sábado, 2 de maio de 2015

EMBRIAGAR-NOS - O EVANGELHO SEGUNDO BENTO

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3:1 - A vida é realmente uma grande bola de merda que roda e roda e espalha todo tipo de germes por aí. Não se pode achar que vai passar por aqui sem sujar as mãos. Não quando esse amontoado de anos que formam sua passagem depende da ação de outras pessoas.

3:2 - A coisa é mais ou menos assim; você vem ao mundo grudado a alguém e passará o resto da vida tentando entrar em um monte de outras pessoas e permanecer o máximo de tempo possível lá dentro. Só que nem sempre é simples. Não é como um boteco barato que você entra, pede uma dose de algo que o seu bolso pode pagar e sai sem fazer perguntas. É mais que isso.

3:3 - O mundo a sua volta corresponde a cada ação sua. E por vezes responde mesmo sem qualquer ação e você tem que estar pronto para tomar a decisão correta em cada situação, só que você geralmente não está. E instantes depois de cada ação você pensa em infinitas alternativas que poderia ter colocado em prática, só que você não escolheu nenhuma delas. Escolheu exatamente aquela que vai te fazer arrepender-se por não ter parado, pensado, respirado e aí sim, tudo seria maravilhosamente interessante. Mas a vida é uma grande bola de bosta. Não se esqueça disso.

3:4 - Qualquer música no rádio, ou no carro com meia dúzia de imbecis que passa por você na rua com o volume ao máximo, suficiente para fazer as janelas tremerem podem te trazer lembranças ou pensamentos insanos. E mesmo esses idiotas parecem tão mais felizes que você e estão, enquanto volta do trabalho cansado, o saco transpirando na calça usada há três dias seguidos, e duas ou três latas de cerveja na mão que confiamos amenizar um pouco toda essa mediocridade, todos parecem mais felizes enquanto você lê o jornal de manhã e pensa; por que eu ainda não me mudei para algum pais do leste europeu e abri um bar? Qualquer coisa pode ser melhor que essa merda toda. Mas você é um covarde que economiza na marca de pasta de dente para poder pagar a internet. Eu sei, pois também sou um desses que economiza na pizza para poder comprar um whisky com maior qualidade que aquele que se vende em bares com baldes cheios de energéticos. Pois eu, assim como você, necessito de ter um pouco de sabor e qualidade nesta vida de merda que nos priva de tanta coisa.

3:5 - Passamos disso para refletir sobre tudo que está em volta. E não pense que devido aos meus óculos escuros escondendo minha ressaca e o meu livro comprado em sebo fazem de mim uma pessoa desatenta. Eu reparo em tudo e nada me encanta. Digo, quase nada me faz manter o olhar mais que alguns milésimos de segundos,  minha mente automaticamente simula todo o contexto, toda a trajetória de infinitos relacionamentos e descarta qualquer ação que justifique largar o meu livro e sorrir para alguém.

3:6 - Não há escapatória, tudo vai acabar mal para ambos os lados e normalmente quem ganha é o mais idiota que não consegue sentir as coisas tão profundamente quanto uma facada numa briga de bar qualquer. Repare que os idiotas são sempre mais felizes. Não guardam mágoas, porque não guardam nada.

3:7 - Você pode ser um escritor, um pensador, um músico, ou tudo isso e achar tudo uma merda. E digo; provável que achará tudo uma merda. Já o idiota vai achar tudo magnífico, afinal qualquer merda pro idiota é sensacional.

3:8 - Não passaremos por essa vida sem algumas dúzias de pecados e caso faça digo com toda certeza que cometeu um dos maiores erros de sua vida. Afinal, para este evangelho, pecado é só uma coisa que implantaram na sua mente para que tenha peso em sua consciência quando estiver se divertindo. Para que pense no pobre quando estiver tomando uma cerveja de R$150, ou para que pense no virgem quando estiver com duas garotas te chupando. Isso é o pecado e nada mais que isso, um amontoado de leis que te deixa sem jeito quando tem motivos suficientes para sorrir e contar aos amigos. Para que mantenham as rédeas em seus corpos fazendo o que bem entendem.

3:9 - Não haverá salvação para aqueles que se deixarem levar por religiões e mandamentos arcaicos com a intenção de controlar. Não há salvação, porque a vida é curtíssima para perdermos tempo com isso.

3:10 - A cada trepada que deixa para trás por motivos alheios é um momento de intensa e singular felicidade que joga fora pelo simples fato de alguém lhe dizer que está errado.

3:11 - Se é verdade que Deus criou o mundo e que sacrificou seu filho para nos salvar que no mínimo você viva sua vida com imensa intensidade para fazer jus de sua morte. Embriagar-nos com felicidade é o mínimo de agradecimento que podemos oferecer.



Bento.

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segunda-feira, 20 de abril de 2015

GÊNESIS - O EVANGELHO SEGUNDO BENTO

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CAPÍTULO 1 - A MORTE


2:1 – Ao contrário do que pensam, não trata-se de um erro colocar o segundo capítulo e chamá-lo de Gênesis. Afinal, para entender tudo o que eu vou dizer, primeiro é preciso familiarizar-se com a morte, pois somos um amontoado de quase nada tentando dar sentido para coisa alguma. Por isso, este capítulo aqui começa pelo final. O fim da vida. Nascemos, morremos e se fizermos tudo certo, seremos felizes neste meio tempo. Não há muito segredo.

2:2 - Então depois de entender que inevitavelmente morreremos e poderemos ir para um lugar melhor ou não, entendermos que poderemos ir para lugar algum, aí sim começamos a conversar e a viver, que é só o que importa.

2:3 - Quero partir do princípio que tudo o que sabe sobre religião, de qualquer origem, bem, esqueça isso. Não há nada mais usurpador que a religião. Não há nada mais controlador que a religião, por isso, aconselha-se sempre afastar-se deste tipo de tendência. Nunca será possível tomar estar palavras como reflexão se já está prefixado em sua mente que existe alguém superior a você capaz de lhe dizer o que é certo ou errado. Você estará quebrando a única regra da qual é baseado toda esta resenha. Mas ainda aproveitando para esfregar na face de qualquer idiota que se opor a essas palavras; se somos todos a IMAGEM e SEMELHANÇA do Homem, não há porque eu ser mais ou menos que meu próximo. Veja que até Deus concorda com esta regra que sugerimos aqui.

2:4 - Este evangelho não é nem de perto religioso, mas claro, também temos os nossos dogmas e cultos e louvores.

2:5 - Você que tem o conhecimento deste evangelho saiba que poderá alcançar a glória sempre que quiser. Mesmo em casa, em sua solidão. Sempre valorize a própria companhia, pois ninguém poderá ser-lhe tão fiel quanto você mesmo. Algum grande poeta já disse que se não consegue ser uma boa companhia pra si, não será para ninguém, todavia isso é outra história. Esqueça as velas, exceto se fizer questão, o verdadeiro fio condutor da paz interior é definitivamente o álcool.

2:6 - Uma boa dose de algo quente e forte, ou gelado e constante te deixará bem mais próximo de seu "eu" interior. Ficar bêbado sozinho exige um alto nível de autoconfiança e autossuficiência. Nunca menospreze seu inconsciente, você pode aprender muito com ele. Isso é quase como uma meditação, mas mantenha os olhos sempre abertos para ver até onde sua imaginação pode levá-lo.

2:7 - Celebre a solidão, celebre a dor, celebre a garrafa inteira à disposição de sua libido. Se você vai fazer isso pela primeira vez pode colocar um ou dois dedos de água por dose, mas aconselho diminuir a mistura gradativamente, pois se quer uma alma pura que a dose também seja. Cigarros são bem vindos. Com isso você já está pronto para ir onde sua imaginação quiser. Ao passado, ao futuro, ao céu ou inferno. A noite é sua, faça o que quiser. Quando fizer isso há algum tempo, quando já estiver num nível superior, perceberá que não é mais refém da vontade alheia. Só você, as paredes e o destilado poderão ditar as regras.

2:8 - Sem a necessidade de outras pessoas, sabendo que pode muito bem se divertir sozinho, passará a escolher cada companhia e aproveita-las cada segundo. Não vai se deixar levar por qualquer proposta ou o medo de permanecer sozinho, afinal, volto a dizer; é e sempre será sua melhor companhia.

2:9 - Contudo, preciso alertá-los; aos olhos alheios, aparentará estranho, sujeito a críticas, olhares esguios, preconceitos e palavras incrédulas contra sua lucidez, mas saiba que sempre poderá contar com a compreensão de seus irmãos de bar.

2:10 - O bar sempre será o lugar onde achará proteção e a sabedoria de uma força maior; a cumplicidade e a capacidade de encontrar sujeitos em situações piores que a sua para aliviar um pouco a tristeza.

2:11 - O bar é nosso templo e nossa morada. Depois de nossas casas é o lugar mais sagrado e protegido. Onde compartilharemos historias e aprendizados com nossos irmãos. Onde ensinaremos e aprenderemos. Onde seremos professores e alunos, pois é importante que saibamos que sempre podemos aprender com o próximo, mesmo que seja uma nova marca de cerveja ou um jeito novo de assar uma carne.



Bento.

segunda-feira, 30 de março de 2015

A MORTE - O EVANGELHO SEGUNDO BENTO

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1:1 - Todos sabemos que vamos morrer em algum momento. Se você não se dá conta disso é bom reconhecer o mais rápido possível que você é um imbecil. Pois ser imbecil não é pecado desde que em algum momento você assuma isso.
Quando se é um imbecil e acha que está muito bem com isso você começa de perpetuar tamanha imbecilidade e nada pode te salvar.


1:2 - Então se todos vamos morrer e acredita-se que algo ou alguém nos colocou neste mundo de merda pra alguma coisa MAIOR,  aconselha-se viver até seu último suspiro exatamente como você quiser. Isso mesmo. Faça todas as coisas que vir à sua cabeça e mande se foder todos os outros que se mostrarem contrário a isso. Com exceção, claro, se você estiver invadindo o direito do próximo de também exercer este direito ou se você for um imbecil. Esta é a única regra. Proteja essa regra como sua vida. Nunca, nunca mesmo, por mais prazeroso que seja, tire o direito do próximo de viver segundo estas palavras, afinal, somos todos merda do mesmo intestino, logo teremos de ter os mesmos direitos. O que não prevê nenhuma proibição de chamar de idiota aquele que prefere levar a vida até sua morte de forma que você não concorde. Todos temos direito a opiniões, mesmo o idiota, pois para tudo existem os prós e os contras, conviva com isso.


1:3 - Dentro deste argumento você pode apertar o botão do foda-se e largar sua família, amigos e emprego, porém saiba que não é o único a odiar trabalhar e também por isso não tente usurpar de outros os benefícios que o trabalho deles lhes traz, pois por melhor que seja sua vida, não se pode ter tudo. Trabalho gera dinheiro que gera conforto dentre outras coisas, não queira ter conforto sem trabalho, com isso estará inevitavelmente quebrando a única regra aqui apresentada. Qualquer coisa que lhe for dada de livre e espontânea vontade deve ser aceita sem maiores preocupações.


1:4 - Sei que vou parecer repetitivo, mas para alguns vermes é preciso repetir até que a informação fixe em suas mentes de ameba. Todos temos direitos e deveres e é dever de todos zelar pela única regra que existe neste evangelho. Não matarás quem não queira ser morto. Não usarás quem não queira ser usado. Não comerás quem não queira ser comido. Não fará sexo com quem não queira fazer sexo com você. Parece simples para algumas pessoas, porém para outras é um tanto quanto difícil conter certos anseios. Mas digo-lhes, se fosse fácil não seria uma regra.


1:5 - Ainda dentro desta regra de não se perpetuar sobre a vontade do próximo, digo que segundo a lei da física dois corpos não podem habitar o mesmo espaço. Com isso entenda-se que não é apropriado invadir o espaço do próximo sem o prévio consentimento deste. E mesmo aquelas situações que você acredita piamente que o outro dê sinais de que quer ter seu espaço invadido, é melhor ter certeza. Ou queimarás no fundo do inferno da mediocridade. E todo este evangelho se baseará nisto. Em você ser a escória do mundo ou ser um sujeito que colherá os frutos de seguir estas palavras. Isso é mais que algumas normas de etiqueta e menos que um livro religioso imbecil. Sequer é um manual, mas sim algo para reflexão. Não se pode conviver entre seres iguais se não igualar-se a eles. E é pensando nisso que eu digo que as pessoas à sua volta podem não gostar de seus assuntos de bosta, ou das suas músicas de merda. Logo, o som que você emite também pode romper a barreira do espaço do próximo que falamos acima. Isso também faz parte da física e não precisa ser nenhum gênio para entender isso. Agora, se você for um imbecil...



1:6 - Caso você seja um imbecil, o único caminho para a salvação é seguir estas regras. Aceite que morrerás e que você pode passar por essa breve vida sem construir nada de interessante e definitivo, mas que você pode se esforçar para isso. Foque na eternidade. Em algo que as pessoas vão lembrar mesmo após sua inevitável partida. E ninguém se lembra de idiotas, ou pelo menos não querem lembrar. Por isso não tenha medo da morte e sim da vida. Ela pode lhe causar maiores e males e tão definitivos quanto uma possível vida eterna. Morrer é o fim, já viver é um ato contínuo de fazer as coisas de forma que você sinta-se feliz no final. Sem arrependimentos, contudo, caso os tenha, que se foda, ninguém é perfeito.


Bento.

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domingo, 8 de fevereiro de 2015

COMENDO A PRÓPRIA BABA COM UMA COLHER DE SOBREMESA

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Então eu vinha embora do trabalho pensando em meu banheiro. Não propositalmente. Era forçado a desejar chegar cada vez mais rápido, afinal, eu precisava evacuar o mais depressa possível. Porém ou lembrei que em casa não tinha uma gota de álcool sequer e isso é inadmissível. Travei o reto e passei no posto de gasolina para comprar cervejas e cigarros.
Resumindo; consegui chegar em casa sem nenhum acidente. E aqui estou eu. Sentado na privada dando uma boa cagada, ouvindo Albert King com a gaita de fundo e tomando uma cerveja que ameniza, um mínimo de qualquer coisa neste calor infernal. Neste momento eu penso; puta momento feliz. Eu sou feliz agora. Estou feliz. O homem que não puder pagar pela sua própria cerveja não passa de um verme. O homem que não puder cagar em seu próprio banheiro é um homem desesperado. Não há futuro.

Agora já é Robert Johnson que canta e eu fixo os azulejos do banheiro feliz da vida. Não saio daqui enquanto não terminar o cigarro, pois acredito piamente que cagar e não fumar um cigarro é um pecado mortal. Bem como os religiosos acreditam em seu deus e suas doutrinas eu acredito que cagar sem tempo de terminar um cigarro é um insulto aos deuses de qualquer espécie.

A verdade é que além deste momento único e sem sentido, porém feliz, outra coisa me fez uma criança novamente de tão animado. Somente uma coisa poderia arrancar sorrisos idiotas e piadas infantis em meio ao mau humor que prevalece em minha existência. Uma garota. Da qual resolveu dar o ar da graça. Uma esmola de atenção qualquer e isso já fez de mim o cara mais feliz do mundo. Ninguém pode dizer o contrário. Pelo contrário. Todos aparentemente perceberam. Minha garota, ela não sabe, mas sempre foi minha garota e a única da qual eu sou fiel. Até hoje. E eu acredito, talvez errado, mas acredito, que ela só voou pelo mundo com tanta segurança porque sabia que sempre haveria um coração abandonado do qual definhava de amor para que ela pudesse voltar.

A musa das musas dá um sorriso e eu começo a regurgitar inspiração. Seu título não é à toa.
Confesso que fui conferir quantas latas de cerveja eu tinha bebido na noite anterior para ter certeza que não era o álcool me pregando peça. Depois disso belisquei-me, sei que não faz sentido, mas nunca se sabe o que nossa mente pode fazer conosco quando desejamos muito uma coisa.

Perdi o jeito de falar com esta garota. Meço as palavras e mesmo assim depois de ditas me sinto um idiota, por isso acabo falando demais. Ainda não sei como não babo como um retardado, mas chego próximo. Piso em ovos e quase não respiro porque ela é meu dente-de-leão, qualquer brisa e ela pode partir como todas as outras vezes. Talvez soe gay para quem está acostumado com os padrões de minha escrita, mas é difícil escrever sobre isso de forma diferente. Baixo a guarda, transbordo de bundamolice, e agora sim eu já estou necessitando de um babador.

Ela é dona de uma poção do amor que me tira dos quintos dos infernos e me faz cheirar flores em parques, sorrir para crianças e dar atenção a velhos na rua. Logo eu que vivo nos porões mais putrefatos na cidade, ser da noite endiabrado, odiado por onde passo, de discursos intensos e desaforados me pego elogiando o sol e a chuva e aplaudindo o por do sol. Vejo-me brincando com crianças e suspirando por canto de pássaros de manhã. Onde já se viu? Logo eu.
Como faz, quando um filho da puta como eu sai na rua querendo distribuir abraços? Provável que quem ver vai pensar que estou bêbado, mas nem alto eu faço umas merdas dessa. É quando começo achar que ela é meu maior entorpecente. Senão o mais forte pelo menos o mais viciante.

Há tanta coisa pra dizer e as palavras simplesmente me engasgam lutando para não soar. Nunca sei o que dizer. As mãos transpiram e receio magoá-la. Mas não minto tentando parecer algo que não sou, afinal ela não acredita em nada que eu digo mesmo. Gastar imaginação mentindo seria perda de tempo, porém me assusta espantá-la com qualquer coisa de minha personalidade velha e caótica.

Mas se você estava achando este texto feliz demais para os padrões aqui vai uma boa notícia - pra vocês que gostam de má notícia. Assim como esta garota voltou de repente ela se foi instantaneamente. Apareceu solteira e logo depois comprometeu-se novamente. Foi só o tempo de criar fantasias e histórias e engolir toda a baba novamente, com uma colher de sobremesa. Babar e voltar a comer o mingau de esperança. Excluir-me de novo e eu voltar a reconhecer a raiva estacionando na frente de casa, buzinar antecipando a campainha. E eu ir olhar com curiosidade.

- Entre, eu tenho cervejas. Se prepare, pois hoje vamos ficar bêbados até não acertarmos mais a boca.Eu disse à Raiva, velha companheira.

- Mas ela vai excluí-lo e depois procura-lo novamente, pois é isso que ela faz. Disse a Raiva. E eu respondi cabisbaixo.

- E eu vou aceitá-la mais uma vez! Afinal é só o que eu faço em todos esses anos. Espero que ela me procure e procure e procure novamente.

- Então me sirva àquela cerveja que prometeu. Você sempre tem as mais geladas. Disse a Raiva.

- Um brinde. Eu disse.

E brindamos. Velhos parceiros de bebedeira.



Bento.

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domingo, 25 de janeiro de 2015

COM UMA RESSACA DE 23 ALCOÓLATRAS

Quem estivesse de fora da brincadeira e olhasse em volta provavelmente acharia que o quarto tinha sido cenário de guerra. Uma garrafa de Jack tombada em cima da cômoda e outra recém aberta ao lado. Bitucas espalhadas pelo chão bem como latas e mais latas de cerveja. Embalagens de camisinha pareciam confetes em noite de carnaval, mas estávamos no natal. A noite também não era de Tarantino, era mais que isso. Aquilo não foi cenário de guerra, fora uma festa improvisada de bebedeira e sexo. Um religioso diria que arderíamos eternamente no inferno. Deus olhara para o outro lado tamanha libido. Já imagino os demônios assistindo de camarote e dançando ao som de Matanza no volume mais alto. E pecávamos ao ritmo da bateria de Interceptor V6.
Eu estava lá, mas não estava lá. Até meu pênis tava dividido entre sim e não. Meia vida, ele continuava a trabalhar por hábito, talvez. Bem, cada um tem o que merece e alguém decidiu que eu não mereço muito mais que aquilo, logo não se deve reclamar de suas conquistas. Instantaneamente sai de lá para outro lugar...

***

Outro quarto, sete anos atrás, quem se encarregava da trilha sonora era o vinil do Deep Purple repetindo o mesmo lado, incansavelmente. A bebida era Dreher, afinal, cervejas era um luxo que não tínhamos naquela época. Mas a garota... a garota abaixo de mim era a mais linda de todos os tempos. O quarto tinha o mesmo cheiro de sexo, porém os demônios não sorriam desta vez. Não sorriam porque eu estava feliz. Em todo o mundo, no decorrer da história, ninguém foi tão feliz quanto eu naquele fatídico momento em que transava com a garota dos meus sonhos e não sei se por felicidade ou por estar bêbado como um porco eu dormi. Dormi em cima da garota mais sensacional que já conheci.

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Volto a mente para o quarto atual e enquanto sou chupado e a música agora é Escárnio, olho para minha cama e vejo um amigo mandando ver na garota que outra noite estava montada em cima de mim com uma libido de tirar os móveis do lugar.
Eu acredito que não sou das melhores pessoas, se tem opção afaste-se, não serei eu quem lhe trará conforto. Não sou dos melhores amigos. Mas certos caras, daqueles que estão comigo desde os primórdios levam sempre alguma história pra contar onde eu faço parte, como personagem principal ou coadjuvante digno de um Oscar. Cedi a transa e a cama para o amigo. Cedi porque tenho dessas às vezes. Por um pequenino momento torno-me bom. Entenda: Eu, bom. É mais ou menos tão raro quanto achar um filme bom na TV aberta quando se está sem dinheiro num fim de semana em casa. Uma coisa rara. Mas se ficar por perto tempo suficiente vai se deparar com esses bons momentos.

Algumas pessoas dizem que o meu quarto, ou qualquer lugar que eu esteja, é sempre o pior lugar para se estar quando quer andar na linha. Bem como Jimmy diz em Amigo Nenhum ou Tombstone City, depende de como terminará sua noite. Eu nunca obrigo ninguém a nada, mas dizem que eu desperto sempre o pior lado das pessoas. Isso pode ser um dom ou uma maldição, porém eu não acredito no que dizem. As pessoas fazem exatamente o que querem fazer e quando podem colocar a culpa em alguém pelas merdas todas elas fazem. A ressaca moral fica mais fácil. Ter as mãos tremendo e o estômago colado nas costas no dia seguinte fica mais fácil de justificar quando se esta na companhia de um culpado como eu. Não quero com isso dizer que sou inocente, mas afirmo, ninguém é.

Quando eu digo que tenho cara de culpado eu quero dizer que a maioria das pessoas tem uma visão de mim que não necessariamente seja a correta. Eu, por exemplo, bebo muito menos que as pessoas acham que eu bebo. Mas também não significa que eu beba pouco. Eu bebo mais do que muita gente diz que bebe. Se parecer irrelevante ou sem sentido para você leia de novo. Pode ser só falta de atenção.

Ok, já leu. Viu? Da segunda vez sempre faz mais sentido.

Uma vez minha ex-garota perguntou se eu ainda bebia como antes. Eu me apressei em dizer que não, pois estou dizendo a verdade. Com "antes" ela queria dizer na época em que estávamos juntos e digo sem medo de errar que eu não bebo como antes pois hoje bebo para algo maior. Para dar a extrema unção à alma. Bebo para relaxar a mente e os músculos. Bebo atrás de inspiração. Antes eu só bebia e pronto. Entende a diferença?

De qualquer forma neste momento, onde tudo isso se passava em minha mente eu era chupado enquanto via um amigo mandando ver numa garota dez anos mais jovem que ele e estávamos todos numa boa. As cervejas tinham acabado e mamávamos uma garrafa de Jack Daniels. Era uma noite do terror para quem ama terror. Era o pecado tomando forma e se tornando adulto. Claro, que com toda minha contribuição eu deveria ter uma esquina com meu nome em algum quarteirão do Inferno. Senão uma esquina uma encruzilhada. Pelos serviços prestados. Porra. No mínimo uma foto de funcionário do mês. Mas não de propósito. Falo isso segundo as crenças de merda dos religiosos de bosta. Pode ser que estejam todos errados e que não existe nada mais além de nós, seres humanos medíocres que servem de adubo para plantas.

Whisky, cigarros. Matanza acabava de tocar Rio de Whisky e fazíamos sexo no ritmo da música. E o Jack suavizando a garganta, preparando o caminho para o cachimbo. Algumas pessoas acham que essa coisa de beber e fumar e fazer merda é ruim. Na verdade não é mesmo. Eu por exemplo, acho bem pior passar uma noite conversando com idiotas e tomando Coca Zero achando que isso vai te fazer mais saudável. Com a vida que eu levo eu poderia estar morto, mas não estou. E digo mais: Faz anos que não fico doente e a única dor que sinto é da agulha riscando a carne quando vou me tatuar. Alguma coisa nesta teoria maluca de não poder fazer nada de "errado" é falha.

Mesmo assim, enquanto pensava nisso me veio à mente um dos momentos que mais me assombra. Eu já disse que já fui melhor do que sou hoje, contudo acredito estar errado. Da época em questão eu melhorei bem, depois de melhorar eu piorei um pouco. Sabem como é, ninguém consegue manter o ritmo. De fato eu conheci algumas bêbadas depois disso e algumas santas. Ou seria o contrário? Não me lembro. Então eu lembrei da ex-garota lavando meus cachorros. Com os cabelos presos deixando à mostra a tatuagem na nuca. Uma blusa de alça preta deixava eu ver também a tatuagem no braço e uma saia até os joelhos, nada muito sexy, mas nela, qualquer coisa ficava maravilhosamente sensual, sexual. Mesmo uma camiseta minha velha esquecida na casa dela. Ela roubava minhas roupas para poder dormir sentindo meu cheiro e isso fora talvez, a maior demonstração de amor que eu já tive em toda a minha vida.

Minha mente volta do passado e segue direto ao futuro quando as garotas já foram embora e meu saco transpira devido o calor e o suor mistura com a baba da noite anterior. Há cabelos grudados em meu peito. Os lençóis da cama foram parar em algum lugar que não consigo desvendar de primeira. A ressaca é de 23 alcoólatras. A boca com gosto de merda, a cabeça pesando como uma bigorna. A fumaça do primeiro cigarro arranha a garganta como um ouriço. Ainda tem o catarro seco que quase que me sufoca. Mais ressaca. Ressaca moral também, mas não de arrependimento e sim por fazer o tipo de merda que a maioria dos caras matariam para ter a oportunidade de estar em meu lugar e eu simplesmente não dar a mínima, pois é evidente para muitos que eu preferia estar no mesmo lugar com uma só garota que sequer precisa estar no mesmo continente que eu para me inspirar. E é só pensar nisso que minha mente volta como se estivesse pilotando um Delorean e me vejo deitado em meu quarto brincando com os seios dela. Displicentemente tocando-lhe o mamilo com os lábios, mordendo e me divertindo tanto que passaria horas e horas fazendo aquilo. Lambendo-lhe e beijando e mordendo e morrendo aos poucos com as lembranças. Morro cada vez um pouco mais sempre que me perco em meio ao passado. Sempre um pedaço de brasa que já fora chama se esvai. Ficam as cinzas que partem com o menor sinal de brisa até o dia que não sobrará mais nada o que lamentar. E se já não somos derrotados por deixarmos que nos digam a hora de levantar e deitar, comer e beber, nestas horas não sobram dúvidas. Quando se é derrotado em seu próprio campo de batalha não é difícil imaginar que perderá dali pra frente e seguirá perdendo até que o Destino enjoe de você e passará humilhar algum outro imbecil. É nesta hora que pensamos que a sorte está de bem conosco e voltamos a cair do cavalo, pois a esperança serve apenas para te fazer de otário por algumas horas e depois basta. Só que é como o álcool, basta um gole para atiçar seu lado viciado e quando percebe está bêbado e aprontando de novo.



Bento.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O POETA E O FILHO DA PUTA

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Não existe no mundo nada mais clichê que uma manhã chuvosa em São Paulo. Claro, digo isso para quem acorda cedo e sai de casa antes mesmo do Sol tomar sua segunda caneca de café.
Eu sou um paulista que odeia garoa e frio, exceto claro, quando estou em casa dormindo. Todas as coisas me convêm quando são ao meu favor.

O problema é que eu não estava dormindo, não estava sequer em casa e acabei descobrindo que fui excluído do Facebook. Digo, não da rede toda, mas uma pessoa específica me excluiu. Tudo bem, não foi a primeira vez, nem foi a primeira vez que esta pessoa me excluiu de alguma coisa. Primeiro fui extirpado da vida dela, depois do Facebook. Eu disse tudo bem? Porra! Quem eu estou tentando enganar? Tudo bem é o caralho. Fiquei puto. Com sangue nos olhos. Boca seca e morrendo de vontade de beber e descontar a raiva nas garrafas. Ou talvez sair e comer a garota mais bonita que eu encontrar. O problema é que eu estava num ônibus lotado, careta e atrasado para o trabalho.

Então venho ruminando o fato de ter sido excluído até agora. Eu parei de tentar buscar explicação para o fato de ainda me importar com qualquer decisão tomada por uma garota da qual eu não toco há cinco anos e aconselho vocês a nem começarem. Nem tudo tem explicação. Pelo menos não uma explicação razoável.
Alguns autores bostas de autoajuda dizem que as coisas são exatamente como devem ser e eu acho isso uma forma de tirarmos a responsabilidade das nossas costas pelas merdas que saem das nossas bundas. Então eu venho com outro clichê dizendo que a vida é um ciclo e de tempos em tempos eu tenho algo parecido com uma TPM. Tenho meu período de me maltratar. Meu período de maltratar o próximo. O período de assassino em série e o de querer foder todo mundo. Também tenho o período de beber muito e aquele de beber um pouco mais. A fase de mais destilados que fermentados e vice-versa. A fase de ser atacante e a de ficar na defensiva. O casulo e a lagarta. O poeta e o filho da puta. Tudo muda o tempo todo menos isso. Cem por cento menos um, menos dez, menos mil.

Bom, nesta minha fase o sol é insuportável, o frio é insuperável, o mormaço me sufoca e só o que liberta-me é amaciar a mente com tragos firmes e intensos. Algumas pessoas diriam que isto não passa de uma desculpa para beber. Mas quem de nós não passa a vida inteira procurando desculpas para qualquer coisa? Se o Diabo é o pai da mentira também é padrasto da desculpa e eu pedi tantas, incansavelmente, nem todas merecidas, porém às pedi mesmo assim no intuito de provar arrependimento. Claro que eu não consegui e estar na pele de um perdedor é ruim para um vaidoso como eu.

Mas por que a exclusão? Por que agora? Psicólogos diriam que este sentimento é só curiosidade de saber o motivo. Eu diria que psicólogos ganham dinheiro fácil. Há curiosidade. Mas nesta minha Sina eu me pego pensando o que não há?
Tudo no mundo é alimentado por alguma coisa. Desde os átomos aos micróbios. É a energia que move o mundo e meu alimento era saber que ela poderia estar olhando como ela me revelou uma vez. Não sempre, em algum momento, um mínimo instante, qualquer fração de segundo e lá estaria ela vendo-me, lendo-me, agora, nada. Nada!

Nem um sopro de ar, nenhuma fagulha de chama, nenhuma ficha para apostas. Sem portas nem janelas. Sem vista, nem olfato. E é quando eu quero culpar e culpar. Culpar Deus e o Inferno. Rasgar a carne, extirpar órgãos. Usurpar sonhos. Estuprar as virgens dos paraísos, destruir religiões, estraçalhar sorrisos e matar tudo que é belo. Quero incendiar igrejas e demolir santuários. Quero esquartejar anjos, decapitar santos e pendurar suas cabeças como exemplo, quero destronar o Diabo, aleijar demônios, vingar-me do destino e banhar-me em todo o sangue. Maldito, sorrir e me banhar. A morte como estandarte. Gargalhar com a desgraça toda e brindar em cima dos cadáveres. Pois é tudo o que tenho. E só o que tenho e duvido muito que mereço mais que isso. Sequer isso.


Bento.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

UM VICIADO EM SEXO COM ASCO DE CALCINHAS É COMO UMA VACA COM ALERGIA A LACTOSE

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Eu estou no segundo copo de whisky e tenho escrito algumas coisas um tanto fortes para o perfil das pessoas que leem o que escrevo. Eu não me importo, pois mais prazer que ter pessoas lendo o que eu escrevo eu tenho quando escrevo o que eu quero então foda-se. Esse whisky que eu tomo hoje eu ganhei de uma garota, e uma vez ou outra eu ganho esses tipos de agrados. Além, claro, dos agrados sexuais. E tenho de dizer que uma garrafa de Jack é sempre um bom presente a se receber.
Digo isso pois tenho alguns vícios que vocês já devem conhecer todos muito bem. Logo, dentre tantas discussões medíocres por aí sobre política e a porra toda, ao invés de ir ao bar eu prefiro ficar em casa tomando grandes goles de Jack e mantê-lo na boca por alguns segundos até sentir todo seu sabor.

Houve um tempo que passei a odiar calcinhas. Não sei dizer ao certo de onde veio isso, mas era só ver uma garota no meu quarto, começarmos a nos beijar, o sexo pedindo passagem e eu imediatamente arrumava um jeito de tirar a calça da garota com calcinha e tudo para que não tivesse que olhá-las. Calcinhas feias, bonitas, grandes ou pequenas, renda ou algodão. Eu só odiava calcinhas. Perdia um terço do meu tesão caso me deparasse com elas. Eu nunca gostei de lingerie vermelha - isso também não é segredo - mas nesta época eu não gostava de calcinha nenhuma. De nenhuma cor. Só de ouvir uma música do Wando eu já ficava enjoado imaginando um mundaréu de calcinhas em cima de mim. Era complicado e nada saudável. As calcinhas penduradas nos varais dos vizinhos faziam meu corpo se contrair. Bem, dito isso, deixo claro aqui que um dos meus vícios, dentre tantos, é o sexo com garotas e de preferência magrelas e tatuadas, e não é nada - nada mesmo - saudável ter asco de calcinhas quando se está todo fim de semana bebendo, fumando e baixando calças junto com calcinhas para que não às veja. Uma hora ou outra o truque falha. Um viciado em sexo com asco de calcinhas é como uma vaca com alergia a lactose. Não faz muito sentido. De qualquer forma, assim como veio passou esse negócio das calcinhas.

Não muito depois disso eu comecei a trocar as garotas magrelas e peitos grandes por garotas de peitos pequenos e bundas enormes. O que vai contra tudo o que eu prezo numa garota. Mesmo assim troquei todas. Até aquelas que iam até minha casa regularmente eu deixei de lado, pedi espaço, aquela coisa de homem de precisar respirar ares novos, precisar de um tempo só. Como eu escrevo, para algumas garotas eu dizia que precisava focar mais na escrita, pois estava relaxado, perdendo a mão. Curioso é que esta desculpa foi a que teve mais aceitação. As garotas diziam: Ok, amor. Me manda um texto para eu ler.
- Certeza que mando. Eu respondia.

Então comecei a procurar as bundas enormes por bares e conhecidas que eu não reparava por não se tratarem do estereotipo que até então admitia. Tudo transcorreu perfeitamente bem. Conheci belas bundas. Brancas, negras, bundas grandes, muito grandes e as gigantes e desproporcionais. Bundas que batiam nas minhas coxas de tão grande quando colocadas por cima para trabalharem. Nesta época eu percebi que eu não ligava tanto para a beleza dos rostos - vejam que heresia - afinal, eram as bundas que eu olhava. Ter uma grande bunda nas mãos e não aproveitá-las da melhor maneira possível é estupidez. Para quem gosta de tamanho as brancas são as melhores, pois aparentam ser bem maiores, só que tudo é uma questão de ótica.

Então essa fase das bundas também passou e eu voltei às magrelas. Nunca me decepcionei com garotas ossudas. A flexibilidade, a agilidade, a safadeza...

Tem uma coisa também e isso parte mais de uma particularidade que qualquer outra coisa. As melhores transas da minha vida foram com magrelas. E muita gente acha que eu critico as gordas pelo simples fato de nunca ter tido uma boa transa com uma gorda e eu respondo: É verdade. Mas não é isso. Entendo eu que gordas são gordas e que essas mesmas gordas têm um desejo imenso de serem magras e não conseguem. Eu entendo isso. O que eu não entendo é essa mania das gordas de tentarem nos convencer de que estão bem sendo gordas e que nós homens é que somos uns fúteis por preferirmos beleza e magreza e não nos importarmos com - muita atenção para o termo que eu usarei agora - "beleza interior". Como se as gordas fossem melhores que as magras só pelo fato de serem gordas. Como se nossos neurônios estivessem ligados à quantidade de banha que temos em nossos corpos. É só pra mim que soa arrogante uma pessoa achar que é mais inteligente que todas as outras que são mais atraentes sexualmente que ela? É visível só pra mim que o mesmo preconceito que as gordas dizem sofrer elas têm com as garotas magras?
Bem, sinto em dizer - mentira, não sinto - mas eu prefiro as magras, pois é bem mais fácil ensinar uma equação matemática à um macaco que convencer um elefante a parar de comer.

Então eu tenho essa insistência com gordas e muita gente diz que vou acabar terminando meus dias ao lado de uma obesa. Pode até acontecer, contudo isso é tão possível quanto eu acabar casando com um saco de berinjela, pois eu não gosto tanto quanto.

Eu também falo uma porção de coisas sobre os religiosos e por incrível que pareça esses enchem menos o meu saco com essas crises de hipocrisia. Esses são hipócritas só com a vida e o mundo, comigo nem tanto. Mas é bem capaz - segundo diz a lenda - que eu casarei com um saco de berinjelas, morrerei esmagado por uma gorda e partirei sem escalas para o inferno, deixando órfãos duas ou três crianças berinjelas, afinal também não suporto criança. Isso, claro, se nenhuma gorda aparecer para comer meus filhos.



Bento.

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sábado, 8 de novembro de 2014

NÃO EXISTE PROBLEMA NO MUNDO QUE NÃO PAREÇA INSIGNIFICANTE QUANDO SE ESTÁ SENDO CHUPADO DECENTEMENTE

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Somos todos estranhos mordedores de nada. Somos um monte de bosta sem saber pra onde ir. Digo que a única coisa da qual tenho conhecimento é meu gosto e disso eu entendo super bem. Por mais bêbado que se possa estar sempre sobra uma fagulha de consciência. Você está lá, em algum lugar dentro da sua mente assistindo na primeira fila as merdas que você faz. Claro que "merda", no meu entendimento é um termo ambíguo. Pode ser bom ou ruim dependendo da ótica.

Estamos num calor de 400 graus e eu estava deitado nu com as costas no chão, levantando a cabeça somente para mamar a garrafa de cerveja. A garota estava deitada de bruços na cama alisando meus cabelos e brincando com minhas sobrancelhas enormes. Lucia era o nome dela.

- Não sei o que você tem, mas você tem... Sabe? Ela dizia.

Eu não fazia ideia do que ela falava, mas eu ainda tinha cabelos dela grudados em meu peito magricela e era difícil raciocinar com todo calor que anda fazendo.

- Eu acho que você esta empolgada só porque gozou, amor. Não tem nada demais. Eu respondi.

Ela pegou a garrafa da minha mão e bebeu um gole longo. Pedi que ela acendesse um cigarro e me ajudasse a fumar. Ela acendeu e colocou na minha boca para que eu pudesse tragar e depois ela também fumava.

- Não é só porque eu gozei. Claro! Também é porque eu gozei, mas nem era pra eu dar pra você. Você é o cara mais podre que eu conheço. Ela disse.

Pedi mais um trago no cigarro e seus dedos compridos e magros levava-o até meus lábios. Eu não vou negar que senti um tremendo orgulho subindo pelo meu peito. Eu sempre disse que se é para ser melhor em alguma coisa então que isso lhe traga algo de bom. Ser o pior cara que ela conhecia deixava-a de cabelo em pé e com uma luz de alerta bem acesa. Ela transou comigo por uma inconsequência e já repetiu tal equívoco meia dúzia de vezes. O que ela queria saber é porque não conseguia sentir o mesmo tesão pelos cuzões que levavam ela a motéis caros em seus carros emprestados dos pais e correntes de prata no pescoço que poderiam me fazer tombar para frente. Ela não sabe a resposta até hoje, eu também não sei, mas suspeito que tudo é uma questão de estilo. Faça tudo com muito estilo, com originalidade, pode ser que não dê em nada, mas pode ser que você seja apontado na rua como O Cara. Nunca se sabe.

- Talvez você precise conhecer mais gente. Eu respondi a acusação dela com uma falsa modéstia

- Sem falsa modéstia, senhor Bento. Ela disse.

Eu sorri de olhos fechados e joguei o restante de cerveja da garrafa direto na boca. Um pouco escorreu pela minha barba e ela passou os dedos e chupou. Chupou como se chupasse algo maravilhosamente saboroso. Claro que isso foi o suficiente para que eu ficasse duro novamente e fossemos para debaixo do chuveiro transar mais uma vez.

Toda vez que ela vai embora sentencia que não voltará mais. Eu sinto receio de que um dia ela cumpra a promessa, no entanto não demonstro. Finjo que não ligo, que não acredito e ela parece não acreditar, tomando minha atitude como um desafio. Eu não quero que ela pare de vir, porém não consigo juntar forças para dizer que quero que volte sempre. Toda a minha força foi gasta com alguém que nunca voltou, logo, tenho por mim que quem quer fica, quem não quer parte sem retorno e isso independe de qualquer coisa que fazemos. As pessoas simplesmente fazem o que elas querem, sem se importarem com qualquer outro que não eles mesmos. Não podemos assumir responsabilidades por coisas que não são de nossa alçada, que não podemos controlar. Uma transa é só uma transa até que os dois resolvam dar mais significado a ela.

De qualquer forma, numa outra situação lá estava eu com outra garota. Esta não era tão magra quanto Lucia, nem tão bela, mas conseguia me fazer gozar com uma habilidade que só ela possuía.
Num dia desses lá estávamos bebendo cerveja até que ela decidiu me chupar.
Chamava-se Priscila e chupava como se sua vida dependesse disso. Um talento pouco visto em todos esses anos de bebedeiras e situações imprevisíveis que já tive. Eu sempre valorizei uma garota que chupe e pareça gostar de fazê-lo. Mas para não me afastar muito do assunto. Eu ganhava uma boa chupada e fumava meu cigarro intercalando com goles de cerveja. Para você que está lendo isso lhe garanto. Não existe problema no mundo que não pareça insignificante quando se está sendo chupado enquanto dá uns traguinhos. Tudo no mundo torna-se mesquinho e sem importância. Eu penso que os programas sociais do governo deveriam substituir as bolsas quase-nada e casas populares por belos e deliciosos boquetes. Todos seriam mais felizes. Você pode aguentar morar de aluguel, o que não se pode passar sem é um boquete bem babado.
Cheguei a pensar nos outros caras, quantos deles passaram ou passarão a vida inteira sem uma chupada sensacional? Ou pelo menos sem viver um momento como eu estava tendo a oportunidade de ter. Ela chupando e eu fumando. Quantos contadores, auxiliares administrativos, bancários, vendedores, garis, formarão famílias, farão tratamento de canal, morrerão de câncer sem serem chupados decentemente, ou terão o privilégio de serem chupados por duas garotas ao mesmo tempo? Olhar para baixo e ver duas cabeças brigando para abocanhar seus pintos. Esses caras podem até dizerem que a vida não é só isso, mas garanto a vocês que todos, sem exceção, lamentarão em seu leito de morte os boquetes de suas respectivas esposas. Digo isso, pois boa parte das mulheres chupam com um sacrifício na alma. Algumas mulheres usam o boquete como moeda de troca e só não conseguem mais porque não fazem decentemente. E eu me vi como um cara de sorte. O Destino tem lá suas crises comigo, mas de tempos em tempos me faz um agrado.

Mesmo assim, ainda existem aqueles caras que se contentam apenas com as calcinhas de suas esposas penduradas na lavanderia de seus apartamentos minúsculos com o fundo da peça amarelado virado para o vitrô da cozinha. E a cada garfada no purê de batata ele sente o gosto do que ele imagina ser o mesmo gosto do corrimento no fundo da calcinha. Tudo isso é só imaginação, claro.
Ainda existem os homens que preferem as garotas que deixam seus absorventes usados fora do lixo do banheiro ou que justamente no dia que vai deixar o sutiã a mostra elas escolhem o mais velho e encardido. Preferem a vida de dormir assistindo a novela e ir ao hipermercado aos domingos. Assim como existem mulheres que preferem os homens que tentam se parecer com o Gustavo Lima com tatuagens de arame farpado e cabelos lamentáveis. Ou os barrigudos que passam a vida mostrando o rego acima do cinto. Que levam as chaves penduradas no bolso da calça. Que usam cuecas vermelhas, amarelas e afins. Homens de sapatenis. Homens que vão até a venda de samba-canção. Aos meus olhos são todos estranhamente doentes, bem como eu deva ser insanamente incomum para alguns. Somos todos estranhos. De uma mediocridade tamanha.


Bento.

sábado, 18 de outubro de 2014

VIAGEM SÓ DE IDA AO INFERNO E FANTASIAS DE GAROTAS


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Eu sempre penso no passado e no futuro. Penso pois sou de pensar muita coisa. Não vou negar, sou um arrogante e um egocêntrico que quando penso, logo penso em mim e em minha vida. Sou um egoísta porque prometi que seria há tempos e cumpro até hoje.
Penso que alguns anos atrás eu estava voltando para casa tão bêbado quanto se pode estar. Eu não sabia onde estava, mas sabia para onde ia. Instintivamente eu sabia. Bêbado nunca esquece o rumo de casa, quando esquece está morto. Eu sou um bêbado, nunca escondi de ninguém, no entanto eu sou. Há tanta gente por aí que sequer é alguma coisa.

Então uns quatro anos atrás, ou mais eu diria, eu estava muito bêbado e andarilho, isso porque tinha perdido o último metrô. Tinha parado no meio do caminho para mijar, pois quem bebe sabe que chega um momento que não se pode mais segurar. É como o vômito, se pede passagem dê boas vindas, não há o que fazer. Eu já não vômito há uma década, mijar é outra história. Eu estava há quilômetros da minha casa e precisava andar muito. Meus pés já não aguentavam mais e meus cigarros estavam acabando. Minhas pernas entrelaçavam uma na outra e minhas mãos e cotovelos em carne viva de tanto se apoiar nos muros. Por duas vezes quase ganho uma mordida de cachorro por enfiar o braço em um portão perigo. Beber é para quem tem o dom. Não se pode decidir da noite para o dia ser um beberrão, é preciso talento e coragem, destreza e habilidade e isso eu sempre tive de sobra. O fato é que cansei, e surpreendam-se se quiserem, eu cansei de andar. Mesmo bêbado cansei. Meus pés latejavam a ponto de me fazerem esquecer dos ralados nas mãos e braços. Eu fumava e sentia embrulho no estômago, quase que vomitando, porém como eu disse, eu nunca vomito. Sentei e dormi. Dormi o sono dos vencidos. Olha que nunca fora fácil derrotar-me, não para o álcool. Sempre brigamos de igual para igual. Mas como profissionais, daqueles que se respeitam e se cumprimentam ao final de cada luta. Nesta fui vencido e dormi. Ali, na sarjeta, com a bituca do cigarro ainda entre os dedos. Acordei com os mendigos, com o sol e as portas de aço dos comércios se abrindo para um novo alvorecer do capitalismo e só depois cheguei em casa.
Vou ser sincero, não foi a primeira nem a última vez que dormi na sarjeta. Não eu. Num outro texto eu falei sobre homens que perdem um amor e o quão eles deixam de existir. Bem, vendo o homem que sou hoje tenho de dizer que há três ou quatro anos eu não era nem dez por cento, não chegava a dez por cento. Era um maltrapilho metido a esperto e de uma arrogância tamanha simplesmente porque tinha lido dez vezes mais livros que qualquer outra pessoa que eu conhecia. Mas o que isso queria dizer, eu me pergunto hoje e eu mesmo respondo: nada, exatamente nada. Enfim, eu não passava de um estragado que vivia estragando a minha vida e a vida das pessoas que me rodeavam. Tive amigos ficando depressivos para acompanhar minha fossa. Vê se pode? Não quer dizer necessariamente que eram todos bons amigos, não, definitivamente não. Alguns eram, mas nem todos. De toda forma eu era um lixo, e mesmo que eu pudesse não teria meu amor de volta. Também pudera, quem gostaria de ter ao lado alguém como eu? Muita gente, se querem saber. Foi uma época que transava como ninguém e por incrível que pareça, mesmo bêbado como um porco ainda tinha saúde a ponto de transar e merecer que elas voltassem. Não todas, só as que eu queria que voltassem. Desta época tenho garotas que voltam até hoje, pois sabe como é, algumas coisas são como andar de bicicleta. Mas definitivamente não foi a primeira vez que eu acabei dormindo com a cara na sarjeta. E pela primeira vez eu vou dizer aqui: tudo culpa de uma mulher. Tudo culpa dela. Do primeiro copo ao último cheiro na carreira.  Todas as brigas, os porres, as transas de esquina, as esporradas na cara de estranhas, os gorfos alheios em meu pau e etc. O lixo, a podridão, a destruição do meu corpo e minha alma, o pacto com o Diabo, é tudo culpa dela. Claro que houve uma cooperação de minha autoflagelação e minha persona non grata no mundo dos inocentes, mas de resto a culpa é unicamente de uma mulher. Eu sei qual é, algumas pessoas sabem de quem eu falo, talvez você mesma esteja lendo isso e me acusando de calúnia, porém a culpa é sua. Pronto. Resolvido. Vida que segue. E seguiu, mais ou menos. Pois assim como a culpo pelas mazelas eu também dou credito pelos louros. Sempre disse aqui que não comecei a escrever do nada. De início escrevia letras de músicas, mas eu era um jovem e não sabia nada da vida. Com a tragédia passei a escrever outras coisas até que cheguei aqui. E depois, só depois de quatro anos e pouco a culpo por qualquer coisa ruim. Acontece. Tarda mas não falha.

Mas queria falar sobre outra coisa. Queria falar como as coisas simplesmente acontecem. Eu nunca fui daqueles de decorar frases feitas para soprar aos ouvidos das garotas e esperar que elas caíssem de amores por mim. Talvez fosse minha rejeição aos clichês falando mais alto desde cedo. Eu sempre fui o sujeito que fui chegando aos poucos, com cuidado, me aproximando como um gato da folha seca. E sem que elas dessem conta do perigo lá estava eu com as garras afiadas na carne crua e macia, pronto para me deliciar. Ainda hoje as coisas seguem da mesma forma, o destino coopera porque ele gosta de se divertir e eu sou um bom entretimento para ele. Como um serial killer eu me aproximo fingindo-me de inocente mas sendo denunciado pelo olhar e este sempre me trai, afinal de inocente ele não tem nada.

Pronto.

Acaba que somos dois seres desejando a mesma coisa nas ainda disfarçando e é dessas situações que saem as melhores transas. Uma casal de mineiros se comendo secretamente. Aprendi que o maior segredo da conquista esta no cotidiano. Artificialmente consigo fazer com que uma coisa leve a outra, todavia tudo foi planejado, inclusive as falas. A cerveja ajuda a afastar a inibição e brincadeiras vão virando verdades conforme as garrafas vão esvaziando e pronto, simples assim. Parece fácil, só que não é. Necessita de talento para tanto.  Falando em talento, se este é a primeira vez que lê algo meu precisa saber que eu sou um egoísta do tamanho do mundo e que possuo tamanha arrogância de escrever só para mim. No entanto, hipócrita não sou e não vou fingir que torno meus pensamentos públicos para regar minha vaidade. Então estava conhecendo um novo bar com alguns amigos e todos começaram a falar de meus textos. Uma garota dizia que inspirava-se neles para escrever. Um cara dizia que esperava ansiosamente cada publicação imaginando-me no ato da escrita com máquina de escrever, whisky, cigarros e os demônios à sobrevoar minha imaginação. Eu poderia ter dito a ele que em toda minha vida estive diante de uma máquina de escrever apenas duas ou três vezes, porém não se pode podar a imaginação de ninguém. Por fim começamos a lembrar de alguns textos e eles se saíram melhor que eu, pois possivelmente os destilados ajudaram a acabar com o pouco de memória que eu tinha.

Dias depois descobri que arrumei uma nova paixão, daquelas que já citei por aqui e insisto - se você nunca leu nada sobre mim precisa saber - tenho um fraco por garotas lindas, tatuadas, magras, de pernas finas e barriga reta. Esta nova garota que conheci só não é tatuada e me vi apaixonado em pouquíssimo tempo. Trata-se de uma perfeita combinação de tudo que almejo e é claro que ela deve ter todos os defeitos do mundo como todas as outras pessoas do universo e seria tedioso caso não tivesse. Como aqueles momentos que você leva um choque quando toca em alguém, foi assim quando toquei sua cintura, por um leve momento. Mais um esbarrão que um toque e eu pude sentir sua cintura fina, barriga lisa e naquele momento eu a vi nua - só em minha imaginação, claro - estendida em minha cama, com rosto sonolento enquanto eu a observava do lado oposto do quarto fumando um cigarro e desejando que aquele momento não acabasse nunca. Imaginei-a com as pernas levemente dobradas, uma mais que a outra, uma mão abaixo do queixo e a outra repousada na barriga. Magérrima e linda, cabelos emaranhados e eu com dor na bexiga de segurar o mijo sem querer desviar os olhos daquele quadro maravilhoso. Sua cicatriz no rosto perfeito lembrando-me que todo paraíso tem seu porém. Um dramático eu sou? Sim! Um grande romântico? Com certeza!
Sentindo-me um adolescente que sonha acordado com a professora, neste momento eu corei e tão rápido meu devaneio fora que não creio que ela notou minha timidez momentânea. A diferença é que neste caso eu seria o professor do ginásio, afinal, por mais vivida que ela possa ser nada se compara às merdas que eu já fiz, aos infernos que eu já habitei, aos esgotos em que eu já dormi.
Digo que sou um romântico, pois como qualquer tarado - não descarto que eu seja um e dos piores - eu deveria imaginá-la nua e amarrada, nua e bem acordada, nua e realizando as minhas fantasias mais secretas, afinal, devaneio é devaneio, no entanto quis minha mente levar-me para meu quarto e espiá-la dormindo. Talvez isso deva-se ao fato de que tê-la, ali, repousando após o esforço de nos deliciarmos seja a minha fantasia mais secreta, tão secreta que mesmo eu não tinha conhecimento. E eu que sou um rebelde achando que minha maior fantasia obrigatoriamente teria de ser selvagem e violenta. Ao contrário, tão leve como a fantasia de uma garota. Vai entender.


Agora, quero que entendam o motivo pelo qual eu escolhi dividir este pensamento entre tantos que possam ser mais importante ou até mais divertido. Começarei dizendo que meus finais de semana são todos ao extremo como minha vida toda. Ou passo solitário apenas com a companhia do Tédio, ou passo os dias de descanso cometendo das mais intensas colaborações para minha viagem só de ida ao inferno, de acordo com os religiosos. Das maiores atrocidades, até a pele sangrando por unhas femininas. Garrafas e mais garrafas vazias e cama cheia. Então posso dizer que o último fim de semana nada teve de tedioso. Todavia, mesmo com os lábios dormentes, as pernas bambas, as paredes sussurrando pornografias, eu não conseguia me desprender de um pequeno esbarrão da cintura da garota com a pequena cicatriz no rosto.


Bento.

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sábado, 27 de setembro de 2014

O PECADO DE DEUS FOI CRIAR O FEIO. ERROU E TIROU CÓPIAS

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Eu estava parado na frente de casa. Tinha ido buscar as correspondências e recolher a merda dos cachorros e fiquei ali, parado. Era sábado e o carro que vende ovos estava passando por ali. Talvez eu precisasse de ovos, mas me contive. Estava de bermuda e camiseta e apenas os cigarros nos bolsos. 5 Reais a dúzia ele alarmava em seu alto falante e dizia que seus ovos eram os melhores. Como se as cloacas de suas galinhas fossem melhores que as dos outros. O carro dos ovos se foi debaixo de um sol tímido, porém o bastante para criar ânimo suficiente para abrir uma cerveja, eu estava na segunda e não tinha passado das onze horas.

Normalmente eu só bebo cerveja de manhã quando estou de ressaca. Esse negócio de que cerveja é um bom remédio para ressaca não é história, eu aprovo. Confesso que o primeiro gole é difícil, mas depois fica tudo nos conformes. Não estava de ressaca porque cheguei do trabalho no dia anterior e dormi. Estou numa fase de deitar e dormir com uma facilidade incrível. Bebia um gole da cerveja, tragava mais uma vez o cigarro e pensava que caso eu tivesse meus vinte anos novamente estaria me odiando uma hora destas. Vinte anos ou menos. Diria o eu mais jovem que tinha me vendido. Não passava de um coxinha vendido, traidor do sistema. Horas atrás eu estava de sapatos e camisa, como aqueles caras de escritório. Vendido. Por um salário bem maior eu me prestava àquele papel, vestir-me como um idiota. Pensei que já não tinha mais vinte anos e que meus vícios só aumentavam e com isso um salário maior era mais que necessário. E daí que meus sapatos me faziam sentir-me como um palhaço num picadeiro? Eu nunca fui um comunista idiota e nem tinha pais ricos, ou ao menos de classe média, então sempre precisei trabalhar e se este trabalho tinha por fim um salário mais gordo, bem, que sorte.
Passei a pensar que precisava de uma cama nova e maior. Eu estou ficando velho e dormir numa cama de solteiro, velha e acompanhado já não era tão fácil como quando eu tinha vinte anos. Minhas costas, o pescoço, braços, eles reclamavam. Na caixa de correio tinha um jornal das Casas Bahia e talvez por isso passei a pensar em trocar de cama.

Comecei reparar nas pessoas que passavam pela rua a pé ou de carro e lamentei por uma sequencia de dez ou mais pessoas feias. Onze, doze. Comecei a desconfiar daquele dia. Tenho tudo contra pessoas feias. Treze eu contei, incluindo minha vizinha crente e gorda e o cara do carro do ovo. É incrível como existem pessoas feias no mundo, se duvida vá para qualquer lugar público e bem movimentado e comece a reparar. Eu já aprendi a filtrar, a só reparar nas pessoas bonitas. Os belos são inspiradores. Estações de metrô, pontos de ônibus, shoppings, hospitais, só gente feia. Um ou outro que se salva e você aprende com o tempo a filtrar. No entanto, em alguns lugares não existe nada para filtrar. É como derramar água numa peneira. E convenhamos que os feios sejam tão deprimentes. Esse tipo de lugar onde só se vê feiura me causa tédio e depressão. Outro dia estava parado na porta do shopping esperando uma garota e era um dia como hoje. Uma sequência incrível de pessoas feias. Trinta, quarenta... E um e dois e três. Fumava um cigarro e esperava a garota.
Ao meu lado havia três mulheres campeãs em feiura. Uma pior que a outra. Cabelos feios, roupas feias, risadas feias. Uma delas estava grávida e eu pensei: mais uma pessoa feia no mundo.
Entendam, pessoas feias nos trazem pensamentos horríveis. Ao sentir um fedor, por exemplo, você logo procura alguém feio para culpar. Num elevador cheio de pessoas, você sente um cheiro de peido e seu inconsciente já acusa o mais feio porque internamente achamos que pessoas bonitas não fedem e nem peidam, e caso peidem, trata-se de um peido mais ameno. Claro que isso é um absurdo, mas inconscientemente ligamos feiura a fedor. Ser feio realmente é uma tristeza. Feiura lembra pobreza, lembra merda. O pecado de Deus foi criar o feio. Errou e tirou cópias.

Ainda sobre beleza, tenho reparado que as melhores garotas já foram domadas. As belas e estilosas, as belas e inteligentes, as belas e burras, as belas e ricas e também as pobres. Até as belas e lésbicas já foram domadas.
Eu sempre tive como conceito não pegar o que é dos outros. Um pacto que eu fiz com as forças maiores. Realmente um conceito, meu. E como toda regra, minha, eu posso quebrá-la a hora que eu bem entender e por isso, por vezes as quebro.
Então outro dia sai com uma garota, linda, uma delícia, de uma safadeza impar, a ponto de me deixar constrangido, coisa difícil de acontecer, mas constrangido eu fiquei tamanha safadeza, da garota, que era casada. Acontece. E acabou acontecendo e garanto que não me arrependo. Fugir de regras, mesmo que as minhas, ainda me traz certo prazer de jovem. Já que as mais belas já estão com baitas alianças nos dedos alguém tem que sair feliz nesta história toda e eu sempre tendo pro meu lado.

Mas voltando a falar das feias. Outro dia comecei a receber fotos de uma garota, feia, tadinha. Todo dia olhava o celular e tinha uma foto nova desta garota. Começou com fotos normais, depois passou a fotos com caras e bocas até que recebi a primeira foto dela nua. Uma após a outra. Às vezes de manhã, semiacordado, com meu mau humor nas alturas, ainda no primeiro cigarro e aquela visão do inferno no meu celular. Outras vezes de noite, cansado do trabalho, já no último cigarro amaciado pela dose de whisky antes de dormir e me deparo com aquele espanto. Uma mistura de seios asquerosos, rosto perturbador, barriga temerosa, pélvis peluda. Alguém precisa dizer a essas pessoas que ser solteiro não é sinônimo de desespero, nos dias de hoje? E que a intensidade do tesão não vai de acordo com o tamanho de bundas e peitos. Só gosto de abundância de carne nos meus churrascos. Convenhamos, eu tenho uma reputação a zelar.

Bento.