segunda-feira, 26 de maio de 2014

O QUE É UM AUTOR SEM UMA BOA MUSA? (ETERNA NOITE DE SÁBADO)

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Eis que finalmente, depois de tanto tempo me prostrei diante do teclado, numa preguiça de urso, e parei para escrever. Tamanha preguiça que trouxe comigo a garrafa do bar e deixei ao meu lado, tudo ao alcance das mãos: whisky, copo e cigarros. Devem estar se perguntando: mas e o isqueiro? Claro que esqueci o isqueiro e tive que levantar-me para pegá-lo. Isqueiro, quando não esqueço eu perco e demoro até acha-lo, por isso eu tenho muitos. Deixo-os espalhados pelo quarto para dar corda a minha preguiça, assim como faço com cinzeiros, tenho bem uma meia dúzia deles em pontos estratégicos para que nunca falte num momento de necessidade. Raramente os limpo, se querem saber. Não limpo por preguiça, mas também pelo sentimentalismo. Sempre fui sentimental a ponto de guardar a mistura ao lado do prato para comer por último. O melhor para o final. Tão sentimental que, quando criança, tomava Yakult pelo fundo do pote que era para durar mais. Mantinha o lacre intacto, mordia o fundo, um minúsculo furo no fundo e o minimalista Yakult durava vários minutos até acabar. Lembro uma vez que bebi metade do pote e guardei metade para mais tarde. Logo, sinto sempre que esvazio um cinzeiro. Cada bituca é uma lembrança. Tenho um cinzeiro em casa que guarda bitucas de anos atrás. Um cinzeiro especial, dado por uma pessoa que não me dará nada mais que ausência, então, tão sentimental que sou, guardo.

Mas queria dizer que depois de tanto tempo parei para escrever. Ufa. Fazia tempo que não desligava a TV, preparava um drink e escrevia. Não escrevia e não era só por falta de tempo, também era falta de tempo, cansaço, mas também porque não conseguia escrever. Curioso é que até pouco tempo atrás eu estava me passando a perna, me enganando, dizendo a mim mesmo que estava tudo como sempre esteve, até começarem a me dizer que eu estava repetitivo. Até aí tudo bem, todos temos nossas fixações e obsessões. Mas foi quando me chamaram de "sereno" que eu me dei conta: estava perdendo o jeito. Por isso tive que desmarcar compromissos, fechar contas em bares, negar convites para festas, sexo, shows e me trancar para escrever. Nisso escrevi dois contos e matei uma garrafa. Fora uma noite proveitosa, à de convir.

No entanto, escrever já foi mais fácil. Antigamente escrevia em qualquer lugar, qualquer paisagem. Prostrava-me em frente ao teclado e as palavras encavalavam em minha mente. Hoje em dia é menos. Passei uma semana suando sangue para terminar um texto que sequer deveria ser visto por outras pessoas, mas em época de seca qualquer mulher vira Miss, com textos não deverá ser diferente. Alguém, não me lembro quem, talvez não seja digno de nota, me disse: - Você está fraco de musa. E ainda completou - o que é um autor sem uma boa musa?
Peguei-me pensando em tal premonição. Não consigo me lembrar quem me disse isso, mas fiquei mastigando a frase: o que é um autor sem uma boa musa?
Eu tenho no álcool uma musa interminável, sem o álcool eu seria um pé no saco. Porém, ninguém pode passar a vida escrevendo sobre uma coisa só. Um bom autor tem que falar mais, sobre mais coisas, caso contrário será um chato e nós já estamos muito bem servidos de autores chatos por aí. O dia que só me restar uma coisa para falar começo escrever livros espíritas, ou autoajuda.

Continuo sem adoecer. Não pensem que estou torcendo para pegar uma gripe ou um ataque da gastrite, porém como eu disse antes é bom sentir alguma coisa para lembrar-me que estou vivo. Não adoeci mas senti algo voltando para casa, assim, sem mais nem menos. Sentado no trem, lia Bukowski e ouvia AC/DC ao mesmo tempo. Isolado lembrei que tinha marcado hora no tatuador e o salário estava na conta, tudo parecia em seu devido lugar. Ali, naquele momento, aqueles cinco ou seis segundos eu senti algo, quase que parecido com felicidade, não sei, não posso garantir, mas bem que parecia. Depois passou. Assim como veio, passou. Recebi um telefonema logo depois e era uma garota que conheci e saímos durante um tempo. Ela talvez quisesse buscar um par de brincos ou qualquer outra coisa que ela dizia ter esquecido por lá. Tudo truque, verifiquei todos os cantos de casa da outra vez que ela ligou perguntando da medalhinha que ganhara da sua mãe. Ela queria me fazer uma visita e eu não estou pronto para ela. Eu não sou páreo para ela. Eu sou excêntrico demais e ela, normal demais. No entanto eu já sei onde isso iria parar e como iria acabar. Já conheço essa história porque ela é minha história. Passamos juntos uma noite de sábado, bebendo, fumando, transando e ela me ouvindo profetizar sobre o apocalipse social e achou que na segunda-feira eu voltaria ao normal. Pensou que eu vestiria um terno azul, pentearia meu cabelo para o lado e a levaria para jantar. Pensou que eu conheceria seus pais e eles me achariam um cara decente e que eu os acharia boas pessoas. E que almoçaríamos juntos aos domingos e eu não falaria palavrão nem beberia na frente dos velhos. Ela achou que seus parentes não ligariam para minhas tatuagens pornográficas e que eu iria à igreja aos domingos. Ela pensou que eu acharia graça dos seus amigos de infância imbecis e suas piadas medíocres. Ela achou mesmo que na segunda-feira eu voltaria ao normal depois de passarmos mais uma noite de sábado bebendo, transando, fumando e profetizando sobre o apocalipse social. O que ela não sabia é que eu sou uma eterna noite de sábado, que apesar de uma vez ter sido chamado de domingo, eu sou uma eterna noite de sábado e assim como ninguém quer viver para sempre num domingo, ninguém quer uma interminável noite de sábado.



Bento.

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domingo, 18 de maio de 2014

ALGUMAS PESSOAS BEBEM E PARAM. EU NÃO INVEJO ESSAS PESSOAS

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Uma das poucas coisas que eu acho aceitável no Brasil é a quantidade de feriados. Evidente que alguns especialistas dirão que numa sociedade séria isso seria inadmissível, portanto soa-me um tanto incoerente de minha parte, porém nunca enganei ninguém falando que eu gosto de trabalhar. Como diria Bukowski: trabalho só serve para manter quatro paredes em volta da gente, um homem que tem quatro paredes pode vir a dominar o mundo. Eu diria que trabalho serve para ter quatro paredes e uma garrafa de qualquer coisa alcoólica. Existem momentos em nossas vidas que qualquer coisa alcoólica, por pior que seja, já é um bom motivo para sorrir. Evidente que eu já passei desta fase e posso me dar ao luxo de escolher o líquido que vai me embriagar, por isso, em vista de mais um feriado, tratei de abastecer o frigobar com felicidade gelada e o balcão caseiro com felicidade quente, com isso planejei "viajar" todos esses dias de folga e foi o que fiz.

Conheço algumas pessoas que bebem um pouco e param, como quem guarda alguma coisa para o futuro, ou esconde alguma coisa. Bem, eu não invejo essas pessoas. No caminho de volta da loja de bebidas vi um cachorro morto e pensei; este poderia ser qualquer um de nós. Nunca entendi, por exemplo, a frase sobre copo meio vazio e copo meio cheio, acho um desperdício de qualquer forma. Eu sempre esvazio o copo e encho de novo e sigo assim até que não sobre mais nada. Notou a diferença?

Pensei em guardar o feriado para escrever e acabou que não dando certo, acabei recebendo visitas que trouxeram mais visitas e no fim demos uma festa que durou dias e tive que expulsar algumas pessoas, caso contrário estariam em casa até hoje. Quando se está bêbado numa casa cheia de outros bêbados não há espaço para privacidade. Divide-se pensamentos, quartos, cama, banheiro e tudo é uma coisa só. Copos passam de boca em boca, cigarros passam a não ter dono e todos se alimentam da embriaguez do outro, bem como o soluço, ao beber com alguém bêbado acabamos ficando bêbados igual. Bebíamos e ouvíamos música, gemidos, conversas paralelas e chegamos à conclusão que ao beber despertamos instintos que sequer conhecemos. Sempre fui um cara de beber para ficar bêbado e gostar disso, me gosto mais bêbado que sóbrio, inclusive gosto mais das pessoas quando bêbado. As melhores coisas da minha vida eu fiz bêbado, talvez as piores também, mas não vou tirar o tesão do momento por causa de algumas pequenas coisas. O fim nunca será mais importante que o começo, exceto quando estamos falando sobre sexo.

Outro dia estava eu no bar e encostou um cara, daquele típico cara que joga dominó na frente do boteco e pendura a chave do carro no bolso junto com o pé de coelho. Barrigudo, um cavanhaque que ele deveria manter desde a adolescência e careca, uma careca lustrosa. Me ofereceu um drink, eu neguei e isso foi motivo suficiente para ele achar que poderia puxar conversa comigo. Nunca fui de conversar muito no bar porque caras de bar normalmente são mentirosos e esse indivíduo não era diferente. Ele dizia-se muito rico e já tinha comido mais de quinhentas mulheres só nas horas que passamos ali bebendo, que foi o tempo que ele teve para contar mentiras. O fato é que a maioria das pessoas mentem quando falam sobre sexo. Algumas pessoas aumentam, outras diminuem os fatos, mas todos mentem. Anos atrás, quando eu tinha um pouco mais de humor conheci uma garota que falava quase que sem respirar. Estávamos sentados numa mesa bebendo algumas cervejas e ela falava, falava... Já tinha feito de tudo. Sexo com três caras, três garotas, dizia que tinha feito sexo numa moto em movimento e tudo mais. Com ela era sem pudor, ela dizia. Fazia o diabo e poucos homens era páreo para ela. Eu logo entendi aquilo como um desafio e eu tenho um sério problema com desafios e apostas, pois normalmente venço e vitórias viciam. Como eu não corro de desafios fui preparado e concentrado. Pedi duas doses de whisky, virei as duas, uma após a outra e saímos daquele bar medíocre para um lugar que pudéssemos ver o circo pegar fogo.
Adianto que a tal garota não era grande coisa, não tinha um rosto que faríamos nos sentir orgulhosos de andar de mãos dadas ao seu lado, mas é difícil ter alguém com o dedo em riste mirando seu rosto dizendo-se melhor que você. Já no quarto o whisky começara a fazer efeito e todo homem sabe que whisky retarda o prazer mais que qualquer coisa neste mundo. Naquela luta as doses misturadas com uma porção de cerveja seria minha armadura e partimos para a briga. Era tudo mais-ou-menos e a garota era uma boneca, a única vez que se mexeu foi para ir até o banheiro. Acabou que eu mandei a garota à merda e fui brigar sozinho em casa. Mas tudo bem, isso não é motivo para se matar, no máximo mais três ou quatro doses de whisky para esquecer a noite ruim.
Eu nunca fui bom em matemática, mas sei que as estatísticas são cruéis. Quanto maior o número de vezes que você repete uma ação maior é a chance de alguma coisa sair errado. Se eu não estivesse tão bêbado nas aulas de matemática eu poderia dizer que alguma professora minha já tinha dito isso. De qualquer forma, o que eu quero dizer é que quanto mais garotas você conhece, maior é a chance de você se dar mal ou deparar-se com coisas bizarras.
Teve uma outra garota, e reparem que em nenhum momento citarei nomes porque não importa, essa garota tomou toda a atitude, desde o convite para beber uma cerveja até o convite para sairmos do bar para um lugar com quatro paredes que nos fornecesse privacidade. Não importa quantas vezes uma garota tome a atitude do convite para o sexo, isso sempre causará surpresa e não é só porque torna as coisas muito mais fáceis, é porque sai daquele estereotipo de mulherzinha que precisa ser enganada. Talvez isso venha causar certo incômodo para quem estiver lendo e tomarão o fim da história como uma vingança do destino contra a opinião divergente do autor, mas eu não acredito nisso, acredito na lei da estatística. Então, voltando ao bar - bebemos cervejas até não caber mais garrafas da mesa e foi quando recebi o convite para saímos de lá. Eu conhecia todos os motéis próximos, dos mais caros até os cubículos que dividíamos com baratas. Pendurei a conta no bar e fomos procurar privacidade.

Não me lembro bem do motivo pelo qual não conseguimos um quarto. Talvez o fato de ser sexta-feira 13, talvez pela idade da garota que era segredo até aquele momento, o fato é que decidimos pegar o trem para minha casa e continuar bebendo por lá. Eu, como todo bebedor de cerveja que se preze, mijava de cinco em cinco minutos e tratei de procurar um banheiro de algum bar. Já a garota não se rendeu à sua bexiga dizendo ter nojo de banheiros de bares. Entendam, naquela noite bebemos litros e mais litros de cerveja e ela não tinha se esvaziado nenhuma vez. Eu deveria ter previsto algo do tipo, alguma coisa estava ou tornar-se-ia muito errada com o passar do tempo.  Resumindo a história, já dentro do trem a caminho de casa, a tal garota de atitude que tinha nojo de banheiros de bares e que segurava a vontade de urinar por muito tempo acabou se aliviando ali mesmo, no trem, na minha frente e de mais três ou quatro bêbados que também voltavam para suas casas. Aliviou-se ali, com sua calça jeans mudando de tom devido ao líquido quente escorrendo pelas pernas.

Entende o que eu digo sobre estatísticas? Se você está praticando tiro ao alvo com bitucas e acerta as três primeiras vezes que tenta, as chances de acertar a quarta são bem pequenas. Com mulheres também é assim, quanto maior o número mulheres que você conhece maior é a chance de encontrar esse tipo de situação digna de ser contada em um bar com os amigos tomando cerveja e falando merda. Ainda não é motivo para cortar os pulsos, é só uma história que arrancará risadas e pronto. Mesmo assim eu admito que estou enchendo linguiça. Há duas semanas que eu tento terminar esse texto e não consigo. Não consigo porque duvido da qualidade de tudo que escrevi até agora. Escrevi e apaguei e escrevi e tornei a apagar pois tudo era uma merda do tamanho do mundo. Numa de minhas tentativas isto seria um conto, um péssimo conto, por sinal, onde eu conversava com um bêbado irritante no bar, porém, não sei se leram, mas publiquei algo semelhante duas semanas atrás, que já era semelhante ao que tinha postado três semanas atrás, portanto apaguei e me ofendi por ser tão repetitivo. Fiz mais quatro ou cinco tentativas depois destas e todas eram uma merda e esta, muito provavelmente não seja melhor, mas também, que se foda. A maioria das pessoas que leem isso regularmente não estão com essa bola toda, então vamos nos contentar com o que temos hoje, amanhã é outro dia.



Bento.

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sexta-feira, 9 de maio de 2014

GIULIARD BORSANDI IX

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Indica-se ler os episódios anteriores: GIULIARD BORSANDI VIII

Quando finalmente parei de correr percebi que inconscientemente ia à direção do Planalto Night Club, o bar que tem a Barwoman mais gostosa da cidade, Jamaica. Isso era um sinal do destino para que eu voltasse a beber. Bem, talvez o destino não tivesse nada a ver com isso, no entanto estava com sede e sóbrio, duas coisas que não combinam. Eu também precisava comemorar mais um caso encerrado, onde finalmente tinha pegado Janaina.

Na frente do motel, sabia que não teria mais que uma chance para tirar as fotos do seu caso, pois o flash denunciaria que eu era um cagueta mal intencionado. O monte de merda, digo, monte de músculos que estava com a mulher do pastor com certeza iria querer mostrar sua virilidade e tentaria arrancar a câmera de mim, assim como tentou. Ajustei a máquina para 10 poses simultâneas e esperei o momento certo e a sorte estava ao meu lado. Fechei o caso com dez fotos de um beijinho de boa noite, foi lindo.

Assim que Janaina e o retardado viram a luz do flash iluminar a rua corri como um maluco com o Pitbull em forma de gente no meu calcanhar, mas eu fui mais rápido. Sempre corri bem, hoje em dia não tenho muito fôlego por causa dos quarenta cigarros que fumo diariamente, então sabia que além de rápido eu teria que despistá-lo antes de meus pulmões desintegrassem e foi o que fiz. O cara era muito músculo e muito lerdo, provavelmente não exercitava as pernas.
Entrei no bar e comecei a ficar bêbado novamente.

 - Olha só quem apareceu novamente. Me recepcionou Jamaica assim que voltei a me sentar no bar - Se arrependeu e foi atrás da coroa?

 - Não. Fui terminar um trabalho.  Respondi.

 - E teve sucesso?

 - Muito. Vou ganhar um bom dinheiro e quem sabe tirar alguns dias de férias.

 - Humm bom pra você. Está mesmo com cara de quem precisa descansar. Disse Jamaica tocando meu rosto com a mão e logo depois ajeitando os pelos de minha sobrancelha. Era isso que me tirava do sério, mesmo com gestos simples parecia que ela sempre cuidava de mim.

Fiquei no bar mais algumas horas, quase até a hora de fechar e estava bêbado, muito bêbado.
Segui cambaleando até o escritório pelas ruas apertadas e idênticas do centro de São Paulo. Estava quase perdido, mas estranha e inconscientemente sabia em quais ruas virar e atalhos pegar. Bêbado que é bêbado sempre chega em casa. No meu caso, ao escritório. Eu estava cansado de andar, pode-se dizer que virei uma rua errada e logo depois me achei e voltei ao caminho certo, porém, essa esquina errada me fez andar por mais de meia hora sem necessidade. Na condição que eu tava, andar não era tão fácil como parece. Tanto tempo sem comer e a alta quantidade de whisky em meu corpo fez com que minha visão ficasse turva como se eu estivesse usando óculos fundo de garrafa sem precisar. Para conseguir acender o cigarro ou olhar as horas no celular eu precisava parar de andar e tapar um dos olhos com a mão. Então eu continuei andando e faltavam algumas travessas para finalmente eu poder esticar minhas pernas e dormir boas horas de sono no colchonete que guardo num canto do escritório do detetive particular mais bêbado do mundo.

O bom de estar alcoolizado é que aquela sensação maldita de solidão, baixa autoestima, depressão e autopiedade iam para o ralo com litros de urina que eu mijava de cinco em cinco minutos andando. Minha bexiga sempre foi uma merda. Talvez todos os bêbados do mundo usem esse argumento como desculpa para beber, mas no meu caso era uma verdade incontestável e eu tinha muita coisa para esquecer e me esquivar.


Após andar tanto, parei em frente a uma lixeira na calçada de uma agência do correio e coloquei boa parte do destilado que Janaina tinha me servido para fora em fortes jatos de vômito. Era pura água com cor de bosta e um cheiro horrível de algo podre e cítrico, era nojento. Mais um jato e depois outro e outro. Os olhos derramavam lágrimas por causa do esforço involuntário que o corpo fazia para expelir o álcool e o nariz derramava vômito misturado com catarro que juntavam-se com o líquido estomacal que saia da boca e era um festival de coisas nojentas e fétidas.


Bento.

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domingo, 27 de abril de 2014

GOZOLÂNDIA ETERNA É PARA OS FRACOS. A MELHOR GOZADA É A DE AGORA

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De tempos pra cá tenho percebido mais que nunca que a idade inevitavelmente chega para todo mundo e eu não sou um privilegiado. A cada ressaca nova vejo os anos escorrerem entre meus dedos sem que eu possa fazer muita coisa para mantê-los como estão hoje. O corpo acusa e a recuperação é mais lenta. Ele quer me impor limites que eu nunca tive e com certeza não os tomarei pra mim a essa altura do campeonato.

Eu escrevo isso enquanto observo Roxanne caminhando pelo banheiro com suas pernas finas e seu andar elegante. Roxanne é minha aranha de estimação que vive no meu banheiro e fez de um buraco rente ao teto sua moradia, religiosamente ela sai de lá para me dar bom dia. Eu respeito o espaço dela e ela o meu.

Eu sou das antigas, com o passar dos anos passei a cultivar a barba para assumir a idade ao invés de escondê-la como todos fazem. É mais uma forma de expurgar as garotas de 18 anos e não é porque meu corpo está ficando velho, mas sim porque minha mente está velha faz tempo. Sou desses caras que vê mais romantismo na garota espremendo cravos nas costas do namorado que qualquer clichê exibicionista que se vê nas redes sociais por aí.

Por isso venho com meu saudosismo de velho para dizer que nem mesmo a ressaca se faz como antigamente. Eu não sei o que fazem os velhos da minha geração, mas eu tenho feito o mesmo que fazia há dez anos, com raras exceções e só o que mudou foi mesmo a demora de meu corpo em recuperar-se das bebedeiras, alguns cabelos brancos e por aí vai.

Uma garota leu meu último conto e fez uma declaração um tanto quanto dramática levando-se em conta que era apenas um conto. Porém eu sempre mastigo as coisas devagar para refletir sobre e talvez ela esteja certa, talvez meus olhos estejam ofuscados pelo hábito, o hábito da amabilidade com o singular, a coexistência com o sofrimento, a empatia com o flagelo. No entanto isso pode ser só sintomas de minha veia poética e caso seja isso, a garota estaria errada e foi só uma declaração um tanto quanto dramática. Porém, quem sou eu para falar de dramaticidade?

Sabe, eu sigo uma cartilha, apesar de algumas pessoas acharem que eu levo a vida sem lei ou regras eu sigo uma cartilha, coisas que eu penso como certo ou errado e esse tipo de coisa. Sigo conceitos e rituais, não passo sem o café e cigarros e são as primeiras coisas que eu faço ao acordar. Durante muito tempo eu fiquei sem pisar em riscas nas calçadas mas parei de repente. Tenho um pouco de superstição por isso sempre tenho um maço de cigarros extra e uma garrafa de algo forte, pois nunca sei quando a inspiração me tomará horas de cigarros e tragos numa quantidade incrível.

Esses dias tive uma crise de vômito ao ponto de desidratar-me. Coisa da idade. Há cinco anos atrás meu corpo não desperdiçava uma gota sequer de álcool.
Entre um vômito e outro alguém comentou: - Também, você bebe como se o mundo fosse acabar.

 - Mas vai que acaba. Respondi.

Quando a idade chega ela vem com um convite para a morte. Não estou dizendo que estou tão velho a ponto de morrer, porém uma hora todos morrem e eu não sou um privilegiado. Também não me apetece essa história de vida eterna e paraíso, isso só serve para postergar toda a diversão. Não se deixa para gozar - supostamente -  pela eternidade quando se pode gozar muito agora. Vamos lá, acredito que estejam entendendo meu raciocínio.

Uma das minhas qualidade é fazer festas que se arrastam por dias e já adianto, essas festas não são frequentadas por nenhum idiota que acredita nessa promessa de Gozolândia eterna, portanto todo mundo nessas festas procura sair satisfeito e geralmente saem. Essas festas geralmente acontecem nos meus melhores dias porque nos piores a última coisa que eu quero é um monte de gente perto de mim com a libido a flor da pele, bêbadas, tomando da minha cerveja e assustando minha gata para o telhado. Não se pode fazer festa o tempo todo simplesmente porque não se faz festa o tempo todo. Já falei muito aqui sobre as qualidades de uma boa solidão esvaziando garrafas.

Desses meu amigos, não há nenhum que não tenha pelo menos uma história de loucuras e apuros para contar da qual eu não estivesse envolvido e isso me leva a pensar no que minha mãe dizia quando eu era jovem: não se misture com má influência. Nesta época ela ainda não sabia que a má influência era eu. Então volto a dizer que se você busca a esporrada divina trate de não se aproximar, mas caso queira viver libidinosamente aperte os cintos, pois vou te apresentar algumas coisas e algumas pessoas.

Na festa mais recente que fiz um cara entrou no quarto com uma garota e ele saiu de lá duas horas depois como se houvesse apanhado de um peso pesado, com marcas roxas e arranhões. E esta garota só tinha quinze anos. Realmente o ambiente, as músicas e as companhias ajudam a aflorar o pior lado das pessoas, pior lado, claro, na opinião de vocês, pois na minha este é sempre o melhor lado.
Acredito que o melhor lado de qualquer pessoa é justamente aquele que a maioria das pessoas não aprovam. Já reparou como as coisas que são unanimidade geralmente são uma merda? Nelson Rodrigues já dizia isso há trocentos anos e isso nunca deixará de ser verdade.

Alguns amigos, até estes das festas, bem, estes amigos acham-me inquebrável, inviolável. Algumas garotas acham que eu sou intransponível e inacessível, mas digo que isso não passa de incompetência, talvez delas, talvez minha. Eu também já tive meu tempo de lamentar-me, só que já passou. Eu simplesmente desvio o olhar. E tudo que vejo é sempre sem muito apetite, pois nada é duradouro. Também sei que minha forma de pensar afasta mais gente do que aproxima. Eu poderia mudar isso, ou posso pensar que isto é apenas um filtro, ou não pensar muito nisso. As coisas são sempre como devem ser.




Bento.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

AINDA ESCREVERÃO SOBRE MIM COMO O INVENTOR DA MODALIDADE DE INUTILIZAR-SE

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Independente de qualquer situação, de quem você seja, um grande gênio da história ou um bosta, algumas coisas em você nunca irão mudar. Não muda porque esta coisa fica impregnada em seus ossos como um câncer. É o que distingue você dos outros idiotas.
Bem, dito isto, a maioria das coisas em mim já não tem mais salvação, não fico sem elas assim como não fico sem meus cigarros e quem me conhece sabe que eu fumo mais do que respiro. Bom ou ruim nunca mudará. Com todos os defeitos e mesmo as tragédias derivadas destas coisas elas permanecerão aqui, pois é exatamente isso que me diferencia dos outros idiotas, nem melhor nem pior, só diferente.
Isso sempre dá às pessoas que se aproximam um mapa da mina, algo para trabalharem, um ponto de partida. Sem precisar pisar em ovos tudo fica mais fácil, porém algumas pessoas simplesmente não aprendem. Ou não aprendem ou não se importam, em ambas as situações não me deixam outra escolha senão mandá-las ao inferno.

Entre todas as minhas funções, tudo o que eu tenho de fazer, bem como trabalhar, pagar contas, transar, beber, dormir, eu não reservo muito do meu tempo para gastar com pessoas que simplesmente não estão com vontade de gastar seu tempo comigo. Até porque já é bem difícil aturar-me querendo, imagine quando não. Nunca peço nada que eu mesmo não tenha para dar e consequentemente não prometo coisas das quais eu não posso cumprir, o que é quase nada para algumas pessoas e mesmo assim elas insistem em tentar me sugar ainda mais.

É claro que tudo isso fica mais fácil pelo fato de ser homem e nós homens temos um talento natural para empurrar as coisas com a barriga. Nós simplesmente nos sentamos, olhamos para o nada, falamos sobre coisa alguma e ficaríamos por ali bebendo por dias caso pudéssemos. Já as mulheres são mais hiperativas, lavam a louça do café da manhã, do almoço, do jantar, nós homens sequer arrumamos a cama, pois iremos desarrumá-las horas depois. Nos poupamos do trabalho porque trabalhar cansa e nós só gostamos de nos cansar com coisas que nos dão prazer. Então seguimos empurrando tudo com a barriga e nem é preciso ter uma bela pança como os pais e avós, simplesmente empurramos. Uma lâmpada quebrada nós deixamos lá até que seja extremamente preciso trocá-la. Um encanamento entupido é preciso feder e dar ratos e baratas e bostas saindo pelo ventre da casa para que tomemos alguma iniciativa e é só isso que fazemos, o que me deixa indignado é que as mulheres mesmo sabendo disso acham que nós seremos diferentes com nossos relacionamentos. É muita fé numa espécie que há milênios mostra exatamente o porquê veio. Tanta fé assim me parece um pouco de insanidade.
Eu, por exemplo, sou o melhor de todo o universo em não fazer absolutamente nada. Tão bom nisso que deveria ganhar prêmios, ser reconhecido na rua, documentários no Discovery Chanel. Eu poderia dar aulas sobre como ficar deitado durante meses sem se mexer. Talvez devesse ter nascido urso, mas ursos dormem muito e dormir é muito fácil, difícil é ficar sem fazer nada acordado, simplesmente olhando para a parede se entretendo com seus próprios pensamentos. Ainda escreverão sobre mim como o inventor da modalidade de inutilizar-se. Claro que a prática leva a perfeição e eu pratico sempre que posso. Sabe, algumas garotas das quais já me envolvi tinham entre suas maiores qualidades o fato de também não fazerem nada e eu às gostava talvez só por isso, o resto era só social mesmo.

Infelizmente tenho pouco tempo para praticar o que faço de melhor, que é sentar-me sem fazer nada, escrever e beber. Ando tão sem tempo que tenho bebido andando. Quando eu era mais jovem pensava que muito provavelmente eu tinha sido trocado na maternidade. Eu deveria ter nascido naquelas famílias de artistas onde pudesse fazer qualquer coisa e trabalhar não seria uma delas. Onde poderia aproveitar minha infância até os 25 anos, a adolescência até os 35 e aos 45 fazer um filme sobre minha vida medíocre e inútil de alta classe. Sim, eu poderia viver bem assim. No entanto escrevo isso às 06:00 AM enquanto estou tentando cagar, mas é tão cedo que nem meu intestino parece ter acordado. Curioso como os garotos ricos gostariam de ser um pouco como sou e eu bem gostaria de um pouco do dinheiro deles, mas isso só prova como Deus é um sacana. Ele não pode te dar tudo, é preciso que você tenha algo do qual lutar, um horizonte para vislumbrar, sem isso ficaríamos todos loucos.

Recentemente me foi apresentada uma garota, daquelas apresentações de amigo em comum e bem, hoje em dia tem sido tão fácil conhecer pessoas novas, pensei que uma a mais... Por que não? Então eu me apresentei: Olá, meu nome é Bento, sou um escritor falido, sem coerência e que às terças-feiras precisa acordar antes mesmo do próprio intestino. O lugar mais legal para qual viajei foi quando tomei LSD na garagem de casa ouvindo The Doors, olhando as estrelas, mas não estou tão certo sobre as estrelas, afinal estamos em São Paulo. Então antes que me pergunte eu não tenho a mínima ideia de qual é a última música da moda que está tocando nas rádios.
Os olhos da garota pareciam vidrados em meus lábios, como quem presta muita atenção no que está sendo dito. Esperei que ela começasse a sua apresentação quando fui surpreendido pela pergunta: o que é coerência?

Entende o que eu estou dizendo? Está muito fácil conhecer pessoas novas e eu não disse em momento algum que isso é uma coisa boa. De qualquer forma, esta garota tinha o colo e os dois braços tatuados e eu sempre digo que uma garota tatuada tem 80% da minha atenção, os vinte que falta a gente faz o que pode. Continuamos conversando e o resto correu tudo de acordo com o que eu esperava.
Conversamos sobre futilidades durante uns trinta minutos, depois disso comecei com sarcasmos e ironias e a falar sobre o mundo, a sociedade, a juventude brasileira e seu colapso cultural e etc.; etc. E a partir daí eu falava sozinho e ela ouvia. Continuava prestando atenção, porém era visível que pouco compreendia. O que eu posso fazer, só consigo me manter idiota por pouco tempo. Então me lembrei de uma outra garota que me perguntou uma vez "como você pôde namorar uma garota que não consegue interpretar um texto"? Ainda hoje eu me faço a mesma pergunta, mas eu tenho dessas coisas inexplicáveis. Ou posso usar a desculpa da ignorância masculina temporária. Se você não sabe o que é isso provavelmente é uma mulher. De qualquer forma usei da mesma ignorância temporária com a garota tatuada e decidimos parar de falar sobre qualquer coisa. Então você pega a falta de tempo, a falta de tolerância e meu hábito de explodir por coisas estúpidas, reagir de maneira exagerada às injustiças cometidas contra minha afeição, mistura tudo e você vai perceber que algumas coisas em mim nunca mudarão; eu jamais vou tolerar idiotas.



Bento.

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sábado, 15 de março de 2014

UM SUJEITO SEM DEMÔNIOS NÃO É SEQUER UM SUJEITO

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Acredito que estou em débito com minha inspiração, ela que já me ajudou tanto, não estou fazendo quase nada para ajudá-la. Não estou fazendo e isso é fato. Um escrevinhador como eu precisa de musas para dar um empurrão na maldita escrita e eu tratei de afastar todas elas. Afastei porque eu tenho essa mania de afastar as coisas, às vezes acerto, às vezes nem tanto, mas ninguém se importa quanto aos meus acertos, não se importam porque simplesmente não é importante. Bem, quero confessar que quando digo "ninguém" quero dizer "eu". Se você que está lendo isso achou confuso, volte e leia do começo, mas com atenção desta vez, estou sem tempo para ficar explicando.

Na verdade estou sem tempo para quase tudo. Com exceção das coisas básicas eu quase não faço nada a não ser vestir qualquer coisa e sair para trabalhar. Aliás, trabalhar tem sido cada vez mais sacrificante, porém um sujeito como eu, cheio de vícios, precisa de um salário no fim do mês para dar conta do recado. Curioso que estou tão sem tempo que mesmo meus demônios não me acham para uma conversa de fim de noite e um sujeito sem demônios não é sequer um sujeito. Veja então minha situação.

Por vezes me sinto num grande vazio, só ar e vazio e paredes sem cor e poucos idiotas que levantam-se da merda e me fazem desviar o olhar, no entanto não por muito tempo porque estou sem tempo até para indignar-me com idiotas.
Estou há dias de fazer uma viagem no intuito de pintar as paredes, pois preencher o vazio é querer demais, se ainda fosse Vegas, mas não, então temos de nos contentar com o que temos.

Esses dias me peguei pensando sobre um bom amigo que tenho, que creio eu, está passando por seu momento mais feliz, em toda sua vida, curta, mesmo assim o melhor momento. Fora inevitável a comparação, pois o que ele vive hoje eu já vivi e estraguei. Pensei e torci e ainda torço para que ele seja mais esperto que eu. Caso não seja mais esperto, então que seja menos explosivo, isso com certeza ira ajudá-lo a não estragar tudo.

Estou fazendo as malas aos poucos e a cada dia jogo lá uma peça de roupa, sem me importar muito. Eu dei férias a minha vaidade exatamente por não estar com disposição para ajudar minha inspiração, então tanto faz. Penso na viagem e juro, a trocaria por uma dor de barriga no intuito de sentir algo, mesmo que dor, porém mesmo as doenças não me encontram. Bebo e não sinto a ressaca, durmo antes do bocejo e acordo antes do despertador. Até a dor de tatuar a pele dói com tanta insignificância que só as faço como forma de manter o vício. "Somos movidos a sentimentos" uma garota me disse uma vez e eu assenti, mas se não sinto, sequer ódio, ou riso, não sinto nem frio nem calor o que resta então? Membros, uma barba enorme e a sensação de que vou apagar essas letras antes mesmo de terminá-las.

Esses dias sonhei que estava caindo. Belo sonho para quem quase não sonha. Caía num poço extremamente profundo, apertado, caía de cabeça. As paredes do poço eram espelhadas e eu me via caindo durante horas. Era estranho, pois cada vez que olhava para meu reflexo eu estava mais e mais velho. Percebi que era um sonho quando me vi aparentando uns cem anos, afinal, com os meus vícios seria um milagre eu chegar a tanto. Meus cabelos iam ficando cada vez mais grisalho, meu rosto cada vez mais cheio de rugas, o nariz e as orelhas ficavam maiores que já são e os cabelos que já estavam brancos ficavam ralos e por fim caíam assim como eu caía naquele poço. Enfim quando eu ficava tão velho quanto um tomate seco eu voltava para a idade atual. Uma coisa de doido, um sonho de maluco, mas não se pode julgar os sonhos. Quando acordei tive que me esforçar para lembrar o sonho todo, porque sonhos vivem escapando de nós, qualquer vacilo e pronto. É claro que pensei sobre o assunto pelo menos durante os três primeiros cigarros do dia, ou seja, mais ou menos meia hora e a conclusão mais razoável que cheguei foi que o tal sonho nada mais é que um reflexo de toda a minha vida. Sim, pois eu vivo me repetindo, entre jeans velhos, erros, defeitos, eu sempre repito as mesmas merdas, uma após as outras, de tempos em tempos, um ciclo infinito.

A última semana eu fiquei sem um gole de nada alcoólico, nada mesmo. Às vezes faço isso só para provar que sou capaz, porém não gosto. Há poucos prazeres na vida para me privar de qualquer um deles, portanto, faltando um dia para completar uma semana resolvi que já era hora de tomar um trago forte e amargo de qualquer coisa. Parte de mim gostaria de ficar bebendo o dia todo e escrever, escrever até que a inspiração bata em minha porta para que eu possa lhe oferecer um café. Outra parte gostaria de ler algumas coisas novas, originais, visceral, só que tudo que acho na internet não passa de baboseira hipócrita e lenga-lenga de jovens que acham que estão escrevendo algum roteiro para a Walt Disney. Logo, só acho essa brecha nos velhos autores de costume. No entanto eles estão mortos, ou quase, e quando terminar de ler tudo não sobrará mais nada. Então, quando penso nisso é que outra parte de mim gostaria de tocar o foda-se pra tudo isso e sair por aí com meus amigos mais retardados e maníacos fazendo um monte de merda por todos os lugares que passarmos e de preferência não deixar uma gota sequer de álcool fora da garganta. E nós faríamos isso muito bem porque é o que fazemos de melhor, beber, fazer merda, arrumar confusão e depois contar histórias. Fazemos isso porque aceitamos totalmente quem somos, sem forçar, sem fingir, sem lamentar. Não somos grande coisa, temos ciência disso e estamos pouco nos fodendo, pois só um idiota finge ser uma coisa que não é.

Eu conheci uma garota uma vez com asas nas costas. Ela tinha um lema; um dia de cada vez. E isso não era só porque ela já tinha sido uma cheiradora de marca maior, isso era para a vida. "Um dia de cada vez". Não se pode atrasar ou adiantar o relógio, então as merdas de outrora você tenta não repeti-las no futuro. No meu caso, eu tento e por vezes não consigo e isso me incomoda, mas às vezes me faz rir, afinal, sou como um mecânico de minha própria vida, das engrenagens de meu Destino, vivo de concertá-las, calibrá-las, trocar peças. Trocar peças é o meu ponto forte, no entanto, algumas peças são mais belas que outras, mais geniosas que outras, mais esperta que outras, mais sexy que outras, mais leoninas que outras e por isso o encaixe não é perfeito. Fazer o quê?



Bento.

quinta-feira, 6 de março de 2014

A SOLIDÃO É COMO AQUELA CALÇA JEANS FAVORITA

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Idiotas costumam denegrir os solitários, mas desfazer de uma boa e límpida solidão é burrice.  Os maiores gênios de nossa historia eram solitários convictos, singulares em todos os aspectos, homens que dialogavam consigo mesmo e isso prova que você é o melhor amigo que se pode ter. Só você. Mas tudo isso soa como um clichê imenso, o que eu quero dizer é que a maioria das pessoas, quase que em sua totalidade, não merecem sua companhia. Sim, eu estou dizendo que a maior parcela da sociedade sequer merece a bosta que cagamos, tamanha mediocridade, no entanto, isso é chover no molhado, pois de tão medíocres não se dão conta do que estão perdendo.

Isso é mais ou menos como o ser inútil que permanece próximo só que não ouve. Saber ouvir é bem importante, apesar de contraditório. Contraditório sim, com tanta ignorância desses invertebrados disfarçados de homens, mulheres, pais de família, ouvir é o caminho mais curto para a alienação. Saber ouvir e não ter senso crítico é o mesmo que estar numa guerra armado até os dentes, mas com seu arsenal apontado para o próprio peito. E nós estamos numa puta de uma guerra e estamos perdendo, cara. Olhe para o lado e me diga o que vê. Longe de mim querer ser o mensageiro de más notícias, nem quero que me confundam com algum profeta apocalíptico, mas este país vai de mal à pior. É o fim dos tempos e em algum momento seremos dominados pelos idiotas, como zumbis apontando seus dedos julgadores e fétidos para os que não se adaptarem aos idiotas. Um colapso nos aguarda. Nunca nossa política foi tão corrupta aos nossos olhos sem que ninguém se manifeste, nunca a indústria foi tão mesquinha e débil, a TV está dominada por pastores e ignorantes. As ruas já foram tomadas há tempos por bandidos e polícias corruptos e medrosos. Sem falar nos jovens dementes reboladores e sem cérebros. Se você consegue me compreender vai concordar comigo, porque acredite, a maioria não tem a mínima ideia do que eu estou falando, também pudera, sequer sabem o que estão fazendo.

Mas quero voltar a falar de solidão, que nestes tempos de guerra não é de toda uma má ideia. Só que eu também não sou o antissocial que alguns pensam, eu me misturo como todos os outros, é claro que com um pessoal seleto e mesmo assim, depois de algum tempo me misturando preciso me desintoxicar, preciso conversar comigo mesmo e a sós. Alguns imbecis confundem isto com carência, porém, se existe uma coisa neste mundo que não se deve levar a sério, esta coisa é o imbecil. A solidão é como aquela sua velha calça jeans favorita, que de tempos em tempos você tira do guarda-roupa para se sentir melhor. Existem algumas garotas que me lembram exatamente esse jeans velho. Mesmo com o passar dos anos elas continuam ali, conhecem seu corpo como ninguém, ajustam-se a ele como ninguém mais faz. Sabem o que você está pensando só de olhar. E por vezes você gostaria de tirar certas garotas do fundo do baú sem ressentimentos. A última coisa que se pensa, neste momento, são os acasos que os fizeram afastar-se, neste momento a garota vira uma santa e por alguns segundos você passa a se culpar. Mas é só um jeans rasgado entre tantas lojas oferecendo uma porção deles por preços baixíssimos e o melhor, jeans novos não vem com ressentimentos. Seria tudo muito simples caso nós não gostássemos de dificultar as coisas. Sim, temos o péssimo hábito de sentir falta das coisas que não possuímos mais, isso nos torna menos racionais, como se já fossemos muito. Então existem algumas garotas que nos causam isso e antes que me perguntam eu respondo; garotas também adoram jeans velhos. Eu mesmo sou um jeans velho de algumas, não há mal nisso e não é depreciação nenhuma assumir isso, afinal, jeans velho nunca sai de moda. Eu tive um amigo - e digo que tive, pois nos afastamos - que vou chamar de Fausto. Fausto tinha uma síndrome do jeans velho tão agressiva que chorava ao se masturbar pensando em suas antigas transas. Não era amor, nem saudade, nem arrependimento que magoavam Fausto, eram seus malditos jeans que ele procurava como um maluco dentro de seu guarda-roupa e não achava, às vezes, quando achava o jeans já não lhe servia mais e isso tornava seu momento de solidão um inferno.

Você pode se perguntar do porque alguns solitários se prendem ao passado ao invés de seguir com suas vidas em direção ao futuro e eu digo que é uma resposta simples; o passado é sempre mais real e palpável. Dizem que não se pode mudar o passado e eu digo que podemos sim. Podemos torná-lo mais tragável, podemos mudar os culpados pelas tragédias de tempos atrás colocando a culpa nos outros ou em nós mesmos, fazemos isso o tempo todo. Toda vez que se olha para o passado ele mudou um pouco, pois é o que somos, um bando de moldadores de passados solitários. Por isso é tão mais difícil olhar para o futuro, pois este nós não controlamos nada, tudo pode acontecer, para o bem ou para o mal e o fato de não saber e não ter poder sobre ele nos afasta cada vez mais, fica mais fácil correr até uma costureira e mandar apertar um pouco a cintura daquele jeans velho.


Bento.

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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

PEQUENOS PEÕES DESCARTÁVEIS COMO MERDA NO INTESTINO

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Existe um velho clichê que as mulheres amadurecem mais cedo que os homens. Em qualquer livro escrito por mulheres você testemunhará esse fardo que levamos. Somos aos olhos das mulheres como são os cavalos, vistos apenas para carregá-las e procriar. Parece machista, não? Mas não é. Tente ver pela ótica masculina, somos forçados a agir como homens desde cedo. " Seja homem" nos dizem. "Aja como homem" outros nos ordenam. Ser homem, no popular, quer dizer ter responsabilidades, não deixar que as pessoas nos vejam sofrendo, não cometer erros e SE cometermos a insensatez de errar temos que assumir e seguir em frente. Caso este exemplo de homem existisse teríamos milhões de psicólogos e autores de autoajuda desempregados. Ser homem quer dizer ser imponente, soberbo, o macho alfa. Temos que resolver todos os problemas, defender todos à nossa volta e cuidar para que não precisemos, em momento algum, da ajuda de outro homem, muito menos de uma mulher. Vê quanta responsabilidade para um ser, que dizem, amadurecer muito tardiamente?

Se um casal é pego fazendo uma merda a culpa é do homem. Um casal de assassinos, a culpa é do homem. Um casal é pego usando droga, foi o homem que a influenciou. A mulher está sempre à margem, como seres inocentes e místicos. A mulher pode ser infantil até seus cem anos, nós homens não podemos nos dar esse luxo. Concordo apenas em parte desta acusação dirigida a nós. Só não amadurecemos quando trata-se de sexo. Eu mesmo tenho a libido sexual de um garoto de 16 anos, e virgem. Dou conotação sexual em quase todas as atitudes e torço para estar certo. Quer um exemplo? Quando vejo uma mulher com buço por fazer não demora para que eu chegue a teoria de que se ela não se dá ao trabalho de depilar a cara imagine o resto. Tudo tem conotação sexual e eu não sou o único homem que age assim.

Ainda sobre sexo, tenho um amigo que está com uma nova namorada e me pediu conselhos sobre como convencê-la a fazer sexo anal como se eu fosse um expert no assunto. Não sou de maneira alguma e disse isso a ele, mas não o convenci. Disse que sobre sexo anal, a única coisa que eu poderia saber mais do que ele é que existem as mulheres que fazem e as que não fazem e é só o que sei. Sexo anal é como um ato de confiança, um segredo que ele teria de ser merecedor e ainda por cima poderia acontecer acidentes que talvez ele não tivesse estômago para suportar. De qualquer forma este meu amigo estava convencido que precisava experimentar e que eu tinha que lhe dizer algo para ajudá-lo. Então disse o que sei; muito álcool para sua garota e quando ela estiver bêbada e transando toque no assunto, pode ser que tenha sucesso. Ele não ficou satisfeito, mas foi só o que ele teve.

Passado uma semana, num novo encontro com esse meu amigo ele me disse ter desistido da ideia do sexo anal e claro que eu quis saber o porquê. O fato é que ele estava com uma garota um tanto mais jovem que ele e com a idade vem a curiosidade e o desafio. Sua garota lhe propôs um acordo do qual ele conseguiria o que ansiava contanto que desse algo em troca. Primeiro ele provaria da invasão em seu próprio reto e se a dor fosse suportável para ele, então poderia experimentar o reto dela. A proposta não me causou mais surpresa quanto a aceitação dele e neste dia, quando ele me disse que tinha desistido da ideia, este meu amigo não ousou sentar-se. Homens fazem coisas estranhas quando trata-se de sexo.

Devido a sociedade machista os homens aprendem desde cedo guardar seus escrupulosos em casa enquanto sai para caçar, por isso somos tratados como inimigos por algumas mulheres, mas isso é só para inglês ver, pois nem mesmo elas suportam os bom moços. Elas casam-se com eles, no entanto trepam com os anti-heróis. Trepam, pois o sexo é mais gostoso, afinal nenhuma mulher quer passar a vida sendo comida num papai-mamãe nojento e tedioso.

Não faz muito tempo eu conheci um dos maiores filhos da puta de toda a historia da ficção, Francis J. Underwood. Digo que este é um filho da puta de dar gosto, chega a ser bonito de ver e eu que sempre me achei um filho da puta de marca maior percebi que tinha muito que aprender. Sabe, o problema não é ser filho da puta, pois o mundo foi feito para eles, os mesquinhos, os ingênuos e os sinceros, são todos pequenos peões descartáveis como merda no intestino. Deus criou o mundo para os filhos da puta vagarem como grandes e belos pavões dominadores.

Testemunhas de Jeová acreditam que após o apocalipse, depois da festa de despedida com drinks de sangue e tripas como aperitivos, Deus expurgará os pecadores para o inferno para que os puros possam herdar a terra. Eu particularmente acho isso uma besteira, primeiro porque ninguém por aqui é puro. Vivemos num mundo onde os religiosos são mais cruéis que os mais cruéis maníacos, assassinos e todo o resto da escória. O próprio Hitler se sentiria enojado e com um pouquinho de inveja dos pastores que temos por aqui, pensando em como ele pôde ter deixado passar uma ideia tão boa. Em nome de Deus tudo é perdoado e talvez hoje, se Hitler tivesse aberto uma igrejinha, numa garagem fedorenta, ele teria dominado o mundo. Se você não fica receoso com uma religião que cresce tão rápido com comandantes tão asquerosos , espalhados pelos três poderes do governo, eu tenho que dizer que você é um idiota. Sendo assim, não tenho muitos motivos para acreditar que algum de nós terá um Destino diferente. Deus já se arrependeu de sua criação e se castiga obrigando-se a assistir tudo isso como reles telespectador. Mas poderia ser muito pior caso Ele sentisse algum prazer sádico nisso tudo. Por isso eu digo que o problema não é ser um filho da puta. O que me faz perder o fôlego é o filho da puta que mente para si mesmo dizendo-se santo. Então a festa do apocalipse está por vir e eu estarei sentado ao balcão do bar misturando whisky ao meu drink de sangue fresco às escondidas para não irritar os religiosos.



Bento.

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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

SOMOS TODOS EGOÍSTAS MENTIROSOS COM UM MEDO ENORME DE SERMOS PEGOS NA MENTIRA

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Existe uma coisa sobre as mulheres que todos nós, homens, devemos saber; elas costumam acreditar nas coisas mais mirabolantes e mais inacreditáveis que possamos imaginar. Quando elas estão apaixonadas é possível sem muito esforço convencê-las sobre tudo, pois elas estão propensas a acreditar em tudo que saia da sua boca, até os sentimentos findarem. Quando seus sentimentos se esvaem elas acreditam em tudo, em apocalipses zumbi, E.Ts, no Diabo, menos em você, pois você é a imagem de tudo que elas abominam. Ainda tem aquela garota que você acaba de conhecer e ela foi com a sua cara, esta sequer vai pensar que você seria capaz de enganá-la, veja como são essas mulheres.

Já os homens não se apegam muito ao que é mentira ou não, certo ou errado. De fato, o que ele precisa é ter você nua na frente dele, o resto ele só vai pensar depois. Não existe bicho mais desapegado que o homem. Eu diria até que o homem quando quer transar é um exemplo para nossa sociedade. Ele é desapegado a dinheiro, não tem preconceitos, não liga se você tem todos os dentes ou se comunica corretamente, neste momento ele quer apenas transar e pronto. Se perguntar para qualquer homem ele vai te confirmar que existe uma dezena de garotas que ele comeu sem sequer se dar ao trabalho de perguntar o nome e se perguntou não lembra. Tão desapegado o homem que é enganado e nem se dá conta. Mas até então ele não está ligando, engane-o, porém chupe-o.

Chato é o corno. Esse passa a desacreditar de qualquer coisa. Todo homem que é muito desconfiado pode apostar, é corno. Ou foi, ou é, ou será, afinal já viu pretendente melhor pra corno que o desconfiado? Aquele indivíduo que segue a mulher em tudo quanto é lugar, pesquisa amizades, priva a moça de tudo que é coisa e no final vira corno, claro. Mulher presa é igual cachorro no cio, a primeira oportunidade que tem de escapar foge.
O corno é tão desconfiado que deixa de lado até os amigos por medo de ser traído, o que ele não sabe é que amigo dificilmente trai, quem trai é a mulher, com um desconhecido qualquer porque é mais excitante. Quem leu Nelson Rodrigues pode dizer melhor.

Entre tantas mentiras poligâmicas criei uma teoria há tempos que nunca mais repeti com exceção de hoje: daqui há vinte ou trinta anos monogamia será coisa fora de moda, bem como discman, bandas com calças coloridas e sertanejo universitário. Com o tempo cada vez mais escasso e a globalização será impossível manter um relacionamento com uma só pessoa. Serão relacionamentos Express, deliveres, como as bicicletas públicas espalhadas no centro de São Paulo, pegue aqui e devolva ali. Seremos todos acompanhantes momentâneos uns dos outros. Na época de internet e smartphones alianças de compromissos serão coisas de avós, pieguice.

Antes que me critiquem por minha teoria quero dizer que somos seres egoístas porque é de nossa natureza. É uma coisa de sobrevivência, instinto animal e não se pode fugir disso, antes de sermos humanos somos animais, não mais que isso. Relacionamos-nos apenas porque é de extrema necessidade, como comer, beber e cagar, transar também é uma necessidade e se pudéssemos fazer isso sem trocar uma palavra sequer com a outra pessoa pode ter certeza que faríamos, no entanto também é de nossa natureza forjar uma aparência de que somos sociáveis, racionais e que nos importamos com os sentimentos alheios antes do nosso. Vivemos de aparências como os animais silvestres vivem da caça. Somos caçadores de egos, de libido, matamos alguns instintos, mas outros nós apenas mascaramos.

Eu conheci uma garota uma vez que era uma leoa, indomável, rebelde, independente, ou seja: chata pra caralho, mas de uma chatice esplendida, uma chatice que me esfregava na cara minha incompetência em domá-la e nós seres racionais nunca nos demos bem com o fracasso, nós temos dessas coisas. Eu citei este caso, pois mesmo que eu tenha adquirido uma vontade enorme de conquistá-la e uma libido impar sem sucesso, eu consigo viver bem com isso. É claro que uma vez ou outra me vem uma lembrança, que geram um conto ou outro, porém não vou morrer por isso. Os trinta cigarros diários, as dezenas de latas de cervejas semanais, as garrafas de destilados podem vir a me matar e matarão, mas não isso.

Não isso, pois ninguém morre de amor. Quem vos fala sou eu, um romântico incurável que já sofreu de amor durante anos a fio. Ninguém morre de amor, as pessoas fingem, romantizam sobre seus sentimentos, no entanto não passa de puro e simples egoísmo. Dizem o que gostariam de sentir, mas não sentem. O amor num todo é egoísta, só se ama o que nos faz bem, só amamos o que nos deixa no ápice do tesão e eu não estou falando só de tesão sexual e sofremos quando perdemos esse gatilho de valorização de nossos sentimentos. Só nos importamos com quem nos faz bem e não por amor. Caso o amor não fosse egoísta ele jamais acabaria, seria eterno e independente de reciprocidade.

Nós não amamos ninguém mais que nós mesmos e morrer de amor é morrer de egoísmo. Vai morrer de amor? Claro que não, não é do indivíduo que sentimos falta e  sim dos momentos de êxtase, de alegria e do melhor sexo de nossas vidas até o momento e pode ser que nunca mais encontre algo parecido e aí dizem que morrerão de amor. Morre-se pela falta. Morre-se pela perda, pelo passado prazeroso. O que nós nunca nos damos conta é que o segredo para não sofrer de amor é não sofrer de amor. É não sentir falta, pois não existe nada mais passageiro que a felicidade. A coisa que te deixaria mais feliz ontem seria uma cerveja gelada no meio do expediente, hoje você tem a tal cerveja e tem um outro desejo de felicidade, pois ontem já passou, assim como seus desejos. Somos todos egoístas e mentirosos com um medo enorme de sermos descobertos na mentira.



Bento.  

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sábado, 25 de janeiro de 2014

UM IMENSO POÇO DE ÁGUA COM AÇÚCAR SEM DISTINÇÃO

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Apesar de dizer que estou evitando bares e botecos, não quero que tenham a falsa impressão de que abandonei-os às traças, claro que não. Apenas evito como evitamos assaltos, porém, mesmo assim acaba acontecendo.

Então, por esses dias estava no bar com um amigo meu e falávamos sobre as mazelas da vida, a falta de dinheiro justamente por pagarmos contas altíssimas de bares e ele de puteiros. Falávamos sobre porres e mais porres e transas engraçadíssimas e outras nem tanto. Éramos ele, eu e os mendigos pedindo cigarros e doses de 51 para todos no bar.

Curioso é que bares não fazem parte da mesma dimensão que nós quando estamos trabalhando, por exemplo. Quando no bar tudo à sua volta passa mais devagar, exceto o tempo. O tempo é de uma pressa sem tamanho e ainda estávamos na terceira cerveja, ou na sexta, ou na décima segunda, não sei ao certo, só sei que já era hora de ir embora. Mas antes da partida, enquanto bebíamos e fumávamos com a certeza de que as coisas estão sempre em eterna mudança, num assunto de outrora, o amigo resolveu me elogiar já sabendo que eu não me pronunciaria, pois concordava com tudo.

Chamou-me de chato, arrogante, difícil e ainda se igualou às minhas características. Era hora de partir e na despedida eu me peguei pensando o quão transparente eu sou, mas não para todos. Algumas pessoas simplesmente não conseguem compreender exatamente o que minhas palavras querem dizer e eu não posso fazer nada por elas. O que eu posso fazer? Está lá, para quem quiser saber, guardei a libido do mistério para outras coisas. Onde eu quero chegar com isso é simples. A maioria dos homens você sequer consegue falar mal tamanha a falta de solides, de identidade, originalidade. Não se sabe quem defende, que histórias mantém, que time torce, nem nada. É um imenso poço de água com açúcar sem distinção. Não confundiremos isso com transparência, é só um vasilhame turvo e sem cor, sem ideal, sem ideal. Poucos deles sabem o verdadeiro significado de ideal, eles não se importam, é difícil se interessar por uma coisa que sequer sabe que existe e mesmo quando temos conhecimento de sua existência é complicado se preocupar.

Mas não pensem que é fácil ser transparente. Está longe de ser fácil andar por aí com um rótulo que cobre todo o seu corpo entregando-lhe toda sua sensatez, sua famigerada noção de certo e errado e de bom senso e preocupações peculiares. Complica quando se é tratado com certo receio como se fosse de outra espécie, um gringo em seu habitat natural. Mesmo nas mesas dos bares o idioma é outro, as conversas não batem e pessoas como nós podem falar sobre qualquer coisa, porém grande parte das coisas são chatas pra cacete. E ninguém quer alguém suficientemente inteligente para perceber quando está sendo enganada. Ninguém quer alguém suficientemente esperto para enganá-los, é muita ameaça para eles. Ninguém quer alguém inteligente suficiente para fazê-los se afogarem em suas contradições medíocres. Não é fácil quando damos choques em seus cérebros a ponto de fazê-los entrar em pane. Pensar não é um exercício costumeiro para eles. Já falei que somos ameaça?

É curiosos para esse tipo de gente se deparar com alguém que consegue pensar por conta própria, que não precisa repetir incansavelmente bordões destros ou canhotos, que não precisam virar papagaios de pirata para se sentir intelectualizado. Fazemos parte de uma prole em extinção de pensadores independentes de chavões e modismos dos peidorreiros nas tangas.

É complicado apresentar para família ou amigos um indivíduo que não vende a alma ao preço da socialização. Que tem o bom-mocismo como uma canalhice sem precedente e utopia que só serve de credo para imbecis. E é por isso que não os julgo, nem os indefesos cuzões sem solides e nem mesmo os que se alimentam da imbecilidade alheia.



Bento.