domingo, 31 de agosto de 2014

A VIDA NÃO PASSA DE UMA GRANDE ESTEIRA LOTADA DE MERDA QUE VAI PASSANDO E PASSANDO

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Eu voltava do trabalho numa sexta-feira, o dia internacional do pecado, para mim e para o mundo - exceto os religiosos, estes pecam todos os dias. Eu digo voltava porque meu destino era minha casa. Não tinha um puto no bolso. Se for estranho para você ler que eu trabalhei o mês inteiro e estava voltando para casa por estar sem dinheiro, digo que você é uma pessoa feliz, pois a maioria das pessoas conhece o gosto amargo desta frase. O problema de voltar para casa na sexta-feira é que você não fica feliz de encontrar o metrô e o ônibus vazio, pois sabe que todas as outras pessoas estão em bares e puteiros e postos de gasolina, todos com suas cervejas geladas, soltando suas risadas com outras pessoas felizes das quais conseguiram fazer com que seus salários durassem o mês inteiro. Por isso digo que o caminho de volta para casa na sexta-feira tem sabor amargo. O excesso de sangue em sua corrente sanguínea e nada de álcool nas veias tem um sabor amargo. Mas tudo isso ainda pode ficar pior.

Eu tenho um problema com belas garotas. Tenho o problema de querer pra mim qualquer mulher que ultrapasse os limites possíveis de beleza. E ainda existe o fato de que alguns graus de beleza vêm embutidos com uma crueldade ferrenha de trazer-nos para a realidade de que não temos, e ainda potencializado pelo problema de voltar para casa no dia especialmente dedicado a beber e ficar bêbado, muito bêbado. Toda merda feita em consequência do álcool numa sexta deveria ser perdoada. Isso deveria ser lei. O 11° mandamento. As pessoas amam mais na sexta-feira, até. Caso Deus fosse um cara justo ele teria feito duas sextas na mesma semana. Porém, deixo de lamentar-me as injustiças divinas sobre o calendário para falar da tal garota que encontrei no metrô, afinal. Eu já disse aqui que sou um apaixonado por cabelos e mais cabelos negros e longos, no entanto, tenho uma coisa quase edipiana com cabelos loiros e olhos azuis. E digo mais: que se fodam todos os nacionalistas agora. Ela era um belo exemplar de europeia dos países baixos. Difícil até para mim, dramático que sou, traduzir em palavras o motivo da minha camisa ensopada de baba que eu derramava por causa de seu rosto. Tratava-se de um encaixe perfeito de queixo e nariz e olhos e testa e lábios e eu já estava apaixonado antes mesmo de pensar em escrever estas linhas. Quando eu era mais jovem e ainda tinha um bom relacionamento com Deus eu agradecia a Ele por ter minha visão perfeita e poder apreciar tais perfeições colocadas em nosso mundo para lembrarmos-nos de nossos defeitos e limites. Hoje não agradeço mais. Ainda tentando fazer com que vocês imaginem algo pelo menos próximo ao que eu havia presenciado, eu tenho um conhecido que diz que esse tipo de garota é para comer num papai-mamãe básico no intuito de não perder aquele rosto de vista. Tinha um outro que dizia que certas garotas são bonitas até cagando. Essa era um tipo deste.

Mas eu tenho outros vícios além de garotas tão lindas quanto nossas mentes possam imaginar, o álcool e a escrita. Eu sou um reparador irremediável. Você, seu bosta, que está apontando para a tela do computador com seu risinho estúpido desfazendo do autor e dizendo a si mesmo não existir a tal palavra "reparador" no intuito de reparar quero mais é que você morra com uma lança enfiada no cu, pois eu invento o que eu quiser. Então voltamos ao ato de reparar e analisar sobre roupas, dedos dos pés, manchas amarelas nas camisas abaixo das áxilas e por aí vai. Combinações de cores sempre mexem com minha libido por achar que é necessário um extremo bom senso para o êxito nas combinações e lhe digo, engolindo com gosto todas as injúrias que disse em todos esses anos sobre a vestimenta alheia. Digo, pois esta garota estava vestida com uma das piores combinações de todos os tempos e eu me omiti. Não disse uma palavra sequer. Sapatos vermelhos, calças listradas de branco e preto, blusa verde, cachecol roxo e bolsa laranja e eu não fiz uma critica nem mentalmente. Reparei e guardei pra mim no mais profundo âmago. Traí meus conceitos sem mesmo me lamentar, simplesmente pelo motivo de que algumas garotas têm rostos tão perfeitos que nada mais importa. Só fui lembrar-me da sexta-feira deprimente quando ela desceu na estação Paraíso e eu lembrei que talvez eu pudesse estar bebendo com paisagem, na Rua Augusta e me embebedar com a beleza das garotas de lá.

A sexta-feira passou sem maiores problemas e o final de semana também, bem como toda a semana seguinte de trabalho porque as coisas simplesmente passam. A maior parte da sua vida passa e é só isso que acontece. Nada de outro mundo, nenhum incrível fato que mereça comentário. Para quem lê, a sensação deve ser de que a vida de quem escreve é sempre ativa e singular mas a vida é uma merda para todo mundo. A vida não passa de uma grande esteira lotada de merda que vai passando e passando e o pedaço que tem menos merda você acaba por pensar que está melhorando. Então nós que escrevemos cortamos os momentos em que a esteira está cheia e só falamos, pelo menos na maioria das vezes, das partes com pouca merda.

Era uma quinta-feira, eu acho. O frio tinha ido embora e estava um clima agradável e eu estava voltando para casa com um livro de Bukowski aberto. Como ainda era quinta-feira não havia lugar para sentar e eu lia em pé. Até que começou a entrar mais e mais gente conforme as estações do metrô iam passando. Parando e pegando pessoas. Todos voltando ou indo para algum lugar. Do trabalho, da casa do namorado ou namorada. Velhos voltando do médico, crianças voltando da escola. Velhos voltando do médico com suas crianças. Tarados passeando de metrô a fim de esfregar algumas bundas e por aí vai. Eu estava em pé lendo alguns contos de Bukowski, voltando do trabalho numa quinta-feira e reparei ao erguer os olhos que na última estação haviam entrado duas garotas no vagão, desconhecidas uma da outra e além de seus rostos lindos como um gato brincando com uma folha seca, elas eram simplesmente incomuns. Uma era ruiva e a outra loira. Ruiva e loira de verdade. Com sardas e tudo. Vocês sabem como é raro encontrar ruivas e loiras de verdade hoje em dia? Ainda mais no mesmo vagão e horário. Então eu poderia interpretar aquilo do jeito que eu escolhesse e decide interpretar como um sinal positivo. O Destino por alguma razão estava de bom humor e queria que eu soubesse disso. Nunca escondi que o Destino e eu somos arqui-inimigos, mas mesmo nós damos uma trégua de vez em quando.

Então voltando para a sexta-feira maldita da qual eu não tinha dinheiro e nem lugar para ir. Acabei indo para casa. Abri o livro de Bukowski, abri a garrafa de whisky, pois mesmo sem dinheiro o álcool nunca falta. Sempre há uma garrafa de qualquer coisa no frigobar ou na cômoda para saciar minha sede e minha loucura. Abri o saco de fumo, adicionei ao cachimbo, estava pronto. Só faltava a trilha sonora. Fiz uma seleção das músicas de Albert King, Muddy Waters e mais algumas coisas parecidas. Eu lia e fumava e bebia e a sexta-feira dos infernos demorava a acabar. Só parei de ler quando a inspiração deu o ar da graça, deixei o livro de lado e servi mais uma dose enquanto digitava frases e mais frases sobre qualquer coisa. O Destino realmente tinha dado uma trégua. Fiz um brinde em sua homenagem, então.



Bento.

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domingo, 17 de agosto de 2014

30 DIAS E 30 NOITES DE MALDIÇÕES E ATROCIDADES (17 JUL - 15 AG)

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É, eu sou uma cara durão. E isso não é nenhuma declaração de amor. Eu sequer tenho prática de fazê-la, caso pretendesse, faz muito tempo desde a última vez.
Eu sou um cara supersticioso. Isso explica o motivo de minha inimizade com o Destino, afinal sempre tento reescrevê-lo. Eu não sou nenhum religioso, porém sou supersticioso.

Todos temos um dia ruim. Uma data ruim. Os religiosos principalmente. Um exemplo é a quaresma. No entanto, eu tenho um mês sabático em que eu me transformo. É exatamente na virada dos signos Câncer para o Leonino. São trinta dias malditos onde eu não consigo me concentrar em nada, em ninguém e as coisas sempre acabam da pior forma possível. Eu disse malditos? Vocês, em sua maioria provavelmente não sabem bem o que significa isso. Eu já falei sobre meus demônios e é exatamente nesses trinta dias - que se concluem no dia de hoje (15) - onde eles se veem livres para fazerem o que bem entendem, festas e a porra toda.  O mundo não é só o que nossos olhos podem ver. Há mais coisas entre viver e morrer, morrer e viver. Os românticos diriam que sofremos ao perpetuarmos a vontade de nossos corações, e que devemos dar ouvidos apenas a nossa mente. Vou lhe dizer uma coisa: os românticos não sabem nada sobre o amor exceto a autoflagelação. Quando mente e coração apontam para o mesmo lado não há o que fazer a não ser tentar enfraquecê-los e é isso o que bêbados como eu tentam fazer durante suas vidas inteiras mas ninguém entende. Não entendem porque apenas quem passa por isso sabe. É preciso passar por isso para valorizar as migalhas. Mais que a metade das pessoas passam suas vidas inteiras sobrevivendo de migalhas e não se dão conta disso. E eu não estou falando de pobres ou mendigos, estou falando de migalhas sentimentais. Do único caroço de feijão no prato do afeto.

Já reparou como todo fim de Julho é chuvoso e gelado. Eu o reconheço como o olhar num espelho. O Sol parte em complacência. Não há muito pelo que lutar, nem pelo que por a cara para fora de casa. Eu disse que não há muito? Na verdade não há quase nada.
Não quero que pensem que isso é um testemunho de desistência pois não existe nada pelo que lutar. São apenas 30 dias e 30 noites de subsistência, lamentos, perigos, lembranças malignas. Do dia 17 de Julho até o dia 15 de Agosto. É um mês inteiro pelo resto de minha vida que eu relembrarei o quanto uma pessoa pode mudar seu Destino da forma mais incompetente possível. Mudá-lo para pior, bem pior. Lembrar e lembrar o quão fundo pode ser o fundo do posso, o quão frio pode ser o inferno. E o quanto pode ser inútil uma declaração de amor após você ter feito coisas das quais passaria o resto da vida se lamentando. Provavelmente é como ser responsável pela morte de alguém que nutre um sentimento profundo. Foi isso que fiz. Causei a morte. Talvez a própria. A morte de outrem. Sou eu, o assassino do amor, não agi sozinho, mas fui o mandante e o executor. Conviverei com isso querendo ou não.

O bem da verdade é que relembro que o último 15 de Agosto que realmente importava comemorar eu abri mão. E isso, definitivamente começou a matar o tal do amor. Como um câncer. Começou ali e claro que como todo assassino eu não desisti, passei a matá-lo aos poucos, como que o torturando. Matei matei matei. E pago por isso até hoje em cárcere privado. Privado das coisas que eu mais acho importante.

A vida é bem mais que isso - vão dizer - e é por isso que minha maldição dura apenas um mês. Caso contrário duraria todos os outros que me restam para tentar fugir desta prisão, ou pelo menos tentar um indulto. Podem dizer que eu sou um exagerado e que eu faço muito drama até mesmo para quem escreve. Eu responderei que para quem escreve nunca existirá drama demais, apenas o drama bom ou ruim. Não se vive a vida sem alguns lamentos, mas com minha mania de grandeza quis eu exagerar no tamanho do erro. Poucos sabem dessas minhas mazelas, da verdadeira história de amor e ódio como uma novela mexicana e quem conhece não acredita que possa ser verdadeira. Sequer eu acredito que pude ser tão traíra comigo mesmo. Mas as maiores tragédias são as mais inacreditáveis, se são.

Lembro-me como se fosse hoje. Do dia que eu me sabotei, hoje, exatamente completam 5 anos. E ainda lembro-me como se fosse hoje. Dos olhos de quem me via com a admiração que só quem ama pode compreender saía a mais completa decepção e na hora eu não percebi, ou não quis perceber. Os que defendem minha inocência dizem que não passou disso, que eu fui inocente. Talvez eu tenha sido, mas não vou me enganar nem enganar quem me lê, esta não foi minha única tentativa de assassinar o amor. Desde este dia eu passei a ser um sociopata em busca de sangue. Eu praticamente abri meu peito à unha e despejei todo seu conteúdo no esgoto. Ainda me resta o sangue nas mãos, o gosto de morte na boca, os pesadelos noturnos.

Como a maioria dos assassinos eu poderia me esconder atrás da religião e pedir perdão a Deus. Eu poderia andar por aí pregando minha infelicidade de ter cometido tal atrocidade com o sentimento que eu queria tão bem, porém isso me soaria clichê demais e eu passei a odiar clichês. E digo que estes 30 dias, dos quais eu tenho que suportar todos os anos, talvez tenha saído barato. Talvez eu tenha saído no lucro, afinal, desde então eu passei a escrever com a companhia destes demônios e não consigo me ver fazendo qualquer outra coisa. Como veem, o Destino tem formas muito estranhas de brincar conosco.



Bento.

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domingo, 10 de agosto de 2014

NÓS HOMENS PROVAVELMENTE VIVEREMOS A VIDA TODA SEM SABER NADA SOBRE O AMOR

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Nos meus tempos de escola, na juventude, quando eu ainda sonhava com um futuro próspero, a mulher dos meus sonhos e conquistar o mundo, sempre ouvia a mesma coisa dos professores, abre aspas; tão inteligente, mas... Fecha aspas.

Eu nunca fora um bom aluno. Nunca tive muito respeito por nada. Arrogante que eu era (?), me mantinha à margem das regras que me eram impostas. Fiz atrocidades com colegas de classe que provavelmente estes têm suas psiques abaladas até hoje e ainda assim, toda bronca só vinha após um elogio. Tão inteligente, mas...

Penso que não é tão diferente hoje. Há sempre um porém em tudo que me rodeia. Conheço e conheci tantas pessoas, porém nenhuma delas - talvez só uma - consegue entreter-me com tanto prazer quanto a solidão da escrita. Escrever sempre fora uma ação silenciosa e solitária e mesmo quando acompanhado trato de fugir ao banheiro para agarrar a inspiração pelos cabelos e impedi-la que fuja.
Tenho um senso de justiça que julgo - caso discordem façam com bons argumentos - ser dos maiores que conheço, porém na única vez que isso poderia mudar minha vida o fez para pior. Falhou, talvez, ou não, mas é certo que mudou e para pior.

Um amigo uma vez me pediu ajuda dizendo "você que entende mais de mulheres...". Respondi que poderia ajudá-lo a falar com ela, convidá-la para sair, até sobre preliminares, mas que quando chegasse o amor, o casamento e os filhos ele estaria por conta própria, eu sei de algumas coisas, porém meu conhecimento sobre relacionamentos é como o verão, vem, traz com ele festas e passeios e depois vai embora deixando saudade e tempestade.
Também não pensem que é difícil para eu admitir que não sei quase nada sobre amor. Nós homens provavelmente viveremos a vida toda sem saber nada sobre ele. É fácil porque não se pode ter conhecimento de tudo. Não se pode ser bom em tudo. Veja nosso ex-presidente, por exemplo, foi ótimo com nosso dinheiro em seu bolso, nem tanto com as palavras. A atual presidente deve ser uma boa pessoa para se conversar durante um churrasco de domingo ou uma festa infantil no sábado à tarde, mas deve ser uma péssima cozinheira, afinal, não se pode entender de temperos quando se está armada de metralhadoras assaltando bancos para financiar a revolução.

Não se pode ter tudo, não se pode saber tudo. Sabem quem mais entende de amor? A mulher. Nós homens amamos, mas amamos uma ou duas vezes na vida. Uma garota com uma bela bunda que passa ali, na rua, enquanto você está fumando um cigarro durante o pequeno intervalo no trabalho, você acaba amando, porém não é aquele AMOR todo. Nós amamos instantaneamente, de leve, como lança-perfume, já as mulheres amam como cocaína, é preciso reabilitação para largar. Um exemplo: na adolescência eu amei loucamente a Alicia Silverstone, aquela mesmo dos vídeos do Aerosmith. Imaginei-me tendo filhos com ela, apresentando-lhe aos amigos e bebendo cerveja, nós dois no boteco ao lado de casa. Cheguei até procurar alguns de seus filmes na locadora, mas ficou nisso. As mulheres quando amam gritam, choram, esperneiam, escrevem cartas, fazem tatuagens, colecionam fotos, artigos, revistas, enfim. A mulher sempre foi mais aplicada no amor. Elas são donas do amor, proprietárias únicas. Nós ainda engatinhamos nessa coisa de amar. Não estamos tão longe de aprender, veja, caso amassemos as mulheres como nós amamos futebol e cerveja, estaríamos bem próximos do conhecimento que as mulheres têm do amor, no entanto não chegamos lá ainda.

Além disso, reparem na astúcia da mulher em relação ao amor. A mulher pode amar cem vezes durante toda a sua vida e todas as vezes o amor é verdadeiro, só que a mulher aprendeu a sobreviver ao amor. A mulher aprendeu a domesticar o dito cujo e vencê-lo. Terminou o amor e elas estão prontas para outro. Claro que existe um período de tristeza e etc., mas sempre sobrevivem. Agora, pergunto a você, já reparou num homem que perdeu o grande amor da sua vida? Difícil reparar porque ele deixa de existir, caminha à míngua pelas ruas, bêbado, louco, um trapo. Isso se deve ao fato do homem não saber amar. É falta de prática. Morre interiormente. Deseje a morte ao seu inimigo, mas não torça para que ele perca seu grande amor, pois isso é bem pior. Um homem pode viver a vida inteira sem muitas coisas, mas nunca poderá viver sem seu amor. Foi assim que surgiram as guerras, os poetas, os psicopatas, a sunga e a meia social. Queira ver uma matança de animais, mas não um homem que perdeu o amor. Não há nada mais triste, é preciso ter estômago. E então, depois da perda, pode ser que este homem venha a encontrar um segundo amor, ele não facilita, mas pode acontecer, porém, até lá ele já deixou um rastro enorme de merda, de destruição, de ressacas morais e todo o resto.
A mulher ama mais e ama em maior quantidade de vezes e todas elas são de puro amor verdadeiro. Ama até o último trago, ama até o fim ou até achar algo melhor para amar.

Eu amei uma vez. Talvez, tratando-se deste exemplo de amor do homem, usar a frase no passado não esteja correto. Mas esse amor é aquele amor de mulher, amei - ou amo - mesmo, com todas as forças. Mas no que eu sou bom mesmo é no amor típico de homem, o amor lança-perfume, o amor mais carnal. Lembro-me da última vez que tive esse tipo de amor. Já era a segunda vez que eu ficava bêbado no mesmo dia. E eu estava muito bêbado, de evitar levantar-me da cadeira para não entregar minha embriaguez. Bebendo comigo e mais alguns caras estava uma garota linda, de uma beleza radical, mas não unânime. Todos a chamavam de Leila. Leila era branca como a bunda de um albino no inverno. Aquilo me deixava intrigado, um sol de trinta graus, ela branca como leite e não havia sequer um sinal de vermelhidão em seu rosto. Vestia uma camiseta rasgada tão branca quanto sua pele e um jeans que desenhava toda sua bunda e perna e panturrilha. Era realmente um belo espécime de mulher-garota e tomei como objetivo - depois de perceber que seria difícil levantar-me dali - que não perderia aquela bunda de vista. Então todos os caras não desistiam de puxar conversa com Leila. Todos queriam possuí-la, até porque as outras opções de garotas não passavam nem perto da beleza de Leila. Os caras faziam graça e Leila sorria com seus dentes quase amarelos por causa dos cigarros – imaginei - seus dentes e seus lábios enormes e rosa. Eu a seguia com os olhos e ouvia todas as piadas e continuava bebendo. Eu também a queria, mas nenhuma parte do meu corpo me passava confiança de que iria levantar, não com aquela quantidade de álcool correndo pelas minhas veias. Até o álcool tem seu porém. Nessa hora já havia um ou outro cara sem fé que não disputava a atenção da garota de neve, então estes caras se contentavam com a atenção das garotas feias. E alguns até se sairam bem. O tamanho do ganho também tem a ver com o tamanho da aposta. Logo um outro cara puxou uma história das antigas, uma situação louca entre tantas que fugimos da morte por um triz e todos estavam em minha volta ouvindo minha parte da história. Eu estava bêbado, mas ainda lembrava dos detalhes, certas coisas são impossíveis de esquecer. Com todos os ouvidos e olhos apontados para mim percebi que era nesta hora que eu faria valer minha posição privilegiada de anfitrião, causador de confusões e orador de teorias mirabolantes. Foram mais ou menos 30 minutos dos olhos azuis da garota cor de papel em cima de mim, até todos começarem a se dissipar para esvaziarem suas bexigas e foi só por este motivo que eu consegui levantar de minha cadeira me esforçando para não tropeçar. Fui ao banheiro e mijei como quem não mijava há anos. Balancei uma porção de vezes até que não sobrasse nada. Perdi tempo, pois sempre sobra uma gota ou outra. Lavei as mãos olhando meu rosto ao espelho e me achei feio. Veja, eu me acho um cara bonito, um cara charmoso, porém quando bebo não gosto dos meus olhos, acho-os caídos. Bolsas abaixo das pupilas. Enfim, me olhava e não gostava do que via, no entanto não era o momento para eu me prender àquilo. Decidi jogar uma água no rosto, ajeitar o cabelo, não resolveu minha aparência e eu pensei: bem, foda-se. Acendi um cigarro e abri a porta para sair. Esperando do lado de fora também para atender ao chamado da bexiga estava Leila com seus olhos azuis me encarando. Neste momento ela era mais linda do que qualquer garota no mundo, afinal ela estava na minha casa, no meu banheiro e eu estava bêbado e ao contrário do que acho de mim quando bebo todas as outras pessoas acabam ficando mais atraentes. Quem bebe sabe. Sorrimos ao nos encararmos, ela entrou no banheiro e eu fiquei ali fumando e olhando para as paredes do meu quarto. Já as conhecia como a palma da minha mão, mas precisava passar o tempo. Podia ouvir a urina de Leila caindo na privada. Cada esguicho, cada gota. Pude ouvir a água da torneira na pia indo embora pelo encanamento enquanto ela lavava as mãos. De repente silêncio, talvez ela também estivesse parada em frente o espelho olhando-se e conversando consigo mesma como eu também havia feito. Ela finalmente abriu a porta e encontrou meus olhos mirando os olhos dela. Eu sorri, ela também sorriu e eu voltei a entrar no banheiro, agora junto de Leila.

Foi então que tive um desses amores que só os homens conseguem ter. Rápido e intenso como o sexo que fizemos. Leila era toda branca e rosa, assim como seus lábios e eu pude provar todos eles. Eu estava amando e no quarto alguém tinha colocado uma seleção de músicas para tocar que por coincidência começou com Honky Tonk Woman e não é segredo para ninguém o quanto eu aprecio Rolling Stones. Era amor, puro e puto amor. Transpirávamos ali juntos, eu ainda vestido com a camiseta e as calças na altura dos joelhos, a calça dela na mesma situação, porém sua camiseta branca rasgada estava pendurada no suporte para toalhas. Eu amei como os homens amam. Se ela me pedisse em casamento ali eu aceitaria. Conversaríamos sobre os nomes de nossos filhos e aposentadoria. Um amor com trilha sonora, romantismo à flor da pele e um sexo sem igual até aquela hora. A fatídica hora em que estava prestes a chegar ao ápice de todo aquele momento épico. Eu já podia prever os fogos de artifício, os pássaros no telhado cantando. O Diabo sorrindo de seu trono somando mais um pecado para sua coleção. Os anjos me saudando por tonar o mundo um pouco menos chato. Pedi que Leila ajoelhasse para que selássemos aquele amor e ela ajoelhou. Mas logo depois advertiu: não goza na minha cara.

E foi ali, naquele momento que eu deixei de ama-la. Os anjos viraram as costas, os pássaros deram um rasante procurando outro telhado para cantar. O Diabo contorceu-se lamentando seus tempos de glória. Meu coração partiu em pedaços e eu deixei de amar Leila.  Deixei de ama-la porque todas as garotas – com exceção de uma – tem o seu porém.



Bento.

sábado, 2 de agosto de 2014

ENQUANTO OS HOMENS DESEJAM SECRETAMENTE UMA MULHER MAIS MAGRA, MAIS GOSTOSA E QUE CHUPE SEM FAZER CARA DE ASCO

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Eu já disse que pouco sonho e odeio quando sou interrompido de um sonho bom exatamente por sua raridade. Eu deveria odiar meu celular que me acorda todos os dias e é bem possível que odeie. Um homem deveria ao menos ter direito de dormir tempo suficiente para sonhar. Mas só o que nos resta é sonhar acordado, dormir é para os privilegiados.

Houve um tempo que eu podia dormir e sonhar e voltar a dormir. Fiz isso durante quinze anos da minha vida. Naquele tempo eu só tinha a escola para me chatear e mesmo assim podia voltar pra casa e tirar um cochilo durante a tarde enquanto assistia um desenho e outro. Quando criança eu fiquei um ano inteiro vivendo de escola e desenhos animados, sem sair de casa para mais nada. Tínhamos mudado para uma nova casa, num bairro novo e eu não conhecia e não me lembrava de querer conhecer nenhuma das crianças vizinhas. Belos tempos aqueles. Era lindo. Bem, isso durou um ano, depois eu passei a sair na rua e conhecer a todos. Não sem antes arrumar algumas brigas por causa de futebol e outras coisas. Na escola eu não deixava de arrumar brigas. A primeira, que eu me lembre, foi por ser novo na escola, a segunda foi por ser novo na nova escola. Curioso é que parecia que todos os alunos se conheciam, eu era o único estranho. Todas as outras crianças pareciam morar na mesma rua e ninguém da minha rua estudava na mesma escola que eu. Isso era um sinal, ou não. Até chegar a adolescência eu tive que bater e apanhar uma porção de vezes.

Então isso era tudo o que eu sabia da vida: me defender, correr quando fosse preciso, e que um cochilo de tarde após o almoço é uma das coisas mais maravilhosas que existe no mundo. Sobre mulheres eu não conhecia absolutamente nada, ganhara um beijo de uma garota uma vez e era só isso que eu sabia da vida, até os meus quinze anos quando comecei a trabalhar, aí nada mais fez sentido. Como podemos viver a vida quando tudo o que temos tempo é para trabalhar, estudar e dormir? Sobra o quê? Duas ou três horas para que possamos comer, cagar e nos lavar. Que espécie de vida levamos? Lembro-me das aulas de biologia no ginásio e mesmo que por vezes eu já estivesse bêbado, ainda me lembro da professora de avental branco, belas pernas bronzeadas abaixo da saia e cabelos tingidos de loiro dizendo que a diferença entre nós e os outros animais é que somos racionais. Hoje me pergunto onde está essa racionalidade toda quando jogamos toda nossa vida fora fazendo coisa das quais não temos a mínima vontade de fazer? Veja os homens com seus ternos horríveis debaixo de um sol de 30 graus, numa poluição que nos seca a garganta e assa as narinas. Suas decepções estampadas em seus rostos, suas mulheres deprimentes e obesas desejando um marido melhor que pudesse lhe dar o luxo de saírem daquele ambiente nojento de transporte público e chefes de setor ignorantes e rabugentos. Enquanto os homens desejam secretamente uma mulher mais magra, mais gostosa, que chupe sem fazer cara de asco. Que engula a porra toda, que não tenha marcas de lingerie e que não os lembrem de que não passam de uns fracassados que não conseguem tirar suas mulheres deste ambiente nojento de transporte público e 25 de Março e praças de alimentação de shoppings lotados de pessoas tão deprimentes quanto eles. E são os animais os irracionais?

É interessante que todos fazem questão de demonstrar que tudo está bem e dentro do que planejaram. Claro que ninguém planeja trabalhar o dia todo vestido como um idiota e mastigar seu almoço seco requentado pelo microondas. Assim como nenhuma mulher deseja ver suas calcinhas com dois anos de uso penduradas do avesso no varal com o fundilho já gasto e amarelado assistindo seus filhos catarrentos clamando por presentes e passeios que o casal não pode bancar. Os mais chatos diriam que devido aos contos de fadas as garotas aprendem sempre a desejar o príncipe encantado, eu já acho que isso é mais Darwinismo. Porém, dizendo bem a verdade, ninguém gosta da miséria, da pobreza, nem homens nem mulheres, mas somos nós homens que acabamos arcando com a responsabilidade e não tente maquia-la, não tente florear a pobreza.

Desculpem-me se pareço repetitivo em relação a mulheres feias e gordas, no entanto peço que reparem nas cerimônias de casamento dos miseráveis e verão que ao seu lado haverá uma noiva que espelha exatamente sua vida: feia, pobre, infeliz, medíocre e com cara de 25 de março. Assim como as lembranças de casamento, os arranjos de flores, os sapatos e convidados.  Não superestime a pobreza, pois uma cerveja de mil reais sempre será melhor que a cerveja de dez reais. E a puta de mil reais sempre será melhor que a puta de trinta. O boquete de quinhentos sempre será melhor que o de cinco conto na esquina abandonada. O sexo no banco de couro de um carro alemão sempre será melhor do que o sexo no estofado rasgado do Chevette.

Inclusive o olhar de seus sogros é diferente de quando você é um banqueiro ou um escritor bêbado que nunca foi publicado. Até o olhar de sua mãe é diferente, afinal sua mãe também é mulher. E mesmo que algumas linhas e frases de efeito te ajude a transar com infinitas garotas e que algumas delas sejam as mais lindas e sexy que você já viu, saiba que seu casamento ainda será com uma garota gorda, com o buço cabeludo e verrugas anais. Com suas irmãs, primas e tias tão horríveis e bregas como a noiva, salgadinhos frios e cerveja quente ao melhor estilo 25 de Março, pois as garotas lindas e sexy e inteligentes e magras se casam com senhores ricos e barrigudos que as trairão com outras garotas lindas e sexy e inteligentes e magras. E quando você tiver ciência disso poderá ser livre e deitar sua cabeça no travesseiro em paz.


sábado, 5 de julho de 2014

FILOSOFIA DO CU - DO WHISKY AO DIVÓRCIO

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Estava tomando algumas cervejas e junto comigo estava uns três ou quatro que nunca negava uma cerveja. Conversa vai, conversa vem, lembramos-nos de um ditado que a avó de um desses caras contava. Ela dizia: esse papo de golpe da barrida não está com nada!
Ela era uma senhora com a idade máxima que uma avó pode ter e bebia tanto ou mais que nós. Éramos jovens ainda na puberdade e ela falava como quem contava uma verdade incontestável. Ela dizia que o golpe da barriga era coisa de 1930, dava uma pausa para molhar a garganta e dar um trago no cigarro e então concluía - a mulher que quiser prender um homem de verdade tem é que dar o cu pra ele. E dizia assim, como quem conta do casamento de um parente próximo.
Era no mínimo curioso para nós que ouvíamos à distância, fácil para espectadores, porém imagino a dificuldade de quem tinha vínculo vitalício com a velha. Complicado para seu neto que compartilhava a sinceridade de sua avó com os amigos.

Eu particularmente me mantinha quieto, pois nunca discutiria com uma senhora que tinha tudo a seu favor. A embriaguez, as décadas de experiência e a originalidade da oração. Uma bela avó esse meu amigo tinha. Digo tinha porque ela morreu semanas depois, dormindo, morreu, simples assim. Não sei por qual motivo veio-me esta singela lembrança, no entanto aqui estamos nós.
Ainda sobre isso, digo que cu não teve nenhuma influência sobre meus amores. Nem nos mais breves, nem nos mais longos. Calma, quero lembrar aqui que apesar da idade nunca fui homem de muitos amores, paixões talvez, amores não. Conto no máximo com dois e sempre fui parcial em dizer que o último foi o maior de todos e em outubro já fará 7 anos.
Por falar em idade, tenho reparado nas particularidades do tempo. Antigamente, por exemplo, o máximo que se podia acontecer era encontrar com uma ex-namorada na rua e isso já era motivo para falatório durante a semana inteira, troca de farpas via amigos em comum e etc. Hoje minhas ex estão casadas, com filhos, uma já está inclusive divorciada. Que situação. Antigamente só se ouvia falar em divórcio nas comédias românticas e sobre as brigas dos pais dos amigos. Não demora muito eu serei fechado no trânsito por algum bastardo deste, filho de uma ex e a pior ofensa que poderei pensar é um sonoro: eu já comi sua mãe, safado! Ou - sua mãe não chupa direito! E por aí vai.

Mesmo assim, quero dizer que este amor que me prendeu durante tempos não teve nada a ver com a história da avó simpática que citei acima, mas sim porque a tal era a materialização de todas as coisas que eu procurava numa garota, com exceção dos seus defeitos, mas não se pode ter tudo. Tanto que estava eu, prestes a me tornar um pai de família, muitos podem não acreditar, porém eu também já quis sentar-me no sofá, barrigudo e ver TV aos domingos. O pedido foi feito. A obviedade da resposta sou eu aqui escrevendo sobre as últimas festas em casa.

Ultimamente tenho bebido ouvindo Blues. Música sempre ajuda na escrita. Bukowski escrevia ouvindo música clássica. Eu ouço Blues, ou Rock. E caso interesse, escrevo bebendo whisky porque se beber cerveja tenho que escrever no banheiro pois mijo o tempo todo.
Como puderam reparar, tenho lembrado de amores finados, uma (in) conclusão, esperança maldita, não sei ao certo. Faço do mundo as dores minhas e quero atear fogo em alguém. Não é modo de dizer, por vezes tenho os mesmos desejos que todos vocês. Sinto-me como se todo o mundo girasse e somente eu tivesse parado no tempo, afinal depois de sete anos tenho os mesmos sonhos, os mesmos desejos e as mesmas drogas para me revitalizar. Tudo muda, até eu mudo, menos nisso.

Durante muito tempo venho sendo um usurpador, vampirizando emoções no intuito de continuar aquilo que faço tão bem, pois até isso veio dela (o tal amor). Surgiu dela. Continuo escrevendo e mesmo que não seja sobre ela é em grande parte para ela. Arrumo-me ainda para ela, deixo ou não a barba para ela. Na esperança de que um dia ainda nos encontremos. Mas pulemos esta parte retrô para dizer: eu não sou o único dos dois a fazer merda. Sempre achei que eu fosse a escória, mas convenhamos. Uma vez a musa das musas me disse que depois de mim passou a sofrer da síndrome dos 2 anos. E eu quase disse a ela que agradecesse o Destino, afinal, eu sofria da síndrome dos 4 meses. Da síndrome das esquinas procurando-a. Da síndrome de procurá-la em pernas abertas. Da síndrome dos lençóis lavados buscando teu cheiro, ainda procurando e hoje, depois de tanto tempo sequer sei qual é este cheiro. Pois como eu disse, tudo muda, ela mudou, tanto? Talvez menos do que parece. Eu idem. Mas o cheiro deve ter mudado. As unhas. Os alargadores. Um pouco mais de tatuagens e eu com tantas, inclusive uma com seu nome.

Eu já estive melhor. Coisa de quem pensa que está liberto e tal. Já estive melhor como o moribundo que melhora antes de morrer. Por alguns momentos tive culhão de não permitir-me sofrer. Mas estas coisas passam como passam as coisas. Dentre tantas coisas eu mudei nestes 7 anos. Mudei a ponto de estar assumindo isto. Só que existem coisas que sobrevivem ao tempo.

Penso no percurso da minha vida e chego à conclusão de que minha felicidade é como a carreira de um jogador de futebol. Eu já estive no auge. Já fui eleito o melhor do mundo. Garotos de todas as classes queriam ter o que eu tinha. Marmanjos invejavam a forma como eu levava a vida. Ganhei prêmios, fui autor de lances históricos e golaços inacreditáveis. Porém, como toda carreira acaba, a minha não foi diferente. Se tratando de felicidade, o que restou da minha carreira são só uns freelas de comentarista em época de Copa do Mundo, um comercial de cerveja aqui e ali, mas nada que se compare aos meus tempos de glória.


Bento.

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quinta-feira, 12 de junho de 2014

O FATÍDICO DIA DOS NAMORADOS

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Depois de passar o verão praticamente inteiro fazendo festas que duraram dias eu parei. Parei porque o verão se foi. Parei porque também sou de época. Meu humor é de época e a época de festas passou, agora escrevo. Necessariamente meus finais de semana são de drinks e escrita. Alguns amigos preferem meu humor quando está para festas. Convido os amigos e eles logo perguntam sobre mulheres, veja, não sou nenhum cafetão, nem quero ser. Nem sou desses amigos que gostam de servir de cupidos, pois já tenho meus problemas que não são poucos. Mas é certo que uma ou outra coisa eu faço para ajudá-los, caso peçam. Esses dias estava dizendo: preparem-se para o mês de junho, pois o mês de junho é a melhor época para conquistar as mulheres mais bonitas. Mesmo o mais frio e asqueroso homem da face da terra se arruma no mês de junho. Com exceção daqueles que alugam-se no Facebook, como se fossem grande coisa, esses são tão desesperados que eu duvido que arrumem algo. O resto se arruma e explico. O mês de junho é mês dos namorados, do fatídico dia dos namorados. Deus sabe que eu acho isso uma besteira e que passei poucos dias dos namorados namorando, portanto tenho uma certa experiência. O fato é que historicamente a mulher leva isso mais a sério que grande parte dos homens, naturalmente. A mulher não liga de ficar sozinha durante todos os outros dias do ano, mas este elas ligam e o homem que souber se aproveitar disso se sairá muito bem. Conheço uma garota que me fez uma proposta uma vez para começarmos a namorar uma semana antes e terminar o namoro à zero hora do dia 13. Ela ainda me disse que eu nem precisava me preocupar com o presente.

Se querem saber se eu aceitei a proposta eu digo que aceitei sem pestanejar. Não se deixa passar a oportunidade da companhia de uma bela garota num momento tão delicado. E sim, claro que eu não deixei de dar-lhe o presente de dia dos namorados, afinal o presente é metade de tudo o que significa este dia. Então é isso que eu quero dizer, preparem-se para o mês de junho.

Eu disse que o presente é metade do dia dos namorados e é verdade. Algumas mulheres retomam relacionamentos antigos no meio de Maio, só por causa do presente. Juram de pé junto que amam e estão arrependidas. Já vi amigos, que sem um puto no bolso terminaram o relacionamento para não ter de gastar o que não tinham. E não é que eles não amavam, não, era pobreza mesmo. Arrumava qualquer motivo para o desentendimento e só voltava atrás uma semana depois do dia dos namorados. Isso aconteceu num Natal também, mas isso eu conto outro dia.

No meu caso, sempre fui péssimo em dar presentes. Não ligo se ganho, se não ganho eu anoto. Mas sou horrível para dar presentes. Uma conhecida do trabalho, não vou citar o nome, só que ela mandava flores para ela mesma endereçadas para entregar no meio do expediente e todos achavam lindas as flores que ela recebia.

O problema do dia dos namorados, para quem está solteiro, é sair de noite. Onde quer que você vá há casais espalhados pelos bares, cinemas, cafés, livrarias, esgotos, cemitérios e todos eles te fazem lembrar que você está só. Como já citei, tem gente que fica sozinho o ano todo, mas dia 12 é intragável. O mundo te lembra que você está só. Com os comerciais no intervalo do jogo de futebol, as comédias românticas no domingo de tarde e domingo já não é o dia favorito dos solteiros.

Esse ano lembrei que era dia dos namorados por causa de uma amiga. Estava em casa de bobeira, pensei em arrumar uma companhia para a tarde e pensei nela, visita sempre certa. Peguei o telefone e para minha surpresa ouvi: estou na casa do namorado. Ela disse. Eu respondi: mas já? Estamos no início de Maio ainda. Ela riu e bem, fui beber sozinho.

Então eu escrevo isso no fim de Maio e enquanto a maioria se prepara para se "prender" em junho eu estou me desvencilhando. Sim, me afastando de qualquer coisa e descomplicando. Hoje descompliquei um tanto mais.
Anos atrás namorei uma garota de 500 anos de idade. Na verdade, quando namorei ela tinha vinte e uns, ela foi virar uma múmia só depois. Vejam: nunca fui de manter amizades com ex-namoradas porque acho um desperdício de amizade, e de tempo. Porém, neste caso fui surpreendido com uma proposta contemporânea demais para uma garota de 500 anos. Ela queria uma relação de sexo e eu pensei: bem, por que não? Nunca negue uma coisa que você não tenha motivos suficientes para negar. E qualquer amizade que envolva sexo nunca será uma perda de tempo. Corrijo: qualquer coisa que envolva sexo nunca será perda de tempo. Aceitei a proposta sem levar em conta os seus 500 anos. Na primeira semana de amizade colorida a tal garota mostrou para que veio, passando por cima de cláusulas contratuais de qualquer amizade de sexo, quis me envolver numa cripta que só existem nos namoros. Sorte minha que tinha a lei dos solteiros ao meu lado.
Agora eu volto a citar os 500 anos de idade da garota para explicar sua idade de múmia egípcia. Eu me considero um cara velho. Sou o primeiro a pedir a palavra com o tilintar do talher na taça e dizer: não passo de um velho. Porém, esta garota me supera em pelo menos 450 anos. Não duvidaria se ela me dissesse que aprendera a bordar com as caravanas de portugueses descobridores. E sim, sei que vão dizer que eu mergulho numa vala comum quando a acuso de complicada, mas este caso é insuperável. Mais até que complicada, essa garota era incoerente. Todos nós temos pudores, coisas das quais não aceitamos no próximo e que nos afasta um dos outros. Até aí todos concordam? Ótimo. Bem, a incoerência é uma das coisas que me causam calafrio. A incoerência não anda, não se mexe, não desatina. Não se faz nem um lanche de mortadela com a incoerência. Eu disse que ela era incoerente mas bem que poderia dizer que ela era omissa e submissa. Tem a ligeireza de uma velha com artrose. A rapidez de um cavalo manco.

Mesmo que não acreditem vou dizer assim mesmo. Eu tentei conviver com isso, nem sei por qual motivo, porém tentei. Só que o que me fez querer rasgar o cu com a unha fora tal submissão. Puxando pela memória me veio um caso de muito tempo atrás, eu era um jovem dos mais rebeldes e isso contava pontos a meu favor. E nesta época havia duas garotas interessadíssimas neste autor. O que esperar de duas garotas que compartilham o interesse pelo mesmo cara se não briga e inimizade? Para minha surpresa, as duas trataram o caso como duas garotas de atitude que eram. Para não brigar decidiram que seria um dia de cada. De segunda a sábado. Primeiro uma e no outro dia a outra. Eu achei genial e lisonjeiro. Elas poderiam complicar tudo, mas preferiram descomplicar. Esta garota de 500 anos nunca seria capaz de um feito como este simplesmente porque lhe faltam independência e maturidade. E eu? Bem, eu ando descomplicando tudo. Colocando o lixo pra fora e limpando a casa e foi assim com a garota anciã.

O problema maior com esta garota é que não tínhamos uma relação de casal, pois não éramos namorados. Também não tínhamos uma relação de sexo porque não transávamos. Logo, não tínhamos nada e se não tínhamos nada não havia motivo algum para manter-me ocupado com isso. Mas voltando ao assunto que desperta mais interesse à mesa de bar com amigos bêbados: preparem-se para junho, pois é um grande mês. Um grande mês - para os homens - porque garotas simplesmente não gostam de ser rejeitadas e nada mais, nenhuma outra data, nenhum outro momento as fazem pensar e repensar suas vidas como o dia dos namorados.




Bento.

sábado, 31 de maio de 2014

ENQUANTO EU NÃO ESTAVA NO BANHEIRO MIJANDO A CERVEJA QUE EU BEBIA

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Eu arrumei um bom trabalho, na Saúde. Parece um comentário qualquer, mas na Saúde? Sim, na Saúde. Um comentário qualquer para qualquer pessoa que não perde muito tempo se apegando a detalhes. Eu já sou um detalhista de merda que não vai com a cara do Destino e já desconfio de tudo que ele faz. NA SAÚDE?! Pois é. Um bom trabalho. Eu já sabia quem morava na Saúde antes de aceitar o trabalho. Tem uma garota que mora na Saúde e não nos falávamos mais. Não falava simplesmente porque não falava. Nem"oi" nem "bom dia", nem "vá pro inferno". Nada. Eu não queria e parece que essa falta de querer era recíproca. De qualquer forma, tem mais uma coisa sobre mim que talvez eu não tenha falado. Como sou um detalhista e às vezes avoado, ando como um idiota olhando para todos os lados e procurando sabe-se lá o quê. Portanto desde o primeiro dia que arrumei esse bom trabalho ando torcendo. Procurando e torcendo. "Besteira" vão dizer e eu vou concordar. Porém procuro. É bem isso. O fato é que eu não deixo de falar com ninguém que eu não quero deixar de falar, então tinha meus motivos. Eu não queria sequer pensar e a única forma que eu conheço de não pensar é não falar, não ver, não estar disponível. Tudo isso seria lindo e belo e simples se eu não tivesse arranjado um bom trabalho na Saúde. Talvez agora vocês já devem ter começado a entender. Mas ainda fica pior. PIOR? Pior. Comigo, neste bom emprego também trabalham conhecidos em comum. Digo isso para comunicá-los, caso já não saibam, que o Destino é um sacana de merda que morde e assopra. Vão dizer que estou sendo injusto com ele e garanto que não. Tenho mesmo um pé, não, tenho dois pés atrás com o Destino. Todos já encontraram a tal garota, assim, de vista, na Saúde e o único que procura, que sou eu, não. Viram que calhorda?! Mas procuro por quê? Sabe-se lá por qual motivo. Mesmo assim, quis o Destino - ou transmissão de pensamento - ou a puta que pariu que voltássemos a nos falar. Entramos num acordo que era um pouco de besteira minha, besteira dela, enfim. Passou, já que eu não ia conseguir esquecer de sua existência no mesmo mundo que eu, ainda mais trabalhando na Saúde. Logo na Saúde.

Eu não sei também do motivo que comecei a falar sobre isso. Eu pensei em falar sobre outra coisa, mas os dedos mandam e eu faço. Gostaria de falar na verdade sobre a repercussão do texto anterior, que eu falei sobre brincos e outros itens esquecidos em casa por garotas que dormem aqui esporadicamente e algumas me perguntavam se era delas que eu falava. Eu mesmo não me lembro de textos anteriores, pois tenho uma memória péssima e foi por isso que comecei a escrever, para lembrar das coisas que acontecia no dia anterior. Então para ser justo , antes de responder eu perguntava se tinham esquecidos brincos em casa e eliminei metade das candidatas. Depois perguntava se tinham gostado do texto e foram dois terços desta vez. As que sobraram e que tinham gostado eu me aproveitei porque não sou de ferro. O único problema é que a faxineira deve pensar que eu sou um travesti nas horas vagas.

Por falar nisso, outro dia, que eu não estava bêbado, ainda, meu sobrinho estava lá em casa fazendo coisas de garotos de sete anos, que basicamente se resume em fazer coisas que caras de 26 como eu acham cansativas só de olhar. Para você que ainda não esqueceu nenhum brinco em casa, quero explicar que na parede, que dá para a porta de entrada para meu quarto, tem a frase "Não Sou de Ereções Gratuitas" escrita em letras garrafais. E no auge de sua sabedoria de sete anos, de quem lê tudo que vê, meu sobrinho leu a frase em voz alta e me perguntou: tio, tem que pagar para entrar aqui? A espontaneidade da pergunta me fez rir como há muito eu não ria e respondi de forma que sua idade não permitiria entender tamanha malícia: com certeza que tem, filho. Mas você é VIP, só prometa não quebrar nada. Depois ele ainda perguntou o que era VIP mas isso não vem ao caso.

Minha paciência com crianças se esgota exatamente em cinco minutos e muita gente acha que por este motivo eu não gosto de crianças. Essas pessoas estão cobertas de razão. Mesmo assim, são os mesmos cinco minutos que reservo também para os adultos, se é que você me entende.
Não que eu odeie todos, não, só os idiotas. Mesmo assim, talvez ainda não fosse sobre isso que eu queria falar. Tenho um amigo, o Roque, este cara adora crianças. Crianças de 14, 15 anos. Na verdade ele não faz diferença de ninguém, desde as garotas de 14 até as de 55. Uma vez ele me disse "Cara, as de 55...". Eu fingi que nem ouvi, pois minhas experiências com velhas não foram nem de longe agradáveis. Terei sérios problemas ao chegar, se chegar, aos 55.

Tem uma garota e ela já passou dos trinta. Não me é costumeiro e pode perguntar para qualquer homem e ele vai dizer que mulher acima dos trinta normalmente não faz parte do prato principal. De qualquer forma tem essa garota, que tem trinta e poucos anos e que vive me chamando para fazer uma visita. Geralmente eu não sou de visitas desde que valha a pena. Porém sou gato escaldado e garotas acima de trinta costumam querer voltar a sua infância e demonstrar um pouco de pudor acima do que se encontra nas prateleiras. Essa garota insiste na minha visita e eu tento manter-me longe. Conforme o tempo passa as desculpas meio que acabam e logo eu terei que me decidir entre falar sobre minhas péssimas experiências com velhas ou mentir, e eu ainda não sei o que é mais fácil.
Então, resumindo, as mulheres acima dos trinta e poucos me enjoam e isso é tudo o que eu tenho a dizer sobre o assunto. Mesmo sabendo que terão mulheres se defendendo de tal infâmia, acho que por hora basta.

Eu também não gosto das crianças que Roque gosta, pois ele tem a paciência de um monge tibetano, eu não. Roque me disse uma vez que de todos os amigos dele, eu era o cara que tinha transado com o maior número de mulheres. E nos conhecemos há poucos anos apenas. Eu respondi dizendo que ele precisava fazer mais amizades. Para transar com o número de mulheres que ele acha que eu transei eu teria que ter pelo menos metade da paciência que Roque tem.
Ainda tem o fato de que numa relação é preciso deixar algumas mentiras no ar para que tudo siga seu curso natural e dentro dos conformes. Já enganar uma criança é como enganar um animal, não há mérito nisso.

Voltando a falar sobre a garota da Saúde, ela me disse outro dia - enquanto bebíamos algumas cervejas e quando eu não estava no banheiro mijando a cerveja que eu bebia - que ela nunca mente. Ainda disse que nunca mentiu para mim e eu confirmei com um adendo. Ou ela não tinha mentido ou mentiu tão bem a ponto de não ser descoberta. Acredite você, no que quiser. Existem pessoas que subestimam a mentira. Uma boa mentira, ao nosso favor, funciona que é uma beleza.




Bento.

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segunda-feira, 26 de maio de 2014

O QUE É UM AUTOR SEM UMA BOA MUSA? (ETERNA NOITE DE SÁBADO)

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Eis que finalmente, depois de tanto tempo me prostrei diante do teclado, numa preguiça de urso, e parei para escrever. Tamanha preguiça que trouxe comigo a garrafa do bar e deixei ao meu lado, tudo ao alcance das mãos: whisky, copo e cigarros. Devem estar se perguntando: mas e o isqueiro? Claro que esqueci o isqueiro e tive que levantar-me para pegá-lo. Isqueiro, quando não esqueço eu perco e demoro até acha-lo, por isso eu tenho muitos. Deixo-os espalhados pelo quarto para dar corda a minha preguiça, assim como faço com cinzeiros, tenho bem uma meia dúzia deles em pontos estratégicos para que nunca falte num momento de necessidade. Raramente os limpo, se querem saber. Não limpo por preguiça, mas também pelo sentimentalismo. Sempre fui sentimental a ponto de guardar a mistura ao lado do prato para comer por último. O melhor para o final. Tão sentimental que, quando criança, tomava Yakult pelo fundo do pote que era para durar mais. Mantinha o lacre intacto, mordia o fundo, um minúsculo furo no fundo e o minimalista Yakult durava vários minutos até acabar. Lembro uma vez que bebi metade do pote e guardei metade para mais tarde. Logo, sinto sempre que esvazio um cinzeiro. Cada bituca é uma lembrança. Tenho um cinzeiro em casa que guarda bitucas de anos atrás. Um cinzeiro especial, dado por uma pessoa que não me dará nada mais que ausência, então, tão sentimental que sou, guardo.

Mas queria dizer que depois de tanto tempo parei para escrever. Ufa. Fazia tempo que não desligava a TV, preparava um drink e escrevia. Não escrevia e não era só por falta de tempo, também era falta de tempo, cansaço, mas também porque não conseguia escrever. Curioso é que até pouco tempo atrás eu estava me passando a perna, me enganando, dizendo a mim mesmo que estava tudo como sempre esteve, até começarem a me dizer que eu estava repetitivo. Até aí tudo bem, todos temos nossas fixações e obsessões. Mas foi quando me chamaram de "sereno" que eu me dei conta: estava perdendo o jeito. Por isso tive que desmarcar compromissos, fechar contas em bares, negar convites para festas, sexo, shows e me trancar para escrever. Nisso escrevi dois contos e matei uma garrafa. Fora uma noite proveitosa, à de convir.

No entanto, escrever já foi mais fácil. Antigamente escrevia em qualquer lugar, qualquer paisagem. Prostrava-me em frente ao teclado e as palavras encavalavam em minha mente. Hoje em dia é menos. Passei uma semana suando sangue para terminar um texto que sequer deveria ser visto por outras pessoas, mas em época de seca qualquer mulher vira Miss, com textos não deverá ser diferente. Alguém, não me lembro quem, talvez não seja digno de nota, me disse: - Você está fraco de musa. E ainda completou - o que é um autor sem uma boa musa?
Peguei-me pensando em tal premonição. Não consigo me lembrar quem me disse isso, mas fiquei mastigando a frase: o que é um autor sem uma boa musa?
Eu tenho no álcool uma musa interminável, sem o álcool eu seria um pé no saco. Porém, ninguém pode passar a vida escrevendo sobre uma coisa só. Um bom autor tem que falar mais, sobre mais coisas, caso contrário será um chato e nós já estamos muito bem servidos de autores chatos por aí. O dia que só me restar uma coisa para falar começo escrever livros espíritas, ou autoajuda.

Continuo sem adoecer. Não pensem que estou torcendo para pegar uma gripe ou um ataque da gastrite, porém como eu disse antes é bom sentir alguma coisa para lembrar-me que estou vivo. Não adoeci mas senti algo voltando para casa, assim, sem mais nem menos. Sentado no trem, lia Bukowski e ouvia AC/DC ao mesmo tempo. Isolado lembrei que tinha marcado hora no tatuador e o salário estava na conta, tudo parecia em seu devido lugar. Ali, naquele momento, aqueles cinco ou seis segundos eu senti algo, quase que parecido com felicidade, não sei, não posso garantir, mas bem que parecia. Depois passou. Assim como veio, passou. Recebi um telefonema logo depois e era uma garota que conheci e saímos durante um tempo. Ela talvez quisesse buscar um par de brincos ou qualquer outra coisa que ela dizia ter esquecido por lá. Tudo truque, verifiquei todos os cantos de casa da outra vez que ela ligou perguntando da medalhinha que ganhara da sua mãe. Ela queria me fazer uma visita e eu não estou pronto para ela. Eu não sou páreo para ela. Eu sou excêntrico demais e ela, normal demais. No entanto eu já sei onde isso iria parar e como iria acabar. Já conheço essa história porque ela é minha história. Passamos juntos uma noite de sábado, bebendo, fumando, transando e ela me ouvindo profetizar sobre o apocalipse social e achou que na segunda-feira eu voltaria ao normal. Pensou que eu vestiria um terno azul, pentearia meu cabelo para o lado e a levaria para jantar. Pensou que eu conheceria seus pais e eles me achariam um cara decente e que eu os acharia boas pessoas. E que almoçaríamos juntos aos domingos e eu não falaria palavrão nem beberia na frente dos velhos. Ela achou que seus parentes não ligariam para minhas tatuagens pornográficas e que eu iria à igreja aos domingos. Ela pensou que eu acharia graça dos seus amigos de infância imbecis e suas piadas medíocres. Ela achou mesmo que na segunda-feira eu voltaria ao normal depois de passarmos mais uma noite de sábado bebendo, transando, fumando e profetizando sobre o apocalipse social. O que ela não sabia é que eu sou uma eterna noite de sábado, que apesar de uma vez ter sido chamado de domingo, eu sou uma eterna noite de sábado e assim como ninguém quer viver para sempre num domingo, ninguém quer uma interminável noite de sábado.



Bento.

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domingo, 18 de maio de 2014

ALGUMAS PESSOAS BEBEM E PARAM. EU NÃO INVEJO ESSAS PESSOAS

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Uma das poucas coisas que eu acho aceitável no Brasil é a quantidade de feriados. Evidente que alguns especialistas dirão que numa sociedade séria isso seria inadmissível, portanto soa-me um tanto incoerente de minha parte, porém nunca enganei ninguém falando que eu gosto de trabalhar. Como diria Bukowski: trabalho só serve para manter quatro paredes em volta da gente, um homem que tem quatro paredes pode vir a dominar o mundo. Eu diria que trabalho serve para ter quatro paredes e uma garrafa de qualquer coisa alcoólica. Existem momentos em nossas vidas que qualquer coisa alcoólica, por pior que seja, já é um bom motivo para sorrir. Evidente que eu já passei desta fase e posso me dar ao luxo de escolher o líquido que vai me embriagar, por isso, em vista de mais um feriado, tratei de abastecer o frigobar com felicidade gelada e o balcão caseiro com felicidade quente, com isso planejei "viajar" todos esses dias de folga e foi o que fiz.

Conheço algumas pessoas que bebem um pouco e param, como quem guarda alguma coisa para o futuro, ou esconde alguma coisa. Bem, eu não invejo essas pessoas. No caminho de volta da loja de bebidas vi um cachorro morto e pensei; este poderia ser qualquer um de nós. Nunca entendi, por exemplo, a frase sobre copo meio vazio e copo meio cheio, acho um desperdício de qualquer forma. Eu sempre esvazio o copo e encho de novo e sigo assim até que não sobre mais nada. Notou a diferença?

Pensei em guardar o feriado para escrever e acabou que não dando certo, acabei recebendo visitas que trouxeram mais visitas e no fim demos uma festa que durou dias e tive que expulsar algumas pessoas, caso contrário estariam em casa até hoje. Quando se está bêbado numa casa cheia de outros bêbados não há espaço para privacidade. Divide-se pensamentos, quartos, cama, banheiro e tudo é uma coisa só. Copos passam de boca em boca, cigarros passam a não ter dono e todos se alimentam da embriaguez do outro, bem como o soluço, ao beber com alguém bêbado acabamos ficando bêbados igual. Bebíamos e ouvíamos música, gemidos, conversas paralelas e chegamos à conclusão que ao beber despertamos instintos que sequer conhecemos. Sempre fui um cara de beber para ficar bêbado e gostar disso, me gosto mais bêbado que sóbrio, inclusive gosto mais das pessoas quando bêbado. As melhores coisas da minha vida eu fiz bêbado, talvez as piores também, mas não vou tirar o tesão do momento por causa de algumas pequenas coisas. O fim nunca será mais importante que o começo, exceto quando estamos falando sobre sexo.

Outro dia estava eu no bar e encostou um cara, daquele típico cara que joga dominó na frente do boteco e pendura a chave do carro no bolso junto com o pé de coelho. Barrigudo, um cavanhaque que ele deveria manter desde a adolescência e careca, uma careca lustrosa. Me ofereceu um drink, eu neguei e isso foi motivo suficiente para ele achar que poderia puxar conversa comigo. Nunca fui de conversar muito no bar porque caras de bar normalmente são mentirosos e esse indivíduo não era diferente. Ele dizia-se muito rico e já tinha comido mais de quinhentas mulheres só nas horas que passamos ali bebendo, que foi o tempo que ele teve para contar mentiras. O fato é que a maioria das pessoas mentem quando falam sobre sexo. Algumas pessoas aumentam, outras diminuem os fatos, mas todos mentem. Anos atrás, quando eu tinha um pouco mais de humor conheci uma garota que falava quase que sem respirar. Estávamos sentados numa mesa bebendo algumas cervejas e ela falava, falava... Já tinha feito de tudo. Sexo com três caras, três garotas, dizia que tinha feito sexo numa moto em movimento e tudo mais. Com ela era sem pudor, ela dizia. Fazia o diabo e poucos homens era páreo para ela. Eu logo entendi aquilo como um desafio e eu tenho um sério problema com desafios e apostas, pois normalmente venço e vitórias viciam. Como eu não corro de desafios fui preparado e concentrado. Pedi duas doses de whisky, virei as duas, uma após a outra e saímos daquele bar medíocre para um lugar que pudéssemos ver o circo pegar fogo.
Adianto que a tal garota não era grande coisa, não tinha um rosto que faríamos nos sentir orgulhosos de andar de mãos dadas ao seu lado, mas é difícil ter alguém com o dedo em riste mirando seu rosto dizendo-se melhor que você. Já no quarto o whisky começara a fazer efeito e todo homem sabe que whisky retarda o prazer mais que qualquer coisa neste mundo. Naquela luta as doses misturadas com uma porção de cerveja seria minha armadura e partimos para a briga. Era tudo mais-ou-menos e a garota era uma boneca, a única vez que se mexeu foi para ir até o banheiro. Acabou que eu mandei a garota à merda e fui brigar sozinho em casa. Mas tudo bem, isso não é motivo para se matar, no máximo mais três ou quatro doses de whisky para esquecer a noite ruim.
Eu nunca fui bom em matemática, mas sei que as estatísticas são cruéis. Quanto maior o número de vezes que você repete uma ação maior é a chance de alguma coisa sair errado. Se eu não estivesse tão bêbado nas aulas de matemática eu poderia dizer que alguma professora minha já tinha dito isso. De qualquer forma, o que eu quero dizer é que quanto mais garotas você conhece, maior é a chance de você se dar mal ou deparar-se com coisas bizarras.
Teve uma outra garota, e reparem que em nenhum momento citarei nomes porque não importa, essa garota tomou toda a atitude, desde o convite para beber uma cerveja até o convite para sairmos do bar para um lugar com quatro paredes que nos fornecesse privacidade. Não importa quantas vezes uma garota tome a atitude do convite para o sexo, isso sempre causará surpresa e não é só porque torna as coisas muito mais fáceis, é porque sai daquele estereotipo de mulherzinha que precisa ser enganada. Talvez isso venha causar certo incômodo para quem estiver lendo e tomarão o fim da história como uma vingança do destino contra a opinião divergente do autor, mas eu não acredito nisso, acredito na lei da estatística. Então, voltando ao bar - bebemos cervejas até não caber mais garrafas da mesa e foi quando recebi o convite para saímos de lá. Eu conhecia todos os motéis próximos, dos mais caros até os cubículos que dividíamos com baratas. Pendurei a conta no bar e fomos procurar privacidade.

Não me lembro bem do motivo pelo qual não conseguimos um quarto. Talvez o fato de ser sexta-feira 13, talvez pela idade da garota que era segredo até aquele momento, o fato é que decidimos pegar o trem para minha casa e continuar bebendo por lá. Eu, como todo bebedor de cerveja que se preze, mijava de cinco em cinco minutos e tratei de procurar um banheiro de algum bar. Já a garota não se rendeu à sua bexiga dizendo ter nojo de banheiros de bares. Entendam, naquela noite bebemos litros e mais litros de cerveja e ela não tinha se esvaziado nenhuma vez. Eu deveria ter previsto algo do tipo, alguma coisa estava ou tornar-se-ia muito errada com o passar do tempo.  Resumindo a história, já dentro do trem a caminho de casa, a tal garota de atitude que tinha nojo de banheiros de bares e que segurava a vontade de urinar por muito tempo acabou se aliviando ali mesmo, no trem, na minha frente e de mais três ou quatro bêbados que também voltavam para suas casas. Aliviou-se ali, com sua calça jeans mudando de tom devido ao líquido quente escorrendo pelas pernas.

Entende o que eu digo sobre estatísticas? Se você está praticando tiro ao alvo com bitucas e acerta as três primeiras vezes que tenta, as chances de acertar a quarta são bem pequenas. Com mulheres também é assim, quanto maior o número mulheres que você conhece maior é a chance de encontrar esse tipo de situação digna de ser contada em um bar com os amigos tomando cerveja e falando merda. Ainda não é motivo para cortar os pulsos, é só uma história que arrancará risadas e pronto. Mesmo assim eu admito que estou enchendo linguiça. Há duas semanas que eu tento terminar esse texto e não consigo. Não consigo porque duvido da qualidade de tudo que escrevi até agora. Escrevi e apaguei e escrevi e tornei a apagar pois tudo era uma merda do tamanho do mundo. Numa de minhas tentativas isto seria um conto, um péssimo conto, por sinal, onde eu conversava com um bêbado irritante no bar, porém, não sei se leram, mas publiquei algo semelhante duas semanas atrás, que já era semelhante ao que tinha postado três semanas atrás, portanto apaguei e me ofendi por ser tão repetitivo. Fiz mais quatro ou cinco tentativas depois destas e todas eram uma merda e esta, muito provavelmente não seja melhor, mas também, que se foda. A maioria das pessoas que leem isso regularmente não estão com essa bola toda, então vamos nos contentar com o que temos hoje, amanhã é outro dia.



Bento.

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sexta-feira, 9 de maio de 2014

GIULIARD BORSANDI IX

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Indica-se ler os episódios anteriores: GIULIARD BORSANDI VIII

Quando finalmente parei de correr percebi que inconscientemente ia à direção do Planalto Night Club, o bar que tem a Barwoman mais gostosa da cidade, Jamaica. Isso era um sinal do destino para que eu voltasse a beber. Bem, talvez o destino não tivesse nada a ver com isso, no entanto estava com sede e sóbrio, duas coisas que não combinam. Eu também precisava comemorar mais um caso encerrado, onde finalmente tinha pegado Janaina.

Na frente do motel, sabia que não teria mais que uma chance para tirar as fotos do seu caso, pois o flash denunciaria que eu era um cagueta mal intencionado. O monte de merda, digo, monte de músculos que estava com a mulher do pastor com certeza iria querer mostrar sua virilidade e tentaria arrancar a câmera de mim, assim como tentou. Ajustei a máquina para 10 poses simultâneas e esperei o momento certo e a sorte estava ao meu lado. Fechei o caso com dez fotos de um beijinho de boa noite, foi lindo.

Assim que Janaina e o retardado viram a luz do flash iluminar a rua corri como um maluco com o Pitbull em forma de gente no meu calcanhar, mas eu fui mais rápido. Sempre corri bem, hoje em dia não tenho muito fôlego por causa dos quarenta cigarros que fumo diariamente, então sabia que além de rápido eu teria que despistá-lo antes de meus pulmões desintegrassem e foi o que fiz. O cara era muito músculo e muito lerdo, provavelmente não exercitava as pernas.
Entrei no bar e comecei a ficar bêbado novamente.

 - Olha só quem apareceu novamente. Me recepcionou Jamaica assim que voltei a me sentar no bar - Se arrependeu e foi atrás da coroa?

 - Não. Fui terminar um trabalho.  Respondi.

 - E teve sucesso?

 - Muito. Vou ganhar um bom dinheiro e quem sabe tirar alguns dias de férias.

 - Humm bom pra você. Está mesmo com cara de quem precisa descansar. Disse Jamaica tocando meu rosto com a mão e logo depois ajeitando os pelos de minha sobrancelha. Era isso que me tirava do sério, mesmo com gestos simples parecia que ela sempre cuidava de mim.

Fiquei no bar mais algumas horas, quase até a hora de fechar e estava bêbado, muito bêbado.
Segui cambaleando até o escritório pelas ruas apertadas e idênticas do centro de São Paulo. Estava quase perdido, mas estranha e inconscientemente sabia em quais ruas virar e atalhos pegar. Bêbado que é bêbado sempre chega em casa. No meu caso, ao escritório. Eu estava cansado de andar, pode-se dizer que virei uma rua errada e logo depois me achei e voltei ao caminho certo, porém, essa esquina errada me fez andar por mais de meia hora sem necessidade. Na condição que eu tava, andar não era tão fácil como parece. Tanto tempo sem comer e a alta quantidade de whisky em meu corpo fez com que minha visão ficasse turva como se eu estivesse usando óculos fundo de garrafa sem precisar. Para conseguir acender o cigarro ou olhar as horas no celular eu precisava parar de andar e tapar um dos olhos com a mão. Então eu continuei andando e faltavam algumas travessas para finalmente eu poder esticar minhas pernas e dormir boas horas de sono no colchonete que guardo num canto do escritório do detetive particular mais bêbado do mundo.

O bom de estar alcoolizado é que aquela sensação maldita de solidão, baixa autoestima, depressão e autopiedade iam para o ralo com litros de urina que eu mijava de cinco em cinco minutos andando. Minha bexiga sempre foi uma merda. Talvez todos os bêbados do mundo usem esse argumento como desculpa para beber, mas no meu caso era uma verdade incontestável e eu tinha muita coisa para esquecer e me esquivar.


Após andar tanto, parei em frente a uma lixeira na calçada de uma agência do correio e coloquei boa parte do destilado que Janaina tinha me servido para fora em fortes jatos de vômito. Era pura água com cor de bosta e um cheiro horrível de algo podre e cítrico, era nojento. Mais um jato e depois outro e outro. Os olhos derramavam lágrimas por causa do esforço involuntário que o corpo fazia para expelir o álcool e o nariz derramava vômito misturado com catarro que juntavam-se com o líquido estomacal que saia da boca e era um festival de coisas nojentas e fétidas.


Bento.