesmo. Sem pensar em contas, em relações, em trabalho. Apenas sentar, beber e sair escrevendo. Reparar em cada aranha que faz moradia nos cantos do quarto. Em cada mancha de umidade. No barulho do motor da geladeira da vizinha. No salto alto da nora da outra vizinha quando ainda vira a esquina, que chega de madrugada voltando da balada, e logo depois pega o molho de chaves na bolsa para abrir o portão. Os carros que passam e raspam o assoalho na lombada. E os gatos correndo brincando no telhado. E no momento que escrevo isso lembro de quando adolescente, quando trabalhava de office-boy sonhava em estar em casa, ouvindo Frank Sinatra, com a chuva de dez dilúvios batendo na janela, frio de matar, e eu dentro de casa tomando uma boa xícara de café preto para esquentar o corpo vestido de calça de moletom e seres me pagando só para escrever. Vê que desde muito jovem eu era velho e solitário? Nunca fiz questão de companhia. Nunca me senti sozinho comigo mesmo. Sempre tive algo para reclamar, é claro, afinal escreveria sobre o quê? Mas sempre fiz questão de manter-me sozinho pois minha companhia sempre me foi suficiente. Evidente que vez ou outra você precisa da companhia de outras pessoas para que não passe a vida dependendo de uma alegria masturbatória, uma mão amiga vez ou outra é indispensável. Porém a solidão assusta a maioria das pessoas. Hoje em dia solidão demais é confundida com depressão, não sei se por influência da indústria farmacêutica, da mídia ou dos analistas, mas acho que subestimamos uma boa solidão, estar só, falando apenas consigo mesmo, e desvendando nossos próprios segredos. Tem gente que se assusta com seus próprios pensamentos e por isso tenta sempre estar rodeado de pessoas. Se o sujeito não consegue se abrir com ele mesmo, algo está errado. Quer um exemplo? Somos tão mais tolerantes com nosso peido que com os dos outros, claro. Peidamos debaixo das cobertas e cobrimos a cabeça. Cheiramos nossos gases e damos risada. Já qualquer flatulência alheia nós achamos o fim do mundo, pois o peido é tão pessoal e intransferível como nossos pensamentos mais obscuros, mas ainda assim dividimos com poucos que conquistam nossa confiança.

Digo mais, passei meses segurando peido no começo de meu namoro. Tanto que por várias vezes tive que sair do quarto só para peidar e era um alívio do tamanho do mundo. Hoje, ainda bem, eu e minha namorada dividimos nossos peidos como dividimos uma mesa num restaurante, ou uma pizza.

Sendo assim, acredito piamente que a solidão nos ensina humildade. É preciso reconhecer nossos defeitos para lidar com o defeito dos outros, qualquer coisa diferente disso se transforma em hipocrisia. Então depois disso tudo, digo para aqueles que ainda permanecem descrentes com a solidão, friso que a pior solidão não é aquela que você sente quando está só, num quarto escuro ouvindo blues e tomando algo forte. Ou quando se está numa cabana no meio do mato tomando café e relendo um livro clássico. Não é a solidão de término de namoro onde se fica em casa comendo chocolate e assistindo comédia romântica, nem a solidão de uma prisão tão pequena que mal consegue ficar ereto. Não, pois esse tipo de solidão tem também a ausência de esperança. Você não espera nada dela. É tão somente você e um grande vazio. Assim ficamos alheios a tudo, nada pode nos atingir. Somos invencíveis, inabaláveis, imortais e inatingíveis.
Digo que a pior solidão é aquela que sentimos quando estamos no meio de uma multidão ou num relacionamento de via única. Quando percebemos que o próximo não tem tanto interesse em nós como temos deles. Afinal, nestes casos, a solidão vem junto da frustração de esperar e esperar que o outro indivíduo sinta prazer de sua companhia e se alegre pelo simples fato de te ver feliz. Essa solidão, sequer um mar de whisky poderá dar jeito.



Bento.

sábado, 12 de março de 2016

COMO MOSQUITOS ATRAÍDOS PELA LUZ PARA SEREM MORTOS

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Não se preocupe em deixar frutos nesta vida e ser gentil com as pessoas, pois no fim todos nós terminaremos sozinhos. Não há um ser humano sequer neste mundo que não colocará seus sentimentos e bem estar à frente de todas as outras pessoas.
Lembro-me de minha casa, meses atrás, havia tantas latas espalhadas quanto um ferro velho. Era o sonho de todo catador de latinhas, passar alguns minutos ali recolhendo alumínio até fazer um bom dinheiro, como aqueles programas de televisão que tinha minutos para escolher os prêmios que queria levar.
Eu poderia recolher e vender tudo aquilo, mas tinha a preguiças dos gatos, só funcionava de noite. E recolher latas e carregar sacos pretos de lixo até o ferro velho não estava, nem de longe, em minha lista de prazeres.

Eu já fui mais de festas. Houve um tempo que chegara a fazer duas festas por semana em casa. Regadas a cervejas, carnes sangrentas e música alta a ponto de receber visitas frequentes de policiais em minha porta informando sobre o descontentamento dos vizinhos com nossa festa de dar inveja a Baco. Hoje faço festas mais particulares, quando faço, com minha garota e é só. Muito suor e destilados. Cervejas e sexo. Mais que isso eu estaria mentindo. A diferença entre minhas festas antigas e as atuais não é só o possível sexo, pois isso nunca foi problema. É que hoje em dia é possível fazer festa sem dizer uma palavra sequer. Quando muito um "passe a perna para cá" basta. Entenda, não é sempre (quase nunca) que estou com vontade de conversar e falar sobre coisas inúteis.

Veja um exemplo; outro dia estávamos numa festa de aniversário com algumas pessoas que eu não via há tempos. Chegamos e apresentei a garota aos antigos amigos e logo sentamos para dar início aquele velho e chato papo bosta "olá, quanto tempo, o que tem feito?". Levei um pacote de cerveja como é de bom tom em toda festa onde se é convidado, afinal, é o único líquido que bebo e somente com o álcool sou capaz de sair de casa e socializar decentemente com pessoas e meu pacote continha todo o álcool que existia na festa, assim, dei graças aos céus por minha boa educação. Caso contrário teria saído dali no mesmo instante que cheguei.
Digo isso, pois minhas cervejas eram as únicas que existia no lugar e não havia nada mais alcoólico a não ser o usado para acender a churrasqueira. Não que fosse novidade pra mim, afinal eu já fiz drinks com cada coisa... O que quero dizer é que cada vez mais as pessoas estão preocupadas com saúde e comidas saudáveis e exercícios físicos e para todo lugar que olho vejo seres com corpos esculturais e roupas tão minúsculas quanto a velocidade de raciocínio. Parece clichê, mas normalmente o ser mais forte não é o mais esperto da sala. Normalmente. O que não quer dizer que isso não tenha suas vantagens.

Minha garota mesmo, vez ou outra lhe pego revirando os olhos por um ou dois caras que aparecem na TV com as tetas tão rijas que poderia arrastar uma charrete com elas. Mulheres têm destas coisas, às vezes. Ela acha que não percebo, mas estou sempre atento. Basta um cara com aqueles músculos aparentes para lhe prender a atenção. Eu já sou exatamente o oposto. Apesar de ter ganhado um pouco de peso, ainda me mantenho magro como salário mínimo e tão sedentário quanto um bicho preguiça. Só me mexo quando extremamente necessário e sempre que posso evitar, faço. Caminho até o mercado para buscar cervejas e nada além do que posso carregar, pois acredito piamente que todo homem só precisa ter a força necessária para carregar exatamente aquilo que vai beber e comer, e é tão somente por isso que não sou adepto de gordas. Além disso, eu ainda faço piadas, veja quanta coisa boa. Algumas garotas preferem homens carismáticos aos fortes, afinal, foi-se o tempo que nós, machos, precisávamos de força para sobreviver. Mas algo me preocupa. Não é que me faça perder o sono, mas às vezes me pego pensando. É muita força para animais irracionais andando por aí sem nenhuma cautela. Em algum momento pode dar merda, bem como homossexuais agredidos nas esquinas e etc. É pouco raciocínio e muitos músculos andando por aí sem qualquer vigilância e não que eu queira ser o mensageiro do Apocalipse, mas não precisa ser muito esperto para prever que em algum momento, numa sociedade escrota que vivemos hoje, com uma forte tendência ao fanatismo, religioso, político entre outros, em meio a uma cultura empobrecida de ideias e ideais, onde os artistas têm tanta massa cinzenta quanto seus seguidores amebas, irá acontecer uma barbárie sem precedentes.
Nessa mesma festa que eu narrei, todos os garotos que cresceram comigo, todos davam o dobro de mim, contudo não leram dez por cento dos livros que eu li. Nem vou citar sobre porres, pois eu ganharia de mil a zero. Não sei se estão conseguindo me acompanhar, porém vou simplificar. Talvez tenhamos daqui a 50 anos, jovens senhores vivendo até seus 100 anos, saudáveis e acéfalos, que criarão crianças acéfalas e por fim, sumiremos da face da Terra como os animais que um dia, dominaram o mundo por serem racionais. Em plena época onde a informação tem sido de maior acesso, as pessoas simplesmente não conseguem acompanhar sua velocidade ou priorizar seu raro tempo naquilo que realmente tenha importância.

Neste mês, fará seis anos que eu escrevo sem parar. Nestes anos, eu li e ouvi de tudo que é tipo que se possa imaginar, desde o início eu falo sobre isso, sobre este tópico e de lá para cá só piorou e não creio que vá melhorar. É uma data importante pra mim. Numa conta rápida, supondo que eu escrevesse apenas um texto por mês, o que é pouco perto do que escrevi, teria eu escrito 72 textos neste período. Que é mais que todas as matérias de jornal que esses seres musculosos leram nem sua vida medíocre. Pode apostar. Mas hoje, tenho mais de 500 textos postados neste blog e não que isso me faça melhor que eles, claro que não. Supondo que eu bebesse uma caixa de cerveja por semana nestes seis anos e uma garrafa de destilado por mês, chutando baixo, eu teria absorvido 72 garrafas, e 288 caixas de cerveja, sendo cada caixa com 12 latas, eu teria bebido 3.456 latas de cerveja e 72mil mililitros de destilado dentre eles whisky, vodca, conhaque, cachaça, tequila e derivados. Fatalmente isso não me fará viver até os 100 anos. Contudo, talvez me faça ser lembrado, mesmo que seja um exemplo a não ser seguido, de como viver a vida. Só isso já basta, para não querer fazer parte deste exército de testosterona que andam sem rumo sempre a caminho da multidão. Bem como mosquitos atraídos pela luz para tão logo, serem mortos.



Bento.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

EMPANTURROU-SE DE CARNE ATÉ DIZER CHEGA

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Imagem de Apollonia Sainclair


Pela dor que sentia no joelho esquerdo era certeza que iria chover, por isso que Malaquias se apressou para achar um bom coberto, onde não escorria água, fez a cabana de papelão, prendeu seu carrinho de supermercado no tornozelo e então podia relaxar. Claro que é sempre bom dormir com um olho aberto quando se está na rua e ele sabia disso como ninguém, mas até a rua é um pouco mais segura quando chove, pois ninguém queria sair para por fogo em mendigos e vê-los queimar. Malaquias estava em um lugar alto, seco, e por incrível que possa parecer, mesmo não tendo nada, agradecia aos céus pela chuva. Ele tinha encontrado uma caixa cheia de quadrinhos da Marvel, de 1987 e guardara até um dia como aquele, chovendo, mas calor para ler. Ele assistia as baratas fugindo da água escorrendo pela calçada e procurando abrigo abaixo de seu papelão, mas bastava se aproximar o suficiente e ele acertava com o salto de sua bota. Cada barata era um aperto no coração. Não via muita diferença entre elas e ele. Morando na rua, sem teto, correndo da chuva. Mas odiava baratas. Tinha asco e talvez até certo medo. Entre ele e elas, Malaquias preferia ele, a única diferença é que ele era maior e podia matá-las apenas com um golpe do salto da bota. Não demorou muito para ele pegar no sono lendo e vendo quadro a quadro Wolverine apanhar do Tigre Dentes de Sabre, mas no fim sair vitorioso. Malaquias desejou muito ser o Wolverine, pois ele vinha apanhando a muito tempo da vida.

***

Cris estava no banco do passageiro do Fusca falando no celular com seu namorado. Vestia uma lingerie nova escolhida especialmente para aquela ocasião. Não era a primeira vez que estava naquele carro, nem no Libelillun Motel, tanto que no porta-luvas tinha um pacote de lenço umedecido e uma necessaire exclusiva para aquela finalidade. Júnior, seu namorado, estava exaltado do outro lado da linha. Estavam discutindo, pois ele tinha saído cedo do trabalho querendo fazer alguma coisa de diferente com sua namorada, mas ela dizia que iria trabalhar até tarde. Se ele tivesse avisado antes, ela dizia, tinha dado um jeito de sair mais cedo. Uma dor de barriga, ou aquelas coisas de mulher com enxaqueca ou cólica.

- Você sabe que eu sempre dou um jeito, amor. Eu minto bem.

Junior sabia que era verdade, ela mentia muito bem. No início do namoro ela inventou muitas histórias para que os dois pudessem aproveitar os motéis durante o dia quando eram mais baratos e mais vazios. Uma vez, Cris conseguiu fingir dengue para o médico e pegou um atestado de cinco dias e os dois foram viajar emendando o feriado. Ele não sabia como ela conseguia aquilo, mas era uma boa mentirosa. Cris sabia que o decote ajudava na mentira e sempre que precisava não tinha medo de usá-lo. Tinha seios de dar inveja a muitas mulheres e ela ainda tinha 23. Também por isso, pela pouca idade, achava que era muito nova e muito bonita para se prender a um cara só. Júnior mesmo, era ótimo, pagava todas as contas e a levava para lugares incríveis. Sempre viajando para as praias mais requisitadas, os restaurantes com melhor nota na revista da Folha, enfim, não tinha do que reclamar. Mas era diferente com Ludovico, o dono da empresa de Marketing onde trabalhava. Além de italiano, que já era um sonho para Cris transar com um italiano, Ludovico era mais velho, mais rico, tinha um gosto incrível para tudo, ele também era bem mais másculo. Enquanto Junior só a fodia num vai e vem básico, às vezes até pedia para ela ficar de quatro, mas sequer batia na sua bunda, Ludovico comia ela de pé, apertava-lhe o pescoço a ponto de quase achar que iria perder o ar, mas ele sabia o ponto certo. Cuspia em seu rosto e fazia ela se sentir um objeto, uma vagabunda, que na realidade ela sabia que era. Se colocar sua diversão e seu prazer à frente dos sentimentos dos outros era ser vagabunda, então ela era das piores, ou melhores, depende do ponto de vista. Teve até um fato engraçado quando conheceu Ludovico. Ela não gostou dele logo de primeira. A idade a assustou, os cabelos bastante grisalhos também, mas tudo piorou quando ele disse que seu carro era um Fusca. Ela quase deu risada quando ele disse a ela. Pensou logo na sua infância, seu pai e aquele velho Fusca azul geladeira. Até ver Ludovico saindo para almoçar em seu Fusca zero, ainda sem placa, pois tinha acabado de comprar. Achou-se idiota naquela hora, mas apaixonou-se pelo carro e por Ludovico. Agora estava ali, impaciente, falando com Junior no telefone e aturando sua crise de ciúme, enquanto seu amante pegava a chave da suíte de um dos motéis mais caros da cidade. A única coisa que fazia se sentir mal era quando Ludovico dava dinheiro para ela ir embora de taxi depois da transa e ainda dava umas notas a mais de cinquenta. Ela se sentia uma puta. Porém, não iria negar o dinheiro, afinal, suas roupas e o cabeleireiro e as maquiagens, tudo custava o olho da cara e seu salário de estagiária não dava nem para o começo.

- Junior, chega! Vou entrar numa reunião. Te ligo quando sair. Eram 19:00. E desligou o telefone. Entrou no quarto e logo viu Ludovico abrir a garrafa de vinho e servi-la.

***

Malaquias acordou no meio da noite assustado. Mesmo seu carrinho de supermercado ainda estando ali mexeu a perna para ter certeza de que ainda estava preso ao seu tornozelo. O quadrinho que lia antes de pegar no sono estava aberto ao seu lado, em cima do papelão. Desejava um cigarro, mas tinha fumado o último há três dias mais ou menos. Precisava fumar. Antes de viver na rua era um fumante inveterado e no começo foi bem difícil passar sem. Sentiu vontade de cagar e rapidamente seu cérebro já o fez lembrar sobre um lugar ideal para fazer de banheiro. Não muito perto que o vento pudesse trazer o cheiro até onde estava e nem muito longe que tivesse que perder seus pertences de vista. Em seu carrinho pegou um rolo de papel e foi até a viela que tinha caçamba de lixo. Abaixou-se entre a parede e a caçamba de lixo e despejou tudo no meio fio. Essa era uma das partes mais difíceis. Não ter um banheiro para cagar em paz, tomar um banho relaxante no inverno e um banho gelado no calor e sentir que aquilo é só seu. A viela estava sem luz então Malaquias quase saiu correndo de susto mesmo com a bunda ainda suja quando viu um carro se aproximando, com os faróis apagados e em marcha lenta. Entrou na viela e parou no meio dela, no meio do breu. Porém pode ver o par de botas saindo do carro, abrindo o porta-malas e colocando seu conteúdo calmamente na calçada. Malaquias não conseguiu ver o homem que descarregava o carro, mas o que ele tinha em seus braços parecia um fantasma.

***

Ludovico estava especialmente animado hoje. Fez uma longa preliminar fazendo Cris sentir o tesão percorrer todo seu corpo. Começou fazendo massagem, passou a beijar cada pedaço do corpo da garota de cabelos loiros. Chupava e lambia e Cris queria mais. Queria ser xingada. Desejava os puxões de cabelo e ser estapeada como Ludovico fazia. Ela se sentia um pedaço de carne nas mãos do italiano e sentia um prazer imenso nisso. Por ser muito bonita e pequena, os caras que saiam com ela tratavam-na como uma boneca que poderia se quebrar a qualquer momento, mas Ludovico a tratava como puta e ela adorava. Estava com tanto tesão que sentiu seu corpo mole, tão mole que quase não tava sentindo mais a língua de Ludovico em sua vagina. Cris não sabia, mas tinha cinco mililitros de Ketamina, um paralisante potente usado em cirurgias que o italiano aplicou em sua nádega sem que ela percebesse. Seu sorriso ficou congelado em seu rosto como aquela lenda antiga que os pais lhe contavam quando fazia careta para idosos. "Vai bater um vento e seu rosto ficará assim pra sempre" eles diziam. Não sentia mais nada. Respirava com dificuldade. Pensou até em infarto, mas era jovem e saudável, fazia exercícios, seria impossível estar morrendo de tesão, literalmente. Quando Ludovico teve certeza da paralisia de Cris levantou-se e foi até sua maleta. Acendeu um grande cachimbo já com fumo e sentou-se na cadeira ao lado da cama admirando o corpo de Cris. Ela mal conseguia mexer os olhos, mas podia ver a fumaça branca acumulando no teto do quarto de hotel. Cris achava que estava entrando em transe, que estava num sonho. Sentia que passara horas olhando para aquela fumaça tentando chamar pelo nome de Ludovico, mas não saía nenhum som. Passara a ouvir uma musica de fundo, antiga, não era calma, mas trazia serenidade. Pensou estar dormindo, só poderia estar dormindo. Até ver, finalmente, Ludovico surgir em seu campo de visão, com o olhar de quem a desejava como nunca tinha notado nos olhos do italiano. Sua barba por fazer, seu cabelo lambido para o lado já estava desfeito caindo sobre a testa e Cris pensou que nunca tinha o visto tão belo. Ludovico beijou-lhe nos lábios, desceu pelo pescoço até chegar aos seios e Cris via, mas não sentia nada. Queria poder avisar a ele que não estava sentindo nada. Ludovico passou bastante tempo ali, na posição de quem beijava-lhe os seios e Cris sem nada sentir. Ela não sabia, mas o homem que conhecerá estava mastigando seu seio esquerdo como quem mastiga uma picanha mal passada numa churrascaria rodízio. Começou pelo bico e mastigava. Sem cortes, só mordida. Como um canibal, como uma hiena. O sangue jorrava pelo seio mutilado e Cris não se dava conta. O homem bebia o sangue todo, lambia o excesso que escorria pelas costelas aparente devido a magreza de Cris. Era um jantar suculento de carne mal passada que Ludovico não encontrava nem nos melhores restaurantes que visitara pelo mundo. Empanturrou-se de carne até dizer chega e então parou. Levou o corpo ainda vivo com o seio amputado por mordidas como se tivesse enfrentado um animal até um beco escuro e largou lá. Como os pais de família fazem com o lixo da cozinha. Largou lá e saiu com o carro fumando um cigarro para ajudar na digestão.

***

Malaquias foi até o fantasma que havia sido deixado ali na viela e percebeu que era uma garota, de cabelos loiros e um lençol branco a cobria até o pescoço. Seu rosto estava imóvel e seus lábios arroxeados. Tomou um susto e teve certeza que se tratava de um cadáver. Malaquias já tinha visto em filmes polícias, aquele teste de por o dedo no pescoço da vítima para sentir a pulsação, mas não tinha certeza se aquilo funcionava. Mesmo assim fez e não sentiu nada, nem um músculo. Malaquias olhava para o rosto da garota e ficara indignado. Tão linda. Branca como um fantasma. E os cabelos loiros, mas tão loiros. O mundo realmente não era um mundo justo. Enquanto ele estava ali vivendo como um verme, comendo lixo e ainda vivo, uma garota linda como aquela estava nua e morta numa ruela qualquer. Ele nunca estivera com uma garota como aquela, mesmo em seus melhores dias, quando ainda tinha um emprego e era alguém na vida e pelo andar da carruagem jamais poderia estar com uma garota daquela. Afinal morava na rua e não se lembrava da última vez que escovou os dentes. Malaquias não tinha nada, logo, nada também a perder. Tocou no rosto da garota e sentiu um tesão que deixou-o envergonhado. Pensou em seu primeiro encontro, sua primeira namorada e sua primeira transa. Sentiu-se um garoto novamente. Quando se mora na rua, as pessoas tendem a se afastar ou ignorar, porém Malaquias estava de frente com esta garota, tão próximo que poderia beija-la e ela nada podia fazer. Então ele fez. Tocou seus lábios no da garota e sentiu seu pau latejar dentro da calça. Sabia que o que estava fazendo era vergonhoso. Tinha consciência disso, mas quando se vive na rua os conceitos de vergonha tendem a diminuir. Comer o resto que as pessoas jogam no chão também era vergonhoso e mesmo assim ele fazia, pois tinha de sobreviver. Então Malaquias usou o mesmo argumento para se convencer de fazer aquilo. Também era uma questão de sobrevivência. Precisava ter a sensação de penetrar uma mulher novamente. Já fazia tanto tempo desde a última. Malaquias então subiu o lençol até a cintura da garota. Apreciou-lhe as pernas. Olhou a vagina do cadáver e tão logo cuspiu em seu pau para que pudesse penetra aquele que parecia um botão de rosa. Lindo e delicado. Metia fundo e com força no corpo que só se mexia pelo impulso do corpo do morado de rua.

E Cris, que a última vez que se lembrava estava num quarto luxuoso de hotel com seu amante, agora estava no que parecia ser uma rua com sobrados e um homem negro desconhecido olhando-a nos olhos com o rosto de quem sentia muito prazer. Ela piscou e o homem parou de se mexer, mas continuou encarando-a. Pode perceber que o homem fechou os olhos com força como que os pressionando. Quando abriu deu um pulo enorme. Tudo aquilo não chamava tanto a atenção de Cris como a dor que sentia em seu peito. Como um machucado. Uma ferida aberta. Ainda não tina a consciência que seu seio esquerdo tinha sido mastigado por um homem louco. O mesmo homem que a presenteava com roupas de grife e jantares caríssimos. Malaquias não podia acreditar no que estava acontecendo. A garota estava viva ainda, mas o tesão falava mais alto. Ele tinha tirado o pau de sua vagina, contudo precisava entrar ali de novo. A garota acordara, porém não se movia. Talvez não pudesse então ele pensou em continuar. Debruçou-se sobre a garota e ela tinha um olhar assustado. O mesmo olhar de uma criança recém-nascida ao ver o mundo pela primeira vez. Era notável que a garota tentava falar, mas não conseguia. Malaquias viu uma pedra próxima e acertou a garota na cabeça com força. Mesmo com o susto tomou cuidado para não machucar seu rosto lindo. Bem no topo da cabeça, bateu uma vez e os olhos ainda se mexiam, então repetiu uma, duas, três vezes até que os olhos perderam qualquer sinal de vida e ele continuou satisfazendo-se até que chegou ao ápice e ofegante, saiu dali, pegou seu carrinho, recolheu seu papelão e partiu. Morrendo de vontade de fumar um cigarro. Como era de praxe depois de toda transa, antigamente.




Bento.

domingo, 10 de janeiro de 2016

AS RELIGIÕES, AS PUTAS, A MÚSICA E AS ARTES CÊNICAS, TUDO ESTAVA VAZIO

Imagem de Apollonia Saintclair

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Alarme falso.
Uma vez levantei e corri para o banheiro ainda com as remelas grudando os olhos, com muito sacrifício sento no vaso e percebo que eram só gases. Achei que iria cagar, mas fui ludibriado pelo peido. Já que estava ali decido terminar o cigarro antes de levantar.

Isso às vezes acontece e não é só dos gases que falo. Há muito alarme falso na minha vida. Um dia desses mesmo, jantei e passei mal. Comi, deitei e foi só encostar a cabeça no travesseiro e a boca encheu d'água, era o vômito se anunciando e sei que vão lembrar que eu digo que nunca vomito e é verdade. Há dois dias eu não bebia e gorfei todo o almoço e janta na privada. Bebi água e voltei correndo para ajoelhar de novo no chão do banheiro e colocar o resto de Deus-sabe-o-que para fora. Depois de três, quatro vezes que bebi água e voltei a vomitar decidi tomar uma dose de whisky. Batata! Alarme falso. Pensei que iria morrer, mas era só falta de álcool. Pensei no whisky, pois já não havia nada para por pra fora.

Poucas coisas são tão ruins quanto vomitar. Seu corpo vira autônomo e decide que você não vai sair do banheiro enquanto ele não mandar. Mesmo quando tentamos lutar contra, os músculos da barriga deixa claro que somos fracos insistindo em colocar para fora tudo que ele não quer mais. De qualquer forma, há momentos que é melhor por cima que por baixo. Hoje mesmo, estou há alguns dias sem beber. Não tenho um centavo no bolso e enxuguei todas as garrafas que tinha em casa. Acreditem, até o enxaguante bucal com álcool acabou. As coisas passam a ter outro sentido quando se está sóbrio. Eu sinceramente não entendo como as outras pessoas aguentam o mundo sem alguma coisa para ficar doidão. Mesmo assim fui trabalhar num calor de cinco infernos e eu com um humor de querer morder os cachorros na rua. Uma ou duas vezes tive vontade de correr atrás do rabo só para ver se tonto, as pessoas ficariam menos tediosas. Na empresa desligaram o ar-condicionado por causa do racionamento de energia e eu transpirava como um macaco. Por vezes tive de ir ao banheiro lavar o rosto e percebi minhas mãos trêmulas. Talvez eu precisasse de um médico, mas com o dinheiro que eu NÃO tenho não podia me dar ao luxo de perder um dia de trabalho. O espelho mostrava meu rosto cansado de quem tem uns quarenta anos e eu ainda não cheguei nos trinta. Estranho como quando estamos alto por causa de uma birita não reparamos nessas coisas. Os fios brancos da minha barba brilhavam como sabres de luz de Star Wars. Bebia água como um desesperado para repor o líquido que perco devido o calor e também por hábito de estar sempre bebendo algo. Mastigava a água até, pois tinha fome como um mendigo. O café da máquina era péssimo como água de um copo sujo de cinza de cigarro.
O cigarro era outro problema. Estava prestes a acabar, por isso eu fumava metade e apagava para guardar a outra metade pra mais tarde. Não damos o devido valor a um cigarro até perceber que é o último do maço e que não existe outro maço. Eu poderia usar isto como metáfora para muitas coisas nessa vida medíocre, mas até escrever é difícil quando se está sóbrio. Sempre odiei poetas sóbrios. E vendedores sóbrios, artistas sóbrios, balconistas sóbrios, enfim. Acho que me fiz entender.

O fato é que tudo me lembrava álcool. As pessoas exalavam álcool. Tudo piorou quando a senhora da limpeza me deixou maluco depois de limpar minha mesa com álcool perfumado e caprichou tanto que eu me segurei para não acabar lambendo o móvel. A secretária, por alguns instantes ao me passar um telefonema me deixou confuso e eu tive que pedir para que ela repetisse o recado que aos meus ouvidos soaram como "quer que eu te leve uma cerveja bem gelada"? quando na verdade ela perguntou se eu queria que retornasse ao Bezerra do almoxarifado que estava atrás de falar comigo e já tinha ligado duas vezes. Eu respondi que não podia falar no momento. Precisava de um cigarro, de muitas cervejas e um chinelo para amenizar o calor. Pernilongos pairavam sobre nossas cabeças e eu poderia comê-los na esperança de terem picado algum bêbado por aí e quem sabe absorver um pouco de etanol misturado com sangue. Talvez não fosse a primeira vez, pois já misturei álcool com tanta coisa. Última vez que me lembro misturei xarope à vodca para curar uma tosse e de quebra a gripe. Sempre fui bom de improviso. Uma vez estava tão falido que tive que usar o Bom-Ar como desodorante porque não tinha nem para comprar uma Minâncora, não via problema algum em pegar um pouco do álcool hospitalar que a empresa comprava para a limpeza dos banheiros e alcançar uma pequena brisa sequer.
Se eu tinha esperança que ao transpirar evaporasse um mínimo de álcool que continha em meu fígado ou estômago entrando em minha corrente sanguínea agora já se fora. Eu estava sóbrio e duro. Que vida ingrata. De pensar que eu já havia dado tanto lugar para velhinhas sentarem nos ônibus e como Deus me retribuía? Sem uma gota sequer de álcool para aturar essa vida maldita. Sentia-me tão desambientado neste lugar como quando estive num noivado evangélico à base de refrigerante quente e salgadinhos frios. E a maior prova de que essas igrejas não são de Deus é eu acreditar piamente que ao adentrar qualquer lugar sagrado eu entraria em combustão tão rápido quanto um acendedor de churrasqueira e muito disso devido ao álcool tomando meu organismo. Mas não agora.

Pensei em churrasco e me deu calafrios. Lembrei da cerveja no gelo e sal grosso. A carne grelhando. Infinitas batidas e caipirinhas de todas as frutas da temporada. Precisava sair dali e beber alguma coisa antes que enlouquecesse, se é que já não estou louco. Eu poderia matar o primeiro que surgir na minha frente e beber de seu sangue com um canudo se tivesse a certeza de que aquilo me tiraria dessa realidade maluca e tediosa. Já estava ouvindo vozes. Mate mate mate mate!!!!!!!!!! As veias pulsantes no pescoço fino e liso da garota que senta-se à mesa ao meu lado. Morda! Arranque um pedaço! Mastigue! Corte, esquarteje, pique, beba!! Beba!! A voz continuava. O calor e os mosquitos me irritavam. O ar, o barulho e até o silêncio me tirava do sério. Estava enlouquecendo. Os barulhos das teclas que as outras pessoas insistiam em pressionar. O click do mouse, as ventoinhas dos computadores, os ácaros nos carpetes todos malditos barulhentos. Simplesmente não conseguiam ficar em silêncio e respeitar a minha dor. Me ofendiam apenas por estarem vivos e existir. Mate mate mate mate!! Aquela voz continuava. Eu precisava sair dali, mas minhas pernas tremiam. Meu corpo tremia. Eu desejava mais que a vida um copo, umas garrafa de algo amargo, forte, rasgando a garganta ao descer. Batendo no estômago e me lembrando que estou vivo. VIVO! E que a vida podia ser melhor que esses pedaços de carne ambulante que perambulam por aí com seus sorrisos falsos, suas peles oleosas, seu fedor. Eu precisava matá-los, precisava limpar o mundo desses nojentos. Mas mais importante, eu precisava beber, então minha faxina rancorosa poderia esperar. Sentia firmeza nas pernas pela primeira vez no dia e corria. Saí dali e corri até o hall. Não tinha elevador disponível então corri pelas escadas. De dois em dois degraus tropecei duas vezes e quase parti a cabeça ao meio. Do lado de fora do prédio continuei correndo e fui como um alucinado até o bar mais perto que conhecia e estava fechado. Continuei correndo e encontrei mais bares fechados. Nem era feriado, era um dia de semana como qualquer outro. Corria e corria e mais bares com suas portas de aço abaixadas e trancadas e mercados fechados, padarias e Casas do Norte, mercearias e qualquer lugar que vendia álcool estavam fechados. Finalmente avistei um posto. Continuei correndo e a loja de conveniência estava fechada então tive uma ideia genial. A bomba! Claro. A bomba de etanol, álcool puro e da fonte. Parei ao lado do frentista sem fôlego. Não sei dizer como consegui correr tanto. Não com os trinta cigarros diários. Mas logo que parei comecei a sentir o resultado de tanto esforço. Meus pulmões colados nas costas e sem ar. Minhas pernas começaram a tremer novamente. A garganta seca quase não permitia que eu falasse. Álcool! Álcool, pedi ao frentista. Ele não entendeu e então eu repeti e tive que fazer um esforço enorme para isso. Álcool! Me dê um pouco de álcool. E daí que era álcool automotivo? E daí que aquilo poderia corroer meus órgãos e me matar? Eu já estou morto. A sociedade estava morta. Com todos os seus demônios e sua hipocrisia e suas doenças. Herpes, AIDS, gonorreia, mau hálito, caspas, furúnculos anais, hemorroidas, diabetes, gastrite e um mundaréu de enfermidades. E os gordos, os idosos, os pais de família. Eu só precisava beber. Morreria por uma gota de álcool e para melhorar o meu dia, o frentista olhou bem nos meus olhos, sem respeitar meus sentimentos e jogou a realidade toda em meus ombros novamente.

- Não temos nenhum combustível. Estamos vazios. Ele disse.

Vazios! Claro que estão. Não só o posto. O mundo estava vazio. As religiões, e as putas, a música, e as artes cênicas, tudo estava vazio. De um vazio absolutamente tedioso e é por isso que eu precisava de álcool. Então eu corri. Continuei correndo como se não houvesse amanhã e possivelmente estava certo. Vi a avenida. Os carros indo de um lado para o outro com seus condutores e suas vidas patéticas e vi um caminhão. Enorme e vinha rápido. Vinha como quem estivesse atrasado para algo. Dois passos. Apenas dois passos seria o suficiente para dar cabo daquilo. Dois passos e o caminhão espalharia meus órgãos podres devido o consumo excessivo de álcool pela avenida. Fazendo uma festa de sangue e pele e tripas. Dei os dois passos e esperei. Mais espera. Em toda a minha vida não houve um segundo sequer que eu não estivesse esperando alguma coisa. O garçom trazendo meu drink, a garota sair do banheiro para transarmos e um monte de outras coisas. Travei os dentes com toda a força que restava em meu corpo. Era a hora e quando estava a um milímetro de distância, tão perto que podia sentir o calor do radiador em minhas narinas, no último instante, fui surpreendido com o som do contrabaixo de Lemmy tocando Aces Spades saindo do meu celular. Era o despertador me acordando para ir trabalhar de novo.

Então, você que lê isso agora, se é que há alguém lendo isso, deve estar respirando aliviado achando que estou contando apenas um sonho que tive. E tudo seria maravilho se realmente fosse isso mesmo. Um sonho e pronto. Porém, hoje completa 36 dias que não consigo sair deste sonho. Todos os dias, sem exceção, o contrabaixo, o alarme falso do peido, o calor, os bares fechados e o caminhão. Tudo de novo e novo e de novo. Preso num ciclo vicioso, infinito, como um rato correndo em sua roda dentro de sua gaiola. Sempre igual. Sempre. Igual.



Bento.

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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A PRIMEIRA CANECA DE CAFÉ DEPOIS DO CIGARRO NA GARGANTA QUASE VIRGEM DE UMA NOITE MAL DORMIDA

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Eu sempre disse que tenho uma queda por enforcamentos. Não por mim, claro que não. Nem quero dizer que sinto vontade de me enforcar. Passei a vida inteira "enforcado" e acho que já foi o bastante. De qualquer forma, sempre senti um pouco de euforia ao tomar conhecimento de alguém que se enforcou. É só uma coisa minha, nada demais. Perdoe-me aqueles que tiveram pessoas próximas enforcadas - ou não perdoe - que se foda. A verdade é que respeito toda forma de desistência. Tiros na têmpora, saltos de prédios e em frente a trens, ingestão de veneno, inalação de gases e etc. Acho o ato de DESISTIR muito corajoso, nem todos conseguem. Não acho covarde aquele que desiste, acho burro aquele que continua insistindo em algo que não vai dar certo. Acredito que as coisas podem dar certo assim como podem dar errado, sendo assim todos temos a opção de continuar ou não e assim como todas as opiniões, esta também é individual. E vamos combinar que a vida é uma merda e que nem todos temos estômago para aguentar certos caprichos do destino, muito menos arcar com todas as nossas medíocres ações.

Sendo assim, nada mais que justo dar espaço para outra alma mais assertiva, que por ventura, possa vir acampar por esse mundo. Contudo, a vida não se resume só em mazelas, há também aqueles pequenos momentos onde nos sentimos o pica grossa no universo, por exemplo, quando temos duas cabeças entre nossas pernas brigando por um pedaço de nosso pau. Você nunca soube o que isso? Bom, se nunca, neta miserável vida, pôde ter um momento como este, ainda lhe sobra o caminho da Escada e a Corda, como diz Matanza.

Falando ainda sobre aquelas pequenas coisas que trazem felicidade. Aqueles pequenos momentos que enxergamos mais que os olhos humanos enxergam. Ao acordar no fim de semana de folga e perceber que o sol está castigando a cabeça das pessoas e ao colocar a cara para fora, logo você sente os pelos eriçados devido os raios solares queimando de leve sua pele, parecendo ganhar mais potência, fruto do álcool que transpira de seus poros quase a ponto de entrar em combustão. A felicidade que propicia a primeira caneca de café depois do cigarro na garganta quase virgem de uma noite mal dormida. A segunda caneca de café. E depois disso, poder abrir a geladeira e encontrar uma garrafa geladinha, transpirando, deixando as pontas dos dedos dormentes de tão gelada. Seguido de um Tissssss que dá água a boca. E o primeiro gole, que faz formigar todo o interior e o céu da boca, quase dormentes, a língua e a parede da bochecha. Isso é para poucos. O sabor, a dormência, quase que de pau duro você agradece a semana inteira de sacrifício e sacrilégios para poder ter estes pequenos momentos de felicidade puro e simplesmente magníficos. É preciso muita consciência e inteligência para saborear momentos como estes. Um gole, depois outro e outro e só parar para acender outro cigarro. E sair no sol de novo e a pele estranhar novamente a luz. E perceber que os cachorros também aproveitam o calor, deitados com a barriga pra cima sob a luz solar, como quem faz fotossíntese, afinal, somos todos adubos. Todos nós, não passamos de relés adubos para a terra. Sendo assim eu poderia muito bem ficar aqui em minha cadeira de praia, curtindo o meu sábado, olhando os bichos curtirem o sol e só me levantar para pegar outra cerveja e mijar, que é inevitável. Contudo tenho uma garota nua em minha cama que precisa ser alimentada. Precisa de energia para que possamos aproveitar o fim de semana e terminar de desidratar-me. E também a ela. Então volto à penumbra do quarto para vê-la nua, com o lençol caprichosamente cobrindo-lhe apenas metade da bunda. E que BUNDA. Outro gole na cerveja e a metade da bunda e as pernas de fora e o lençol, pensando; são sempre as pequenas coisas que me agradam, não há definição melhor.

Melhor que isso, só o caminho até o mercado, indo buscar mantimentos para o almoço, tomando minha cerveja debaixo de um sol de dezoito infernos e meio, sentindo o cheiro de liquido vaginal em meu volumoso bigode depois de chupá-la semi acordada, pois não resisti àquela visão de bunda e pernas sobrando abaixo do meu lençol.

Mas mesmo um cheiro no bigode tem de ser interpretado. Eu interpreto de um jeito. Na fila do mercado, feliz, com uma caixa de cerveja na mão e o cheiro de boceta no bigode eu me sinto feliz como quem há muito não sente. E penso nas outras pessoas na fila e mesmo aqueles que carregam suas caixas de cervejas, será que sentiam o mesmo aroma que eu? E se sentiam, será que sabiam interpretar tamanho significado e prazer que ali continha? E você que está lendo agora, será que consegue?
Não adianta querermos nos comunicar quando o ouvinte não se interessa pelo conteúdo da mensagem. É preciso parar para ouvir. Duas pessoas conversando não necessariamente quer dizer que estão se comunicando. Por vezes são apenas palavras soltas como numa sopa de letrinhas, como num teste de ditado. Começar o fim de semana com uma caixa de cerveja e o tal cheiro no bigode é sair ganhando de goleada. Dito isso, espero ter sido compreendido.

Pois bem, eis que volto pra casa com a sacola cheia de mantimentos suficientes para o preparo de um bom Chilli de fazer a língua queimar. Mais um motivo para encharca-la de cerveja e tudo corre muito bem, obrigado. Só que um ranzinza como eu não pode levar a vida como se fosse um mar de rosas. Não eu.
Consigo me desprender dos problemas quando estou com um Bourbon de qualidade no beiço e meus cigarros a tiracolo enquanto ouço Howlin Wolf no rádio, mas sei que eles estão lá guardados, só esperando para chegar segunda-feira e voltarem a me atazanar. Mas e quando esses problemas não são suficientes? E quando eu, acostumado ao limbo, à sarjeta, começo a pensar que a maré esta tranquila demais e preciso de uma tempestade para me ferir e fazer pensar? Entendam; sempre fui de viver à flor da pele. Não seria natural se eu simplesmente sentasse em minha cadeira de balanço e começasse a planejar crianças, que por sinal eu as odeio. Logo, vai eu enxergar defeitos e situações que me deixam estressado e dignas de lamúria, pois tenho que reclamar.
Sendo assim o ranger da cadeira de balanço me incomodava. O sol baixou e com o cair da noite veio o frio e não demorou pra que eu começasse a praguejar. O Chilli não estava apimentado suficiente, a cerveja ficou choca, o filme que íamos assistir me deu tédio. O cabelo da minha garota não estava bom, seu micro pijama não me excitava suficiente e assim veio mais praguejo. Praguejo atrás de praguejo. Afinal, já disse, sou um ranzinza acostumado com o cheiro de merda nas narinas e sempre fui adepto da teoria de que não se pode elogiar muito a sorte senão ela acha que está bom e o abandona.



Bento

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terça-feira, 22 de setembro de 2015

SÓ QUE SOMOS SÓ UM AMONTOADO DE CARNE, BANHA, PUS E TRIPAS

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É curioso como podemos fazer coisas repetidamente, todos os dias, mecanicamente e nunca nos darmos conta. Como um aparelho doméstico, funcionando e funcionando e é só. Dias atrás eu me vi no meio do caminho para o trabalho e sequer me dei conta de como fui parar ali. Simplesmente parei e pensei; mas como foi que vim parar aqui? Olhei-me e estava vestido, com as chaves, cigarros e celular no bolso, tudo em ordem. Cabelo penteado, passei a língua nos dentes e estavam escovados, mas eu não me lembrava de ter feito nada disso. Digo, lembro-me de acordar e acender um cigarro e depois disso PUFF! Qualquer memória foi pro saco, como se eu estivesse ficado bêbado e aparecido ali, acordado do porre ali. Só que era de manhã e eu estava indo trabalhar. Tudo daquele momento para trás se perdeu. Não lembrava dos cigarros que fumei, nem das canecas de café que tomei. Não lembrei de ter cagado, de tomar banho, de pegar o ônibus ou o metrô, de nada. Estava ali automaticamente, fiz o caminho inconsciente porque eu faço todos os dias. Não lembro da cara de cu do cobrador, não lembro dos velhos que fazem questão de acordar cedo e encher o transporte coletivo. Não lembro dos gordos que ocupam o dobro de espaço num transporte que já não cabe mais ninguém. Não lembro se li meu livro, se usei o banheiro da estação. NADA. Só lembro de estar ali, no meio do caminho para o trabalho como faço todos os dias. Um lapso? Seria loucura? Finalmente minha mente estava pedindo, ou clamando, por uma aposentadoria? Então meu corpo vagaria por aí sem mim ou sem minha mente, ou eu seria apenas um passageiro de meu corpo, sentindo, vendo, cheirando, porém sem controle nenhum sobre qualquer músculo. Com consciência, mas sem autonomia. Espectador da minha própria vida. O interessante é que meu corpo, em carreira solo, possivelmente teria mais sucesso que eu (quem não teria?). Talvez eu esteja com dislexia. Talvez eu esteja morto sem me dar conta, mas as contas continuam chegando, então estou vivo, pois os cobradores são os primeiros, a saber, das nossas vidas ou mortes. Reparei que quando me dei conta do meu lapso eu estava andando rápido, quase correndo, mas por quê? Bem, estou sempre atrasado e também estava naquele dia, mas se sempre estou atrasado então qual a diferença? Correr por quê? Aliás, esta é uma pergunta que eu vivo me fazendo e eu não consigo responder nunca.

O Tédio. O Tédio e as outras coisas. Por quê? Pra quê? Acordar por quê? Levantar pra quê?
Por que comer se daqui a pouco estarei com fome novamente? Por que tomar banho? Por que tenho que sair de casa? Por que levantar da minha cama? Trabalho todos os dias, de segunda à sexta, o mês inteiro, pago as contas e começo tudo de novo, por quê? Pelo final de semana? Trabalho exclusivamente pelo final de semana. É nisso que minha vida se resume? Trabalho e final de semana. Uma semana toda de martírio para poder passar o final de semana todo na minha cama esvaziando garrafas. Pra quê? Por quê?

As pessoas são decepcionantes, a vida é decepcionante. Talvez você ainda não tenha passado por situações ruins suficientes para perceber que nenhum de nós vale o esforço de um pequeno músculo sequer. O curioso é que todos nós nos superestimamos. Sempre achamos que somos um pedaço de carne selecionado por Deus. Inventamos que existe alma apenas para nos sentirmos importantes, só que somos só um amontoado de carne, banha, pus, tripas, tudo isso misturado com altas doses de egocentrismo. Todo homem acha que seu pinto é maior e melhor que os dos outros. Toda mulher acha que trepa melhor que todas as outras. Tem caras que gastam o que não tem para comprar carros enormes e caros para se sentirem mais e melhor. Mulheres que colocam silicone e passam horas no salão de beleza tentando ser a droga de uma boneca inflável ambulante. E aí você pensa; o cara se resume a dois braços musculosos. Tudo bem se você preferir um pedreiro em tempo integral, tudo é uma questão de gosto. Tudo bem se você prefere comer uma garota com os glúteos tão rijos quanto seu pau. Tudo é uma questão de gosto. Mas é exatamente aí que você começa a perceber que a vida já não representa grande avanço e que as pessoas não estão demonstrando seu melhor. É uma mecânica que eu particularmente não aprovo, se é que aprovo qualquer coisa mecânica.

Enquanto isso vou escrevendo no ritmo que a inspiração mandar. Esperando a falência do mundo como espero do fígado. Vivo a vida em meia dúzia de latas de cerveja por vez. Exercitando a arte de menosprezar a humanidade e lamentar por estar certo. Vejo pernas e bundas e peitos passeando pelas calçadas. Pedaços de carne, por vezes suculentas, mas na maioria não passa de banha crua e molenga. Poucos cérebros, pouca consciência, nenhuma aptidão para tomar as rédeas de suas próprias vidas. Transeuntes vegetativos. Zumbis babando e escarrando e cagando. Não mais que isso. Um exército, se prestar bem atenção, não passa de uma massa de gente, um exército de seres repetindo gestos, imitando falas, frases e comportamento. São coadjuvantes da vida real, não se fazem notar.

Conversando com um amigo uma vez, ele me contava sobre uma transa que teve com uma garota. Ela despiu-se e deitou na cama de pernas abertas. Este meu amigo olhou a garota branca como um palmito e seu corpo não era tão diferente. Nada de peitos, o pouco de bunda que tinha a posição que ela escolhera não favorecia. O maior volume de carne que tinha em seu corpo estava na região do abdômen e o que foi bem pior, quando pensou em levantar suas pernas para ensaiar um frango assado pode reparar em restos de papel higiênico picados como quem limpou a bunda depois de cagar com uma marca de papel da bem vagabunda. Bêbado como estava na hora, ele pensou; já que estou aqui...
Bem, meteu-se dentro de uma camisinha e como um cientista maluco com sua veste protetora entrou de cabeça naquele mundo subterrâneo. Fico eu aqui pensando com meus botões; ainda não inventaram camisinha ou nada parecido que protege contra a humanidade, além da solidão.



Bento.

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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

COM ESSA GAROTA NUA ADORMECIDA EM MINHA CAMA ENQUANTO EU BEBO MEU WHISKY

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Na maior parte do tempo observo o quão deprimente as coisas corriqueiras podem ser. Os elogios sem motivo, as amenidades, o convívio com as outras pessoas. Vizinhos, colegas de trabalho, família e etc. É tudo um grande teatro mal ensaiado de péssimos atores e é só isso. Relações de uma fragilidade como ossos de galinha. Todos mantendo a pose da coxa de galinha assada até que se quebra e pronto. Viram inimigos. Esses são nossos relacionamentos mais comuns. Não quero que pensem que sou grande coisa porque não sou. Não sou, pois não consigo fingir. Não sei acordar de manhã comemorando mais um dia de vida medíocre, esperando que as coisas melhorem e desejando paz na Terra. Invejo essas pessoas, de verdade. Não acho isso uma coisa boa, de forma nenhuma, mas vamos combinar que a ignorância traz sim felicidade. Não tanto quanto o dinheiro, mas quem não tem cão caça com gato. Digo isso para deixar claro que não sou grande coisa. Não vou me fazer de vítima, porém sinto sinceramente que não passo de um amontoado de palavras que já foram boas e nada mais. Além, claro, de ser um beberrão convicto, que precisa de uma boa dose de algo alcoólico e forte para poder levantar da cama e enfrentar o dia. Um sedentário bosta que evita fazer qualquer coisa esperando que a inspiração venha no intuito de escrever qualquer bobagem que me faça sentir algum prazer por respirar.

Houve um tempo que eu fui a maior promessa da literatura de minha geração. Hoje não passo de um ex-futuro-escritor. Tento escrever qualquer coisa e não saio da primeira linha, e quando faço acho tudo uma porcaria. Talvez, de tanto escrever fracassos tornei-me minha musa. Dou voltas e não saio do lugar. Cinco anos escrevendo, até que fui longe. Mais longe que esperavam, já eu esperava mais. Sou um escritor de livro nenhum. Tenho um romance inacabado, outro que nem comecei a escrever e outro livro de contos que nunca concluo. Como tudo na vida não concluo porra nenhuma. Dou voltas no mesmo lugar como um peão de madeira de quando era criança. Um fracassado. Hoje não sou metade do filósofo que já fui e em minha melhor fase não fui um décimo do poeta que poderia ser. Talvez por preguiça, omissão, ou por perder tempo transando com todas as garotas que cruzaram meu caminho. Preciso comprar um carro, um computador novo, e uma televisão nova... E a maior emoção que tenho ultimamente é acordar de pau duro devido a bexiga pressionar a próstata.

Vejo as pessoas estudando cada dia mais e me pergunto; para quê? Não estou exigindo resposta, eu já as tenho. Cada dia mais e mais informação é despejada por todos os veículos de comunicação e hoje todos são comunicadores empenhados e continuo sem entender. Na prática, não se usa. Os jovens chegarão somente ao ápice de sua ignorância. Os velhos regridem para acompanhar os jovens na sua imbecilidade, pois é mais fácil render-se a ela que superá-la.

Então, estou finalmente de férias, e sendo assim, tenho por vinte dias a vida que gostaria de ter até o fim de meus dias. Não faltam cervejas e cigarros, todos devidamente organizados ao alcance das mãos e para que não falte numa madrugada qualquer. Gosto tanto de cervejas que poderia economizar um bom dinheiro vendendo as latas como os carroceiros fazem, mas sou orgulhoso demais para pensar nisso, e trabalho demais para ter de economizar com latinhas recicladas. Pensei nisso outro dia e por capricho comprei garrafas. Nesses dias mudei a marca da cerveja. Mudei, pois é bom mudar em alguns momentos. Há muita resistência na mudança em qualquer pessoa. Apesar de ouvirmos por aí que as pessoas odeiam rotina, toda mudança assusta como o uivo do vento na janela numa noite solitária.
Por falar em mudanças, passei meus 30 dias de carma anual sem maiores problemas. Terminei os últimos cinco numa viagem confortável e aconchegante. Estava a garota do Bourbon e eu num quarto antigo sem televisão, com moveis barulhentos e digo que poucas coisas são tão belas quanto ver uma garota de lingerie passeando pelo cômodo fazendo suas coisas de garotas. Sequer a imagem do mar em seu vai-e-vem de ondas e seu ronco contínuo é tão belo quanto ver uma garota em sua rotina diária de cremes e esmaltes e elásticos de cabelo e camiseta surrada passeando em frente aos meus olhos ajeitando a calcinha, penteando os cílios, e essas coisas de garotas. Eu poderia ter viajado, comprado minhas cervejas, fumado meus cigarros e sequer ter colocado meus pés na areia e sentido a brisa fria do mar e o sol escaldante queimando minha pele, pois poucas coisas são tão belas quanto acompanhar o vai-e-vem da garota do Bourbon só de lingerie, com suas dobras, suas curvas, indo para lá e para cá, dobrando coisas, arrumando outras coisas em seus lugares como quem rege uma orquestra, como dona do mundo e do tempo. Passaria horas bebendo e fumando e vendo o desfile desta garota fazendo exatamente nada, apenas exalando sua feminilidade e destilando seu perfume de cremes, desodorantes e perfumes e mais cremes e é tão delicioso que eu poderia comê-la, literalmente, comê-la. Mordê-la e mastiga-la e engoli-la. Fatia-la e engoli-la, tamanha delicadeza de seus passos, seus dedos ao tocar o chão gelado, quase como um gato, quase sem tocar o chão. A rotina de vê-la ali passando de lá pra cá sabe-se lá fazendo o que preenchendo o ambiente dela. Só dela. Todo o ambiente, todo o quarto, era só ela. Eu não passava de mais um móvel usado e barulhento. A diferença é que eu fumava, arrotava, peidava, bebia e às vezes transava. Digo às vezes, pois percebi que a idade chega pra todo mundo e ter de acompanhar a libido de uma garota de 21 anos não é tão mais fácil na minha idade, mas eu ainda não fico devendo muita coisa.

Contudo, eu pensava assim até brigarmos. Afinal, para me ver brigando com alguém basta deixar-me num quarto com qualquer ser humano durante uma semana e sim, eu, inevitavelmente acharei motivos para brigar com esta pessoa. Amigo ou inimigo. Não importa. Qualquer pessoa que fique tanto tempo próximo de mim me causará problema. Bem, briguei. Arrumei motivos para discutir e assim fiz. Caso contrário não seria eu. Depois que fiz passamos a noite sem nos falar e dormimos sem nos tocar. Até o dia seguinte, ela amolecer meu coração com o cheiro de café fresco, pois mesmo brava ainda assim levantou-se mais cedo para preparar o café preto, só pra mim, por saber que meu humor é muito pior sem o café preto de manhã. Uma santa esta garota. Pois bem. Mesmo um velho ranzinza como eu não poderia ficar imune a este carinho. Mesmo assim, me fiz de difícil na primeira hora após fumar o primeiro cigarro, após levantar-me, tomar meu banho matinal, e ainda assim mantinha-me de cara fechada, que era para ver que eu ainda estava bravo, só que não estava. Eu já tinha sido conquistado pelo café. Mas homem tem destas coisas. De marcar território, como cachorro de rua eu estava marcando o território. No sentido figurado eu erguia minha perna para mijar na dela. Como somos pobres de espírito, nós homens.

Preparávamos para irmos à praia quando ela consciente de suas ações ou não, já indecentemente penetrada naquele biquíni, pediu sabedora ou não, para que eu passasse protetor nas suas costas. A partir daí, velho, ranzinza, macho alfa, tornei-me escravo de minha libido e fizemos o melhor sexo de conciliação da história. Com tapas e unhadas a ponto de descontarmos toda a raiva adquirida na noite anterior. E digo; o melhor sexo de conciliação da história, de todos os tempos. Afinal, algumas coisas, feitas com raiva, nem sempre causam arrependimento.


Agora estou aqui. Escrevendo, nem tão fracassado assim. Com essa jovem garota nua adormecida em minha cama, enquanto eu bebo meu whisky, fumo meu cigarro e escrevo escondido no banheiro para não acorda-la.


Bento.