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segunda-feira, 15 de julho de 2013

CARTA DE DESPEDIDA DE UM LOUCO APAIXONADO PARA UMA DOIDA QUE NÃO SABE DO QUE SE TRATA

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Para você que não acredita, se meu fígado fosse um cara, ele tentaria me assassinar diariamente. Tamanho o trabalho que eu dou para ele.
Cheguei a ponto de dormir bebendo e acordar no meio da madrugada para fumar um cigarro e tomar uma dose. Só que isso foi antes, agora espero até de manhã, para tomar umas. Cheguei a ponto de dormir ao lado de garotas e acordar ao lado de outras que eu nem sabia de onde vieram, mas isso foi antes, antes de entender, ou me dar conta, que um apartamentozinho com uma vista para a avenida, uma xícara de algo quente e uma bela garota de camiseta e calcinha me é suficiente.

E eu era um cara cheio de asas para o seu lado. Fiz promessas, dediquei-lhe músicas e textos. Escrevi sobre você nas paredes do quarto. Vestia-me para sair como quem fosse para um encontro com você mesmo sabendo que não estaria lá. Adotei uma gata e coloquei seu nome. Adoro gatos, tão rebeldes e ela é marrenta e arisca como a dona do nome. Falei de você para os meus amigos e amigas e elas ficaram todas derretidas quando souberam que te mandei flores, menos você. Já os amigos todos já evitam me encontrarem no bar, pois o assunto tem sido sempre o mesmo. Até eu estou de saco cheio de mim. Até você.

Assisto novela só pelo motivo de ter uma garota que me lembra você e eu odeio novelas. Que situação a minha.
Já você me lembra aquele personagem de filme com tesouras na mão que vive me podando, vive cortando as minhas asas. Você insiste que não. Porém não me resta nenhuma pena.

Chegamos a um ponto de dizer que minhas palavras eram só palavras e não significavam nada, veja só. Logo eu, que sou um escrevinhador impulsivo e modéstia à parte, dos bons. Daqueles que não escreve clichês e coisas água com açúcar. Sou desses autores que conquistam pela realidade impiedosa, calamitosa e imperecível. Mesmo assim, para você, por você, preferiria que fosse qualquer idiota modista e medíocre que seguisse a linha do romantismo precário e de final feliz, se fosse para ter sua atenção.

E mesmo não dando a mínima atenção às minhas palavras eu saí dos palcos e do conforto de meu sucesso e fui além, no entanto, mesmo assim, não foi o suficiente. Mais que isso eu dependeria de seu aval, vamos lá, não que eu seja um bunda mole, só odeio a inconveniência de forçar algo que depende da vontade de um par e nesta, me parece um tesão individual. Uma masturbação de "Querer Muito".

Agora, não me force a uma sabedoria que eu não posso ter, sendo que me parece que até mesmo você tem dúvidas. Porém também não vou me enganar. Seus dias nublados só parecem ser tão ruins quando é para dividi-los comigo. De resto eles são límpidos e esbeltos. Talvez eu que traga sua má sorte. E é por isso, não só por isso, mas também por isso, que lhe escrevo esta última carta.

Garanto-lhe que não será por mim que acordará com mensagens inquisitoras. Prometo-lhe que não terá que me chamar pelo meu primeiro nome com uma falta de libido extrema. Garanto-lhe que não terá mais perguntas que te deixarão impaciente como as enxaquecas e problemas pessoais. Prometo-lhe que não precisará mais se fazer de desentendida por indiretas e insoluções pregadas por mim. Se usasse um chapéu estaria eu, neste exato momento, pegando-o, colocando abaixo do braço e partindo. Sem mais. Sem subterfúgios, sem cartões, sem desculpas. Desta vez eu parto, mas não por medo e sim por falta de zelo e cumplicidade. Por falta de carinho recíproco e por uma impaciência destinada a ambos. E eu fui paciente. Minha língua já tem seu gosto de tanto que te lambi. Parto por falta, falta de ti. E por excesso de confiança, quando o meu melhor que eu tenho para te oferecer tornou-se pouco. Baixam-se as cortinas e eu me despeço. Na verdade, acho que fui despejado de você. Logo, meus móveis estão pendurados numa Kombi caindo aos pedaços e o que me resta é o novo aluguel ou condomínio que possa vir por aí. Só não tente desmoralizar o que faço de melhor, pois você tem grande parcela de culpa por eu ser tão bom no que faço.



Bento.


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

OLHOS VERDES QUE VESTEM RIMEL


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Eu queria começar dizendo que talvez eu possa ser um pessimista. Não que eu me esforce para isso, algumas coisas simplesmente acontecem. Ou você nasce com isso, mais ou menos como orelhas de abano ou sorriso com covas. Porém, dizer que eu sou pessimista é simples demais. Tão sem sal e sem açúcar para um sujeito como eu que gosta de complicar as coisas.
Bem como um amigo que não vejo há tempos. Quando saíamos para beber e conhecer garotas ele sempre dizia mirando o dedo para uma bela garota: essa daí não! E não tinha discussão, tentávamos fazê-lo mudar de ideia, mas nada funcionava. Ao indagarmos sobre a birra que tinha com algumas garotas, apesar de bela ele profetizava: essa aí é uma pré-gorda, ela ainda não sabe, mas será gorda no futuro e como toda gorda, será carente e ciumenta. Não entendíamos muito na época, porém, ele preferia assim, esperar sempre o pior.

Já eu poderia dizer que sou um dramático irremediável, daqueles que fazem de uma recepção de dentista uma tragédia shakespeariana. Então isso pode ser uma coisa para se preocupar e talvez trocar a recepção do dentista pelo analista, ou seja, só um caso de ótica incomum.

De qualquer forma, essa dramaticidade se deve muito a falta de fé naquele romantismo aficionado pelas novelas e o cinema. Desacredito em moçinhos e pessoas que devolvem malas de dinheiro achadas na rua. Eu prefiro acreditar que existe sim, bondade em todos nós, mas na mesma quantidade que existe a maldade. Somos todos seres ambíguos. Se duvida, faça uma experiência. Coloque um grupo de pessoas numa sala e os deixe sem alimento e água por um bom tempo e terá uma carnificina seguida de um banquete de carne humana. Pode chamar de sobrevivência, instinto e etc., etc., etc. Eu chamo de natureza, fato corriqueiro. O ser humano só é bom por comodidade, para que a vida em sociedade seja algo possível e agradável. Basta os quesitos "viver" e "sociedade" estarem em risco e lá se vão o bom senso e civilidade. É simples assim.

Ainda falando dessa ambiguidade eu, ranzinza que sou, me pego reclamando de uma tempestade quando a mesma se despede para dar lugar ao sol de arco-íris e voltar a lamentar-me por não ter tirado um bom cochilo durante a chuva.

Praguejo por coisas que nem me lembro mais do porquê. Relembro coisas do passado só para fechar a cara e manter o estado de espírito, preciso disso, é minha fonte de agonia e inspiração. Caso contrário escreveria sobre flores do campo e crianças com lares perfeitos, um saco, tudo seria um saco de estrume sem pretendentes.

Pensei nisso ao conhecer uma garota e perceber que lá estava eu em busca de algo para reclamar. Como seria? Me foquei em seus pés, deveria ter uma unha torta ou um calo amarelo e nada. Então seriam as rugas dos joelhos que fariam meus olhos revirarem e não passou nem perto. Seu cabelo era lindo, loiro e cheiroso. A vaidade dela era tão grande quanto desejada. Os olhos eram verdes e vestiam rimel. Fui atrás de gorduras extras e ela era magérrima. Sabendo que sua aparência física estava em ordem pensei em buscar algo para acusá-la em nossa relação e nem assim obtive sucesso. Poucas vezes tive alguém que quisesse tanto me agradar. Desisti. Não dela, é claro, desisti de procurar nela, algo que me desse motivos para lamuriar, logo, sobrou-me discutir e reclamar de mim mesmo.


Bento. 

sábado, 12 de maio de 2012

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DA RESSACA


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Confesso que penso em minha insistência de exaltar o álcool, bem, convenhamos, me saio melhor falando sobre o que gosto.

Então estamos todos no bar e o testemunho da alegria está estampado no rosto de todos em volta. É uma fraternidade talvez ilusória -- sei que alguns vão dizer -- e eu não vou argumentar, porém acredito que transborda a sinceridade no porre, pois bêbado não mente, assim como as crianças e quem não gosta de voltar a ser criança mesmo que só nas verdades vomitadas?

Eis que tenho a ressaca como uma das minhas melhores amigas, tanto que a trato como senhora Ressaca, assim como trato o tédio como Tédio. Tanto respeito que sinto que merecem nomes próprios.
Sempre disse que escrevo melhor quando a Ressaca me faz companhia, assim, desacelerando meus pensamentos e dando um rumo as palavras como um quebra-cabeça. Recita em meus ouvidos frases flutuante de meu inconsciente.

Eu não tenho a pretensão de explicar o que é uma ressaca daquelas de deixar os pelos do corpo arrepiados e as mãos trêmulas. Prefiro que sintam na pele, mas como disse para uma amiga “nipo-nordestina”, gosto de analisar as coisas, mais que isso, dentre tantos vícios, sou viciado em análise. A ponto das pessoas próximas dizerem "Bento e suas teorias", a reflexão é o lubrificantes das engrenagens do cérebro.

Então eu falo de ressaca como se fôssemos parentes próximos. Ela me dá o que eu quero e eu tiro proveito disso.
É desnecessário dizer que em toda relação existem abalos nas estruturas e nem sempre são flores.

 Quem conhece sabe que a Ressaca é tendenciosa, tenderá sempre para a falta de escrúpulos que tem consigo mesmo, o segredo está em colocá-la em seu devido lugar.
Não sei quanto ao resto, mas a pós-embriaguez possui personalidade, portanto haverá dias que ela te visitará com um humor totalmente lamentável, que chega a lembrar o Tédio, é quando ela inspira músicas, parábolas e apelidos como "Maldita Ressaca".

Tem dias que ela baterá na sua porta com flores e chocolates fazendo você sorrir com as histórias da noite anterior, mesmo daquelas que não nos orgulhamos tanto. É como encontrei-a parada no pé da minha cama hoje cedo, vigiando meu sono  e coleções de sonhos esquecíveis. Me deu um belo beijo de bom dia e serviu-me de café fresco e cigarros. Então sentei na cama para ouvi-la e juntos criamos planos mirabolantes para consertar as falências de pudor da noite anterior. Como é sábia a Ressaca.

Vou confessar aqui que algumas vezes bebo só para ter a ressaca em minha companhia, uso os destilados como convite -- venha tomar um café comigo e colocamos a fofoca em dia. Eu digo.

Agora eu vou mais longe e dizer que existe uma purificação na ressaca, há um desprendimento das canalhices mundanas no sentido de criar uma hegemonia dos sentimentos passionais que ficam todos ao seu favor na intenção de arquitetar uma compreensão mútua entre você e esses sentimentos.

Dito isso, sinto uma imensa vontade de achar que a origem da palavra ressaca deveria ser "cura da alma" mesmo em sua falência.

Mas eu sei que sou um romântico e possuo a tendência de fazer parecer "bom moço" todos e tudo que me faz bem, porém tenho adquirido uma política de "morde e assopra" que nem mesmo eu entendo e sei donde houve início. Sendo assim, fingirei polemizar citando àquelas características físicas e lúcidas como dores de cabeça, apologia à preguiça e sede que beira a demência. Bom, na verdade eu mudei de ideia, não vou cometer a sobriedade -- até porque não estou sóbrio -- de citar as características físicas da ressaca. 


Bento.

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quinta-feira, 26 de abril de 2012

SÃO SÓ DETALHES

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Esses dias eu tive que ligar para uma senhora e me atendeu um cara. Com esse "cara" quis dizer jovem. Mas não gosto de usar o termo "jovem", é antigo demais.
A tal senhora não estava, então agradeci e disse que retornava depois e do outro lado da linha recebi um "disponha". Disponha?
Desliguei o telefone e fiquei pensando. As pessoas não falam mais assim hoje em dia. Disponha. Os jovens... Quer dizer, os caras não falam mais assim nos dias de hoje.

Ganhamos um pouco em liberdade, em modernidade, mas perdemos em educação. Falei do metrô outro dia, ninguém é gentil mais com o próximo.
Direitos e deveres só ficam no papel.
Aquele cavalheirismo que vemos em comédias românticas clássicas perdem-se no meio de sátiras e piadas de mau gosto.

Conversando com minha mãe em alguns raros momentos de descontração ela me leva ao passado contando histórias sobre seus namoros na adolescência e comparamos com os dias de hoje quando conto as histórias da minha adolescência.
Realmente o futuro é sempre mais castigado, relaxado. Ninguém faz questão de impressionar.

Eu, como sabem, sou um romântico incurável -- adoro dizer isso, pois é verdade --, mesmo assim, não pense que vou ficar romantizando com qualquer cretina que aparecer no meu caminho. Existe quem merece e quem não merece.
Conheci uma garota que merece, aí mandei flores, na verdade não a conheço ainda, nos falamos... Conhecer vem com o tempo. Quem sabe?
Aí mandei flores, coisa que tempos atrás era comum, não hoje.

As pessoas têm medo de entrar em floriculturas, os jovens, os caras. É só uma loja de flores. Não sei como esse comércio sobrevive ao capitalismo se as pessoas tem receio de comprar seus produtos.
Quando fui escolher as flores, perguntaram: Mas você vai na floricultura? Espantados. Como se eu fosse numa casa mal assombrada. Respondi: No açougue é que não poderia ser. Certo? As pessoas mandam chocolates, mas não flores. Nunca vou entender isso.

No entanto eu fico feliz de ter esse espasmo de clarividência. A maioria das pessoas não enxergam, vivem andando e andando e não olham em volta, passam pelos detalhes como água pelos dedos. O cigarro me ajuda com isso, acendo um cigarro e relaxo prestando atenção nos detalhes. Nunca poderia fazer isso como não fumante, ninguém para no meio da rua por nada senão para fumar. Paciência.

Só sei que a beleza que eu vejo, nem todos veem. É a beleza dos mínimos detalhes. A beleza está nos detalhes, sempre esteve. É só reparar.


Bento.

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sexta-feira, 23 de março de 2012

QUEM NÃO FALA SOZINHO É O PIOR DOS SOLITÁRIOS

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Sempre digo que tenho imã para malucos, loucos, débil mentais, retardados, desafortunados, doidos varridos, leprosos, petistas, apolíticos, amaldiçoados, delinquentes, crentes, bêbados, depressivos e bêbados depressivos. O que é bem pior.

Minha mãe sempre disse para me misturar com pessoas iguais ou melhor que eu e eu levo isso comigo até hoje.

Dizem que nós atraímos exatamente àquilo que transmitimos e eu jamais vou discordar.

Por isso mantenho a promessa de um dia ter um pequeno apartamento no centro de São Paulo. O centro é o lugar que existe o maior número de malucos por metro quadrado do mundo todo. É um eterno tributo ao Raul Seixismo e como me vejo no maluco beleza e em sua dedicação de aprender a maluquice da vida.

Gosto dos malucos, pois não dependem de nada no caminho da felicidade. Sempre digo que quem não fala sozinho é o pior dos solitários. E o maluco é o maior dos tagarelas.
Fico pensando na excentricidade e na falta de limites do doido e chego a conclusão de que é isso que o mundo pede de você todo o tempo. Viva sem limites e seja original. (já vejo brotando a semente louca dentro de alguns coraçãozinhos ao ler isso) "eu também sou maluco, ora, veja" estão dizendo alguns. Outros devem estar pensando "eu também quero ser maluco, como eu faço?" e ao invés de buscar na internet eu lhes adianto o resumo da resposta: VIVA. Busque a vida e pare de tentar sobreviver.

Apesar de excêntrico, o maluco, como uma flor, não deixa notar-se quando morre. Ou você acha que os loucos do centro da cidade vivem para sempre? Morre e nem se vê, nem se fala. Não atrapalha o ir e vir da cidade que não para. Com exceção, em alguns casos, quando são forçados a morrer.

Estou lembrando agora um catador de papel que andava pelo bairro na minha infância. Ninguém sabia o nome dele, mas nós o apelidamos de "Verdade" e explico. Verdade era um negro, baixo, e usava um boné de eleição, não me lembro se de prefeito ou vereador, mas era um boné de eleição. Vermelho era o boné.
Verdade tinha uma carroça, dessas de pegar papel e bagulhos e sempre parava em frente ao mesmo poste que contava com o nome da praça e fazia o mesmo gesto. Tirava o boné como faziam os mais antigos na hora do cumprimento e ficava a conversar com o poste. O curioso é que ele mexia os lábios, mas não conseguíamos ouvir o que dizia, a única coisa audível era o "É verdade, é verdade...".
A praça tinha o nome de Platão, e ali ficava Verdade conversando talvez com o próprio e ouvindo os conselhos do grande filósofo. Em busca da sua própria verdade.

Sem me estender demais sobre o Verdade, digo que ele, um dia parou de passar pela velha praça. De repente, alguém perguntou, não sei se um garoto, ou a dona do bar, talvez o funileiro ou um qualquer, alguém notou e perguntou:- Cadê o Verdade? Sumiu.
Por isso digo que o maluco só se deixa notar quando quer, que é
quase nunca.

O mundo, tenho por mim que foi feito pelos doidos, para os doidos. Veja Adão, era louco porque amava. Mesmo depois de Eva ter trocado o paraíso por uma simples maçã continuou a amá-la.

O débil grita quando tem de falar baixo e sussurra quando tem de gritar, afinal, quem disse que tem de ser ao contrário?



Bento.


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quarta-feira, 16 de março de 2011

O BEIJA-FLOR SEM BEIJOS (Parte II)

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Boris assistia todos os dias seus irmãos planejando suas rotas para descobrir mais e mais flores novas que pudessem beijar, ele via tudo aquilo e ao invés de entristecer-se como antes só conseguia pensar em Branca. Claro que o fato de não poder aproximar-se, de não poder beijá-la o deixava triste, mas só o fato de ter alguém que o esperava, que contava com sua presença, ter alguém que tinha o dia mais feliz só pelo fato dele existir já fazia de Boris o passarinho sem asas mais feliz do mundo. Porém, ouvindo os planos de seus irmãos percebeu que todos estavam planejando voar em direção da montanha onde Branca se encontrava.

Os corações dos beija-flores batem quinhentas vezes mais rápidos que os dos humanos, mas o coraçãozinho de Boris agora era ainda mais rápido que as asas que um dia pertenceram ao seu corpo.
Boris correu ao encontro de Branca, Boris corria, pulava, caia e levantava-se, mas nunca parava de prosseguir, ele tinha que chegar até Branca antes de seus irmãos ou perderia o grande amor de sua vida.

Finalmente Boris chegou até Branca e viu seu sorriso ao vê-lo de longe, porém Boris só se preocupava em subir a montanha, tentava e caia, tentava e caia.
Seus finos ossos já pediam descanso, a corrida, a escalada e as quedas o machucavam e nem mesmo os gritos de Branca para contê-lo adiantavam.

- Pare Boris! O que está fazendo? Você vai se machucar...

Boris não ouvia, ele tentava subir a montanha e rolava para baixo. Suas patas eram pequenas demais, além de muito cansadas e agora machucadas.

Finalmente Boris esgotou-se.

- Boris! O que está acontecendo?

- Os outros... Os outros beija-flores estão vindo para cá. Logo chegarão até aqui e beijarão aquela que eu amo tanto e quero para mim.

- Mas o que te faz pensar que eu deixarei que outro pássaro me beije além daquele que mesmo sem asas e mesmo sem beijos consegue manter-me viva, alegre e cheirosa? Mais do que qualquer outra flor desta floresta.

- Mas Branca, é a natureza das flores serem beijadas...

- Querido Boris, é a natureza dos pássaros baterem suas asas e voarem e mesmo assim eu o vejo todos os dias fazendo o mesmo caminho, passando por rochas, espinhos e predadores para chegar até mim. Mesmo assim vejo-o depois de todo esse caminho árduo, chegando até aqui de sorriso aberto e disposição para fazer-me rir.
Ora Boris, essa é de longe a maior prova de amor que qualquer pássaro poderia me dar, é melhor que qualquer beijo e sei que um dia, um dia você conseguirá subir até aqui e finalmente me dar o maior e melhor beijo que uma rosa poderia pedir ao Criador.


Bento.

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domingo, 19 de dezembro de 2010

O ERRANTE

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Se todos fossem tão bêbados quanto eu a ponto de expor tudo que sente, se tem que beber para falar a verdade, então que todos sejamos alcoólatras do amor.
Se todos tivessem que sofrer para se tornarem românticos, então que todos sejamos sadomazoquistas da vida.
Se todos tivessem que errar para aprender a perdoar, então que sejamos a escória de nossos sentimentos.

Começar de novo, esqueçamos os nomes, esqueçamos os defeitos e as qualidades, sejamos desconhecidos.
Esqueçamos que outros corpos habitou nossos corpos e vice-versa, pois o que parece erro agora pode ser chamado de segunda chance e há pessoas que matariam por uma segunda chance em qualquer hora, lugar ou circunstância.

Escolhas? É aí que está o segredo. É bom quando escolhemos, melhor ainda é ser escolhido. Escolhido de alguém... Ter opções é ótimo, melhor do que não ter o que escolher, mas melhor de tudo é fazer a escolha certa! Isso é o mais difícil. E ainda ter que lidar com a dúvida! Mas quem julgará o certo ou errado?Aqueles que nunca erraram, pois os que já cometeram seus erros são muito mais eficientes na arte de perdoar... Os imperfeitos não julgam e são “perdoadores” incuráveis.

Ah, mas se todos fossem capazes de assumir suas imperfeições o mundo seria perfeito. Que ironia, não?!
Melhor deixar o mundo como está, vamos continuar a mentir, afinal, o mundo não é uma roda gigante que gira e gira e volta para o mesmo lugar, o mundo não é injusto, as pessoas que são idiotas a ponto de se acharem importantes demais para quererem uma segunda chance!

Todos esses imperfeitos românticos devem ser usurpados desse mundo perfeito onde só os perfeitos têm lugar ao sol! E que tal esperar, dar tempo ao tempo?
Não! Esperar é o caminho mais curto para acertar! E acertar é coisa de gente perfeita. Erramos e erramos e quanto mais erramos, mais próximos do acerto chegamos. Assim o certo se torna primogênito do sacrifício e o sacrifício são os óculos dos errantes, o colírio das retinas do errante. Mas quer saber, eu devo estar errado nisso tudo, portanto continue a levar a sua vida do jeito que está levando, afinal sua vida é perfeita, não é?

O que devemos nos questionar é o que nos faz nos aproximar de alguém? Os defeitos? As qualidades? Ou o conjunto dessas duas coisas, seriamos quem somos sem um desses itens?
Mas me disseram: - Não se erra duas vezes! Mentira! Erramos milhares de vezes, erramos muito mais do que acertamos, infelizmente...
O mais correto seria dizer: Não acertamos duas vezes! Sabe por quê? Porque quando acertamos as flores cantam, o céu se abre para nós, o sussurrar torna-se adocicado, toda palavra é melodia, quando acertamos nada mais importa, nada mais é preciso. Uma vez basta!

O que será que quando surge faz o mundo melhorar?
O que será que quando passa as flores ficam a cantar?
O que será que faz o céu se abrir e o sol vir nos saudar?
O que será? O que será?


Bento.

Com co-autoria de Salua Ribeiro e Marcelo Jr (http://juniorcrazy1311.blogspot.com).

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terça-feira, 26 de outubro de 2010

VOCÊ PODE ME DOAR UM POUCO DO MEU TEMPO?

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Eu sou meu pior inimigo, eu minto para mim mesmo.
Eu mesmo me passo rasteiras, faço questão de me desmoralizar publicamente.
Eu mesmo me enveneno, acabo com minha saúde.
Me torturo com palavras sinceras e espalho aos quatro ventos meus piores segredos.
Retiro de mim as coisas mais prazerosas, como castigo de mãe quando somos pegos fazendo algo errado. Eu sou meu próprio filho mal educado.
Eu me renego, me isolo e me trato com indiferença na frente dos amigos.

Me amo, mas faço questão de esconder e finjo me odiar.
Finjo que nem me conheço para não passar vergonha, e me trato com desdém.
Tenho preconceito comigo mesmo, finjo que não estou prestando atenção no que estou dizendo.
Me desprezo ao me olhar no espelho e nunca estou ao meu lado quando preciso.
Sou interesseiro comigo mesmo, ao me magoar nem peço desculpas.

Me maltrato só para exercer a minha autoridade.
Faço promessas para mim e nunca às cumpro.
Arrumo amantes e sou infiel comigo só para mostrar que não sou dependente de mim.
Finjo esquecer as datas comemorativas e nunca me dou parabéns, não quero comemorar.
Muitas vezes me deixo em casa e saio na noite sozinho como castigo, vivo dando um tempo de mim mesmo.
Eu não me noto, não reparo nas mudanças singelas como corte de cabelo ou roupas novas.

Não me apoio nas crises existenciais, nem nos problemas afetivos ou profissionais.
Não me olho com desejo.
Não me faço serenata, não me dou presentes sem datas.
Não me mando flores.
Não faço nada por mim, porque todo o meu tempo é dedicado a você.


Bento.

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