domingo, 29 de julho de 2012

GAROTA DE OLHOS SEMICERRADOS


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Veja as novidades como mariposas de lâmpadas nas noites de calor. Vem de repente e assim como chega, parte, deixando suas asas na memória.

É claro que estou falando da garota de olhos semipuxados. Ou podem ser semicerrados, pela falta de óculos.

Tudo bem. Me peguei acusando-me de sanguessuga. Não pejorativamente, evidente que não. Não faço mal a ninguém, exceto a mim mesmo.
O que eu quero dizer é que utilizo de artifícios e esperanças conta-gotas para tornar as noites frias mais agradáveis. As manhãs menos sombrias. Confesso, confesso, confesso.

Mas eu sou só uma relação de má fé comigo mesmo. Não sou de me gabar, portanto prefiro respirar cautelosamente. Quase que pisando em ovos eu sigo remediando autopromoção.

Alguns nomes eu invento. Outros eu escondo para manter o rumo da história sem tanta intromissão. As histórias não são todas reais. Nem tem que ser.

Se apegar em todas as linhas, vírgulas e até nos erros gramaticais é tão indicado quanto viver a própria vida através dos olhos alheios. Eu mesmo quero mudar uma palavra ou outra quando releio um texto meu.

É o sentimento que vale a leitura. É a sensação e pelos do braço arrepiados que faz com que eu termine um texto e queira mais. Nem a interferência do cotidiano me faz parar alguns momentos no intuito de pregar cada letra exemplificando minha intenção. Só a falta de tempo faz isso. Logo, levo mais de um ou dois dias para terminar um texto e, sempre volto de onde parei. Voltam também a sensação, o hálito, os arrepios. Com a garota de olhos semicerrados não é diferente.

Antes era o cigarro e o café quem me serviam de despertador. Hoje são os cigarros, café e o sorriso leve de pensar como será ao encontra-la.
São só coisas que vou me apegando diariamente. É corriqueiro sim, mas é meu.

E de pensar que você pode, dependendo de seu humor, ao descontá-lo em mim, deixar de provar do cheiro de meu travesseiro. Talvez perder minha cara de sono e toda amassada de manhã.
Pode ser que deixará de me ver pular os degraus da escada por culpa de minha impaciência.
Descobri que como sempre o arroz e deixo a carne por último.
Pode perder a minha mania de lavar as mãos e meu hábito de dormir sempre do mesmo lado.
Pode não notar que assovio quando estou nervoso. Talvez perca a chance de saber que só tomo banho ouvindo música e que sempre amasso a lata de cerveja antes de beber. A minha mania de espelho que não passa de uma vaidade disfarçada. Minha mania de coçar as unhas e ranger os dentes. Não ouvirá eu praguejar mesmo quando estou feliz e me divertir com isso. Talvez não saberá que sou péssimo com o martelo e que as vezes gosto de ficar descalço para falar com meus pés.

Pode ser. Pode ser que abrirá mão de tudo isso e, o que não sai da minha cabeça, o que não me deixa dar as costas mesmo depois de cada palavra atravessada, é que mesmo sabendo que ao deixar tudo isso, quem sairá perdendo serei eu.


Bento.

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O DOMINGO É A SEGUNDA-FEIRA DOS SOLTEIROS

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O domingo é a segunda-feira dos solteiros. Conheço um cara que só namora aos domingos. Durante a semana é o pior namorado que eu já vi. Veja, sou um cara demasiadamente indiferente, me indigno com pouquíssimas coisas, mas esse cara. Bem, esse cara é tão péssimo namorado que eu fico indignado. Menos aos domingos.

O próprio Romeu pediria conselhos para esse cara se o visse quão bom namorado, quanto carinhoso e companheiro é aos domingos. Tanto que seu namoro se mantém até hoje pelo homem que é a partir da zero hora deste dia. Tudo isso, é claro, pelo medo da solidão dominical. Só para que não tenha que lidar com as manhãs de sol, as tardes frias e as noites depressivas.
Quem já assistiu as VídeoCassetadas ao lado de um amor sabe do que eu estou falando. Pois quando sozinho, àquilo não tem a menor graça. Pelo contrário. Já espetou uma agulha debaixo da unha? É tão sem graça quanto. Fora a dor.

Quem deu início a solidão de domingo foi Deus. Depois de criar o mundo deixou anjos, arcanjos e até o demônio, para se empanturrar de brigadeiro na panela e assistir Friends.

Quem acha que inventou o churrasco de domingo? Os solteiros, lógico. Nada como um monte de bêbados falando groselha para ludibriar as tardes solitárias.
Eu já fui o rei do churrasco, mas isso faz muito tempo. No entanto, não me engano mais, pois, você pode sobreviver a um domingo, a todos eles não.

Domingo é o dia dos programas de auditório porque nem os apresentadores querem ficar sozinhos neste dia. O público? Nenhuma mulher deixa seu marido em casa e vai numa caravana assistir a programas de auditório e vice-versa. Bem, não num casamento sadio.
Por isso só vemos solteiras, velhas e brochas no auditório. Esquece àquelas belas garotas de pernas grossas e sorrisos largos na primeira fileira. Essas são modelos contratadas para embelezar o lugar. Isso é o glamour da TV.

Só gosta de trabalhar aos domingos quem tem medo deles. Nada como enfiar a cabeça no trabalho para esquecer a singularidade do primeiro dia da semana.

Ninguém se divorcia aos domingos. Ninguém termina o namoro aos domingos. As pessoas até brigam aos domingos, mas só fazem as malas nas segundas.

Se sexta-feira é o dia do solteiro, domingo é o dia dos casais. Todos sabem disso. Todas as pessoas que sofrem de abstinência de conchinhas, filmes, e meias coloridas e edredons pedem aos céus com todas as forças que assim que o relógio marcar 23:59 dos sábados ele pule automaticamente para 00:01 de segunda-feira e assim, manter o pouco de equilíbrio que ainda resta aos medrosos.


Bento.

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sexta-feira, 27 de julho de 2012

BEATAS DE CAUSAS PERDIDAS

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Sempre disse que a mulher é o ser de mais fé que existe no mundo. Beata de causas perdidas.
Nada é por acaso, as palavras "esperança" e "fé" só estão no feminino por ser inspiradas na força de vontade da mulher.

Toda mulher acredita que pode consertar tudo e todos. O cafajeste só existe porque a mulher insiste que pode fazer com que ele tome jeito. Mesmo com o fracasso de tantas que vieram antes, elas sempre acham que podem.

Ao criar um filho também não é muito diferente. O pai desiste depois de algumas tentativas frustradas, "esse não tem jeito mesmo". Já a mãe nunca abandona a cria. Santa esperança.

A certeza que eu tenho de que Deus não pode ser uma mulher se deve ao fato de que até Ele desiste em algum momento. Se não buscar Sua ajuda não terá nada. Já o diabo só pode ser uma mulher, afinal, por mais bom moço que seja, o diabo sempre espera que você desvie do caminho. Ele espera, não importa quanto tempo demore, ele tem esperança e tem tempo para isso.

Só que a mulher não tem todo tempo do mundo, logo, perde anos preciosos de sua vida acreditando em relações de uma mão só. Relações onde somente ela se arrisca, somente ela se doa, somente ela deseja.

Alguns homens tem fé como as mulheres, porém são raros.
A paciência de esperar da mulher é compreensível, afinal, até para dar a luz ela espera vários meses. Espera a primeira menstruação. Espera o príncipe encantado e o baile de quinze anos. Sempre esperando sem perder a esperança.

O que a mulher não sabe é que não se pode entrar numa guerra onde o inimigo não a deseja nem como amigo, nem como adversário. É entrar numa luta já como derrotado. Ninguém se arrisca por algo que não vislumbra, ninguém briga por algo que não almeja. O que tiver que ser seu, será. Afinal, é o Destino que dá as cartas desse maldito jogo mesmo. Nós não passamos de pessoas que portam as fichas. E blefar nesse jogo só nos faz perder mais e mais, por isso, só aposte na mão que está à seu favor.

Não se pode implantar amor onde não se pode implantar amor. Simples como os defeitos, não? Você pode plantar amor num solo fértil, aí sim, as chances de vitória aumentam consideravelmente. No entanto, se você já pratica a jardinagem de sentimentos durante meses e o solo não corresponde, não é agora, em período de seca de atenção e companhia que vai germinar o tal do amor que tanto deseja. Velhos ditado não são velhos por acaso e poucos são tão válidos quanto "quando um não quer dois não brigam".

Lutar por amor sozinho é como ser atirado num campo de batalha desarmado. Desculpem-me se insisto no comparativo de amor e guerra. Mas é isso que o amor é. Uma guerra entre a solidão e a felicidade. O bem contra o mal, onde só podem haver dois vencedores, ou nenhum.

Só que já adianto. Tudo isso é só suposição, pois quem é que entende essas coisas de amor? Ninguém, ninguém...


Bento.

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quarta-feira, 25 de julho de 2012

CHORANDO O LEITE DERRAMADO

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Era uma véspera de feriado que não queria dizer muita coisa, eu estava desempregado havia meses. Ouvi a campainha tocar quando estava ao telefone falando com alguém que não lembro quem. Talvez pedisse uma pizza, talvez fosse o banco cobrando a dívida do cartão de crédito, talvez não fosse ninguém.

Fui até a porta ver quem era. Um homem de barba mal feita e olhar frio estava parado esperando. Suas roupas eram monocromática com uma cor indefinida. Parecia um uniforme. Ao me ver abriu um sorriso que parecia forçado.

- Não quero comprar nada, obrigado. Fechei a porta na cara do sujeito.

Parei no meio da sala tentando lembrar o que eu fazia antes de atender o telefone e a porta. Não conseguia me lembrar. Será que eu estava na privada, meu intestino dizia que sim. Parti para o banheiro quando a campainha tocou de novo. Merda de porta. Tiraram o dia para encher o meu saco?

Abri a porta com cara de poucos amigos e vi uma garota com mais ou menos 18 anos, o cabelo era loiro e estava dividido em duas tranças jogadas em frente o ombro, ela vestia a mesma roupa que o homem de olhar frio de segundos atrás.

- Pois não delícia, em que posso ajudá-la?

- Prazer em conhecê-lo Elias. Me chamo Dandara e estou aqui para roubar-lhe a alma.

Fechei a porta imediatamente. Essa juventude de hoje, tão estranha.

Sentei na privada e dei aquela cagada que gostaria de fazer há dias. Não sei como podia sofrer de prisão de ventre depois de todo whisky que tomei. Enfim, caguei desesperadamente.

Quando cheguei à sala com meu cigarro na boca, pensava em ir até a cozinha pegar uma cerveja, ouvi a campainha novamente.

Puta que pariu. Quem será o filho da puta da vez que vai levar com a porta na cara?
Abri a porta e lá estava uma senhora de saia até as canelas e um pano na cabeça. Ainda tudo monocromático. Era uma freira. E assim que abri a porta a ouvi dizer: - escuta aqui seu filho de uma vadia medíocre. Se der com a porra da porta na minha cara novamente eu vou enfiar sua cabeça em seu próprio cu e fazer com que você respire sua merda durante dias.

O impacto de ver uma freira falando daquela forma fez com que eu ficasse paralisado por alguns segundos. Estava confuso. Onde eles compravam àquelas malditas roupas horríveis? Nem eu que estava quase parecendo um desabrigado me vestia tão mal. A freira continuava a olhar para minha cara esperando que eu tivesse alguma reação e tive.
Bati a porta com tanta força que as janelas do apartamento estremeceram.

Fazia tanto tempo que eu não saia de casa para nada que poderia ter acontecido um apocalipse lá fora e eu não saberia. Nada de TV, nada de rádio. A única pessoa que eu via era o entregador do mercado em frente o prédio que me trazia comida, bebidas e cigarros. Agora esses cretinos se dizendo ladrões de almas. "Ladrões de almas". Grande besteira, isso sim. Quem é o safado do porteiro que deixa esses imundos subirem no meu prédio?

Houve uma época em que as pessoas tinham mais respeito. Ninguém entrava em prédios de desconhecidos, as pessoas não pediam nada, elas trabalhavam para possuir. Hoje ninguém quer saber de trabalhar. São grandes "um sete um". É isso que esses tais ladrões de almas devem ser. Enganadores baratos tentando me vender algo.

É isso!

Lembrei o que estava fazendo antes de ser incomodado pela campainha. Minha lista de compras. Peguei o telefone e disquei para o mercadinho. Congelados, vodcas, cervejas, conhaques, whisky e cigarros. Agora é só esperar. Peguei no sono e só acordei com a campainha.

Não era o mesmo entregador de sempre, era uma moça de terno cinza e cabelos loiros presos num coque bem apertado.
Um nariz empinado e fino logo abaixo de olhos cinzas e maliciosos. Linda e perigosa. Podia sentir o ódio com o qual olhava para mim. O queixo duro e pontiagudo mirava diretamente meu peito.

 - Trouxe suas compras, seu bosta. Agora me dê sua alma. Ela disse.

 - Obrigado, mas vou pagar com cartão mesmo. Respondi esticando as mãos para que a moça me passasse as sacolas.
Ela levou as compras até minhas mãos, porém não as largou.

 - Não vou pedir de novo, velho. Se não me deixar entrar e levar sua alma...

Interrompi seu discurso perguntando: - Convidar? Tipo um vampiro?

 - Como uma bruxa ladra de almas que sou. Ela respondeu fazendo seus olhos arderem como bolas de fogo.

 - É... Tipo um vampiro. Pensei alto.

Ela então continuou o discurso interrompido: - Vou fazer da sua vida um inferno se não me deixar entrar.

 - Para, para, para, para. Pode parar sua vadiazinha de merda. Olhe pra mim. Olhe bem pra mim. Veja onde eu moro. Você acha que eu não conheço inferno? E tem mais. Pra sua informação, eu já vendi minha alma para o diabo e tomei um grande calote. Baixei o tom de voz e concluí: - Estou até pensando em ir até o Procon.

 - Você está falando sério? Ela questionou surpresa.

 - Sobre o Procon?

 - Não. Sobre o diabo?

 - Sim. Respondi.

 - Droga! Aquele chifrudo chegou na minha frente de novo. Ela agora tinha lágrimas nos olhos ao invés de chamas.

 - Pois é minha filha, a vida é assim. O mundo é dos espertos. Fracassados como nós estamos fadados a chorar o leite derramado.

 - Tá difícil mesmo. A moça passou a chorar como uma criança. Soluçava, até.

 - Bem, não precisa ficar assim.

Continuava chorando.

 - Olhe garota. Tem uma bela garrafa de scocth aqui nesta sacola. Que tal me ajudar a acabar com ela?

 - Acho que talvez não seja uma boa ideia...

 - Ora, deixa disso. As almas que tem para roubar não vão a lugar nenhum. Você está precisando de um bom porre para animar. Insisti.

 - Ok.

 - Entre, por favor.



Bento.

domingo, 22 de julho de 2012

PERCO-ME NO RÍMEL

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Poucas coisas no mundo são mais sensuais que ver uma mulher se maquiando.
Quem mora em São Paulo está acostumado. Por causa da correria diária, a cidade das multidões, é comum deparar-se com alguma garota maquiando-se nos coletivos, nos metrôs e etc.
Não importa muito se a mulher é linda ou se é um furúnculo em forma de gente. Claro que quanto mais bela melhor, porém, é a ação que encanta.

Falo da concentração, da técnica, de cada movimento cirurgicamente calculado.
Primeiro a sombra nos olhos marcantes, é a preliminar do encanto.
O lápis em torno dos olhos e já temos o feitiço pronto.

É como se eu estivesse olhando pelo buraco da fechadura. Estou ali, mas não estou ali. Elas não ligam, quem é você? Onde está? Como se chama? Não importa!
É a intimidade quem comanda cada movimento e, quem melhor que as mulheres para reger aqueles bastões, pincéis, e pós? Como um maestro numa orquestra, nos tira da lotação e aperto dos coletivos e nos levam ao céu de primavera infinita. O que é trânsito mesmo?

O rímel me faz lembrar que os olhos jamais podem ser lavados por lágrimas, não os dela. Chorar e estragar todo aquele trabalho artístico-artesanal? Não! Nenhum de nós somos dignos disso, seria como tacar fogo num Picasso, num Da Vinci.

Dou uma pausa na sequência dessa apologia à beleza. Dessa manifestação afrodisíaca para pensar. É assim, me perco no ato do embasamento feminino. Sou um tolo - talvez digam os machistas - provável que seja mesmo um tolo, mas poucas coisas me fazem esquecer das contas a pagar, dos problemas de relacionamento, pessoais, profissionais e, vê-las ornando narizes, testas, queixos. Somos nós, homens, todos escravos da manifestação íntima que nos intima a parar e idolatra-las por nos conceder tal visão que Deus, provavelmente, criou em seus melhores dias.

Faço então essa pausa, quando já estou completamente perdido em libido, em feitiço e sabor, para lembrar de uma antiga namorada. Era ela linda como poucas que eu já vi, porém não usava um batom sequer. Não precisava, fato. Mas um dia, não me lembro agora de quem foi a ideia. Se minha ou se dela. Na verdade, acho que foi minha. Mas bastou um lápis nos olhos e eu sabia que iria amá-la para sempre. Eu já sabia disso, porém foi ali que eu tive certeza. Amaria para todo sempre aqueles olhos com lápis e tudo que vinha com eles.

Bem, claro que, o meu "para sempre" durou mais que o "para sempre” dela e hoje ela desistiu do lápis nos olhos. Sobrou a ela as madeixas endurecidas por parafina. Para mim? Sobrou, bem...



Bento.

terça-feira, 17 de julho de 2012

OLHOS D'ÁGUA

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Era uma rodoviária grande, mas ele sabia o ônibus e a plataforma. Ele já conseguira achar a garota e agora estava escondido atrás de uma senhora gorda que tomava um milk-shake num dos quiosques do lugar. Ela estava linda, a garota que fora sua namorada durante dois anos agora parecia ter ficado mais linda ainda. Era a distância que mantinha dele que fazia bem a ela. Quando se conheceram ela era apenas uma garota, no entanto agora, mantinha o rosto angelical, o corpo deliciosamente magro, só que era uma mulher feita. Tinha postura de mulher.

Plácido então pediu um café para disfarçar e não tirava os olhos d'água do grande amor de sua vida. Saula mantinha seus cabelos negros com mechas loiras atrás das orelhas deixando seu rosto pálido à mostra. As pernas cruzadas sustentavam botas que subiam até os joelhos. Ele adorava àquelas botas. Só não gostava das malas que Saula mantinha ao seu lado. Era isso. Ela iria embora, para outro estado, matando assim, a esperança de Plácido de um dia, reviver aquele amor que o fez tão feliz.

O ônibus partiu e ele ficou ali, morto. Era como se sentia, um corpo, frio, sugando ar, mas morto. Transpirava de desespero silencioso, porém morto.
Despejou todo o açúcar que havia no balcão em seu copo e mesmo assim o café continuava amargo, pois não era o café, era seu paladar. "Morto não tem paladar" ele pensou.

Plácido tinha dezoito anos e não pisava na faculdade de gastronomia desde que perdeu Saula e já haviam se passado seis meses. Ia até a faculdade e parava no bar, quinze passos antes do prédio da universidade. Era ali que afogava suas mágoas no álcool e era ali também que conseguia a heroína que esperava, de capa e tudo, devolver-lhe a vida.

Era sábado, não tinha aula, mas mesmo assim ele pegou o caminho da universidade. Precisava de uma boa dose de "heroísmo" para conseguir dormir o final de semana todo.

Já em seu quarto. Preparou a dose e amarrou a tripa de mico no braço esquerdo. Fizera uma tatuagem no braço para esconder as picadas da agulha dos olhos vigilantes de seus pais.

Não era só a perda do amor que o abalava. Não era só a partida de Saula que o amargurava. O problema de Plácido não era só a abstinência de carinho e cumplicidade. Era também, a perda do amor por tudo que o cercava. Mas o problema de Plácido era procurar a garota que um dia foi sua em todas as outras e, haviam outras. Muitas outras. Mas era a boca de Saula que ele beijava quando beijava outra boca. Em outros corpos era o corpo de Saula que ele acariciava. E sempre que tinha uma garota em seus braços era o rosto de Saula que ele via.

Plácido não sabia o que era àquilo. Talvez fosse efeito da heroína. Talvez fosse efeito de Deus, punindo-o por não ter dado valor a criatura planejada por Ele. O garoto não sabia o que era, mas tinha de dar um jeito naquilo.

Era sua terceira picada. No auge do efeito químico da heroína, penetrou a agulha em seus dois olhos. Primeiro em um, depois em outro. Não sentira dor, sentiu alívio. Não veria mais o rosto de sua amada em nenhum outro rosto, nenhum outro cômodo de sua casa, ou esquina de qualquer outro lugar. Enfim se despediu: - Adeus Saula. Adeus.


Bento.

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ERRO GROTESCO


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Eu não passei de um erro. Sei disso! Um erro grotesco.
Tanto tempo perdido. Anos jogados no lixo.
Tantas privações, coisas que deixou de fazer, tanto por falar e eu não permiti.  O errado.
Tão errado, que da minha boca, os "te amo" que saíam dela provavelmente tinham som de "tã dã" como quando cometemos uma ação proibida no Windows. É isso que eu fui, uma ação proibida. Seus amigos deveriam ter te avisado, afinal, amigos servem para isso.

Sua família deveria ter lhe alertado, pois família serve para proteger-nos. Mas talvez eles também não notaram o tamanho da estupidez que estava cometendo.

Sinto em dizer, mas enfiou os dois pés na jaca no momento em que se aproximou de mim, eu era um erro e, ao estar do meu lado tornou-se você também, um ato falho.

Eu, por minha vez, continuei errando e meu sobrenome poderia muito bem ser "Engano". O nome tatuado em meu peito seria então, "Equívoco", tão grande que seria suficiente para tatuar o peito, as costas, pernas e braços.

Tudo o que você aprendeu com nossa convivência é tão errôneo que deve ser imediatamente embalado por um saco plástico preto de lixo, peça para seu homem que o coloque para fora quando o caminhão de lixo passar.

Todo meu cuidado para com você foi tão impróprio que não vale ser lembrado. Muito menos os planos que tínhamos em comum, esses foram doados para campanhas do agasalho e orfanatos onde os jovens bastardos precisam sonhar muito mais que nós dois. Erros não se realizam, erros são cometidos e você cometeu um enorme. EU SOU o próprio erro.

Já os carinhos, cafunés, canções que te dei eram errados em qualquer lei, qualquer sociedade. Algumas religiões me chamariam de pecado. Não de pecador, pois esse tem salvação após o arrependimento. O pecado está fadado a ser a má escolha. Eis o que sou, O PECADO. Você se arrependeu, bom para você, alcançou a salvação. Converteu-se ao caminho contrário ao meu. O caminho da luz. Agora és tão pura quanto antes de me cometer.

Você tentou, foi atrás e conseguiu. Depois de se dar conta do erro que era eu lutou por uma segunda chance e conseguiu. Não pode voltar e recuperar o tempo que perdeu comigo, porém, acorda todos os dias com a promessa de que será bem melhor daqui para frente.

Bem, já eu, não tive e nem tenho isso em mim. Erros como eu não se regeneram, no máximo se camuflam. Fingem ser certeza, por um tempo ou dois. Logo, eu acordo todos os dias me repetindo.


Bento. 

segunda-feira, 16 de julho de 2012

PORRES, PORRES E MAIS... BEM, VOCÊS ENTENDERAM

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Quando você acorda com o crepúsculo depois de ter quase acabado com o estoque de destilados do bar, na verdade, você não acorda. Seu corpo permanece no transe clínico da maledicência. É uma máquina que antes da sua noite autodestrutiva, perfeição de engenharia fomentada pelo Criador, hoje, com a maior ressaca do mundo, não passa de uma lata velha com motor a lenha. Nada funciona direito.
A cabeça não funciona, o reflexo apresenta defeitos. Após passar alguns minutos na privada você percebe que o intestino, rins e grande parte dos órgãos também estão temporariamente fora do ar. Então, sai do banheiro ciente de que a morte está próxima, o cheiro já é de defunto putrefato. Não se engane, somos todos um amontoado de carne que está em constante processo de putrefação.

Eu ainda estou na noite anterior e, o que é pior, a noite passada ainda está em mim. Só o que eu fiz foi dar uma pausa, uma cochilada de uma ou duas horas. A cabeça lateja e me avisa; mais algumas noites como esta e os danos serão irreversíveis. Grande merda. Como se eu já não estivesse num caminho sem volta.

Quando se está num caminho sem volta, o que te resta é continuar seguindo em frente. Há mais inconsciência que verdade nisso tudo. Seguimos andando, então.

Bem, após o banho já estava atrasado e o café me dava ânsia de vômito, mesmo assim continuei bebendo. Curioso é que minhas ânsias nunca se concluem. Acho que meu corpo gosta tanto de álcool que não quer desperdiçar nem uma gota. É o pecado do desperdício. Como um fígado ciente de seu compromisso de sustentabilidade. Talvez não faça sentido, mas essa palavra está tão na moda que quis usá-la para alguma coisa.

Já estou atrasado para o trabalho e ao apertar o tubo da pasta de dente errei três vezes a escova. Esses reflexos...
Minhas mãos tremem há anos. O porquê eu só suspeito, mas não vem ao caso.
Enfim, acertei as cerdas com a pasta na tentativa inútil de tirar o gosto de whisky amanhecido da boca. Nunca soube com o que se parece tal gosto, meia velha e suja talvez.

Olho-me no espelho e o álcool só mantém jovem as cobras e fetos no pote, pois eu estou mais velho do que nunca.
Olhei no espelho e não vi meu reflexo. Calma, não estou dizendo que virei nenhum vampiro, apesar da palidez e do gosto de sangue na boca por ter rasgado a gengiva com a escova de dentes, eu adoro alho. O que eu quero dizer é que o cara que eu vi ali, me olhando, nem de longe se parecia comigo.

Não sei quanto tempo se passou, mas ficamos um bom tempo nos encarando. Só fui desviar o olhar quando senti meus dedos sendo queimados pelo aviso do fim do cigarro. Joguei a bituca na privada e continuei a encarar aquele cara estranho. Lembrava vagamente o meu rosto, mas não era eu. Foquei em seus olhos e tentei achar-me naquelas esferas castanhas e lembrei que meus olhos costumavam ter um brilho que me orgulhava. Não poderia ser eu, pensei. "Como esse cara entrou aqui"?

Continuava encarando aqueles olhos e reconhecia que eram meus pelo farelo. Claro! Só poderiam ser meus, eu é que não encarava-os há uns dois ou três anos. Malditos olhos.

Eis que depois de toda essa viagem de espelhos e olhos que provavelmente se deve ao excesso de álcool em meu corpo e a falha de alguma parte do cérebro essencial para manter a sanidade, passei a buscar algum motivo forte para eu não deixar o trabalho pra lá e voltar a me deitar na cama e colocar o sono em dia. Trabalho esse um tanto quanto difícil quando se trata de um sujeito entediado como eu.

Pensei nas contas a pagar. No salário que viabiliza meus porres homéricos. Pensei até na garota de olhos cerrados que me faz sorrir inconscientemente. Bastou a imagem de sua franja caindo aos olhos e o cara no espelho me olhou sorrindo. Um sorriso tímido é bem verdade.
A legging e esmeraldas já não são suficientes para me fazer sorrir, muito menos para fazer-me levantar da cama.
Eu sempre tenho os piores pensamentos de manhã. É sempre como o apocalipse, o fim dos tempos. Tudo é um grande balde de merda e eu estou com a cabeça afundada nela. Não importa se de ressaca ou não, de manhã é sempre bosta por todos os lados. Pelo menos durante a meia hora que eu demoro para despertar com minha caneca de café e meus dois cigarros, antes do banho.

Hoje, ontem e, amanhã, acredito eu, serão os olhos levemente cerrados que me farão colocar o primeiro pé no chão e dizer uns três ou quatro palavrões à menos antes de me levantar.

Por hora, é só o que eu posso prometer. Porém, quem sabe, eu não dure tudo isso.


Bento.

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sexta-feira, 13 de julho de 2012

GIULIARD BORSANDI VI

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Indica-se ler os episódios anteriores: GIULIARD BORSANDI V


Decidi então tomar uma no bar para relaxar, ver gente, não que eu goste de multidões ou de muita gente falando na minha orelha, mas às vezes até um solitário como eu precisa de atenção.

Resolvi parar num bar ali pelo centro mesmo, perto do escritório, para o caso de o álcool me tirar o controle e eu poder ir embora andando sem nenhum acidente.
Não por mim, estou cagando por mim, faço isso pelas pessoas, pois apesar de não ser nenhum humanitário e não me importar por quem vive ou quem morre, não quero ter o peso de tirar uma vida nas minhas costas. Já tenho peso demais, mágoas demais.

Digo que estou cagando por mim porque no caso de um acidente vai ser um alívio. Ora seu maldito! Estou falando de suicídio mesmo, quem nunca pensou nisso? Foda-se!
O Ricardinho talvez, que nunca precisou fazer esforço para nada, teve tudo de mão beijada, tudo que tem foi o dinheiro do pai que comprou, como o cargo de jornalista investigativo que era para ser meu.

Ótimo! Tudo que eu precisava era me lembrar daquele comedor de puta, viadinho. É melhor mesmo eu ir para o bar.
Chego então por volta das 22h00min, a fila para entrar no bar vai da porta de entrada até a próxima esquina. Minha vida já é um tanto tediosa demais para que eu perca meu tempo em filas, logo, vou cumprimentar Guião, o segurança da casa. Ele é amigo do Cabelo e eu o conheci andando pelo prédio de Dom Pedro onde tenho o escritório.
Sim, eu só fui cumprimenta-lo com a intenção de furar a fila, caso contrário eu nem me moveria. Quem é você para me julgar?

 - Como tá Guião?

Não me perguntem o porquê deste nome, pois não saberei responder. Eu só conto a história, quem escolhe os nomes é o autor.

 - Giu, meu chapa! Comé que anda essa força?

Guião me cumprimentou com um abraço que quase quebra minha coluna em pedaços. Toda pessoa grande demais acha que todos temos a mesma força que elas.
Guião é um negro de uns dois metros de altura, chutando baixo e, tantos quilos quanto uma balança pode contar. Puta cara grande, principalmente perto dos meus quase um metro e oitenta e setenta quilos. Um bom cara, apesar de ser assustador, é uma figura.
O grandalhão tem uma leve dificuldade de respirar, muito pela obesidade, afinal sustentar todo aquele corpo só com dois pulmões é um desafio dos grandes, ainda mais com a quantidade de fumo que ele consume. Consume e vende os fumos do Cabelo na porta do bar.

 - Você está me matando Guião!!!

Eu disse quase que sufocado.

 - Porra, foi mal... E então, vai entrar ou está procurando alguém?

 - Hoje eu to de folga, só vou encher a cara.

O segurança então tirou seu corpo gigante do meu caminho para que eu pudesse entrar.

 - Vai lá poeta, pega leve com as meninas.

Passei pelo corredor escuro, virei a esquerda e assim que abri a porta fui atingido por uma onda de fumaça de cigarros -- que era demais até para mim que fumava descontroladamente -- e música alta.

O bar era dividido em duas partes, a pista de dança onde as pessoas dançavam como retardados transpirando em bicas com aquela música eletrônica que faziam meus tímpanos explodirem e ao fundo da pista tinha um palco que era usado por bandas de Rock underground em algumas noites.
Do outro lado era o bar, meu lugar preferido naquele lugar e onde trabalhava Jamaica, a barwoman que fazia os melhores drinks da cidade.

Jamaica na verdade era gaúcha, loira de olhos azuis que pareciam fazer parte da decoração e iluminação do bar. Sardas que cobriam seu pequeno nariz empinado, lábios rosas e cabelos loiros (quase brancos) parafinados estilo dreadlocks até o meio das costas, que ela por vezes deixava-os soltos ou enrolados acima da cabeça que me lembrava um ninho de passarinho. Lá pelos seus 1,70m de altura, magra, com seios perfeitos e braços longos cobertos por tatuagens, todos os dois, e piercing no nariz e no buço.
Parecia um anjo, uma tentação do inferno. Não ficava devendo nada para nenhuma supermodelo dessas grifes famosas, mas ela queria ser barwoman.

Jamaica era tão linda que poderia facilmente fazer-me esquecer de Nelia. Chegamos a transar uma vez no apartamento dela que ficava em cima do bar, porém ela gostava tanto de mulher quanto eu. Logo, tive de me contentar com as lembranças da minha ex-noiva.

Ao lado do bar ainda havia alguns bastões de ferro que subiam do chão ao teto e que algumas strippers dançavam em troca de alguns reais entregue em suas bocas e elásticos das calcinhas pelos velhos gordos que sentavam no bar e tomavam whisky com Tônica.

Fui direto me sentar no bar, é claro. E lá estava Jamaica, sempre absurdamente linda:

 - Olá guri. Quem é vivo sempre aparece.

Ela sorria com aqueles dentes perfeitos meio amarelados devido aos cigarros e percebi que tinha um piercing novo na língua.

 - Boa noite magrela.

Era assim que eu a chamava. - Piercing novo?

 - Você viu? Estou me acostumando ainda... Minha nova namorada tem um e eu fiquei com vontade também.

Ao ouvir "nova namorada" senti um ciúme inevitável e uma inveja gigante da vadia que transava com Jamaica.

 - Fico imaginando onde vai parar essa sua mania de piercing.

 - Se é lá que você está pesando, eu coloquei a semana passada...

Jamaica falava e sorria com sua voz deliciosamente maliciosa e seu sorriso contagiante. Não conseguia me manter alheio a ela. Bastava olha-la e meu corpo tremia como um adolescente babão. Chegava a gaguejar e me embaralhar com as palavras.

 - Pena que eu estou namorando, senão te mostrava.

 - Não fica me provocando que eu te pego aqui no balcão mesmo sua pilantra.

 - Hum... Que delícia.

Era impossível não ficar feliz perto daquele anjo do inferno. Mesmo para um amargo como eu, era impossível.
Jamaica me olhava com seus olhos de piscina e apoiava seus dois braços no balcão, o que fazia seus seios redondos e lindos ficarem juntos e apontados para a minha cara. Só aquilo já me excitava.

 - Vai trabalhar magrela! Me trás uma dose, vai.

Jamaica me trouxe um whisky e uma caneca de cerveja. Misturei os dois e tomei dois goles bem servidos para matar a sede.

Eis que já estou na quarta caneca e começa chegar gente. A casa suporta umas trezentas pessoas talvez, nos dias mais cheios, mas não hoje.
Hoje irá se apresentar uma bandinha meia boca, ninguém conhece, só quem frequenta o bar mesmo. Eu prefiro assim, menos gente roçando em mim.
Conheço a tal banda, tem umas músicas mais ou menos, só o vocalista que me desagrada, bebe demais, grita demais, e dança como se fosse uma lagartixa com esquizofrenia em cima do palco.
De qualquer forma, dá para aguentar.

O bar já está cheio e Jamaica não para. De um lado para outro servindo os recém-chegados. Agora já estou na sexta caneta e consequentemente a sexta dose de whisky. Jack Daniels, abaixo disso é água suja. Quando me surpreendo com uma mulher ao meu lado, num vestido negro que, sentada, quase dava para ver suas nádegas.

- Oi. Posso me sentar aqui?

Ela tinha trinta e quatro anos. Um rosto de mulher que, sim, eu toparia levá-la até meu escritório para olhar debaixo daquele vestido, caso ela não fosse um trabalho.
Ela era Janaina Alves, vocês devem conhecê-la como "mulher do pastor".


Bento.

domingo, 8 de julho de 2012

CARDÁPIO DE VAGABUNDAS

-


Meu amigo Otávio queria me apresentar uma garota. Não que eu precisasse, eu tinha dinheiro e poderia pagar quantas putas eu quisesse. Preferia as asiáticas, porém, gostava também das ladys, àquelas loiras magrelas de seios pequenos e nariz empinados.

Minha ex-mulher havia me traído com o técnico da TV a cabo e eu sai do divórcio sem perder um centavo sequer. Havia putas e drogas e putas até não querer mais. E eu queria sempre mais.

Então esse meu amigo queria me apresentar uma garota que ele conhecia, com o único interesse de me ver feliz. E eu dizia: - Otávio, eu estou feliz como nunca. Olhe para mim. Sou o homem mais feliz do mundo.

Falei isso enquanto estava na hidromassagem com duas asiáticas siliconadas e uma delas mergulhava para me chupar e voltava sem ar. Depois era a vez da outra.

Enfim, Otávio insistira tanto que aceitei.

- Marque um jantar e vemos no que vai dar...

Cheguei à casa de Otávio e ele me recepcionou como uma grande estrela de novela que ele não via há muito tempo.

- Patrício, seu canalha esperto. Como tem passado?

Entrei na sala de estar da casa de Otávio e percebi a decoração de antepassados. Eu era um rico novo, rico recente. Otávio tinha nome tradicional na cidade de São Paulo e colunas de fofocas. Por isso a casa tinha cara de velha, como sua família.
Decoração antiga, cheiro de naftalina.

Otávio era o que se pode chamar de "bosta". Era um grande bosta de marca maior, egocêntrico e demasiadamente inseguro. Achava que todas as pessoas estavam em sua volta por causa do seu dinheiro e fama. Bem, a grande maioria era verdade, por causa do dinheiro, pois fama... Ele era só um mauricinho filhinho de papai que nunca pegara um ônibus na vida dele. Nunca tinha contado moedas.  Ou seja, literalmente um bosta que nunca andou descalço no asfalto. Porém, eu gostava de Otávio, não muito. Mas gostava.

Desejei boa noite aos que estavam presentes. Otávio, Daniela - que era o par do anfitrião - e a tal que me seria apresentada. Otávio continuava a me elogiar.

- Esse cara é o maior amigo que eu tenho, sem falar que me ensinou tudo que eu sei. As mulheres imploram para respirar, apenas, o mesmo ar que ele respira.

Pensei que ele estivesse falando da cocaína. Mas não. De qualquer forma eu não entendi. Não éramos tão amigos assim e, a única coisa que eu ensinei a ele foi que não é aconselhável beijar putas na boca, principalmente quando ela acabou de fazer um boquete para metade da festa.

Ele continuou a puxar meu saco mais algumas vezes enquanto aguardávamos o jantar, mas eu nem sequer dei atenção. Por isso não lembro.
Eu não tirava os olhos da garota que Otávio queria me apresentar, olhava de cima abaixo. Das roupas até o jeito de mexer no cabelo, da forma como cruzava as pernas até como descansava as mãos no colo.

A governanta, uma garota de 20 anos que transava com Otávio, chamou a todos para que fossemos nos sentar à mesa para o jantar e eu reparei na bunda de minha companhia. Eu já estava embriagado e mesmo assim, aquela bunda não era grande coisa. Poderia ser a saia que estava me enganando, mas era uma bunda comum.
Seus cabelos castanhos estavam alisados e chegava um pouco abaixo dos ombros, e deixava a mostra três estrelas tatuadas atrás da orelha esquerda. Richely usava uma blusa que cobria todo o colo, de modo que ficava difícil analisar seus seios.

Tomei minha taça de vinho no caminho para a sala de jantar e pensei que a garota parecia mais uma secretaria, era rica, mas parecia secretaria.
Quem vinha a um encontro vestida daquele jeito? Era linda sim, isso é inegável. Pele branca, boca grande e lábios grossos, rosados. Mas quem viria a um encontro escondendo tudo que tem vestida daquele jeito?

Sentamos à mesa, servi-me de mais uma taça de vinho e fiquei ali ouvindo as histórias de Otávio e das garotas. Daniela, a acompanhante de Otávio, aparentava 35, mas o pescoço enrugado dizia que ela tinha mais anos escondidos pelas plásticas. Ela era divorciada de um industrial matusalém. Ficara com metade de tudo que ele tinha no divórcio.
Eu disse que se ele era tão velho, poderia ter esperado mais um pouco e ficado com toda sua fortuna e todos gargalhavam. Menos eu, àquilo tudo era encenado para me agradar e já estava me deixando irritado. Mais uma taça de vinho caro. Pelo menos o vinho era bom.

Conversamos sobre mais algumas futilidades, coisas de rico, gargalhadas falsas e elogios inúteis. A garota ainda me deixava pensativo sobre sua forma de se vestir e de sorrir e de falar. Parecia-me esconder alguma coisa e tal. Acabei com uma garrafa de vinho e já estava tão entediado com aquilo que comecei planejar o assassinato dos três, mais a governanta. Poderia levar Otávio até a varanda e matá-lo com a faca da carne. Com a mesma eu daria fim a governanta e, depois me divertiria com as duas garotas. Estupraria e depois esquartejaria, coisa simples. A casa de repente pegaria fogo e ninguém desconfiaria de nada. Comecei a achar que ser um assassino não era tão difícil assim.

 Meus pensamentos sobre o homicídio fora interrompidos por Daniela chamando minha atenção.

- Quer mais vinho, Patrício?

- Ah, sim. Aceito, obrigado.

- Vamos Richely, me ajude com as garrafas?

- Ok! Respondeu Richely e as duas saíram da sala. Otávio então sussurrou para que as garotas não o ouvissem:

- E então? O que achou?

Eu estava bêbado.

- Bom, eu quero fazer sexo com ela - e eu queria mesmo - mas quem é essa garota, de verdade?

- Ela é sobrinha de Daniela, 25 aninhos, sua idade.

- Isso vocês já me contaram Otávio. O que eu quero dizer é que ela parece ser outra coisa.

- O quê, por exemplo? Nós dois ainda sussurrávamos.

- Acho que ela é puta. Eu disse.

- PUTA? Otávio então, exaltou-se indignado.

- Sim, puta. Garota de programa, mulher da vida, prima. Chame do que quiser.

- Ora seu imbecil. Você está tão viciado em putas que já acha que toda mulher tem que sentar num pinto para sobreviver. A garota é rica, ela não precisa disso.

Relevei o "imbecil" porque não tinha desistido da ideia de matá-lo. - Otávio, meu amigo. De puta eu entendo. E você se surpreenderia se eu contasse quantas garotas ricas já me chuparam em troca de uns trocados, pó, álcool e uma boa aventura.

Ele ainda disse algumas coisas com "inadmissível" e "absurdo" no meio, suas bochechas rosadas de menino rico ficaram ainda mais rubras, ele estava prestes a explodir de raiva, mas conseguiu manter a pose. Eu não estava dando ouvidos e fomos interrompidos pela chegada das garotas. Abrimos as garrafas de vinhos, tomei mais algumas taças e comemos falando sobre política e economia. Ou seja, chato pra cacete.

Voltamos para a sala de estar e agora eu não era o único bêbado.

Então Richely não parava de cruzar as pernas. Otávio tinha nos servido alguns charutos, coisa fina, Richely fumava-o como se chupasse um pinto. Fumava e cruzava a perna. Porra, ela estava de frente para mim, de saia e, cada vez que cruzava a perna eu podia ver tudo. Agora ela estava sem calcinha.
PUTA! Puta, puta e puta.

Não tenho problemas com putas. Pelo contrário, adoro putas. O problema é que elas sempre cobram. De um jeito ou de outro, sempre cobram. O que estava me irritando é que se a tal fosse mesmo uma puta, eu poderia pagar por uma bem melhor, com bundas e seios bem melhores e sem precisar passar por aquela social toda, que era um martírio.
Todo aquele blablabla de riquinhos fazia com que eu tivesse enjoos constantes, era um favor para um amigo que nem era tão amigo assim, para conhecer uma garota que nem era muito gostosa e uma velha que provavelmente nunca foi fodida como gostaria. Mas, já que estava ali, não iria desperdiçar uma transa.

Sentei-me ao lado de Richely e começamos a rir como uns idiotas, estávamos todos bêbados e riamos de inutilidades e futilidades cotidianas. Esta foi a parte mais engraçada de toda noite. Minha mão já estava na coxa de Richely e Otávio já percebendo minha intenção nos deixou sozinhos levando Danielle para o quarto que ficava no andar de cima.
Eu e Richely nos despimos ali mesmo, na sala de estar.

- A empregada pode nos ver. Ela disse.

Fingia que não ouvi e continuei a masturbá-la.
Foram trinta minutos até que interessante. Eu estava satisfeito, ela parecia satisfeita. Acendi um cigarro, Richely pegou no sono e fui até a cozinha buscar mais vinho. Estava só de cueca e passei pela empregada que assistia a novela na pequena TV que repousava num armário ao lado da geladeira. Entrei na adega, peguei a primeira garrafa de tinto que encontrei e voltei pela cozinha. A empregada nem viu que eu passei, se viu, fingiu que não. No balcão, próximo a pia e a porta da adega tinha um faqueiro, de prata, coisa cara mesmo. Parei, olhei a faca. Olhei a empregada e como a saia de seu uniforme subia por suas coxas morenas e grossas. Comecei a ficar com tesão de novo e não resisti.

Tudo durou mais ou menos uma hora. Eu já estava vestido e do lado de fora da mansão de Otávio há uns dez minutos vendo-a queimar com as chamas e fumando meu cigarro quando o primeiro vizinho chegou histérico gritando: - FOGO! FOGO! Mas já era tarde demais. Os bombeiros chegaram com suas sirenes ensurdecedoras e eu resolvi ir para casa e ver o que tinha no cardápio de vagabundas.


Bento.