quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O AFOGAMENTO DE BÁRBARA

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Episódio anterior: O ASSASSINATO DE BÁRBARA

Já era horário de almoço e Benedito Quaresma acabara de pegar o elevador a caminho de seu escritório. A noite anterior ainda não tinha acabado. Ele passara em casa apenas para trocar de roupa, nem para o desjejum teve tempo.
O que se lembrava era apenas o fato de que ao acordar, perdeu as contas dos pares de pernas que havia na cama da suíte do motel Libelillun. Agradeceu por todas as pernas serem femininas, ou pelo menos aparentarem serem. Alguns flashes de memória e Quaresma se lembrava das garrafas de whisky e muita quantidade de cocaína. Os poucos rostos das garotas que não foram apagados pela amnésia alcoólica, eram de admirável bom gosto e todas elas cheiravam sem parar, invariavelmente.

***

Cassandra não tinha mais desculpas para justificar o atraso do patrão aos pacientes e a recepção estava lotada. Ficou aliviada ao ver Quaresma sair do elevador com sua cara de ressaca.

 - Bom dia.

Doutor Quaresma cumprimentou a todos, entregou sua maleta para a recepcionista e seguiu direto para seu escritório com Cassandra atrás dele.

 - Bom dia Doutor, eu já estava preocupada...

Quaresma tirara o paletó e agora servia uma dose de whisky para si.

 - Como estamos com os pacientes?

 - Jordão ligou antes de vir, então eu adiantei que você chegaria atrasado, assim ele remarcou a consulta para amanhã.

 - Ótimo.

 - Já o Carlos está esperando desde as dez horas e diz que não sai daqui até você atendê-lo.

 - Ok.

 - E aquela moça que veio por indicação de outro psicólogo, a Gisleine, Gislene...

 - Gisleide.

 - Isso. Ela foi presa, parece que por homicídio.

 - Bom, se está presa ela pode esperar.

Enquanto Cassandra atualizava Quaresma sobre os pacientes o psicólogo procurava algo nas gavetas de seu escritório até que achou. Um saquinho com um pó branco dentro que ele ergueu na altura do rosto e comemorou feliz.

 - Ufa, sabia que eu tinha guardado em algum lugar.

Cassandra fingiu que não viu a cara de ressaca, a dose de whisky e a cocaína na mão de Benedito.

 - Posso mandar o primeiro paciente?

 - Não. Você sabe que eu fico com um puta tesão quando estou de ressaca. Dá uma chupadinha antes?

 - Doutor! Tem gente aí esperando há mais de três horas?

 - Entendi...

Cassandra virou-se em direção à recepção e ao tocar a maçaneta da porta ouviu Quaresma chamá-la.

 - Espera. Você disse Carlos?

A recepcionista revisou as fichas que estavam em sua mão para conferir.

 - Carlos Rodrigues. Você o viu a semana passada, é o primeiro retorno.

 - Peça para ele entrar.

Quaresma limpou a escrivaninha onde ainda havia vestígios da droga e acendeu um cigarro ainda limpando o nariz quando viu Carlos passar pela porta do escritório.

 - Com licença Doutor.

 - Tranquilo. Vou tomar uma dose, você quer?

 - Sem gelo.

 - Sem gelo sempre. Sente-se Carlos.

O paciente não pode deixar de notar a cara de ressaca de seu psicólogo.

 - Noite difícil? Perguntou o paciente.

 - Você nem imagina.

Benedito entregou um copo para Carlos e foi sentar em sua poltrona de frente para o paciente.

 - Eu descobri do jeito mais difícil que meia dúzia de garotas bêbadas e com tesão exigem maior preparo físico do que eu disponho na minha idade.

 - Acontece com todo mundo. Disse Carlos.

 - Mesmo?

 - Não sei. Talvez...

 - Enfim. Me fala de você, como está?

 - Então...

Quaresma interrompeu - Sente falta da Bárbara?

 - Não.

 - Que ótimo. Então deu certo.

 - Na verdade não.

O doutor se remexeu na poltrona, cruzou as pernas com o bico de seu sapato italiano apontando para Carlos.

 - O que quer dizer?

 - A Bárbara não morreu.

Benedito virou a dose toda que restava em seu copo.

 - Mas você disse que matou a vadia.

 - Ela não é vadia! E sim, eu matei. Carlos respondeu com toda a convicção que pôde buscar dentro de si - Mas ela está tão viva quanto nós.

 - Que neste caso não é grande coisa. Respondeu o doutor e caiu em uma gargalhada sincera, mas visivelmente sobre efeito de drogas.
Carlos achava aquele psicólogo um idiota, mas ele estava tendo visões de uma garota que não existia, logo, precisava de ajuda.

 - Não sei o que fazer.

 - Tentou matá-la de novo?

 - Não. Claro que não.

 - Como tentou matá-la?

 - Estávamos em casa, bebendo e eu usei uma almofada para sufocá-la.

 - Hum. Entediante. E o que fez com o corpo?

 - Deixei-o no apartamento e fui pro bar. Carlos agora olhava para o teto como se estivesse revivendo o momento que narrava - No bar eu fiquei com peso de consciência e liguei para a polícia e quando eles chegaram ao meu apartamento não havia ninguém lá.

 - E por isso acha que ela sobreviveu?

 - Não acho, tenho certeza.

 - Imagina, provável que algum vizinho seu levou o corpo da garota. Eu li sobre tarados que gostam de transar com defuntos. Deve ter sido isso.

 - Dois dias depois ela apareceu em casa.

 - Merda! E o que ela disse sobre o fato de você ter tentado matá-la?

 - Pois é. Isso foi bem estranho. Ela não disse nada.

 - Ela pode estar esperando uma oportunidade de se vingar.

 - Pode ser, mas parece que ela não se lembra de nada.

Quaresma levantou-se para servir mais uma rodada de whisky.

- Então você vai tentar matá-la de novo.

- Mas como? Por quê?

- Ué, achei que a quisesse morta.

- Bem...

Carlos estava confuso com a situação. Sabia que gostava da companhia de Bárbara, mas não suportava a ideia de poder estar ficando louco vendo uma garota que só ele enxergava.

- Vamos achar uma forma diferente e que funcione desta vez. Continuou Quaresma.

- E o que tem em mente?

- Eu li no jornal outro dia sobre uma garota que cortou a garganta do namorado num motel na rua Augusta.

- Você quer que eu corte a garganta dela? Mas tem todo aquele sangue...

- Pare de ser cuzão, porra. Não, cortar-lhe a garganta seria plágio. Estou falando sobre o sexo. Se vai cometer um assassinato pelo menos que seja após uma boa trepada. Certo?

Carlos limitou-se a concordar com a cabeça.

- E vocês transam certo?

- É claro. Respondeu Carlos cheio de si.

- Pronto! Tive uma excelente ideia. Você a chama para seu apartamento, transam loucamente e depois você afoga ela na banheira.

- Mas como?

- Simples. Quaresma foi até sua escrivaninha e de uma das gavetas retirou um pequeno estojo de metal - Assim que ela adormecer você vai aplicar isso nela.

De dentro do estojo Benedito tirou uma seringa e uma ampola com um líquido dentro.

- Antes que você faça cara de idiota e me pergunte o que é isso vou te dizer que é um pequeno coquetel de alguns alucinógenos que eu mesmo inventei. Cara, é a brisa mais louca que você pode imaginar. Ela não vai nem se dar conta do acontecido.

Carlos pegou o estojo da mão de Quaresma - Na verdade eu iria perguntar o que você quis dizer com "transar loucamente"?

- Você só pode estar de brincadeira comigo. Quaresma acendeu outro cigarro e apertou as glândulas lacrimais com os dedos indicador e polegar - Você é uma ofensa para os escritores. Você tem uma imaginação suficientemente capaz de criar uma garota que não existe e não consegue imaginar uma transa decente? Você se masturba como, pensando em tornozelos de donzelas?

Carlos não estava gostando do tom daquela conversa. Ele não estava ali para ser insultado.

- Você não pode falar assim comigo.

- Eu posso falar como eu quiser, seu animal. Sabe quantos homens gostariam de estar em seu lugar? Ter uma garota só para você e que atenda todos os seus caprichos? Só um idiota não consegue ver isso.

- Ver garotas que não existem é coisa de louco e EU NÃO SOU LOUCO! Carlos agora estava exaltado.

- Por isso seus romances são medíocres. Você precisa entender que essa coisa de loucura não existe garoto. As coisas são como elas são e pronto.

Carlos levantou-se e foi em direção à porta - Se você não vai me ajudar então...

- Sente-se, garoto. Você não vê, mas eu estou te ajudando, por incrível que pareça. O plano então é este; sexo, droga e afogamento.

Carlos voltou até a mesa de centro, pegou a caixa com a seringa e a droga e saiu da sala. Quaresma virou todo o whisky que restava no copo em sua boca e gritou: próximo maluco! Depressa que eu tenho garotas para alimentar.

***

Carlos estava nu na banheira de seu apartamento, bebendo rum com limão, esperando a visita de sua garota imaginária. Preferiu colocar em prática o plano de seu psicólogo já na banheira, para que não precisasse carregar a garota até o banheiro. Estava prestes a terminar a garrafa e sabia que Bárbara só apareceria caso ele ficasse bem bêbado, definitivamente estava se esforçando para isso. A certa altura deixou os limões e o copo de lado e passou a beber o rum puro direto da garrafa. Por incrível que pareça, sempre que ele queria a presença de Bárbara ela nunca aparecia, só quando ele estava prestes a desistir é que ela dava o ar da graça. Ao refletir sobre isso Carlos pensou que sua garota imaginária não era tão diferente de todas as outras mulheres, era preciso tratá-las com certo desdém para que quisessem ficar ao seu lado. E foi justamente quando ele matou todo o líquido de sua garrafa e puxou o ralo da banheira para escoar a água que Bárbara chegou.

- Hey Baby. Estava indo para a cama sem mim?

Carlos já não se assustava mais com as aparições repentinas de Bárbara, mas sempre ficava nervoso em sua presença, como um garoto do ginásio. Gaguejava, ficava trêmulo e pisando em ovos. Talvez só por isso a garota de pernas finas não percebia o nervosismo de Carlos ao bolar sua morte. Ele estava sempre tão tenso em sua presença que tornou-se comum.

- Claro que não. Só vou buscar outra garrafa para nós? Disfarçou.

- Que ótimo. Me sirva querido.

- Volte a encher a banheira que eu já volto. Carlos respondeu.

Espiou para ver se a garota estava entrando na banheira para que não o pegasse batizando seu drink. Ele sabia que Quaresma havia dito para apagá-la só após uma transa louca, mas não queria arriscar.
Meia hora depois, os dois estavam na banheira, Bárbara entre as pernas de Carlos e dividiam o mesmo cigarro. Bárbara bebia seu segundo copo de rum com limão e parecia que a droga a estava deixando ainda mais elétrica, pois foi ela quem começou com a sacanagem. Carlos desejava que ela apagasse logo, pois não queria fazer amor e depois matá-la, era um romântico o Carlos. Mas Bárbara continuava indo para cima de seu futuro assassino. Lambia seu peito, seu pescoço e se voltou para os braços. Primeiro um, depois o outro e demorou tanto tempo lambendo-os que Carlos entranhou. Nunca tinha visto alguém com tanto desejo por seus braços. Ela só parou de chupá-los para ligar o pequeno rádio ao lado da pia do banheiro, mudou de estação até que achou uma música do seu agrado e começou a dançar para Carlos. Aquela droga estava mesmo fazendo efeito.

Carlos acendeu outro cigarro, sem jeito, pois o que estava vendo era absurdamente excitante. O corpo magro e nu de Bárbara à sua frente, mexendo o quadril de forma sensual. Ela levava as mãos aos pequenos seios e descia em direção a sua vulva e depois levava a mesma mão aos lábios, depois aos lábios dele. Carlos sabia que Bárbara tinha acabado de eternizar Gimme Shelter dos Rolling Stones em sua mente. Nunca mais seria capaz de ouvir a música sem se lembrar da garota dançando em sua frente. Ele precisava matá-la, mas estava excitado demais para isso naquele momento. Pensou que Quaresma estava certo. Se era para assassiná-la, então que fosse depois de uma bela transa. Carlos então puxou a garota pelo braço e começou a beijá-la. O último sexo da vida de Bárbara, a última vez que beijaria a garota que esteve com ele nas noites solitárias. Os beijos eram ardentes e intensos, mesmo da parte de Bárbara. Carlos achou por um momento que ela sabia que seria sua última vez, mas logo depois pôs a culpa de tamanha libido na droga que estava no drink dela. Só podia ser. Logo, antes mesmo de começarem a transar o corpo da garota foi ficando mole, os beijos menos intensos e sua respiração mais fraca. Era a droga fazendo efeito. Carlos ainda tentou despertar a garota com leves tapas no rosto, porém sem sucesso. Frustrado por não transar manteve Bárbara mole e desacordada em seus braços. Deu-lhe um último beijo e escorregou o corpo da moça devagar até que estivesse totalmente submerso pela água da banheira. Como da primeira vez, não conseguiu ficar no apartamento. Vestiu-se e foi para o bar beber até ficar desacordado e esquecer que acabara de matar a garota imaginária da qual ele tanto gostava.



Bento.

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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

ÀS GORDAS: ASSUMAM-SE

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Noite passada tive sonhos com assombrações de outras vidas. A primeira vida. Digo isso, pois é preciso morrer de amor pelo menos uma vez na vida para poder dizer que aproveitou seus anos quando morrer de morte morrida, ou matada. Este sonho trouxe das mais mutantes sensações, da alegria ao caos. Caos de outrora. Sonhei com a musa das musas. Com o start de todas minhas loucuras e literalidade, castigos e opressões impostas por este que escreve, claro.Como Punição por perder algo de tanto valor quanto as coisas que se têm Invariavelmente mais valor: ar, órgãos, demências e coisas que te Cobram o exílio da realidade, nem que por pouco tempo. Coisas das quais, se sem, viver fica tão mais sem graça e sem sentido. Sonhei com o quanto fui feliz e o quanto perdi. Há tempos não sonhava com isso, calhou de noite passada, justo esta noite, que de especial, buscando pela memória, não existe nada. Bem como seria só mais uma noite senão fosse tal sonho. Tão real. Eu pouco sonho, tenho uma coisa com sonhos, sempre fora uma fuga recíproca. Eu fugia deles e eles de mim. E não é que ontem, justo ontem, sonhei.

“Coisa de doido” vão dizer.

Quem sabe?

Sei só que me empobreceu, este sonho, deixou-me pobre durante o dia todo. Pobre de alma, de confiança, pobre de todo o resto que sobrou. Tudo o que reconstruí, se foi, por hoje, pois sonhei, com a musa das musas...Virei o mendigo das lamentações. Talvez isso explique os rancores Hard Cores dos últimos tempos. Ou talvez não. Análises nunca são fáceis, principalmente tratando-se das artimanhas do Destino. Nos dias de hoje ninguém é grato a nada, tudo vira obrigação. Simpatia vira falsidade, educação é fraqueza. Esperto é quem abusa do próximo. Frango, foi educado perdeu o lugar. Ceder o lugar para uma garota assusta, ou pode ser confundido com desculpa para olhar-lhe a bunda.
Fazer novas amizades cansa, é um querendo ser mais interessante que o outro e no meu caso ninguém é, exceto aqueles que não se esforçam para ser. Na verdade, tudo o que você acha que pode me interessar está errado. O que me interessa é justamente o que você pretende esconder por sentir vergonha. Conheci uma garota e em duas semanas de conversa ela me chamou de ogro. Fiquei impressionado pela sua rapidez e precisão de caráter. Mas a pergunta é: o que será que ela faz com esse talento? A mesma me chamou de sincero, uma obviedade, mas guardou o que eu lhe disse, outro talento; saber ouvir. E o que fará com a informação dada?

Bem, conheci outra garota, talvez sem o mesmo dom de julgamento de caráter, que quis prestar um favor a uma amiga feia apresentando-me. Conheceu minha negativa e quis saber os motivos, mas sem que eu fosse estúpido. Disse exatamente assim: me diz porque não, mas sem ser estúpido. Eu respondi que não se pode ter tudo nesta vida, ou quer explicações ou não.
Desviei o olhar até aqui para dizer que isso é herança também do motivo do sonho. Antes eu era só um rebelde sem causa, hoje leciono e sigo regras e cartilhas de como sê-lo e só com quem merece. Tornei-me um língua frouxa com autocontrole. Aprendi, com custos, que não preciso ser legal com todos, só com quem merece. Exatamente o contrário que fazia antes.
Fiz de minha impaciência dos velhos tempos a transparência dos dias de hoje. Sendo assim, escrevi logo na entrada de meu quarto: não sou de ereções gratuitas. Para um bom entendedor meia palavra basta. Não gosto de repetir as coisas que deixo claro.
Outro dia me pediram um autógrafo. Vejam só, um autógrafo? Quem sou eu para tal? Neguei, claro. Para um beberrão como eu, escrever dedicatórias seria uma das últimas coisas que desejaria desta vida infame. Ofereci uma cerveja e a garota levou à mal. Negou e ficou brava, partiu falando mal de mim. Vê como educação é confundida hoje em dia? Sequer eu reconheço-me como artista, quem é ela para tomar-me como tal? E a proposta da cerveja foi sincera, poxa. Eu, se pudesse optar, preferiria mil vezes uma cerveja com Bukowski que um autógrafo. Mas gosto é gosto.
Ainda falando sobre gosto: falei sobre bundas e peitos outro dia. Prefiro belos peitos, sempre, mas as bundas. O problema da bunda é que quem dá as ordens é a cintura. Qualquer bunda, por maior que seja, se for acompanhada de uma cintura que siga seu tamanho perde seu valor. Já os peitos, bem, belos peitos serão sempre belos peitos independente de qualquer coisa. No entanto eu estou sempre dispensando uma cintura tamanho G. Fodam-se vocês pró-gordas. Não faço diferença de ninguém, mas só fodo com quem desperta minha libido. Isso é um direito adquirido. Veja, eu perdi metade das minhas transas rotineiras pelo simples motivo de manter a barba em constante crescimento. Existem garotas que não se sentem atraídas por longas barbas e eu não fiquei me fazendo de tadinho por aí. Assumi a responsabilidade. Que é basicamente o que todas as gordas deveriam fazer. Assumir-se. Está cheio de idiotas por aí que preferem as gordas, alguém tem de dar atenção às magrelas e é aí que eu entro. Ossos sempre chamaram minha atenção desde as aulas de biologia no colégio. Isso e as garrafas de vinho atrás da escola. Hoje não sou mais tão fã de vinho, mas de ossos...


Bento.

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domingo, 1 de dezembro de 2013

NINGUÉM ESTRIPA POR ESTRIPAR, EXISTE SENTIMENTO NO ATO

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Alguns são tão idiotas, mas tão idiotas que eu desconfio de tanto talento. Não acredito e pronto. É tanta falta de credo que acho que é fingimento, porém penso; só um idiota para fingir tamanha idiotice. Também é possível que essa certa intolerância com idiotas parta de um estado de espírito um tanto quanto irremediável, de estar de saco cheio de qualquer coisa e sobre tudo. Irremediável, mas não voluntário nem eterno.
Então esse "saco cheio" foge um pouco da literalidade, na verdade isto se aplica à realidade infame, tediosa, ensebada e irritante. Um rotina transparente e demente de; puta que pariu os dias passam e as horas continuam sempre no mesmo lugar. Assuntos desfalecidos, conversas previsíveis, falências das palavras. Como se eu estivesse "emburrecendo", se é que isso existe.
Evidente que um emprego de merda ajuda a seguir com a desgraça. Mas o que eu quero deixar claro é que tanta inutilidade está até conseguindo tirar o charme do bar e olha que cervejas e mesas rústicas com garçons me chamando de Bêêênto sempre fora um lugar sagrado. Sinto-me o último dos pecadores num mundo de santos infames.

É bem verdade que eu já tive diálogos mais interessantes e abandonei-os sistemática e conscientemente, no entanto quem diria que eu mergulharia num infindável calabouço de mediocridades.
Acordo com o desespero de outrora e se não me engano, por motivos não tão diferentes. Não pensem que é exagero não, é desespero de faltar ar no peito e a barriga colar às costas. Das sobrancelhas quererem tomar os olhos tamanha a rigidez da feição. Também não pensem que pode ser só mais um dia que o humor partiu sem hora para voltar, é mais que isso. Mas então penso; por quê? Ontem não foi melhor que hoje e hoje não será pior que amanhã, ou talvez eu dê esse azar, porém não sou homem de acreditar em azares. Acredito que só tem azar quem tem sorte e eu estou bem longe de ser sortudo desses que ganham na loteria, no bingo, sorteios de rádios e etc. Está certo que vez ou outra achei uma ou duas notas de reais perdidas por aí, mas sei que perdi mais que achei, então não vale.
Fico sem saber então? Claro, não posso deixar de dizer que existe um dia ou dois que torno-me ranzinza mais que o normal só que neste caso foi pior que isso. Sei só que foi uma confusão que há muito não presenciava. De uma singularidade de insultar o chefe e matar os vizinhos. Resisti em comprar uma arma por achar assassinatos com armas muito clichê. Os Serial Killers que usam as mãos são bem mais sentimentais, existe um mantra, uma poesia em cada corte, cada tripa retirada. Ninguém estripa por estripar, há sentimento no ato, então resisti.

Sei que o dia foi passando com a lentidão dos dias ruins e acontecendo fatos para piorar tudo, porém, como já disse, era difícil piorar, mas a simples tentativa de fazê-lo já me irritava ainda mais.
Logo, o dia estava chegando ao seu fim, sem chefes agredidos e sem vizinhos chacinados. O dia estava tão merda que só chovia por onde eu passava e foi aí que aconteceu. Muitos dirão que foi um fim de dia clichê, tratando-se de quem é. Eu discordo. Foi lindo e mágico ao mesmo tempo.
Eu e o whisky tínhamos tido uma briga feia. Dessas de ficar sem se falar por dias.  Fui eu quem resolveu tomar a iniciativa e parei no caminho para uma garrafa nova. Sequer cheguei a abrir a garrafa, não precisou. Era como rever um amigo de longa data. Tocamos-nos, sem nos falar, bastou um trocar de olhares, um sorriso de canto de boca, o primeiro sorriso do dia. Onde diabos estávamos com a cabeça quando brigamos? Acabou o dia ali, era outro agora, melhor, mais tragável. Não precisávamos dizer nada, como velhos amigos bastou um olhar. Tudo poderia ser nosso novamente, o mundo e todo o resto. Éramos dois, a sós, poderíamos conquistar a tão sonhada eternidade, mesmo que malditos, eternos.



Bento.

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