sábado, 21 de setembro de 2013

O ASSASSINATO DE BÁRBARA

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Doutor Quaresma chegara ao seu escritório como fazia todos os dias. Deixou sua maleta 007 com Cassandra e deu bom dia aos pacientes na recepção.

 - Cassandra. Na minha sala, por favor.

Cassandra, a recepcionista seguiu o psicólogo até sua sala.

 - A recepção está cheia hoje Doutor.

 - Pois é. Como tem gente retardada nesse mundo. Todos eles esperando que eu posso ajudá-los com uma palavra de conforto ou que mostre o caminho certo para eles. Uns imbecis...

 - Não fala assim doutor, esqueceu que estou quase me formando?

 - Mas eu dou o maior apoio. Não tem jeito melhor de tirar dinheiro de idiotas do que a psicologia. Claro, exceto se você for algum pastor ou político.

 - Ou os dois. Disse Cassandra.

Hahaha

 - Anda. Temos que ser rápidos.

Os dois riram e Cassandra começou a tirar a roupa.
Quaresma abriu a braguilha e Cassandra sentou em seu colo.

Dez minutos depois Cassandra estava na recepção.

 - Senhor Carlos?

 - Sim.

 - Me acompanhe por gentileza, o Doutor Quaresma vai atendê-lo.

 - Ah sim. Pois não.

Carlos então acompanhou a recepcionista até a sala do psicólogo. A garota fechou a porta e deixou os dois homens sozinhos.

 - Olá, bom dia. Como vai? O psicólogo estendeu a mão para o paciente para cumprimenta-lo.

 - Bem, eu acho. Carlos respondeu.

 - Benedito Quaresma, muito prazer.

 - Muito prazer, Carlos Rodrigues.

 - Sente-se Carlos. Fique o mais à vontade que conseguir.

Carlos sentou-se numa poltrona à frente do psicólogo. De veludo, macia e com suporte para os pés. Muito confortável. Passou os olhos pela sala e pôde ver diplomas emoldurados numa das paredes à sua frente e abaixo deles havia uma escrivaninha de madeira maciça de cor escura. A sala não era muito bem iluminada. Quaresma estava de pé à sua esquerda mexendo num gravador e ajeitando um bloco de anotações. Carlos também pôde ver um pequeno bar do outro lado da sala, com garrafas de whisky e outros destilados. Carlos conhecia todas aquelas marcas de bebidas, pois ultimamente vinha abusando do álcool.

 - Senhor Carlos, o senhor fuma?

Quaresma estava agora com uma cigarreira prateada com suas iniciais "BQ" impressas e apontava para Carlos oferecendo-o cigarros.

 - Posso? Perguntou o paciente estendendo a mão para se servir de um cigarro.

 - Fique a vontade. Gosto de pacientes que fumam, pois assim posso fumar também.

 - Um vício maldito esse, não?

 - Nenhum vício é maldito, maldito é não tê-los.

Doutor Quaresma finalmente sentou-se à frente de Carlos, repousou o gravador na mesinha de centro e começou a fazer anotações em seu bloco de papel.

 - Agora senhor Carlos, quero que relaxe e saiba que tudo que me disser ficará restrito a nós dois devido a confidencialidade entre psicólogo e paciente. Portanto, fique tranquilo para me dizer o que quiser para que eu possa ajuda-lo da melhor maneira possível. Você me entende?

 - Claro.

 - Vou começar confirmando os dados da ficha que preencheu na recepção. Ok?

Carlos balançou a cabeça confirmando.

Carlos Rodrigues, 29 anos, brasileiro, nasceu em São Paulo, solteiro e sem filhos. Profissão: assistente de produção e escritor nas horas vagas. Fuma e bebe socialmente. Enquanto Quaresma lia a ficha de Carlos ele passava mais uma vez os olhos pela sala sem janelas e carpete cor de vinho. Quadros e algumas estatuetas faziam do ambiente um lugar confortável, mas com ar arcaico. Perto do bar um objeto destoava de todas as coisas velhas que tinha ali. Uma guitarra Les Paul vermelho sangue.

 - Está correto?

 - Esse sou eu.

 - Ótimo. Bem, vamos lá. O que te trouxe até meu humilde consultório, Carlos? Posso te chamar só de Carlos?

 - Sim. Bom... É... Estou um pouco nervoso, me desculpe. Nunca fiz isso.

 - Todos ficam. Se quiser posso te servir uma bebida.

 - Não está muito cedo para beber?

 - Melhor cedo do que tarde não é?

Carlos sentia muita confiança na forma de falar do psicólogo. Além da chupada na parte lateral de seu pescoço e a braguilha aberta de sua calça social mais justa que o normal, fazia Carlos ter quase certeza que ele dera uma rapidinha com a recepcionista gostosa antes de atendê-lo. E pelo preço da consulta, as roupas caras, o relógio europeu e a cara de ressaca que Quaresma apresentava, Carlos podia jurar que a recepcionista não era a única vagina que o doutor tinha desfrutado recentemente.

Quaresma apertou o botão REC do gravador e foi até o bar. - Whisky?

 - Sem gelo, por favor.

Benedito serviu duas doses. Entregou o copo para Carlos e voltou a sentar-se.

 - Então, comece me dizendo o que você gosta de escrever.

 - Em geral eu escrevo romances policiais, mas meu primeiro trabalho não conquistou muito a atenção das editoras.

 - Por qual motivo?

 - Porque disseram eles que havia muitos tiros e nenhum mistério.

 - Mistério é importante para um romance policial. Mas mortes me agradam muito se quer saber Carlos. E como se sentiu com a rejeição?

 - Nada demais. Comecei a escrever outro agora com mais mistério.

 - Ótimo ótimo. Confiança é muito bom.

 - É...

 - E o trabalho?

 - Vai bem, serei promovido em breve.

 - Bom, bom.

Quaresma continuava fazendo anotações.

 - Tem namorada?

 - Não.

 - Alguém?

 - Bem, tinha...

 - E?

 - Pois é. É por isso que estou aqui.

 - Então me diz.

 - Tem uma garota...

 - Qual o nome dela?

 - Bárbara.

 - Faz jus ao nome?

 - Sim. Faz sim com certeza.

 - E onde ela está agora?

 - Para falar a verdade, não tenho a mínima ideia.

 - Vocês se veem com frequência?

 - Mais do que eu gostaria.

 - Como assim?

 - Eu a vejo em alguns lugares estranhos.

 - Desculpe, ainda não entendo. Quaresma deixou finalmente o bloco de anotações de lado e bebeu um gole de seu whisky.

 - É... É estranho.

Carlos mostrou-se desconfortável em sua poltrona. Também deu um gole em seu whisky e continuou.

 - Eu não sei quem é essa garota entende?

 - Explique melhor.

 - Não me lembro de onde a conheci. Não sei onde mora, não sei seu sobrenome. Eu simplesmente a vejo em lugares estranhos e ela está sempre linda. Mas não tenho certeza se as outras pessoas conseguem vê-la.

 - Então você acha que essa garota não existe?

 - Não! Sei que ela existe. Só não sei se ela existe para as outras pessoas.

 - Hum, interessante. Benedito voltou a anotar. - Quando foi a primeira vez que a viu?

 - No bar.

 - E ela estava sozinha?

 - Sim.

 - E falou com ela?

 - Na verdade ela quem falou comigo.

 - E como foi?

 - Foi ótimo. Ela é engraçada, boca suja e bebe bastante. Sexy, linda...

 - E você se apaixonou?

 - Sim. Mas não sei... Talvez ela esteja na minha cabeça.

 - Qual foi a última vez que a viu?

 - Ontem de noite?

 - E onde estava ontem?

 - Em casa, bebendo sozinho até ela aparecer.

 - E alguma vez você a viu quando não estava bebendo?

 - No começo não.

 - E agora?

 - Bem, eu estou sempre bebendo.

 - E você não quer mais vê-la?

 - Não.

 - E se parar de beber?

 - Cara. Eu sou escritor. Que espécie de escritor eu seria se parasse de beber?

 - Você está certo. E mesmo assim quer parar de vê-la?

 - Sim. Está me atrapalhando. Quero dizer, eu saio com outras garotas e tal. Mas sempre que acontece ela aparece e fica me olhando e eu me sinto como se estivesse a traindo.

 - Você diz quando está sozinho com uma garota no quarto e ela aparece assim, do nada?

 - Isso.

 - Bom, eu acho que você é muito louco.

 - Como? Carlos assustou-se com a afirmação do psicólogo.

 - Sim, acho que você tá chapado. Um Zé Pinga que tá vendo uma mulher que não existe. Doidão. Mas eu não te julgo. Eu gosto de tomar umas coisas pra ficar louco às vezes.

Carlos não sabia o que dizer. Já vira alguns filmes sobre psicólogos e nunca tinha visto nenhum falar daquele jeito. Quaresma continuou.

 - Eu no seu lugar, se ela é gostosa como você diz, eu faria de tudo para continuar vendo-a. Pense pelo lado bom. Uma garota que transa com você e some sem que você precise ligar no dia seguinte? É quase a mulher perfeita. Mas se você quer deixar de vê-la eu vou tentar te ajudar.

 - É... Nunca pensei desta forma. Mas não acho que seja saudável.

 - Não. Não é mesmo, mas eu não ligo muito pra isso. De qualquer forma... Eu poderia te receitar algumas pílulas, porém, você não vai parar de beber e a mistura de antidepressivos com álcool só vai piorar as coisas. Vamos tentar fazer isso de uma forma não convencional.

 - Como?

 - Mate-a!

 - Matá-la? Carlos agora quase tinha certeza que aquele doutor só podia estar louco. - Está louco?

 - Hahaha não sou eu quem está vendo mulheres que não existem, Carlos.

Carlos calou-se.

 - Preste atenção. A Bárbara não existe, certo?

 - Não tenho certeza.

 - Ora homem. Se ela aparece no quarto enquanto você tá enrabando uma garota qualquer, ou ela é uma ladra que te segue por aí - o que seria melhor ainda - ou um fantasma - e eu não acredito em fantasmas - ou ela está dentro da sua cabeça. Portanto, se matá-la, você estará matando uma coisa que não existe.

 - É. Pensando desta forma...

Quaresma então tomou seu último gole de whisky, olhou o relógio e com um sorriso satisfeito no rosto disse para Carlos voltar na próxima semana para dizer como foi.

 - Acabou o tempo Carlos. Faça isso e volte semana que vem para me dizer como foi. Cassandra marcará um horário pra você.

 - Ok. Obrigado pelo whisky.

 - Não agradeça. Até logo.

***

No mesmo dia, Carlos marcou um encontro com Bárbara, em seu apartamento. Na verdade não tinha como contatá-la, sem celular, sem endereço, no entanto sabia que toda vez que estava sozinho e começava beber conhaque, sozinho e ouvindo música, ela aparecia. Colocou todos os seus vinis antigos e nada da Bárbara aparecer. Estava quase no fim da garrafa e caso ela chegasse ao seu fim ele teria de sair e ir até o posto de gasolina mais próximo para buscar algo mais forte para ficar bêbado e finalmente ver Bárbara. A garrafa acabou e lembrou-se que tinha um pouco de erva numa das gavetas do armário da cozinha. Assim enrolou um cigarro de maconha e decidiu fumar para ver se obtinha sucesso e nada da Bárbara aparecer.

 - Parece que ela está prevendo, porra!

Parecia que ela estava prevendo. Carlos fumou o cigarro, ficou sonolento, mole, quase dormindo. Porém sabia que não podia dormir. Aquilo teria de acabar naquele dia. Resolveu levantar-se do sofá e ir até o posto buscar uma garrafa de vodca. Sabia que com vodca era quase certeza que Bárbara apareceria. Voltou ao apartamento, abriu a garrafa e serviu-se de um copo longo de chope cheio de vodca. Virou o primeiro com dificuldade. Quase gorfou, mas conseguiu se segurar. Serviu outro e esse bebeu devagar.

Depois de algum tempo bebendo e ouvindo música finalmente Bárbara apareceu.

 - Você sequer me citou em seu último texto...

 - Desculpe. Mas foi um texto encomendado. Por mim eu só escreveria sobre você.

 - Hahaha mentiroso. Estava me esperando?

 - Desde cedo. Você demorou!

 - Desculpe. Estava bebendo com uns amigos.

 - Venha aqui. Sente-se. Quer vodca?

 - Não sei. Estou meio bêbada.

 - Ah venha. Só um pouco...

 - Ok.

Os dois beberam durante mais algum tempo e conversaram sobre futilidades.
Carlos confessou-lhe que fora ao psicólogo para entender a relação dos dois.

 - E o que ele disse?

 - Me deu força. Disse que se eu gosto de você então que leve isso pra frente. Inventou Carlos.

Os dois já estavam um pouco sonolento quando Carlos decidiu usar a almofada do sofá da sala para agredir Bárbara. Com a almofada pressionada com muita força no rosto de Bárbara tentava fazê-la perder o ar. A garota debatia-se e tentava gritar, porém o som era abafado pela almofada. Carlos manteve a almofada pressionada com força depois mesmo da garota parar de se debater e tentar gritar. Para ter certeza de que tinha obtido sucesso.



Um comentário:

Rodolfo Soares disse...

Ótima história! Preciso de um psicologo nesse naipe.
Um abraço!
Um guarda-livros