domingo, 27 de abril de 2014

GOZOLÂNDIA ETERNA É PARA OS FRACOS. A MELHOR GOZADA É A DE AGORA

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De tempos pra cá tenho percebido mais que nunca que a idade inevitavelmente chega para todo mundo e eu não sou um privilegiado. A cada ressaca nova vejo os anos escorrerem entre meus dedos sem que eu possa fazer muita coisa para mantê-los como estão hoje. O corpo acusa e a recuperação é mais lenta. Ele quer me impor limites que eu nunca tive e com certeza não os tomarei pra mim a essa altura do campeonato.

Eu escrevo isso enquanto observo Roxanne caminhando pelo banheiro com suas pernas finas e seu andar elegante. Roxanne é minha aranha de estimação que vive no meu banheiro e fez de um buraco rente ao teto sua moradia, religiosamente ela sai de lá para me dar bom dia. Eu respeito o espaço dela e ela o meu.

Eu sou das antigas, com o passar dos anos passei a cultivar a barba para assumir a idade ao invés de escondê-la como todos fazem. É mais uma forma de expurgar as garotas de 18 anos e não é porque meu corpo está ficando velho, mas sim porque minha mente está velha faz tempo. Sou desses caras que vê mais romantismo na garota espremendo cravos nas costas do namorado que qualquer clichê exibicionista que se vê nas redes sociais por aí.

Por isso venho com meu saudosismo de velho para dizer que nem mesmo a ressaca se faz como antigamente. Eu não sei o que fazem os velhos da minha geração, mas eu tenho feito o mesmo que fazia há dez anos, com raras exceções e só o que mudou foi mesmo a demora de meu corpo em recuperar-se das bebedeiras, alguns cabelos brancos e por aí vai.

Uma garota leu meu último conto e fez uma declaração um tanto quanto dramática levando-se em conta que era apenas um conto. Porém eu sempre mastigo as coisas devagar para refletir sobre e talvez ela esteja certa, talvez meus olhos estejam ofuscados pelo hábito, o hábito da amabilidade com o singular, a coexistência com o sofrimento, a empatia com o flagelo. No entanto isso pode ser só sintomas de minha veia poética e caso seja isso, a garota estaria errada e foi só uma declaração um tanto quanto dramática. Porém, quem sou eu para falar de dramaticidade?

Sabe, eu sigo uma cartilha, apesar de algumas pessoas acharem que eu levo a vida sem lei ou regras eu sigo uma cartilha, coisas que eu penso como certo ou errado e esse tipo de coisa. Sigo conceitos e rituais, não passo sem o café e cigarros e são as primeiras coisas que eu faço ao acordar. Durante muito tempo eu fiquei sem pisar em riscas nas calçadas mas parei de repente. Tenho um pouco de superstição por isso sempre tenho um maço de cigarros extra e uma garrafa de algo forte, pois nunca sei quando a inspiração me tomará horas de cigarros e tragos numa quantidade incrível.

Esses dias tive uma crise de vômito ao ponto de desidratar-me. Coisa da idade. Há cinco anos atrás meu corpo não desperdiçava uma gota sequer de álcool.
Entre um vômito e outro alguém comentou: - Também, você bebe como se o mundo fosse acabar.

 - Mas vai que acaba. Respondi.

Quando a idade chega ela vem com um convite para a morte. Não estou dizendo que estou tão velho a ponto de morrer, porém uma hora todos morrem e eu não sou um privilegiado. Também não me apetece essa história de vida eterna e paraíso, isso só serve para postergar toda a diversão. Não se deixa para gozar - supostamente -  pela eternidade quando se pode gozar muito agora. Vamos lá, acredito que estejam entendendo meu raciocínio.

Uma das minhas qualidade é fazer festas que se arrastam por dias e já adianto, essas festas não são frequentadas por nenhum idiota que acredita nessa promessa de Gozolândia eterna, portanto todo mundo nessas festas procura sair satisfeito e geralmente saem. Essas festas geralmente acontecem nos meus melhores dias porque nos piores a última coisa que eu quero é um monte de gente perto de mim com a libido a flor da pele, bêbadas, tomando da minha cerveja e assustando minha gata para o telhado. Não se pode fazer festa o tempo todo simplesmente porque não se faz festa o tempo todo. Já falei muito aqui sobre as qualidades de uma boa solidão esvaziando garrafas.

Desses meu amigos, não há nenhum que não tenha pelo menos uma história de loucuras e apuros para contar da qual eu não estivesse envolvido e isso me leva a pensar no que minha mãe dizia quando eu era jovem: não se misture com má influência. Nesta época ela ainda não sabia que a má influência era eu. Então volto a dizer que se você busca a esporrada divina trate de não se aproximar, mas caso queira viver libidinosamente aperte os cintos, pois vou te apresentar algumas coisas e algumas pessoas.

Na festa mais recente que fiz um cara entrou no quarto com uma garota e ele saiu de lá duas horas depois como se houvesse apanhado de um peso pesado, com marcas roxas e arranhões. E esta garota só tinha quinze anos. Realmente o ambiente, as músicas e as companhias ajudam a aflorar o pior lado das pessoas, pior lado, claro, na opinião de vocês, pois na minha este é sempre o melhor lado.
Acredito que o melhor lado de qualquer pessoa é justamente aquele que a maioria das pessoas não aprovam. Já reparou como as coisas que são unanimidade geralmente são uma merda? Nelson Rodrigues já dizia isso há trocentos anos e isso nunca deixará de ser verdade.

Alguns amigos, até estes das festas, bem, estes amigos acham-me inquebrável, inviolável. Algumas garotas acham que eu sou intransponível e inacessível, mas digo que isso não passa de incompetência, talvez delas, talvez minha. Eu também já tive meu tempo de lamentar-me, só que já passou. Eu simplesmente desvio o olhar. E tudo que vejo é sempre sem muito apetite, pois nada é duradouro. Também sei que minha forma de pensar afasta mais gente do que aproxima. Eu poderia mudar isso, ou posso pensar que isto é apenas um filtro, ou não pensar muito nisso. As coisas são sempre como devem ser.




Bento.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

UM DEMÔNIO É UM DEMÔNIO, O QUE SE PODE FAZER?

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Você já teve daquelas visões horríveis que te deixaram mal o dia todo, sem motivo? Tipo, uma coisa bosta, que mexe com a barriga e tudo mais? Não? Pois é, eu sofro dessas coisas às vezes, mas também, sou vizinho de meu demônio particular. Uma hora ou outra eu correria esse risco, bem na hora que eu menos estivesse esperando. Todo o chão se abrindo em labaredas dos infernos, as nuvens se fechando sobre minha cabeça, o demônio vindo em minha direção e justo neste momento eu lembrando que tinha abandonado meu terço da sorte, nem nele pude pedir apoio.

Se você já viu o inferno de perto saberá do que estou falando, caso contrário achará exagero. Caso fosse mais frouxo me cagaria por inteiro, mas eu sou vaidoso. Da mesma forma que o demônio me viu, de longe, eu já o tinha visto, mas fingi que não vi, ele fez o mesmo e acabamos evitando nos encarar. Talvez ele com mais medo de mim do que eu dele, ou vice-versa. Medo. Não é uma palavra de toda exagerada. Medo, sim, pois não. Este demônio com rabiscos na pele, belos rabiscos, eu idem, e partimos assim, sem tocar nossos olhares.

O problema é que este demônio já fora tão íntimo de mim que os olhos foi apenas UMA das coisas das quais tocávamos. Este conhecera cada centímetro de meu corpo e eu o dele. Claro que eu, com o talento de olhar esguio que Deus deu aos homens, não pude deixar de notar seu corpo que já fora meu. Desde a cinta-liga tatuada até os cabelos emaranhados propositalmente. Tem coisas que nos marcarão pelo resto de nossas medíocres vidas, independente de qualquer coisa, meus demônios são algumas delas e este demônio em particular tem favoritismo em meus pesadelos. Lembro-me da primeira vez que assisti O Exorcista, eu tinha, talvez, sete anos, e qualquer coisa mais assustadora pode vir a traumatizar uma criança desta idade, hoje em dia, sempre que vejo este filme eu me borro como uma menina. Este demônio me marcou tanto quanto e sempre que o vejo me borro, como uma criança que deixei de ser faz tempo.

Sabe a música Pet Sematary, que é quase que impossível ouvi-la sem lembrar do filme de Stephen King? Pois bem, é como ver o demônio que me assombra, eu sempre vou ouvir as piores músicas e imagens dos filmes mais assustadores de toda minha vida. Os contos mais assombrados e minhas crônicas mais deprimentes. Tudo de uma hora para a outra vem à minha mente como se fosse hoje.

Com certeza vocês que leem isso devem achar exagerado, drama de quem escreve, esse tipo de coisa. Mas posso garantir que é no mínimo sobrenatural. É a única coisa que pode me ferir. Bem, como já disse antes, eu sou um casca grossa, a vida me fez assim, tenho culhões do tamanho do mundo, porém, basta ver este tipo de demônio e eu solto meu intestino como um velho com incontinência fecal. Um grande bosta que eu já fui. Todos saímos do limbo, temos essa opção, de sair ou não, no meu caso, este limbo sempre me cobre até a cabeça quando menos espero, um passeio pela praça e de repente: Puft! Lá está meu demônio particular a fim de me enterrar nos piores sentimentos de outrora.

Sabe, eu pouco me faço de rogado, garotas vem e vão como pombas que comem das migalhas e partem sem agradecer. Das amizades penso a mesma coisa, familiares morrem e eu sequer me permito pensar muito nisso. Sou um arrogante, talvez pensem, talvez não. Um egoísta, um insensível. No entanto eu posso ser mesmo, tenho quase certeza de que sou. Um grande insensível filho da puta. Mas nada, absolutamente nada me deixa mais amedrontado como neste caso, me lembra o fracassado que já fui e ninguém quer lembrar dos fracassos passados.

Este não é meu único demônio, não mesmo, tenho tantos que dá para encher um bar inteiro deles. Alguns eu já até tomei como amigos, outros eu derrotei e uns eu derroto todos os dias e eles nunca se cansam. Estes esperam que eu me canse de derrota-los para então darem o golpe final. Não estou dizendo que isso é impossível, todo homem se cansa em algum momento. Logo, eu poderei ser o próximo a ter meu peito atravessado por garras afiadas e todo o resto será história. Veja, isso não é como aqueles amigos imaginários que temos quando criança, estou falando dos demônios que nos acompanham durante a vida. Daqueles que quando dobramos a esquina, lá está um deles, fumando um cigarro, marcando presença. Como quem diz: “Acha que vai se ver livre de nós? Você nos criou papai, nunca vamos te abandonar e você tão pouco nos quer longe, pois somos os únicos amigos que deseja ter e nós somos os únicos que te aceita sem te julgar. Nós o tornamos o que é hoje, sem isso tu não passaria de um moleque leitor de livros de autoajuda. Ou um religiosozinho metido a esperto. Ou talvez um idiota que gasta todo seu salário em camisetas de cem conto, calças de trezentos, garotas de mil a hora. Não meu amigo, você nos criou para isso”.
E eu faço como todas as vezes, ouço e não discuto. Não se pode discutir com um demônio simplesmente porque não se pode discutir com seus próprios demônios. A única forma de afasta-los é bebendo alguma coisa forte e é exatamente o que eu fiz ao vê-lo, segui para o bar e lá estava outro demônio, sentado na porta do bar me pedindo uma dose. "Vamos amigo, jogue uma dose para nós, te traremos sorte".
Eu sou um cara de sorte, pensando bem. Tenho demônios lindíssimos, magros, estilosos, mas mesmo lindos não deixam de ser demônios que querem me ferir sempre que tem oportunidade.
Sentei no balcão, pedi um Domecq para começar e tentei prestar atenção na conversa de dois sujeitos que estavam à mesa perto da sinuca a fim de não ouvir meu demônio me atentando. "Ei amigo, o que isso? Não me ignore, eu te conheço, sei de todos seus defeitos e ingratidão não é um deles. Chame-me para sentar com você, vamos lá, estou cheio de novidades para contar. Adivinhe quem casou. Hahaha"

Só parou quando joguei o copo, vazio é claro, em direção ao filho da puta. Ele continuou ali sorrindo e imitando um padre. "Pode beijar a noiva hahaha"

O garçom me olhou pronto para arrumar briga por ter quebrado a louça, os dois homens da mesa me olharam com surpresa.

- Não se preocupe - eu disse. - Vou pagar pelo copo.

- Não seja insensível Augusto, o cara está tendo um dia difícil. Disse o sujeito que estava à mesa e logo depois estava com um de seus braços em meus ombros. O garçom pareceu ter se acalmado.

- Meu nome é Cesar, como se chama?

- Não é da sua conta. Eu disse.

- Ora, cara. Não fique envergonhado, todos temos um dia de cão. Ele disse isso e logo bateu com os nós dos dedos três vezes no balcão de madeira. - O meu amigo ali mesmo, está numa fossa por causa de uma morena que dá dó.

Este sujeito falava quase que com seu rosto colado ao meu e seus dentes eram amarelos cor de merda. O garçom chegou com uma nova dose de Domecq e ele finalmente tirou as mãos de mim.

- Quero o que ele está tomando, Augusto. Ele disse com seu sorriso de merda, como quem sabia do que estava falando. Só o que ele não sabia é que parecido com merda ou não, ele estava prestes a ficar sem os dentes se não me deixasse em paz. Ainda tinha aquele maldito perfume barato que fez meu nariz coçar.

- Você não parece de muita conversa. Ele continuou tentando fazer amizade.

 - Olha, cara. Eu estou querendo beber em paz, pode ser?

O sujeito estava apoiado com um dos cotovelos no balcão olhando para minha cara como quem estivesse vendo um macaco no zoológico.

- Besteira! Ah besteira. Pra mim você está fugindo daquele demônio ali. Me diz, ele é seu? E sem se mexer ele apontava com a cabeça dando entender que ele também via meu demônio parado do lado de fora do bar dançando e pedindo um drink. É a primeira vez que desviei o olhar de minha bebida para olhar o tal sujeito e percebi que sua cara era cheia de furúnculos como espinhas gigantes que não estavam mais lá. Ele percebeu minha surpresa.

- Ah eu sabia. Tranquilo, cara. Um demônio é um demônio, o que se pode fazer?

- Como você pode vê-lo? Achei que só eu pudesse.

- Cara, eu posso ver tudo, sou um anjo.

Não pude segurar o riso. Quase cuspi conhaque em cima dele, não que ele não merecesse. Tinha sido meu primeiro sorriso em semanas.

- Seu filho da puta. Não me tire como idiota. Só porque acredito em demônios não quer dizer que vou acreditar que você é um anjo. Saia de perto de mim antes que eu limpe o balcão com sua cara. Eu disse.

O mais curioso é que o garçom estava ouvindo aquele papo de anjo e pareceu achar normal. Deveria estar bêbado como o idiota da cara cheia de buracos. O sujeito se afastou uns dois passos.

- Calma, rapaz. Estou sentindo muito ódio na sua aura.

- E o que você vai fazer? Vai pregar a palavra agora? Me cobrar dízimo? Nem perca seu tempo porque estou duro. Provoquei.

- Ah, não, não. Relaxa. Tem um monte de idiotas por aí pra fazer isso. Nós anjos descemos aqui apenas para evitar que filhos de Deus como você façam alguma besteira. Ele falava e parecia acreditar nisso. Mesmo com sua cara cheia de furúnculo era sorridente e parecia falar sério. Isso só provava que eu tinha entrado no bar errado. Meu demônio não parava de dançar e tagarelar: “Quem tiver algo contra este casamento, fale agora ou cale-se para sempre hahaha você não estava lá hahaha calou-se para sempre”.

- Acho que você tem um problema com casamentos, amigo. O sujeito disse.

- Eu? De jeito nenhum, adoro casamentos. Ironizei.

- Ei, Augusto. Alguém não foi convidado para o casamento. O sujeito disse para o garçom e então eram três otários rindo da minha cara. - De qualquer forma eu só posso te ajudar se você quiser minha ajuda.

- Tudo bem garoto sorriso, quer me ajudar? Que tal tomar um banho na próxima vez que falar comigo? Já estava impaciente.

- Pois é, seu forte nunca foi a humildade. Ele respondeu.

- E o seu não é a higiene, pelo que vejo. Deus não permite que vocês tomem banho?

- Saiba, cara, que a cada vez que diz o nome d'Ele em vão é menos um ponto que você ganha e você está em débito há algum tempo. Ele disse como se eu estivesse perdendo uma festa VIP com garotas de topless e open bar.

- Estou cagando pra você, pra Ele e a porra dos seus pontos!

Parece que eu tinha conseguido mexer com ele. Seus olhos reviraram e sua córnea ficou do avesso mostrando olhos esbranquiçados como de um cego. O demônio lá fora dava pulos de alegria. "Briga, briga, briga". Ele dizia.

- Não sabe o que está dizendo, infiel. Vou providenciar de que vá para o inferno, nem que eu mesmo tenha que te levar até lá.

Ao dizer isso ele veio pra cima de mim com uma rapidez que eu nunca vi antes. Com um belo soco na têmpora fui parar no chão ainda segurando o copo e um pouco do que restou de meu conhaque. Preferi beber antes que o desperdício fosse ainda maior. O garçom e o outro cara da mesa tinham sumido. Ele ainda vinha para cima de mim, tirou a cadeira do caminho com um chute e me pegou pelo colarinho. Eu estava a um metro do chão.

- Seu viadinho de merda. Está mais do que na hora de você aprender boas maneiras. Ele cuspia em meu rosto enquanto falava e seu hálito também era de merda. Meu demônio gargalhava como quem assistia a um seriado de Charlie Sheen.

- Eu sabia que mais cedo ou mais tarde você me pregaria a palavra...

Antes de terminar eu saí voando pra trás do balcão. Achei uma pequena faca de cortar limão entre os cacos de garrafas e copos e a escondi em minha mão.

- ... Vocês religiosos simplesmente não conseguem ficar com suas malditas bocas fechadas. Eu disse querendo briga.

O anjo estendeu a mão para me agarrar do outro lado do balcão mas desta vez fui mais rápido. Com um golpe de sorte eu peguei uma de suas mãos, pressionei contra o balcão de madeira e a espetei com a faca. Ele gritou como um urso que acabara de levar um tiro e garanto que seu hálito não era melhor agora. Peguei uma garrafa de Domecq ainda lacrada, dois copos que permaneceram intactos à luta e pulei o balcão. O anjo ficou preso pela mão e o demônio continuava ali. "Conhaque, conhaque, conhaque". Entreguei-lhe um dos copos e enfim ele parou de falar.

- Vem, vamos beber em casa que eu já me enchi de bares por hoje.




Bento.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

SUAS TRANSAS SEM GRAÇA, SUAS ESPOSAS GORDAS E SEUS FILHOS IGNORANTES

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Nada como uma boa quantidade de cerveja para ajudar esquecer a semana cansativa de trabalho. Curioso como depois de algum tempo não trabalhamos mais pelo salário e sim pelo fim de semana. Uma semana toda para ter dois dias de descanso. Sorte a nossa. Ainda há aqueles que têm apenas um dia para lamentar-se da vida de merda que levam. Quando você vir um indivíduo dizendo que a vida é maravilhosa e prazerosa saiba que este não trabalha, caso contrário ele seria tão amargo quanto a maioria. Com exceção de um amigo meu, que não tinha nada para reclamar, pelo menos era o que ele dizia e eu acreditava.

Estávamos bebendo num boteco não muito longe do trabalho. No bairro da Saúde e por causa do bairro eu sempre bebia olhando para os lados numa esperança falida de encontrar o que eu procurava incessantemente. Logo eu estava sentado de frente para a rua e Roque estava de frente pra mim do outro lado da mesa dobrável de madeira. Pedimos um casco e dois copos e quando o garçom, que acumulava as funções de caixa, cozinheiro e dono do boteco nos serviu e voltou para dentro do bar, nós brindamos e desejamos-nos sucesso. Bebemos um longo trago e estávamos muito satisfeitos por ter aquele momento de prazer.

- E então, como você está? Ele me perguntou.

- Como sempre, Roque, procurando não me desentender comigo mesmo. Você me conhece.

Roque sorriu e bebeu mais um longo gole de sua cerveja - Você precisa ir num show nosso, estamos tocando como nunca e agora estão nos pagando.

Brindamos a isso e bebemos mais um trago.
Roque tinha uma banda de rock, desses modernos que faziam barulhos com picapes e ele sabia que eu só ia aos shows por causa dele, eu odiava esse tipo de estilo. Sempre fui dos clássicos, nada que eu ouvia tinha menos que vinte ou trinta anos, no mínimo.

- É, talvez eu precise. Respondi.

Tirei um pequeno saco de fumo do bolso e comecei a enrolar um cigarro enquanto ele me contava sobre a banda e os lugares estranhos dos quais eles faziam shows. Contou sobre as casas que lhes pagavam com garrafas de whisky e os porres que eles tomavam por causa disso. Gostei da conversa. Sempre gostara de histórias de bêbados e ferrados, me identificava com eles.

O boteco ficava numa rua com escritórios e residências, na maioria casas de casais velhos com netos adolescentes e de vez em quando interrompíamos a conversa para olharmos uma ou outra garota que passava em frente nossa mesa. Estávamos na calçada, que de tão estreita, quase dividíamos nosso drink com os carros indo em direção ao centro atrás de uma boa noitada. Era uma bela noite de sexta-feira.

- Mas me diz, saindo daqui você vai pra onde? Ele me perguntou.

- Provavelmente para casa, tenho um monte de livros para ler e algumas garrafas para enxugar. Respondi.

- E nenhuma garota?

- Não hoje.

- Que estranho, está doente?

- Na verdade, estou sem inspiração. Preciso escrever.

- Por falar nisso, como está o livro?

Roque falava do livro de contos que eu estava escrevendo fazia alguns anos. Nunca conseguia terminá-lo porque nunca parava de escrever e sempre achava que deveria substituir um conto pelo o outro melhor, porém, estava sem inspiração e não conseguia terminar também por isso.

- O livro está ficando pronto. Menti, mas foi daquelas mentiras sem malícia. Talvez nunca terminasse aquele livro, ou talvez fosse um sucesso. Quem poderia saber?

- Legal, quero ler.

- Eu também. Eu disse.

- Pede outra cerveja que vou ao banheiro.

Chamei o garçom-caixa-cozinheiro e pedi mais uma cerveja. Completei os dois copos e fiquei olhando as pessoas nos carros indo para casa ou para os bares depois de uma semana toda estresse. Quantos daqueles caras tinham a vida pior do que planejara quando mais jovem? Quem se imagina comendo marmita, num calor dos infernos dentro de ternos baratos, tendo que limpar a bunda de empresários cuzões caso eles peçam? Ninguém sonha com isso, mas as pessoas simplesmente se contentam, com suas vidinhas, suas transas sem graça, com suas esposas gordas, seus filhos ignorantes que repetirão todos os erros de seus pais.
Isso me fez pensar na minha vida, em como me imaginava aos 26 anos que tenho hoje, casado com uma garota que hoje está casada com outro cara, que tem suas transas sem graça com outro cara e eu estou no bar bebendo com um grande amigo depois de uma semana dura de trabalho para um empresário cuzão enquanto meu livro não fica pronto. Fui interrompido por Roque voltando do banheiro e sentando à mesa.

- Sabe o que eu lembrei, cara? Ele me perguntou já sabendo que eu não tinha a mínima ideia. Então continuou sem esperar resposta - Daquele dia que colocamos aqueles ladrões para correr.

- Hahaha quase morremos aquele dia. Eu comentei.

Ele também sorriu e brindamos.
Roque era um sujeito baixo e magro, mas seus braços cobertos de tatuagens e sua barba há meses por fazer lhe davam uma imagem de cara mau. Eu não era muito mais forte que ele, apenas mais alto e mesmo assim colocamos alguns assaltantes para correr. Estávamos mais bêbados que um porco e mesmo assim evitamos o assalto.

- Já fomos mais valentes. Eu disse a ele.

- Ainda somos, só não temos a oportunidade de mostrar. Eu ainda aguento uma boa briga, mas você sabe, agora com mulher, todo sujeito fica mais tranquilo.

Assenti com a cabeça.
Roque tinha arrumado uma garota e estava muito bem. Podia dizer até que ele engordou um pouco. Estava feliz, seus olhos diziam isso.

- E você, não tem escrito nada? Perguntei.

Roque tinha uma boa mão para escrever. Era um solitário e estava começando nesse ramo da escrita. Mas em suma seus textos eram tristes e desesperados. Roque sempre fora um romântico, um romântico sem musa e neste caso, qualquer linha sairá desesperada. Mas mesmo assim ainda eram bons textos. E sua resposta não me surpreendeu quando ele justificou-se por não escrever mais.

- Não escrevi mais uma linha sequer, não estou mais triste, não preciso mais escrever.

Aquilo me fez pensar. Fiquei um pouco assustado, confesso. Quase que mandando a felicidade ir se foder, afinal, o que eu fazia de melhor era escrever, se isso me deixasse o que eu faria? Abriria um bar e seria um garçom-caixa-dono-cozinheiro? Eu já tinha trabalhado em um bar antes e posso garantir, odiei a ideia de servir cerveja aos outros. Eu me sentia bem melhor do lado do balcão que esvaziava os copos e não do lado que os enchia. Seria um peixe fora d'água, me transformaria naquilo que eu mais detestava; homens sem rumo, ocos, débil e bosta. Eu não era um cara como esses, eu jamais seria aquele que vai à casa dos sogros arrumar o telhado com goteiras, jamais seria esses caras que segura o palavrão na garganta quando ganha uma rodada nas cartas. Nunca vou a batismos e esse tipo de coisa. Pensando nisso eu me acalmei um pouco. Roque poderia ser este cara, ele até ansiava por isso, éramos diferentes e por isso eu me acalmei um pouco. Mesmo assim, disse: - Quer saber? Foda-se, jamais pararei de escrever.

Roque sorriu com sincera alegria - Claro que não vai, cara. Seria um desperdício enorme. Você tem talento. E você não é do tipo de cara que leva uma mina para morar junto de você.

Mas eu já tinha sido esse tipo de cara, só não tinha achado a garota certa, afinal, não levaria qualquer escrota para morar debaixo do mesmo teto que eu, alguém poderia sair morto disto. De qualquer forma, não quis perder tempo explicando.

- Não puxe meu saco porque não vou pagar a conta sozinho. Eu preferi dizer e rimos assim que terminei de falar.

- Isso me fez lembrar uma coisa. Já te falei que minha ex namorada casou?

- Falou... Ele respondeu e eu continuei - Então, esses dias encontrei com ela e o cara.

Roque fez o sinal da cruz em frente o rosto como quem estivesse em frente a um padre - E como foi? Ele perguntou com ansiedade na voz esperando um fato maior do que realmente fora.

- Bem, continuei fumando meu cigarro e peguei o ônibus.

- Vocês não se falaram?

Essa pergunta foi inútil, ele já sabia da resposta.

- Claro que falamos, ela me apresentou o atual e combinamos um ménage. Ironizei.

- Porra! Ela provavelmente fingiu que não te viu, não é?

- Era o que ela tinha que fazer.

- Você é o cara mais filho da puta que conheço e essa garota é a única que eu já vi você defender.

- Eu não defendo ninguém, eu simplesmente tento não me importar. Porque simplesmente vai acabar com o meu dia, então eu tento me afastar desses pensamentos.

- E dá certo? Ele me perguntou.

- Claro que não, caso desse eu seria um cara bem mais tragável.

- E como ela está?

Desta vez eu dei um sorriso antes de responder. Era um sorriso tímido, que parecia de prazer, porém também parecia desapontado.
 - LINDA! Eu respondi com ênfase e Roque me olhou como quem olha um mendigo pedindo comida em frente um restaurante. Como um cachorro em frente o frango no rolete, ou alguém que está prestes a morrer e deseja a vida. Mas eu não estava preste a morrer, longe disso. Pelo tanto que eu bebia eu estava com uma saúde de ferro. Ninguém poderia negar isto. No entanto, os felizes sempre têm um olhar de desdém aos não tão felizes assim e ele vira, naquele momento que talvez ele tivesse descoberto a fonte de meu talento para a escrita. A musa. Tudo está atrelado à musa. Ele soube que tudo o que eu era, até aquele momento, era obra de alguma coisa muito tensa e que só uma coisa tão forte poderia ter causado tanto estrago. E acho que ele percebeu, talvez não, mas eu acho. Então ele desviou o olhar, pois não é fácil encarar alguém assim, e tentou mudar de assunto.

- Nós já fomos mais valentes, como você disse.

E eu assenti calado.




Bento.  

quarta-feira, 2 de abril de 2014

AINDA ESCREVERÃO SOBRE MIM COMO O INVENTOR DA MODALIDADE DE INUTILIZAR-SE

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Independente de qualquer situação, de quem você seja, um grande gênio da história ou um bosta, algumas coisas em você nunca irão mudar. Não muda porque esta coisa fica impregnada em seus ossos como um câncer. É o que distingue você dos outros idiotas.
Bem, dito isto, a maioria das coisas em mim já não tem mais salvação, não fico sem elas assim como não fico sem meus cigarros e quem me conhece sabe que eu fumo mais do que respiro. Bom ou ruim nunca mudará. Com todos os defeitos e mesmo as tragédias derivadas destas coisas elas permanecerão aqui, pois é exatamente isso que me diferencia dos outros idiotas, nem melhor nem pior, só diferente.
Isso sempre dá às pessoas que se aproximam um mapa da mina, algo para trabalharem, um ponto de partida. Sem precisar pisar em ovos tudo fica mais fácil, porém algumas pessoas simplesmente não aprendem. Ou não aprendem ou não se importam, em ambas as situações não me deixam outra escolha senão mandá-las ao inferno.

Entre todas as minhas funções, tudo o que eu tenho de fazer, bem como trabalhar, pagar contas, transar, beber, dormir, eu não reservo muito do meu tempo para gastar com pessoas que simplesmente não estão com vontade de gastar seu tempo comigo. Até porque já é bem difícil aturar-me querendo, imagine quando não. Nunca peço nada que eu mesmo não tenha para dar e consequentemente não prometo coisas das quais eu não posso cumprir, o que é quase nada para algumas pessoas e mesmo assim elas insistem em tentar me sugar ainda mais.

É claro que tudo isso fica mais fácil pelo fato de ser homem e nós homens temos um talento natural para empurrar as coisas com a barriga. Nós simplesmente nos sentamos, olhamos para o nada, falamos sobre coisa alguma e ficaríamos por ali bebendo por dias caso pudéssemos. Já as mulheres são mais hiperativas, lavam a louça do café da manhã, do almoço, do jantar, nós homens sequer arrumamos a cama, pois iremos desarrumá-las horas depois. Nos poupamos do trabalho porque trabalhar cansa e nós só gostamos de nos cansar com coisas que nos dão prazer. Então seguimos empurrando tudo com a barriga e nem é preciso ter uma bela pança como os pais e avós, simplesmente empurramos. Uma lâmpada quebrada nós deixamos lá até que seja extremamente preciso trocá-la. Um encanamento entupido é preciso feder e dar ratos e baratas e bostas saindo pelo ventre da casa para que tomemos alguma iniciativa e é só isso que fazemos, o que me deixa indignado é que as mulheres mesmo sabendo disso acham que nós seremos diferentes com nossos relacionamentos. É muita fé numa espécie que há milênios mostra exatamente o porquê veio. Tanta fé assim me parece um pouco de insanidade.
Eu, por exemplo, sou o melhor de todo o universo em não fazer absolutamente nada. Tão bom nisso que deveria ganhar prêmios, ser reconhecido na rua, documentários no Discovery Chanel. Eu poderia dar aulas sobre como ficar deitado durante meses sem se mexer. Talvez devesse ter nascido urso, mas ursos dormem muito e dormir é muito fácil, difícil é ficar sem fazer nada acordado, simplesmente olhando para a parede se entretendo com seus próprios pensamentos. Ainda escreverão sobre mim como o inventor da modalidade de inutilizar-se. Claro que a prática leva a perfeição e eu pratico sempre que posso. Sabe, algumas garotas das quais já me envolvi tinham entre suas maiores qualidades o fato de também não fazerem nada e eu às gostava talvez só por isso, o resto era só social mesmo.

Infelizmente tenho pouco tempo para praticar o que faço de melhor, que é sentar-me sem fazer nada, escrever e beber. Ando tão sem tempo que tenho bebido andando. Quando eu era mais jovem pensava que muito provavelmente eu tinha sido trocado na maternidade. Eu deveria ter nascido naquelas famílias de artistas onde pudesse fazer qualquer coisa e trabalhar não seria uma delas. Onde poderia aproveitar minha infância até os 25 anos, a adolescência até os 35 e aos 45 fazer um filme sobre minha vida medíocre e inútil de alta classe. Sim, eu poderia viver bem assim. No entanto escrevo isso às 06:00 AM enquanto estou tentando cagar, mas é tão cedo que nem meu intestino parece ter acordado. Curioso como os garotos ricos gostariam de ser um pouco como sou e eu bem gostaria de um pouco do dinheiro deles, mas isso só prova como Deus é um sacana. Ele não pode te dar tudo, é preciso que você tenha algo do qual lutar, um horizonte para vislumbrar, sem isso ficaríamos todos loucos.

Recentemente me foi apresentada uma garota, daquelas apresentações de amigo em comum e bem, hoje em dia tem sido tão fácil conhecer pessoas novas, pensei que uma a mais... Por que não? Então eu me apresentei: Olá, meu nome é Bento, sou um escritor falido, sem coerência e que às terças-feiras precisa acordar antes mesmo do próprio intestino. O lugar mais legal para qual viajei foi quando tomei LSD na garagem de casa ouvindo The Doors, olhando as estrelas, mas não estou tão certo sobre as estrelas, afinal estamos em São Paulo. Então antes que me pergunte eu não tenho a mínima ideia de qual é a última música da moda que está tocando nas rádios.
Os olhos da garota pareciam vidrados em meus lábios, como quem presta muita atenção no que está sendo dito. Esperei que ela começasse a sua apresentação quando fui surpreendido pela pergunta: o que é coerência?

Entende o que eu estou dizendo? Está muito fácil conhecer pessoas novas e eu não disse em momento algum que isso é uma coisa boa. De qualquer forma, esta garota tinha o colo e os dois braços tatuados e eu sempre digo que uma garota tatuada tem 80% da minha atenção, os vinte que falta a gente faz o que pode. Continuamos conversando e o resto correu tudo de acordo com o que eu esperava.
Conversamos sobre futilidades durante uns trinta minutos, depois disso comecei com sarcasmos e ironias e a falar sobre o mundo, a sociedade, a juventude brasileira e seu colapso cultural e etc.; etc. E a partir daí eu falava sozinho e ela ouvia. Continuava prestando atenção, porém era visível que pouco compreendia. O que eu posso fazer, só consigo me manter idiota por pouco tempo. Então me lembrei de uma outra garota que me perguntou uma vez "como você pôde namorar uma garota que não consegue interpretar um texto"? Ainda hoje eu me faço a mesma pergunta, mas eu tenho dessas coisas inexplicáveis. Ou posso usar a desculpa da ignorância masculina temporária. Se você não sabe o que é isso provavelmente é uma mulher. De qualquer forma usei da mesma ignorância temporária com a garota tatuada e decidimos parar de falar sobre qualquer coisa. Então você pega a falta de tempo, a falta de tolerância e meu hábito de explodir por coisas estúpidas, reagir de maneira exagerada às injustiças cometidas contra minha afeição, mistura tudo e você vai perceber que algumas coisas em mim nunca mudarão; eu jamais vou tolerar idiotas.



Bento.

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