segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O PEIDO É TÃO PESSOAL E INTRANSFERÍVEL COMO NOSSOS PENSAMENTOS MAIS OBSCUROS

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Quando eu era jovem sempre fiquei intrigado quando ouvia os professores falarem sobre pensadores. Nas salas de aulas cheias de moleques encrenqueiros como eu, e eu era sempre o pior - segundo estes mesmos professores - por que eu entendia que o cara ganhava um salário só para pensar. E lá ficava eu pensando com meus botões, imaginando um cara que colocava seu despertador programado para acordar às seis da manhã, tomava seu banho, ligava a TV no jornal matinal enquanto vestia-se e tomava o café da manhã. Colocava comida para os cachorros, para o gato e ao invés de sair de casa rumo ao emprego como fazia minha mãe e meus irmãos de manhã enquanto eu me arrumava para ir para a escola o pensador simplesmente sentava numa varanda com sua xicara de café e com seu dedo indicador pressionando a têmpora ficava lá, pensando. Soprava a fumaça do café fumegante pensando e anotando as coisas que entendia ser importantes. Então de repente, nota-se a hora do almoço e pronto! Para de pensar um pouco para alimentar-se e uma hora depois voltar ao trabalho. Sempre imaginei isso como a coisa mais chata do mundo, ou pelo menos UMA das mais chatas. Perguntava-me eu, quem em sã consciência, escolheria ser um pensador? Depois de velho fui perceber que trabalhar num escritório enviando relatórios, atendendo telefones, tendo que pegar ônibus e metrô lotados de gente que fazem coisas bem parecidas com as minhas é bem pior que a vida que eu imaginava que o pensador levava.

Mais velho ainda comecei a invejar tanto a vida dos pensadores que passei a desejar uma vida igual. Afinal, trabalhar em casa, para gente como eu que suava frio quando ouvia notícias sobre greve do metrô seria maravilhoso.
No fim descobri que pensador pode ser qualquer um de nós e não necessariamente ganhamos algo para isso. Mais ou menos como a música, nem sempre os melhores são reconhecidos. Com isso cheguei à conclusão que o problema não são os pensadores ou os músicos, ruim mesmo é envelhecer. Tantas ilusões.

Por esses dias peguei uma gripe e me entupi de remédios. Todos aqueles conhecidos que prometem curar a gripe e até um ou outro que consegui clandestinamente sem receita para curar-me. Adiantou momentaneamente, pois cinco dias depois cai de gripe de novo.

Tenho um grande problema com medicamentos e contra eles, pois enquanto os consumo não posso beber e isso é um problema enorme. Está certo que vez ou outra misturei vodca com xarope para curar a gripe e fiquei numa loucura tamanha, mas isso é uma história para contar em outro momento. Por isso só me medico em último caso, pois acredito piamente que não há doença que o álcool não possa curar, com exceção da doença da idiotice, essa... Nem Deus poderia. Enfim, estava com uma gripe longínqua e devido a conselhos familiares e de minha namorada resolvi tomar antigripal e antibiótico. Veja minha situação, sou corintiano desde que nasci, qualquer coisa que envolva a palavra anti já me causa descrença instantânea. Bom, resumindo; claro que não deu certo. Acabou que eu fiquei no remédio, sem beber uma gota de álcool e não melhorei. Mas... E friso o "mas" por que realmente deve-se chamar atenção ao fato. Então, é justo que pare, respire profundamente e se diga, lá do âmago; MAS... bastou uma boa noite de bebedeira com destilado e escrita para a coriza recolher-se ao nariz, a garganta dar a pausa à tosse e tudo mais ir pra casa do caralho. Tem gente que não acredita. Acha exagero. Acha que é mentira de bêbado, porém afirmo que nunca tive uma doença que o álcool não curasse.

Pensando nisso, enquanto doente e tomando minha cagibrina, lembrei que a muito não parava para beber sem preocupação. Digo, de pausar qualquer pensamento mesmo. Sem pensar em contas, em relações, em trabalho. Apenas sentar, beber e sair escrevendo. Reparar em cada aranha que faz moradia nos cantos do quarto. Em cada mancha de umidade. No barulho do motor da geladeira da vizinha. No salto alto da nora da outra vizinha quando ainda vira a esquina, que chega de madrugada voltando da balada, e logo depois pega o molho de chaves na bolsa para abrir o portão. Os carros que passam e raspam o assoalho na lombada. E os gatos correndo brincando no telhado. E no momento que escrevo isso lembro de quando adolescente, quando trabalhava de office-boy sonhava em estar em casa, ouvindo Frank Sinatra, com a chuva de dez dilúvios batendo na janela, frio de matar, e eu dentro de casa tomando uma boa xícara de café preto para esquentar o corpo vestido de calça de moletom e seres me pagando só para escrever. Vê que desde muito jovem eu era velho e solitário? Nunca fiz questão de companhia. Nunca me senti sozinho comigo mesmo. Sempre tive algo para reclamar, é claro, afinal escreveria sobre o quê? Mas sempre fiz questão de manter-me sozinho pois minha companhia sempre me foi suficiente. Evidente que vez ou outra você precisa da companhia de outras pessoas para que não passe a vida dependendo de uma alegria masturbatória, uma mão amiga vez ou outra é indispensável. Porém a solidão assusta a maioria das pessoas. Hoje em dia solidão demais é confundida com depressão, não sei se por influência da indústria farmacêutica, da mídia ou dos analistas, mas acho que subestimamos uma boa solidão, estar só, falando apenas consigo mesmo, e desvendando nossos próprios segredos. Tem gente que se assusta com seus próprios pensamentos e por isso tenta sempre estar rodeado de pessoas. Se o sujeito não consegue se abrir com ele mesmo, algo está errado. Quer um exemplo? Somos tão mais tolerantes com nosso peido que com os dos outros, claro. Peidamos debaixo das cobertas e cobrimos a cabeça. Cheiramos nossos gases e damos risada. Já qualquer flatulência alheia nós achamos o fim do mundo, pois o peido é tão pessoal e intransferível como nossos pensamentos mais obscuros, mas ainda assim dividimos com poucos que conquistam nossa confiança.

Digo mais, passei meses segurando peido no começo de meu namoro. Tanto que por várias vezes tive que sair do quarto só para peidar e era um alívio do tamanho do mundo. Hoje, ainda bem, eu e minha namorada dividimos nossos peidos como dividimos uma mesa num restaurante, ou uma pizza.

Sendo assim, acredito piamente que a solidão nos ensina humildade. É preciso reconhecer nossos defeitos para lidar com o defeito dos outros, qualquer coisa diferente disso se transforma em hipocrisia. Então depois disso tudo, digo para aqueles que ainda permanecem descrentes com a solidão, friso que a pior solidão não é aquela que você sente quando está só, num quarto escuro ouvindo blues e tomando algo forte. Ou quando se está numa cabana no meio do mato tomando café e relendo um livro clássico. Não é a solidão de término de namoro onde se fica em casa comendo chocolate e assistindo comédia romântica, nem a solidão de uma prisão tão pequena que mal consegue ficar ereto. Não, pois esse tipo de solidão tem também a ausência de esperança. Você não espera nada dela. É tão somente você e um grande vazio. Assim ficamos alheios a tudo, nada pode nos atingir. Somos invencíveis, inabaláveis, imortais e inatingíveis.
Digo que a pior solidão é aquela que sentimos quando estamos no meio de uma multidão ou num relacionamento de via única. Quando percebemos que o próximo não tem tanto interesse em nós como temos deles. Afinal, nestes casos, a solidão vem junto da frustração de esperar e esperar que o outro indivíduo sinta prazer de sua companhia e se alegre pelo simples fato de te ver feliz. Essa solidão, sequer um mar de whisky poderá dar jeito.



Bento.

sábado, 12 de março de 2016

COMO MOSQUITOS ATRAÍDOS PELA LUZ PARA SEREM MORTOS

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Não se preocupe em deixar frutos nesta vida e ser gentil com as pessoas, pois no fim todos nós terminaremos sozinhos. Não há um ser humano sequer neste mundo que não colocará seus sentimentos e bem estar à frente de todas as outras pessoas.
Lembro-me de minha casa, meses atrás, havia tantas latas espalhadas quanto um ferro velho. Era o sonho de todo catador de latinhas, passar alguns minutos ali recolhendo alumínio até fazer um bom dinheiro, como aqueles programas de televisão que tinha minutos para escolher os prêmios que queria levar.
Eu poderia recolher e vender tudo aquilo, mas tinha a preguiças dos gatos, só funcionava de noite. E recolher latas e carregar sacos pretos de lixo até o ferro velho não estava, nem de longe, em minha lista de prazeres.

Eu já fui mais de festas. Houve um tempo que chegara a fazer duas festas por semana em casa. Regadas a cervejas, carnes sangrentas e música alta a ponto de receber visitas frequentes de policiais em minha porta informando sobre o descontentamento dos vizinhos com nossa festa de dar inveja a Baco. Hoje faço festas mais particulares, quando faço, com minha garota e é só. Muito suor e destilados. Cervejas e sexo. Mais que isso eu estaria mentindo. A diferença entre minhas festas antigas e as atuais não é só o possível sexo, pois isso nunca foi problema. É que hoje em dia é possível fazer festa sem dizer uma palavra sequer. Quando muito um "passe a perna para cá" basta. Entenda, não é sempre (quase nunca) que estou com vontade de conversar e falar sobre coisas inúteis.

Veja um exemplo; outro dia estávamos numa festa de aniversário com algumas pessoas que eu não via há tempos. Chegamos e apresentei a garota aos antigos amigos e logo sentamos para dar início aquele velho e chato papo bosta "olá, quanto tempo, o que tem feito?". Levei um pacote de cerveja como é de bom tom em toda festa onde se é convidado, afinal, é o único líquido que bebo e somente com o álcool sou capaz de sair de casa e socializar decentemente com pessoas e meu pacote continha todo o álcool que existia na festa, assim, dei graças aos céus por minha boa educação. Caso contrário teria saído dali no mesmo instante que cheguei.
Digo isso, pois minhas cervejas eram as únicas que existia no lugar e não havia nada mais alcoólico a não ser o usado para acender a churrasqueira. Não que fosse novidade pra mim, afinal eu já fiz drinks com cada coisa... O que quero dizer é que cada vez mais as pessoas estão preocupadas com saúde e comidas saudáveis e exercícios físicos e para todo lugar que olho vejo seres com corpos esculturais e roupas tão minúsculas quanto a velocidade de raciocínio. Parece clichê, mas normalmente o ser mais forte não é o mais esperto da sala. Normalmente. O que não quer dizer que isso não tenha suas vantagens.

Minha garota mesmo, vez ou outra lhe pego revirando os olhos por um ou dois caras que aparecem na TV com as tetas tão rijas que poderia arrastar uma charrete com elas. Mulheres têm destas coisas, às vezes. Ela acha que não percebo, mas estou sempre atento. Basta um cara com aqueles músculos aparentes para lhe prender a atenção. Eu já sou exatamente o oposto. Apesar de ter ganhado um pouco de peso, ainda me mantenho magro como salário mínimo e tão sedentário quanto um bicho preguiça. Só me mexo quando extremamente necessário e sempre que posso evitar, faço. Caminho até o mercado para buscar cervejas e nada além do que posso carregar, pois acredito piamente que todo homem só precisa ter a força necessária para carregar exatamente aquilo que vai beber e comer, e é tão somente por isso que não sou adepto de gordas. Além disso, eu ainda faço piadas, veja quanta coisa boa. Algumas garotas preferem homens carismáticos aos fortes, afinal, foi-se o tempo que nós, machos, precisávamos de força para sobreviver. Mas algo me preocupa. Não é que me faça perder o sono, mas às vezes me pego pensando. É muita força para animais irracionais andando por aí sem nenhuma cautela. Em algum momento pode dar merda, bem como homossexuais agredidos nas esquinas e etc. É pouco raciocínio e muitos músculos andando por aí sem qualquer vigilância e não que eu queira ser o mensageiro do Apocalipse, mas não precisa ser muito esperto para prever que em algum momento, numa sociedade escrota que vivemos hoje, com uma forte tendência ao fanatismo, religioso, político entre outros, em meio a uma cultura empobrecida de ideias e ideais, onde os artistas têm tanta massa cinzenta quanto seus seguidores amebas, irá acontecer uma barbárie sem precedentes.
Nessa mesma festa que eu narrei, todos os garotos que cresceram comigo, todos davam o dobro de mim, contudo não leram dez por cento dos livros que eu li. Nem vou citar sobre porres, pois eu ganharia de mil a zero. Não sei se estão conseguindo me acompanhar, porém vou simplificar. Talvez tenhamos daqui a 50 anos, jovens senhores vivendo até seus 100 anos, saudáveis e acéfalos, que criarão crianças acéfalas e por fim, sumiremos da face da Terra como os animais que um dia, dominaram o mundo por serem racionais. Em plena época onde a informação tem sido de maior acesso, as pessoas simplesmente não conseguem acompanhar sua velocidade ou priorizar seu raro tempo naquilo que realmente tenha importância.

Neste mês, fará seis anos que eu escrevo sem parar. Nestes anos, eu li e ouvi de tudo que é tipo que se possa imaginar, desde o início eu falo sobre isso, sobre este tópico e de lá para cá só piorou e não creio que vá melhorar. É uma data importante pra mim. Numa conta rápida, supondo que eu escrevesse apenas um texto por mês, o que é pouco perto do que escrevi, teria eu escrito 72 textos neste período. Que é mais que todas as matérias de jornal que esses seres musculosos leram nem sua vida medíocre. Pode apostar. Mas hoje, tenho mais de 500 textos postados neste blog e não que isso me faça melhor que eles, claro que não. Supondo que eu bebesse uma caixa de cerveja por semana nestes seis anos e uma garrafa de destilado por mês, chutando baixo, eu teria absorvido 72 garrafas, e 288 caixas de cerveja, sendo cada caixa com 12 latas, eu teria bebido 3.456 latas de cerveja e 72mil mililitros de destilado dentre eles whisky, vodca, conhaque, cachaça, tequila e derivados. Fatalmente isso não me fará viver até os 100 anos. Contudo, talvez me faça ser lembrado, mesmo que seja um exemplo a não ser seguido, de como viver a vida. Só isso já basta, para não querer fazer parte deste exército de testosterona que andam sem rumo sempre a caminho da multidão. Bem como mosquitos atraídos pela luz para tão logo, serem mortos.



Bento.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

EMPANTURROU-SE DE CARNE ATÉ DIZER CHEGA

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Imagem de Apollonia Sainclair


Pela dor que sentia no joelho esquerdo era certeza que iria chover, por isso que Malaquias se apressou para achar um bom coberto, onde não escorria água, fez a cabana de papelão, prendeu seu carrinho de supermercado no tornozelo e então podia relaxar. Claro que é sempre bom dormir com um olho aberto quando se está na rua e ele sabia disso como ninguém, mas até a rua é um pouco mais segura quando chove, pois ninguém queria sair para por fogo em mendigos e vê-los queimar. Malaquias estava em um lugar alto, seco, e por incrível que possa parecer, mesmo não tendo nada, agradecia aos céus pela chuva. Ele tinha encontrado uma caixa cheia de quadrinhos da Marvel, de 1987 e guardara até um dia como aquele, chovendo, mas calor para ler. Ele assistia as baratas fugindo da água escorrendo pela calçada e procurando abrigo abaixo de seu papelão, mas bastava se aproximar o suficiente e ele acertava com o salto de sua bota. Cada barata era um aperto no coração. Não via muita diferença entre elas e ele. Morando na rua, sem teto, correndo da chuva. Mas odiava baratas. Tinha asco e talvez até certo medo. Entre ele e elas, Malaquias preferia ele, a única diferença é que ele era maior e podia matá-las apenas com um golpe do salto da bota. Não demorou muito para ele pegar no sono lendo e vendo quadro a quadro Wolverine apanhar do Tigre Dentes de Sabre, mas no fim sair vitorioso. Malaquias desejou muito ser o Wolverine, pois ele vinha apanhando a muito tempo da vida.

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Cris estava no banco do passageiro do Fusca falando no celular com seu namorado. Vestia uma lingerie nova escolhida especialmente para aquela ocasião. Não era a primeira vez que estava naquele carro, nem no Libelillun Motel, tanto que no porta-luvas tinha um pacote de lenço umedecido e uma necessaire exclusiva para aquela finalidade. Júnior, seu namorado, estava exaltado do outro lado da linha. Estavam discutindo, pois ele tinha saído cedo do trabalho querendo fazer alguma coisa de diferente com sua namorada, mas ela dizia que iria trabalhar até tarde. Se ele tivesse avisado antes, ela dizia, tinha dado um jeito de sair mais cedo. Uma dor de barriga, ou aquelas coisas de mulher com enxaqueca ou cólica.

- Você sabe que eu sempre dou um jeito, amor. Eu minto bem.

Junior sabia que era verdade, ela mentia muito bem. No início do namoro ela inventou muitas histórias para que os dois pudessem aproveitar os motéis durante o dia quando eram mais baratos e mais vazios. Uma vez, Cris conseguiu fingir dengue para o médico e pegou um atestado de cinco dias e os dois foram viajar emendando o feriado. Ele não sabia como ela conseguia aquilo, mas era uma boa mentirosa. Cris sabia que o decote ajudava na mentira e sempre que precisava não tinha medo de usá-lo. Tinha seios de dar inveja a muitas mulheres e ela ainda tinha 23. Também por isso, pela pouca idade, achava que era muito nova e muito bonita para se prender a um cara só. Júnior mesmo, era ótimo, pagava todas as contas e a levava para lugares incríveis. Sempre viajando para as praias mais requisitadas, os restaurantes com melhor nota na revista da Folha, enfim, não tinha do que reclamar. Mas era diferente com Ludovico, o dono da empresa de Marketing onde trabalhava. Além de italiano, que já era um sonho para Cris transar com um italiano, Ludovico era mais velho, mais rico, tinha um gosto incrível para tudo, ele também era bem mais másculo. Enquanto Junior só a fodia num vai e vem básico, às vezes até pedia para ela ficar de quatro, mas sequer batia na sua bunda, Ludovico comia ela de pé, apertava-lhe o pescoço a ponto de quase achar que iria perder o ar, mas ele sabia o ponto certo. Cuspia em seu rosto e fazia ela se sentir um objeto, uma vagabunda, que na realidade ela sabia que era. Se colocar sua diversão e seu prazer à frente dos sentimentos dos outros era ser vagabunda, então ela era das piores, ou melhores, depende do ponto de vista. Teve até um fato engraçado quando conheceu Ludovico. Ela não gostou dele logo de primeira. A idade a assustou, os cabelos bastante grisalhos também, mas tudo piorou quando ele disse que seu carro era um Fusca. Ela quase deu risada quando ele disse a ela. Pensou logo na sua infância, seu pai e aquele velho Fusca azul geladeira. Até ver Ludovico saindo para almoçar em seu Fusca zero, ainda sem placa, pois tinha acabado de comprar. Achou-se idiota naquela hora, mas apaixonou-se pelo carro e por Ludovico. Agora estava ali, impaciente, falando com Junior no telefone e aturando sua crise de ciúme, enquanto seu amante pegava a chave da suíte de um dos motéis mais caros da cidade. A única coisa que fazia se sentir mal era quando Ludovico dava dinheiro para ela ir embora de taxi depois da transa e ainda dava umas notas a mais de cinquenta. Ela se sentia uma puta. Porém, não iria negar o dinheiro, afinal, suas roupas e o cabeleireiro e as maquiagens, tudo custava o olho da cara e seu salário de estagiária não dava nem para o começo.

- Junior, chega! Vou entrar numa reunião. Te ligo quando sair. Eram 19:00. E desligou o telefone. Entrou no quarto e logo viu Ludovico abrir a garrafa de vinho e servi-la.

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Malaquias acordou no meio da noite assustado. Mesmo seu carrinho de supermercado ainda estando ali mexeu a perna para ter certeza de que ainda estava preso ao seu tornozelo. O quadrinho que lia antes de pegar no sono estava aberto ao seu lado, em cima do papelão. Desejava um cigarro, mas tinha fumado o último há três dias mais ou menos. Precisava fumar. Antes de viver na rua era um fumante inveterado e no começo foi bem difícil passar sem. Sentiu vontade de cagar e rapidamente seu cérebro já o fez lembrar sobre um lugar ideal para fazer de banheiro. Não muito perto que o vento pudesse trazer o cheiro até onde estava e nem muito longe que tivesse que perder seus pertences de vista. Em seu carrinho pegou um rolo de papel e foi até a viela que tinha caçamba de lixo. Abaixou-se entre a parede e a caçamba de lixo e despejou tudo no meio fio. Essa era uma das partes mais difíceis. Não ter um banheiro para cagar em paz, tomar um banho relaxante no inverno e um banho gelado no calor e sentir que aquilo é só seu. A viela estava sem luz então Malaquias quase saiu correndo de susto mesmo com a bunda ainda suja quando viu um carro se aproximando, com os faróis apagados e em marcha lenta. Entrou na viela e parou no meio dela, no meio do breu. Porém pode ver o par de botas saindo do carro, abrindo o porta-malas e colocando seu conteúdo calmamente na calçada. Malaquias não conseguiu ver o homem que descarregava o carro, mas o que ele tinha em seus braços parecia um fantasma.

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Ludovico estava especialmente animado hoje. Fez uma longa preliminar fazendo Cris sentir o tesão percorrer todo seu corpo. Começou fazendo massagem, passou a beijar cada pedaço do corpo da garota de cabelos loiros. Chupava e lambia e Cris queria mais. Queria ser xingada. Desejava os puxões de cabelo e ser estapeada como Ludovico fazia. Ela se sentia um pedaço de carne nas mãos do italiano e sentia um prazer imenso nisso. Por ser muito bonita e pequena, os caras que saiam com ela tratavam-na como uma boneca que poderia se quebrar a qualquer momento, mas Ludovico a tratava como puta e ela adorava. Estava com tanto tesão que sentiu seu corpo mole, tão mole que quase não tava sentindo mais a língua de Ludovico em sua vagina. Cris não sabia, mas tinha cinco mililitros de Ketamina, um paralisante potente usado em cirurgias que o italiano aplicou em sua nádega sem que ela percebesse. Seu sorriso ficou congelado em seu rosto como aquela lenda antiga que os pais lhe contavam quando fazia careta para idosos. "Vai bater um vento e seu rosto ficará assim pra sempre" eles diziam. Não sentia mais nada. Respirava com dificuldade. Pensou até em infarto, mas era jovem e saudável, fazia exercícios, seria impossível estar morrendo de tesão, literalmente. Quando Ludovico teve certeza da paralisia de Cris levantou-se e foi até sua maleta. Acendeu um grande cachimbo já com fumo e sentou-se na cadeira ao lado da cama admirando o corpo de Cris. Ela mal conseguia mexer os olhos, mas podia ver a fumaça branca acumulando no teto do quarto de hotel. Cris achava que estava entrando em transe, que estava num sonho. Sentia que passara horas olhando para aquela fumaça tentando chamar pelo nome de Ludovico, mas não saía nenhum som. Passara a ouvir uma musica de fundo, antiga, não era calma, mas trazia serenidade. Pensou estar dormindo, só poderia estar dormindo. Até ver, finalmente, Ludovico surgir em seu campo de visão, com o olhar de quem a desejava como nunca tinha notado nos olhos do italiano. Sua barba por fazer, seu cabelo lambido para o lado já estava desfeito caindo sobre a testa e Cris pensou que nunca tinha o visto tão belo. Ludovico beijou-lhe nos lábios, desceu pelo pescoço até chegar aos seios e Cris via, mas não sentia nada. Queria poder avisar a ele que não estava sentindo nada. Ludovico passou bastante tempo ali, na posição de quem beijava-lhe os seios e Cris sem nada sentir. Ela não sabia, mas o homem que conhecerá estava mastigando seu seio esquerdo como quem mastiga uma picanha mal passada numa churrascaria rodízio. Começou pelo bico e mastigava. Sem cortes, só mordida. Como um canibal, como uma hiena. O sangue jorrava pelo seio mutilado e Cris não se dava conta. O homem bebia o sangue todo, lambia o excesso que escorria pelas costelas aparente devido a magreza de Cris. Era um jantar suculento de carne mal passada que Ludovico não encontrava nem nos melhores restaurantes que visitara pelo mundo. Empanturrou-se de carne até dizer chega e então parou. Levou o corpo ainda vivo com o seio amputado por mordidas como se tivesse enfrentado um animal até um beco escuro e largou lá. Como os pais de família fazem com o lixo da cozinha. Largou lá e saiu com o carro fumando um cigarro para ajudar na digestão.

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Malaquias foi até o fantasma que havia sido deixado ali na viela e percebeu que era uma garota, de cabelos loiros e um lençol branco a cobria até o pescoço. Seu rosto estava imóvel e seus lábios arroxeados. Tomou um susto e teve certeza que se tratava de um cadáver. Malaquias já tinha visto em filmes polícias, aquele teste de por o dedo no pescoço da vítima para sentir a pulsação, mas não tinha certeza se aquilo funcionava. Mesmo assim fez e não sentiu nada, nem um músculo. Malaquias olhava para o rosto da garota e ficara indignado. Tão linda. Branca como um fantasma. E os cabelos loiros, mas tão loiros. O mundo realmente não era um mundo justo. Enquanto ele estava ali vivendo como um verme, comendo lixo e ainda vivo, uma garota linda como aquela estava nua e morta numa ruela qualquer. Ele nunca estivera com uma garota como aquela, mesmo em seus melhores dias, quando ainda tinha um emprego e era alguém na vida e pelo andar da carruagem jamais poderia estar com uma garota daquela. Afinal morava na rua e não se lembrava da última vez que escovou os dentes. Malaquias não tinha nada, logo, nada também a perder. Tocou no rosto da garota e sentiu um tesão que deixou-o envergonhado. Pensou em seu primeiro encontro, sua primeira namorada e sua primeira transa. Sentiu-se um garoto novamente. Quando se mora na rua, as pessoas tendem a se afastar ou ignorar, porém Malaquias estava de frente com esta garota, tão próximo que poderia beija-la e ela nada podia fazer. Então ele fez. Tocou seus lábios no da garota e sentiu seu pau latejar dentro da calça. Sabia que o que estava fazendo era vergonhoso. Tinha consciência disso, mas quando se vive na rua os conceitos de vergonha tendem a diminuir. Comer o resto que as pessoas jogam no chão também era vergonhoso e mesmo assim ele fazia, pois tinha de sobreviver. Então Malaquias usou o mesmo argumento para se convencer de fazer aquilo. Também era uma questão de sobrevivência. Precisava ter a sensação de penetrar uma mulher novamente. Já fazia tanto tempo desde a última. Malaquias então subiu o lençol até a cintura da garota. Apreciou-lhe as pernas. Olhou a vagina do cadáver e tão logo cuspiu em seu pau para que pudesse penetra aquele que parecia um botão de rosa. Lindo e delicado. Metia fundo e com força no corpo que só se mexia pelo impulso do corpo do morado de rua.

E Cris, que a última vez que se lembrava estava num quarto luxuoso de hotel com seu amante, agora estava no que parecia ser uma rua com sobrados e um homem negro desconhecido olhando-a nos olhos com o rosto de quem sentia muito prazer. Ela piscou e o homem parou de se mexer, mas continuou encarando-a. Pode perceber que o homem fechou os olhos com força como que os pressionando. Quando abriu deu um pulo enorme. Tudo aquilo não chamava tanto a atenção de Cris como a dor que sentia em seu peito. Como um machucado. Uma ferida aberta. Ainda não tina a consciência que seu seio esquerdo tinha sido mastigado por um homem louco. O mesmo homem que a presenteava com roupas de grife e jantares caríssimos. Malaquias não podia acreditar no que estava acontecendo. A garota estava viva ainda, mas o tesão falava mais alto. Ele tinha tirado o pau de sua vagina, contudo precisava entrar ali de novo. A garota acordara, porém não se movia. Talvez não pudesse então ele pensou em continuar. Debruçou-se sobre a garota e ela tinha um olhar assustado. O mesmo olhar de uma criança recém-nascida ao ver o mundo pela primeira vez. Era notável que a garota tentava falar, mas não conseguia. Malaquias viu uma pedra próxima e acertou a garota na cabeça com força. Mesmo com o susto tomou cuidado para não machucar seu rosto lindo. Bem no topo da cabeça, bateu uma vez e os olhos ainda se mexiam, então repetiu uma, duas, três vezes até que os olhos perderam qualquer sinal de vida e ele continuou satisfazendo-se até que chegou ao ápice e ofegante, saiu dali, pegou seu carrinho, recolheu seu papelão e partiu. Morrendo de vontade de fumar um cigarro. Como era de praxe depois de toda transa, antigamente.




Bento.

domingo, 10 de janeiro de 2016

AS RELIGIÕES, AS PUTAS, A MÚSICA E AS ARTES CÊNICAS, TUDO ESTAVA VAZIO

Imagem de Apollonia Saintclair

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Alarme falso.
Uma vez levantei e corri para o banheiro ainda com as remelas grudando os olhos, com muito sacrifício sento no vaso e percebo que eram só gases. Achei que iria cagar, mas fui ludibriado pelo peido. Já que estava ali decido terminar o cigarro antes de levantar.

Isso às vezes acontece e não é só dos gases que falo. Há muito alarme falso na minha vida. Um dia desses mesmo, jantei e passei mal. Comi, deitei e foi só encostar a cabeça no travesseiro e a boca encheu d'água, era o vômito se anunciando e sei que vão lembrar que eu digo que nunca vomito e é verdade. Há dois dias eu não bebia e gorfei todo o almoço e janta na privada. Bebi água e voltei correndo para ajoelhar de novo no chão do banheiro e colocar o resto de Deus-sabe-o-que para fora. Depois de três, quatro vezes que bebi água e voltei a vomitar decidi tomar uma dose de whisky. Batata! Alarme falso. Pensei que iria morrer, mas era só falta de álcool. Pensei no whisky, pois já não havia nada para por pra fora.

Poucas coisas são tão ruins quanto vomitar. Seu corpo vira autônomo e decide que você não vai sair do banheiro enquanto ele não mandar. Mesmo quando tentamos lutar contra, os músculos da barriga deixa claro que somos fracos insistindo em colocar para fora tudo que ele não quer mais. De qualquer forma, há momentos que é melhor por cima que por baixo. Hoje mesmo, estou há alguns dias sem beber. Não tenho um centavo no bolso e enxuguei todas as garrafas que tinha em casa. Acreditem, até o enxaguante bucal com álcool acabou. As coisas passam a ter outro sentido quando se está sóbrio. Eu sinceramente não entendo como as outras pessoas aguentam o mundo sem alguma coisa para ficar doidão. Mesmo assim fui trabalhar num calor de cinco infernos e eu com um humor de querer morder os cachorros na rua. Uma ou duas vezes tive vontade de correr atrás do rabo só para ver se tonto, as pessoas ficariam menos tediosas. Na empresa desligaram o ar-condicionado por causa do racionamento de energia e eu transpirava como um macaco. Por vezes tive de ir ao banheiro lavar o rosto e percebi minhas mãos trêmulas. Talvez eu precisasse de um médico, mas com o dinheiro que eu NÃO tenho não podia me dar ao luxo de perder um dia de trabalho. O espelho mostrava meu rosto cansado de quem tem uns quarenta anos e eu ainda não cheguei nos trinta. Estranho como quando estamos alto por causa de uma birita não reparamos nessas coisas. Os fios brancos da minha barba brilhavam como sabres de luz de Star Wars. Bebia água como um desesperado para repor o líquido que perco devido o calor e também por hábito de estar sempre bebendo algo. Mastigava a água até, pois tinha fome como um mendigo. O café da máquina era péssimo como água de um copo sujo de cinza de cigarro.
O cigarro era outro problema. Estava prestes a acabar, por isso eu fumava metade e apagava para guardar a outra metade pra mais tarde. Não damos o devido valor a um cigarro até perceber que é o último do maço e que não existe outro maço. Eu poderia usar isto como metáfora para muitas coisas nessa vida medíocre, mas até escrever é difícil quando se está sóbrio. Sempre odiei poetas sóbrios. E vendedores sóbrios, artistas sóbrios, balconistas sóbrios, enfim. Acho que me fiz entender.

O fato é que tudo me lembrava álcool. As pessoas exalavam álcool. Tudo piorou quando a senhora da limpeza me deixou maluco depois de limpar minha mesa com álcool perfumado e caprichou tanto que eu me segurei para não acabar lambendo o móvel. A secretária, por alguns instantes ao me passar um telefonema me deixou confuso e eu tive que pedir para que ela repetisse o recado que aos meus ouvidos soaram como "quer que eu te leve uma cerveja bem gelada"? quando na verdade ela perguntou se eu queria que retornasse ao Bezerra do almoxarifado que estava atrás de falar comigo e já tinha ligado duas vezes. Eu respondi que não podia falar no momento. Precisava de um cigarro, de muitas cervejas e um chinelo para amenizar o calor. Pernilongos pairavam sobre nossas cabeças e eu poderia comê-los na esperança de terem picado algum bêbado por aí e quem sabe absorver um pouco de etanol misturado com sangue. Talvez não fosse a primeira vez, pois já misturei álcool com tanta coisa. Última vez que me lembro misturei xarope à vodca para curar uma tosse e de quebra a gripe. Sempre fui bom de improviso. Uma vez estava tão falido que tive que usar o Bom-Ar como desodorante porque não tinha nem para comprar uma Minâncora, não via problema algum em pegar um pouco do álcool hospitalar que a empresa comprava para a limpeza dos banheiros e alcançar uma pequena brisa sequer.
Se eu tinha esperança que ao transpirar evaporasse um mínimo de álcool que continha em meu fígado ou estômago entrando em minha corrente sanguínea agora já se fora. Eu estava sóbrio e duro. Que vida ingrata. De pensar que eu já havia dado tanto lugar para velhinhas sentarem nos ônibus e como Deus me retribuía? Sem uma gota sequer de álcool para aturar essa vida maldita. Sentia-me tão desambientado neste lugar como quando estive num noivado evangélico à base de refrigerante quente e salgadinhos frios. E a maior prova de que essas igrejas não são de Deus é eu acreditar piamente que ao adentrar qualquer lugar sagrado eu entraria em combustão tão rápido quanto um acendedor de churrasqueira e muito disso devido ao álcool tomando meu organismo. Mas não agora.

Pensei em churrasco e me deu calafrios. Lembrei da cerveja no gelo e sal grosso. A carne grelhando. Infinitas batidas e caipirinhas de todas as frutas da temporada. Precisava sair dali e beber alguma coisa antes que enlouquecesse, se é que já não estou louco. Eu poderia matar o primeiro que surgir na minha frente e beber de seu sangue com um canudo se tivesse a certeza de que aquilo me tiraria dessa realidade maluca e tediosa. Já estava ouvindo vozes. Mate mate mate mate!!!!!!!!!! As veias pulsantes no pescoço fino e liso da garota que senta-se à mesa ao meu lado. Morda! Arranque um pedaço! Mastigue! Corte, esquarteje, pique, beba!! Beba!! A voz continuava. O calor e os mosquitos me irritavam. O ar, o barulho e até o silêncio me tirava do sério. Estava enlouquecendo. Os barulhos das teclas que as outras pessoas insistiam em pressionar. O click do mouse, as ventoinhas dos computadores, os ácaros nos carpetes todos malditos barulhentos. Simplesmente não conseguiam ficar em silêncio e respeitar a minha dor. Me ofendiam apenas por estarem vivos e existir. Mate mate mate mate!! Aquela voz continuava. Eu precisava sair dali, mas minhas pernas tremiam. Meu corpo tremia. Eu desejava mais que a vida um copo, umas garrafa de algo amargo, forte, rasgando a garganta ao descer. Batendo no estômago e me lembrando que estou vivo. VIVO! E que a vida podia ser melhor que esses pedaços de carne ambulante que perambulam por aí com seus sorrisos falsos, suas peles oleosas, seu fedor. Eu precisava matá-los, precisava limpar o mundo desses nojentos. Mas mais importante, eu precisava beber, então minha faxina rancorosa poderia esperar. Sentia firmeza nas pernas pela primeira vez no dia e corria. Saí dali e corri até o hall. Não tinha elevador disponível então corri pelas escadas. De dois em dois degraus tropecei duas vezes e quase parti a cabeça ao meio. Do lado de fora do prédio continuei correndo e fui como um alucinado até o bar mais perto que conhecia e estava fechado. Continuei correndo e encontrei mais bares fechados. Nem era feriado, era um dia de semana como qualquer outro. Corria e corria e mais bares com suas portas de aço abaixadas e trancadas e mercados fechados, padarias e Casas do Norte, mercearias e qualquer lugar que vendia álcool estavam fechados. Finalmente avistei um posto. Continuei correndo e a loja de conveniência estava fechada então tive uma ideia genial. A bomba! Claro. A bomba de etanol, álcool puro e da fonte. Parei ao lado do frentista sem fôlego. Não sei dizer como consegui correr tanto. Não com os trinta cigarros diários. Mas logo que parei comecei a sentir o resultado de tanto esforço. Meus pulmões colados nas costas e sem ar. Minhas pernas começaram a tremer novamente. A garganta seca quase não permitia que eu falasse. Álcool! Álcool, pedi ao frentista. Ele não entendeu e então eu repeti e tive que fazer um esforço enorme para isso. Álcool! Me dê um pouco de álcool. E daí que era álcool automotivo? E daí que aquilo poderia corroer meus órgãos e me matar? Eu já estou morto. A sociedade estava morta. Com todos os seus demônios e sua hipocrisia e suas doenças. Herpes, AIDS, gonorreia, mau hálito, caspas, furúnculos anais, hemorroidas, diabetes, gastrite e um mundaréu de enfermidades. E os gordos, os idosos, os pais de família. Eu só precisava beber. Morreria por uma gota de álcool e para melhorar o meu dia, o frentista olhou bem nos meus olhos, sem respeitar meus sentimentos e jogou a realidade toda em meus ombros novamente.

- Não temos nenhum combustível. Estamos vazios. Ele disse.

Vazios! Claro que estão. Não só o posto. O mundo estava vazio. As religiões, e as putas, a música, e as artes cênicas, tudo estava vazio. De um vazio absolutamente tedioso e é por isso que eu precisava de álcool. Então eu corri. Continuei correndo como se não houvesse amanhã e possivelmente estava certo. Vi a avenida. Os carros indo de um lado para o outro com seus condutores e suas vidas patéticas e vi um caminhão. Enorme e vinha rápido. Vinha como quem estivesse atrasado para algo. Dois passos. Apenas dois passos seria o suficiente para dar cabo daquilo. Dois passos e o caminhão espalharia meus órgãos podres devido o consumo excessivo de álcool pela avenida. Fazendo uma festa de sangue e pele e tripas. Dei os dois passos e esperei. Mais espera. Em toda a minha vida não houve um segundo sequer que eu não estivesse esperando alguma coisa. O garçom trazendo meu drink, a garota sair do banheiro para transarmos e um monte de outras coisas. Travei os dentes com toda a força que restava em meu corpo. Era a hora e quando estava a um milímetro de distância, tão perto que podia sentir o calor do radiador em minhas narinas, no último instante, fui surpreendido com o som do contrabaixo de Lemmy tocando Aces Spades saindo do meu celular. Era o despertador me acordando para ir trabalhar de novo.

Então, você que lê isso agora, se é que há alguém lendo isso, deve estar respirando aliviado achando que estou contando apenas um sonho que tive. E tudo seria maravilho se realmente fosse isso mesmo. Um sonho e pronto. Porém, hoje completa 36 dias que não consigo sair deste sonho. Todos os dias, sem exceção, o contrabaixo, o alarme falso do peido, o calor, os bares fechados e o caminhão. Tudo de novo e novo e de novo. Preso num ciclo vicioso, infinito, como um rato correndo em sua roda dentro de sua gaiola. Sempre igual. Sempre. Igual.



Bento.

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sábado, 14 de novembro de 2015

PROCURANDO AS BOLAS NO CHÃO SUJO DE VÔMITO, URINA E SANGUE

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Imagem de Apollonia Saintclair

Estava lembrando-me de uma vez que cometi meu último furto. Tinha esse cara, não sei bem como o conheci. Talvez fosse um cunhado de meu irmão, mas talvez não. Éramos dois adolescentes magricelas caminhando até outro bairro que na época, era onde as coisas aconteciam.
Estávamos sóbrios e andando e falando, quer dizer, ele falava mais, eu só ouvia. Respondia às vezes com um "uhum", um outro  "sério?", outro "ah tá" e por aí fomos, andando como camelos.
No caminho havia um posto e eu estava com a garganta seca.

- Que tal comprar uma cerveja? Tenho uns trocados aqui. Eu disse.

Ele também tinha uns trocados e entramos na loja de conveniência que foi muito conveniente naquele momento. Afinal eu precisava estar bêbado para andar tanto, ainda mais com ele falando e falando sem parar. Como toda loja de posto existe a atendente feia com cara de bosta que sabe que não nasceu gostosa suficiente para merecer um emprego melhor que não tenha que virar a noite, nesta loja que estávamos não era diferente.
Fomos para as geladeiras e escolhemos nossas cervejas. Ele, uma marca nacional das mais baratas, eu peguei das de garrafa verde, pois se eu iria tomar uma só pelo menos que fosse da melhor. Logo após pegar sua cerveja ele pegou uma daquelas garrafinhas de whisky, meteu uma dentro da calça, depois pegou mais uma e me deu.

- Esta é por conta da casa. Ele disse e sorriu dando uma piscadela com um dos olhos.

 Eu sabia o que aquilo queria dizer e fiquei tenso. Na época eu não tinha dinheiro para quase nada e nunca tive dinheiro para tomar um daqueles, mesmo os de garrafinha. Ele percebeu minha preocupação e tentou me tranquilizar alertando-me sobre a ausência de câmeras e o frentista era apenas um gordo velho, se tivéssemos que correr seria fácil.

- Não sei. Eu disse.

- Você quer ficar bêbado ou não? Ele retrucou e eu dei de ombros.

Fomos até o caixa pagar. Entreguei o dinheiro para a garota feia que pegou a nota de cinco com a cara de quem estava colocando a mão num rato de esgoto. Abri a garrafa de cerveja e tomei um longo gole, não tinha troco. Meu amigo jogou uma nota de 2 surrada e algumas moedas em cima do balcão com a mesma arrogância que a caixa demonstrava. Naquele momento pensei que os dois se mereciam, formavam um belo par. Talvez fosse o destino ou a ordem das coisas. Talvez fosse verdade que atraímos exatamente aquilo que damos ao mundo. Um planeta enorme, com bilhões de pessoas e os dois se encontraram, tão iguais em seus comportamentos. Naquele instante imaginei os dois casados e tendo filhos igualmente arrogantes quanto os dois, e estes filhos gerariam mais filhos e num futuro não muito distante o mundo estaria infestado de arrogantes, achando que somente sua forma de pensar era a certa, que somente seu Deus era o verdadeiro, que somente seu partido político era o honesto e só seus tons de pele e opção sexual eram os corretos e tudo isso aconteceria com a mesma naturalidade com que os insetos morrem e as plantas germinam e as letras de músicas surgem nas cabeças dos poetas durante uma noite de insônia.
Então eu fui despertado de meu devaneio pela voz da garota que decidiu abrir a boca pela primeira vez com sua voz esganiçada logo após contar cada moeda do meu amigo como quem escolhe feijão antes de cozinha-lo, questionando-nos - Quem vai pagar pelas garrafas que vocês colocaram no bolso?

Eu fiz cara de culpado e já estava prestes a devolver o objeto do furto quando meu amigo respondeu.

- Do que você esta falando? As únicas garrafas que pegamos foram estas.

- Eu vou chamar a polícia. Tá achando que eu sou idiota? Ela disse.

E cada vez mais eu tinha certeza que sua voz era igual à de um pato e que a qualquer momento ela botaria um ovo pelo cu, ali durante a nossa conversa, abaixaria e passaria a chocar sua cria e nós fugiríamos sem olhar para trás. Ao invés disso meu amigo tirou um canivete do bolso, pulou sobre o balcão com uma agilidade de quem sabia o que estava fazendo.

- Você não vai chamar ninguém, gata. Ou eu vou cortar sua garganta tão rápido que não vai ter tempo nem de grunhir.

A garota arregalou os olhos e cada vez mais ela parecia um pato. Eu também estava assustando vendo meu amigo com a ponta da faca flexionando a jugular da garota-pato, mas não consegui me conter com aquele comentário, as palavras simplesmente saíram da minha boca como quem bebeu demais e vomita o excesso de álcool. - Grunhir? Por que grunhir? Perguntei.

- Ué, você não acha que ela tem cara de pato? Feia pra caralho.

Agora eu tinha a certeza de que ela realmente parecia um pato e não era só um devaneio meu causado pelo estresse da situação.

- Porra, eu acho, só não sei se patos grunhem. Eu disse.

- Então patos fazem o quê?

- Eu não sei.

- Porra! Então como você sabe que tá errado?

- Cara, sei lá. Não sou professor de português, mas "grunhir" parece coisa de animais maiores. Eu disse.

- Você quer mesmo falar sobre isso agora? Ele disse apontando para a faca com a outra mão e fazendo uma cara que mostrava toda sua indignação.

- Acho melhor a gente sair daqui. Eu disse.

- Não, cara. Agora que a gente ta aqui vamos levar mais algumas coisas. Fique a vontade, eu vou ensinar essa vadia feia se comportar. Ele disse.

- O que você vai fazer, cara? Vamos embora.

- Vou trancar ela lá no banheiro. Ou você quer que ela chame a polícia assim que a gente virar as contas?

De certa forma ele tinha razão. Ele saiu puxando a garota ainda com a faca pressionando seu pescoço longo e fino como o de um pato e ela chorava e suplicava baixinho quase parecendo uma reza. Eu continuei bebendo minha cerveja e me entretive com a televisão que passava alguma novela, acho.

***

Meu amigo não voltava e talvez eu precisasse ir ao banheiro, mais para mijar que pra saber o que ele estava fazendo. A porta estava semiaberta e eu fui logo entrando e fiquei surpreso ao ver a garota ajoelhada na frente do meu amigo que tinha metade da bunda magra e branca à mostra. A garota estava com o canivete apontado para a garganta enquanto era obrigada a chupar o meu amigo e ela ainda chorava, por medo, por ser forçada a fazer aquilo e talvez por ter o pau forçado a entrar em sua garganta.

- Que isso, cara? Vamos sair daqui. Eu disse.

- Essa vadia merece. E tem mais, estou fazendo um favor pra ela. Feia do jeito que é duvido que já tenha chupado um pau na vida. Estou dando uma oportunidade. Ele disse.

- Você tá maluco. Eu to indo embora.

- Não quer um pouco? Ele disse apontando com a faca para a garota e olhando pra mim com cara de quem me convidava para tomar um drink, ou oferecia um chiclete.

Eu tive um pouco de asco da situação e estava prestes a responder quando a garota se aproveitou da desatenção do meu amigo, pegou o canivete de sua mão e cravou a faca bem no meio das pernas, entre o escroto e o anus. Bem debaixo das bolas. Com tanta força que jorrou sangue em seu rosto, que aguardava a porra, invés disso sangue. Nunca tinha visto tanto. Ouvi um grito seco, como uma bolada no saco, só que um milhão de vezes pior. Queria morrer só de ver uma lâmina daquele tamanho entrando em meu escroto. Paralisei ali, na porta, com o pau meio duro pela cena, meio mole pelo sangue. Porque não tinha escolhido ficar em casa com o pouco de vodca que me sobrara? pensei. Não, tonto como era tinha que estar ali. Assistindo bolas partindo ao meio. A garota ficou ereta e apontou o canivete sujo de sangue em minha direção. Não sabia o que fazer, estava paralisado e por algum motivo me vinha alguma música do Rob Zombie na mente, talvez por causa do sangue. Meu amigo estava ali, deitado em pose fetal, segurando as bolas entre os dedos, choramingando como uma criança, e ela, a garota feia do caixa, como uma Carie, A Estranha, com o rosto esporrado de sangue, apontava a faca pra mim com a intenção de cortar mais algumas bolas e eu evitando perdê-las naquela noite.

Disse que não concordava com aquilo.

- Lembre que eu paguei a conta. Por mim eu estaria em casa nesta hora.

- Eu vou chamar a polícia. Ela limitou-se a dizer já choramingando.

- To indo embora. Eu disse. E ela desabou a chorar.

- Tchau. Eu disse.

Virei as costas e parti. Voltei e peguei mais uma Heineken, já estava na merda mesmo. Abri e dei um longo gole. O frentista gordo olhava fixamente para o celular, provavelmente vendo algum vídeo pornô com garotas que ele jamais conseguiria transar na vida. Peguei o caminho de casa, acendi um cigarro e fiquei pensando em meu amigo sem as bolas. A polícia chegando junto com o SAMU, os enfermeiros com suas luvas de látex procurando as bolas no chão sujo de vômito, urina e sangue. Lembrei do meu amigo forçando a entrada de seu pau na garganta da garota feia de doer e das lágrimas saindo de seus olhos esbugalhados, seu rosto vermelho e a expressão de sacrifício e o líquido alaranjado saindo pelo canto da boca, provavelmente consequência dos Doritos que pegava escondido na hora do jantar. E eu que sempre gostei de Doritos, talvez demorasse um pouco para voltar a comer. Mais um gole de cerveja, um trago do cigarro, finalmente lembrei que tinha luta na TV. Apertei o passo para chegar antes do card principal. Coloquei a mão no bolso e percebi que a garrafa do whisky caríssimo ainda estava ali e não me lembrei de devolver. Pensando bem, meu amigo eu não sei, já eu tive noites muito piores.





Bento.

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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A PRIMEIRA CANECA DE CAFÉ DEPOIS DO CIGARRO NA GARGANTA QUASE VIRGEM DE UMA NOITE MAL DORMIDA

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Eu sempre disse que tenho uma queda por enforcamentos. Não por mim, claro que não. Nem quero dizer que sinto vontade de me enforcar. Passei a vida inteira "enforcado" e acho que já foi o bastante. De qualquer forma, sempre senti um pouco de euforia ao tomar conhecimento de alguém que se enforcou. É só uma coisa minha, nada demais. Perdoe-me aqueles que tiveram pessoas próximas enforcadas - ou não perdoe - que se foda. A verdade é que respeito toda forma de desistência. Tiros na têmpora, saltos de prédios e em frente a trens, ingestão de veneno, inalação de gases e etc. Acho o ato de DESISTIR muito corajoso, nem todos conseguem. Não acho covarde aquele que desiste, acho burro aquele que continua insistindo em algo que não vai dar certo. Acredito que as coisas podem dar certo assim como podem dar errado, sendo assim todos temos a opção de continuar ou não e assim como todas as opiniões, esta também é individual. E vamos combinar que a vida é uma merda e que nem todos temos estômago para aguentar certos caprichos do destino, muito menos arcar com todas as nossas medíocres ações.

Sendo assim, nada mais que justo dar espaço para outra alma mais assertiva, que por ventura, possa vir acampar por esse mundo. Contudo, a vida não se resume só em mazelas, há também aqueles pequenos momentos onde nos sentimos o pica grossa no universo, por exemplo, quando temos duas cabeças entre nossas pernas brigando por um pedaço de nosso pau. Você nunca soube o que isso? Bom, se nunca, neta miserável vida, pôde ter um momento como este, ainda lhe sobra o caminho da Escada e a Corda, como diz Matanza.

Falando ainda sobre aquelas pequenas coisas que trazem felicidade. Aqueles pequenos momentos que enxergamos mais que os olhos humanos enxergam. Ao acordar no fim de semana de folga e perceber que o sol está castigando a cabeça das pessoas e ao colocar a cara para fora, logo você sente os pelos eriçados devido os raios solares queimando de leve sua pele, parecendo ganhar mais potência, fruto do álcool que transpira de seus poros quase a ponto de entrar em combustão. A felicidade que propicia a primeira caneca de café depois do cigarro na garganta quase virgem de uma noite mal dormida. A segunda caneca de café. E depois disso, poder abrir a geladeira e encontrar uma garrafa geladinha, transpirando, deixando as pontas dos dedos dormentes de tão gelada. Seguido de um Tissssss que dá água a boca. E o primeiro gole, que faz formigar todo o interior e o céu da boca, quase dormentes, a língua e a parede da bochecha. Isso é para poucos. O sabor, a dormência, quase que de pau duro você agradece a semana inteira de sacrifício e sacrilégios para poder ter estes pequenos momentos de felicidade puro e simplesmente magníficos. É preciso muita consciência e inteligência para saborear momentos como estes. Um gole, depois outro e outro e só parar para acender outro cigarro. E sair no sol de novo e a pele estranhar novamente a luz. E perceber que os cachorros também aproveitam o calor, deitados com a barriga pra cima sob a luz solar, como quem faz fotossíntese, afinal, somos todos adubos. Todos nós, não passamos de relés adubos para a terra. Sendo assim eu poderia muito bem ficar aqui em minha cadeira de praia, curtindo o meu sábado, olhando os bichos curtirem o sol e só me levantar para pegar outra cerveja e mijar, que é inevitável. Contudo tenho uma garota nua em minha cama que precisa ser alimentada. Precisa de energia para que possamos aproveitar o fim de semana e terminar de desidratar-me. E também a ela. Então volto à penumbra do quarto para vê-la nua, com o lençol caprichosamente cobrindo-lhe apenas metade da bunda. E que BUNDA. Outro gole na cerveja e a metade da bunda e as pernas de fora e o lençol, pensando; são sempre as pequenas coisas que me agradam, não há definição melhor.

Melhor que isso, só o caminho até o mercado, indo buscar mantimentos para o almoço, tomando minha cerveja debaixo de um sol de dezoito infernos e meio, sentindo o cheiro de liquido vaginal em meu volumoso bigode depois de chupá-la semi acordada, pois não resisti àquela visão de bunda e pernas sobrando abaixo do meu lençol.

Mas mesmo um cheiro no bigode tem de ser interpretado. Eu interpreto de um jeito. Na fila do mercado, feliz, com uma caixa de cerveja na mão e o cheiro de boceta no bigode eu me sinto feliz como quem há muito não sente. E penso nas outras pessoas na fila e mesmo aqueles que carregam suas caixas de cervejas, será que sentiam o mesmo aroma que eu? E se sentiam, será que sabiam interpretar tamanho significado e prazer que ali continha? E você que está lendo agora, será que consegue?
Não adianta querermos nos comunicar quando o ouvinte não se interessa pelo conteúdo da mensagem. É preciso parar para ouvir. Duas pessoas conversando não necessariamente quer dizer que estão se comunicando. Por vezes são apenas palavras soltas como numa sopa de letrinhas, como num teste de ditado. Começar o fim de semana com uma caixa de cerveja e o tal cheiro no bigode é sair ganhando de goleada. Dito isso, espero ter sido compreendido.

Pois bem, eis que volto pra casa com a sacola cheia de mantimentos suficientes para o preparo de um bom Chilli de fazer a língua queimar. Mais um motivo para encharca-la de cerveja e tudo corre muito bem, obrigado. Só que um ranzinza como eu não pode levar a vida como se fosse um mar de rosas. Não eu.
Consigo me desprender dos problemas quando estou com um Bourbon de qualidade no beiço e meus cigarros a tiracolo enquanto ouço Howlin Wolf no rádio, mas sei que eles estão lá guardados, só esperando para chegar segunda-feira e voltarem a me atazanar. Mas e quando esses problemas não são suficientes? E quando eu, acostumado ao limbo, à sarjeta, começo a pensar que a maré esta tranquila demais e preciso de uma tempestade para me ferir e fazer pensar? Entendam; sempre fui de viver à flor da pele. Não seria natural se eu simplesmente sentasse em minha cadeira de balanço e começasse a planejar crianças, que por sinal eu as odeio. Logo, vai eu enxergar defeitos e situações que me deixam estressado e dignas de lamúria, pois tenho que reclamar.
Sendo assim o ranger da cadeira de balanço me incomodava. O sol baixou e com o cair da noite veio o frio e não demorou pra que eu começasse a praguejar. O Chilli não estava apimentado suficiente, a cerveja ficou choca, o filme que íamos assistir me deu tédio. O cabelo da minha garota não estava bom, seu micro pijama não me excitava suficiente e assim veio mais praguejo. Praguejo atrás de praguejo. Afinal, já disse, sou um ranzinza acostumado com o cheiro de merda nas narinas e sempre fui adepto da teoria de que não se pode elogiar muito a sorte senão ela acha que está bom e o abandona.



Bento

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terça-feira, 22 de setembro de 2015

SÓ QUE SOMOS SÓ UM AMONTOADO DE CARNE, BANHA, PUS E TRIPAS

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É curioso como podemos fazer coisas repetidamente, todos os dias, mecanicamente e nunca nos darmos conta. Como um aparelho doméstico, funcionando e funcionando e é só. Dias atrás eu me vi no meio do caminho para o trabalho e sequer me dei conta de como fui parar ali. Simplesmente parei e pensei; mas como foi que vim parar aqui? Olhei-me e estava vestido, com as chaves, cigarros e celular no bolso, tudo em ordem. Cabelo penteado, passei a língua nos dentes e estavam escovados, mas eu não me lembrava de ter feito nada disso. Digo, lembro-me de acordar e acender um cigarro e depois disso PUFF! Qualquer memória foi pro saco, como se eu estivesse ficado bêbado e aparecido ali, acordado do porre ali. Só que era de manhã e eu estava indo trabalhar. Tudo daquele momento para trás se perdeu. Não lembrava dos cigarros que fumei, nem das canecas de café que tomei. Não lembrei de ter cagado, de tomar banho, de pegar o ônibus ou o metrô, de nada. Estava ali automaticamente, fiz o caminho inconsciente porque eu faço todos os dias. Não lembro da cara de cu do cobrador, não lembro dos velhos que fazem questão de acordar cedo e encher o transporte coletivo. Não lembro dos gordos que ocupam o dobro de espaço num transporte que já não cabe mais ninguém. Não lembro se li meu livro, se usei o banheiro da estação. NADA. Só lembro de estar ali, no meio do caminho para o trabalho como faço todos os dias. Um lapso? Seria loucura? Finalmente minha mente estava pedindo, ou clamando, por uma aposentadoria? Então meu corpo vagaria por aí sem mim ou sem minha mente, ou eu seria apenas um passageiro de meu corpo, sentindo, vendo, cheirando, porém sem controle nenhum sobre qualquer músculo. Com consciência, mas sem autonomia. Espectador da minha própria vida. O interessante é que meu corpo, em carreira solo, possivelmente teria mais sucesso que eu (quem não teria?). Talvez eu esteja com dislexia. Talvez eu esteja morto sem me dar conta, mas as contas continuam chegando, então estou vivo, pois os cobradores são os primeiros, a saber, das nossas vidas ou mortes. Reparei que quando me dei conta do meu lapso eu estava andando rápido, quase correndo, mas por quê? Bem, estou sempre atrasado e também estava naquele dia, mas se sempre estou atrasado então qual a diferença? Correr por quê? Aliás, esta é uma pergunta que eu vivo me fazendo e eu não consigo responder nunca.

O Tédio. O Tédio e as outras coisas. Por quê? Pra quê? Acordar por quê? Levantar pra quê?
Por que comer se daqui a pouco estarei com fome novamente? Por que tomar banho? Por que tenho que sair de casa? Por que levantar da minha cama? Trabalho todos os dias, de segunda à sexta, o mês inteiro, pago as contas e começo tudo de novo, por quê? Pelo final de semana? Trabalho exclusivamente pelo final de semana. É nisso que minha vida se resume? Trabalho e final de semana. Uma semana toda de martírio para poder passar o final de semana todo na minha cama esvaziando garrafas. Pra quê? Por quê?

As pessoas são decepcionantes, a vida é decepcionante. Talvez você ainda não tenha passado por situações ruins suficientes para perceber que nenhum de nós vale o esforço de um pequeno músculo sequer. O curioso é que todos nós nos superestimamos. Sempre achamos que somos um pedaço de carne selecionado por Deus. Inventamos que existe alma apenas para nos sentirmos importantes, só que somos só um amontoado de carne, banha, pus, tripas, tudo isso misturado com altas doses de egocentrismo. Todo homem acha que seu pinto é maior e melhor que os dos outros. Toda mulher acha que trepa melhor que todas as outras. Tem caras que gastam o que não tem para comprar carros enormes e caros para se sentirem mais e melhor. Mulheres que colocam silicone e passam horas no salão de beleza tentando ser a droga de uma boneca inflável ambulante. E aí você pensa; o cara se resume a dois braços musculosos. Tudo bem se você preferir um pedreiro em tempo integral, tudo é uma questão de gosto. Tudo bem se você prefere comer uma garota com os glúteos tão rijos quanto seu pau. Tudo é uma questão de gosto. Mas é exatamente aí que você começa a perceber que a vida já não representa grande avanço e que as pessoas não estão demonstrando seu melhor. É uma mecânica que eu particularmente não aprovo, se é que aprovo qualquer coisa mecânica.

Enquanto isso vou escrevendo no ritmo que a inspiração mandar. Esperando a falência do mundo como espero do fígado. Vivo a vida em meia dúzia de latas de cerveja por vez. Exercitando a arte de menosprezar a humanidade e lamentar por estar certo. Vejo pernas e bundas e peitos passeando pelas calçadas. Pedaços de carne, por vezes suculentas, mas na maioria não passa de banha crua e molenga. Poucos cérebros, pouca consciência, nenhuma aptidão para tomar as rédeas de suas próprias vidas. Transeuntes vegetativos. Zumbis babando e escarrando e cagando. Não mais que isso. Um exército, se prestar bem atenção, não passa de uma massa de gente, um exército de seres repetindo gestos, imitando falas, frases e comportamento. São coadjuvantes da vida real, não se fazem notar.

Conversando com um amigo uma vez, ele me contava sobre uma transa que teve com uma garota. Ela despiu-se e deitou na cama de pernas abertas. Este meu amigo olhou a garota branca como um palmito e seu corpo não era tão diferente. Nada de peitos, o pouco de bunda que tinha a posição que ela escolhera não favorecia. O maior volume de carne que tinha em seu corpo estava na região do abdômen e o que foi bem pior, quando pensou em levantar suas pernas para ensaiar um frango assado pode reparar em restos de papel higiênico picados como quem limpou a bunda depois de cagar com uma marca de papel da bem vagabunda. Bêbado como estava na hora, ele pensou; já que estou aqui...
Bem, meteu-se dentro de uma camisinha e como um cientista maluco com sua veste protetora entrou de cabeça naquele mundo subterrâneo. Fico eu aqui pensando com meus botões; ainda não inventaram camisinha ou nada parecido que protege contra a humanidade, além da solidão.



Bento.

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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

COM ESSA GAROTA NUA ADORMECIDA EM MINHA CAMA ENQUANTO EU BEBO MEU WHISKY

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Na maior parte do tempo observo o quão deprimente as coisas corriqueiras podem ser. Os elogios sem motivo, as amenidades, o convívio com as outras pessoas. Vizinhos, colegas de trabalho, família e etc. É tudo um grande teatro mal ensaiado de péssimos atores e é só isso. Relações de uma fragilidade como ossos de galinha. Todos mantendo a pose da coxa de galinha assada até que se quebra e pronto. Viram inimigos. Esses são nossos relacionamentos mais comuns. Não quero que pensem que sou grande coisa porque não sou. Não sou, pois não consigo fingir. Não sei acordar de manhã comemorando mais um dia de vida medíocre, esperando que as coisas melhorem e desejando paz na Terra. Invejo essas pessoas, de verdade. Não acho isso uma coisa boa, de forma nenhuma, mas vamos combinar que a ignorância traz sim felicidade. Não tanto quanto o dinheiro, mas quem não tem cão caça com gato. Digo isso para deixar claro que não sou grande coisa. Não vou me fazer de vítima, porém sinto sinceramente que não passo de um amontoado de palavras que já foram boas e nada mais. Além, claro, de ser um beberrão convicto, que precisa de uma boa dose de algo alcoólico e forte para poder levantar da cama e enfrentar o dia. Um sedentário bosta que evita fazer qualquer coisa esperando que a inspiração venha no intuito de escrever qualquer bobagem que me faça sentir algum prazer por respirar.

Houve um tempo que eu fui a maior promessa da literatura de minha geração. Hoje não passo de um ex-futuro-escritor. Tento escrever qualquer coisa e não saio da primeira linha, e quando faço acho tudo uma porcaria. Talvez, de tanto escrever fracassos tornei-me minha musa. Dou voltas e não saio do lugar. Cinco anos escrevendo, até que fui longe. Mais longe que esperavam, já eu esperava mais. Sou um escritor de livro nenhum. Tenho um romance inacabado, outro que nem comecei a escrever e outro livro de contos que nunca concluo. Como tudo na vida não concluo porra nenhuma. Dou voltas no mesmo lugar como um peão de madeira de quando era criança. Um fracassado. Hoje não sou metade do filósofo que já fui e em minha melhor fase não fui um décimo do poeta que poderia ser. Talvez por preguiça, omissão, ou por perder tempo transando com todas as garotas que cruzaram meu caminho. Preciso comprar um carro, um computador novo, e uma televisão nova... E a maior emoção que tenho ultimamente é acordar de pau duro devido a bexiga pressionar a próstata.

Vejo as pessoas estudando cada dia mais e me pergunto; para quê? Não estou exigindo resposta, eu já as tenho. Cada dia mais e mais informação é despejada por todos os veículos de comunicação e hoje todos são comunicadores empenhados e continuo sem entender. Na prática, não se usa. Os jovens chegarão somente ao ápice de sua ignorância. Os velhos regridem para acompanhar os jovens na sua imbecilidade, pois é mais fácil render-se a ela que superá-la.

Então, estou finalmente de férias, e sendo assim, tenho por vinte dias a vida que gostaria de ter até o fim de meus dias. Não faltam cervejas e cigarros, todos devidamente organizados ao alcance das mãos e para que não falte numa madrugada qualquer. Gosto tanto de cervejas que poderia economizar um bom dinheiro vendendo as latas como os carroceiros fazem, mas sou orgulhoso demais para pensar nisso, e trabalho demais para ter de economizar com latinhas recicladas. Pensei nisso outro dia e por capricho comprei garrafas. Nesses dias mudei a marca da cerveja. Mudei, pois é bom mudar em alguns momentos. Há muita resistência na mudança em qualquer pessoa. Apesar de ouvirmos por aí que as pessoas odeiam rotina, toda mudança assusta como o uivo do vento na janela numa noite solitária.
Por falar em mudanças, passei meus 30 dias de carma anual sem maiores problemas. Terminei os últimos cinco numa viagem confortável e aconchegante. Estava a garota do Bourbon e eu num quarto antigo sem televisão, com moveis barulhentos e digo que poucas coisas são tão belas quanto ver uma garota de lingerie passeando pelo cômodo fazendo suas coisas de garotas. Sequer a imagem do mar em seu vai-e-vem de ondas e seu ronco contínuo é tão belo quanto ver uma garota em sua rotina diária de cremes e esmaltes e elásticos de cabelo e camiseta surrada passeando em frente aos meus olhos ajeitando a calcinha, penteando os cílios, e essas coisas de garotas. Eu poderia ter viajado, comprado minhas cervejas, fumado meus cigarros e sequer ter colocado meus pés na areia e sentido a brisa fria do mar e o sol escaldante queimando minha pele, pois poucas coisas são tão belas quanto acompanhar o vai-e-vem da garota do Bourbon só de lingerie, com suas dobras, suas curvas, indo para lá e para cá, dobrando coisas, arrumando outras coisas em seus lugares como quem rege uma orquestra, como dona do mundo e do tempo. Passaria horas bebendo e fumando e vendo o desfile desta garota fazendo exatamente nada, apenas exalando sua feminilidade e destilando seu perfume de cremes, desodorantes e perfumes e mais cremes e é tão delicioso que eu poderia comê-la, literalmente, comê-la. Mordê-la e mastiga-la e engoli-la. Fatia-la e engoli-la, tamanha delicadeza de seus passos, seus dedos ao tocar o chão gelado, quase como um gato, quase sem tocar o chão. A rotina de vê-la ali passando de lá pra cá sabe-se lá fazendo o que preenchendo o ambiente dela. Só dela. Todo o ambiente, todo o quarto, era só ela. Eu não passava de mais um móvel usado e barulhento. A diferença é que eu fumava, arrotava, peidava, bebia e às vezes transava. Digo às vezes, pois percebi que a idade chega pra todo mundo e ter de acompanhar a libido de uma garota de 21 anos não é tão mais fácil na minha idade, mas eu ainda não fico devendo muita coisa.

Contudo, eu pensava assim até brigarmos. Afinal, para me ver brigando com alguém basta deixar-me num quarto com qualquer ser humano durante uma semana e sim, eu, inevitavelmente acharei motivos para brigar com esta pessoa. Amigo ou inimigo. Não importa. Qualquer pessoa que fique tanto tempo próximo de mim me causará problema. Bem, briguei. Arrumei motivos para discutir e assim fiz. Caso contrário não seria eu. Depois que fiz passamos a noite sem nos falar e dormimos sem nos tocar. Até o dia seguinte, ela amolecer meu coração com o cheiro de café fresco, pois mesmo brava ainda assim levantou-se mais cedo para preparar o café preto, só pra mim, por saber que meu humor é muito pior sem o café preto de manhã. Uma santa esta garota. Pois bem. Mesmo um velho ranzinza como eu não poderia ficar imune a este carinho. Mesmo assim, me fiz de difícil na primeira hora após fumar o primeiro cigarro, após levantar-me, tomar meu banho matinal, e ainda assim mantinha-me de cara fechada, que era para ver que eu ainda estava bravo, só que não estava. Eu já tinha sido conquistado pelo café. Mas homem tem destas coisas. De marcar território, como cachorro de rua eu estava marcando o território. No sentido figurado eu erguia minha perna para mijar na dela. Como somos pobres de espírito, nós homens.

Preparávamos para irmos à praia quando ela consciente de suas ações ou não, já indecentemente penetrada naquele biquíni, pediu sabedora ou não, para que eu passasse protetor nas suas costas. A partir daí, velho, ranzinza, macho alfa, tornei-me escravo de minha libido e fizemos o melhor sexo de conciliação da história. Com tapas e unhadas a ponto de descontarmos toda a raiva adquirida na noite anterior. E digo; o melhor sexo de conciliação da história, de todos os tempos. Afinal, algumas coisas, feitas com raiva, nem sempre causam arrependimento.


Agora estou aqui. Escrevendo, nem tão fracassado assim. Com essa jovem garota nua adormecida em minha cama, enquanto eu bebo meu whisky, fumo meu cigarro e escrevo escondido no banheiro para não acorda-la.


Bento.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

SOU O JESUS CRISTO DO RUM [A BARBA]

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Então eu estava muito nervoso. Era noite. Daqueles dias cansativos que você demora mais pra voltar pra casa que o período todo de trabalho. E o relógio te informa que em algumas horas você já precisará estar de pé e acordado novamente para ir trabalhar. Só que você não quer dormir. Você quer aproveitar a noite. Olha pela janela e vê a lua que te convida a beber e se divertir. Mas isso é só para quem tem direito. Nós trabalhadores não podemos. Nós, telefonistas, pedreiros, balconistas, eletricistas, encanadores, professores, vendedores, motoristas, lavadores de carros, limpadores de vidraças, atendentes, expositores, estoquistas, dentre todas as outras coisas, nós não temos este direito. Nós apenas dormimos e acordamos e trabalhamos, pois o mundo precisa de nós. O mercado e a economia precisam de nós. Inclusive aqueles que têm o direito de beber numa noite dessas, no meio da semana, eles também precisam de nós. E eu estava lá, em frente ao espelho, vendo meus olhos cansados de acordar quase sem dormir, querendo sair e me divertir sem poder. Mas confesso que antes de chegar em casa passei no boteco e pedi duas doses. Da forte. Por este motivo, talvez, eu quisesse trocar a janta pelo gargalo de uma boa cerveja gelada. Eu disse uma?

Um calor de sentir-se sujo. Duas doses no estômago depois de um dia cansativo e já me sinto poderoso. Quase como quando ouço The Doors no último volume. Olho no espelho e sou só sobrancelhas e bigode e barba. O cabelo já passa da hora de cortar e sinto calor. Lembro-me que escondido na cômoda, para as horas de emergência, tenho um meio litro de rum pela metade. Já ajuda em alguma coisa. Para fazer durar mais adiciono em cada dose dois dedos d'água. De meio faço quase um inteiro. É o milagre da multiplicação. "Sou o Jesus Cristo do rum", eu grito sem me importar com os vizinhos. Um pirata com a barba ruiva tomando rum como quem bebe água. Mais uma dose e agora fico nu para suportar o calor, mas ainda não é suficiente. Meu rosto não faz questão de esconder as marcas do tempo e dos incontáveis porres. Das noites sem dormir. Dos desamores. Há muito que contar em cada ruga, cada cravo, cada pelo de barba. E a barba? Enorme, com pelos eriçados, rebeldes, precisando aparar, mas que tempo tenho? Quando minhas horas de descanso reservam-se para dormir e beber e escrever. Algo me incomoda e a barba pode ser quem vai pagar o pato. Então entre o cigarro aceso e mais uma dose de rum eu acho a tesoura e começo a cortar a barba. A cada chumaço de barba largada no lavatório é um pouco de sofrimento que vai pelo ralo. Leva tempo para manter uma barba deste tamanho. Porém, não mais tempo que economizei quando optei por não perder tempo fazendo a barba.

A verdade é que de lua, como sou, por vezes preciso de uma grande mudança em minha rotina para sentir-me vivo. Vivo e ativo. Vivo e útil. E ainda tem a garota do Bourbon que permanece preenchendo meus finais de semana. Uma linda esta garota. De uma paciência ímpar. Também pudera, para me aturar, somente tendo uma paciência de monge tibetano, mas ao invés disso, ela é descendente de nordestinos mesmo, talvez seja isso. Além de paciente ela é quase tão preguiçosa quanto eu, logo, não se importa de ficar deitada tomando cerveja, falando sobre qualquer coisa e transando.

Não existe muito mais o que se possa querer numa garota quando esta não reclama de seus cigarros, sua vontade incontrolável de algo alcoólico e seu vício em sexo, dito isso, por vezes eu abro mão de meu casulo para levá-la em lugares que queira ir, afinal, quando se está com uma garota como ela é preciso abrir mão de algumas coisas para mantê-la por perto. É uma via de duas mãos. Não se pode viver sem abrir mão de coisas. Abri-se mão da cerveja importada de trigo para poder investir em quantidade de cervejas nacionais e assim poder comprar garrafas que vão te deixar suficientemente bêbado. Abre-se mão, por vezes, da garrafa de Bourbon importado para poder tomar um bom café da manhã a cada três dias de ressacas consecutivas. Abre-se mão de comer em restaurantes boca-de-porco, que servem comida como quem serve para um batalhão, com quase um porco inteiro frito em seu prato clamando para ser saboreado com as mãos para poder impressionar uma garota num restaurante que serve comida como se fosse alpiste, com pratos decorados como aquela tia perua. Vivemos abrindo mão de coisas esperando conseguir outras, porque ainda somos daqueles que têm que escolher entre dormir ou aceitar o convite da lua que nos chama para beber e ficar bêbado e vomitar metade do que bebemos para poder beber mais e não lembrar do que fizemos na noite passada. Nós ainda somos os telefonistas, pedreiros, balconistas, eletricistas, encanadores, professores, vendedores, motoristas, lavadores de carros, limpadores de vidraças, atendentes, expositores, estoquistas, faxineiros, porteiros, zeladores, carteiros, ajudantes, auxiliares... E continuaremos até que a morte nos convide para dançar.



Bento.

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terça-feira, 14 de julho de 2015

AINDA HOJE NÃO SEI O QUE É SER CHUPADO POR UMA BANGUELA

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Uma vez estava eu saindo de um motel afastado, quase de improviso, com uma das garotas mais safadas que eu já conheci. Íamos do motel para o metrô e lá cada um de nós tomaria um curso diferente. Eram duas quadras e eu andava como um coxo, tamanha a dor no saco, pois eu transara com toda a força que tinha e ela queria mais e mais forte. Nem o homem mais forte do mundo poderia saciá-la. Eu pelo menos tentei. Mas foi a dor no saco mais deliciosa que eu me lembro.

Uma outra vez, estava em casa, numa daquelas festas que eu costumo fazer sem motivo e sem data para acabar. As pessoas apenas vão chegando e trazendo bebidas e trazendo mais gente que também vão trazendo mais bebidas e bem, parece nunca ter fim. Até que alguém gorfe, e outro alguém apague, uma garota ou duas urine nas calças, e em cada canto da casa tenha alguém transando ou tentando transar. Calhou que neste dia me sobrou o banheiro do meu quarto e era a terceira vez que eu entrava ali com uma garota diferente. Pela janela do banheiro ouvíamos a conversa sem sentido de bêbados falando sobre nada e gargalhadas insanas. Ela ajoelhada e eu resolvi que era um bom momento para umas palmadas em seu rosto. Primeiro um tapa, depois dois e vocês sabem como isso funciona. Ela nem parecia que gostava nem que não, mas de repente decidiu revidar e seus braços eram mais fortes que os meus. De supetão levei um tapa no rosto de baixo pra cima que quase me deixou sóbrio de novo, porém estava bêbado e o tapa fora tão forte que pendi para trás como quem estava prestes a cair. Então a garota dos braços mais fortes que os meus agarrou meu pau e me puxou junto dela impedindo minha queda. Poucas vezes me vi surpreso, mas nada supera o tapa, a quase queda e ser laçado por meu próprio pau. Rimos disso e ela continuou a fazer o que estava fazendo. Decidimos parar com os tapas por hora.

O que quero dizer com isso é que são sempre as pequenas coisas que me marcam. A minha memória que quase funciona raramente deixa passar esses pequenos momentos de que somos escolhidos pelo Destino para aprontar de bom humor. Não há muito que se esperar das pessoas nesta bagunça que chamamos de vida. Não há muito que esperar nem de nós mesmos, mas esses momentos simplórios fazem com que acordar cedo e sentir o azedo do suor que exala por debaixo da camisa do filho da puta que não tem coragem de tomar um banho antes de dividir o mesmo metro quadrado que você no ônibus lotado faça um pouco mais de sentido. Porém não muito.
Só que a vida é bem mais flagelos que momentos intrigantes como estes, logo, não vou negar que por vezes me passa pela cabeça morrer. Não morrer para sempre, não é isso. É morrer uns três ou quatro dias só. Assim, sem mais nem menos. Apenas morrer e não ter ninguém enchendo meu saco, sem cobradores ou Testemunhas de Jeová em minha porta. Sem carros do ovo, da cândida, ou do churros. Sem panfleteiros de pizzarias. Sem ter de me preocupar com cigarros e sem guarda noturno. Só morrer, pura e simplesmente morrer. Descansar a mente, o corpo, esquecer das coisas. Já reparou que passamos mais tempo tentando esquecer que lembrar? Isso pode ser um sinal. Um sinal de que a coisa está de mal a pior.

Estava lembrando desses casos assim, por acaso. Entre uma dose de Borboun e outra, analisava o conceito que tinha das mulheres e o conceito que as mulheres tinham sobre mim. Dizem que os amigos sempre lhe dizem a verdade, eu nunca acreditei nisso, porém tenho uma conhecida que já tomou porres homéricos comigo, que jura de pé junto que sou a pior pessoa do universo, aliás, não duvido que ela goste da minha companhia só por isso. É mais fácil de conviver com alguém que está mais fodido que você, não há pressão para melhorar. Em seus ápices de embriaguez chegou a me comparar com o próprio Diabo, mas acho que ela me superestima.

Então penso nas garotas das quais cometeram o erro de cruzar meu caminho. Todas elas santas, faço questão de frisar. O que pensam de mim? Não que seja importante a ponto de mudar a minha opinião, contudo pode ajudar a entender o porquê não permaneceram e qual a minha responsabilidade nisso tudo.

O fato é que algumas garotas gostam do que eu escrevo, no entanto não gostam tanto quando me conhecem e provam o que leem na vida real. Justo.

Lembro-me de uma garota, de olhos verdes como uvas verdes. Não se adaptou a liberdade que eu dava a ela. Talvez quisesse alguém ciumento, que quisesse saber onde ela estava a cada passo, que a proibisse de ter amizades masculinas e controlasse todas as suas ações e bem sei que apesar de reclamarem, existem muitas garotas que gostam desde tipo de cara machão. Eu poderia ser este cara? Claro que poderia, mas eu não poderia ser este cara e ainda por cima ser exatamente a pessoa que eu digo ser. Então começaria uma relação traindo, não ela, mas a mim mesmo. Não digo que hoje ela me odeia, porém acredita piamente que eu não quisesse nada com ela. Eu queria, só que gosto de analisar as coisas e as pessoas e isso leva algum tempo.

Penso na idosa de 500 anos. Meu único arrependimento quanto a esta garota de 20 anos é que, idosa que era, ainda possuía todos os dentes. Ainda hoje não sei o que é ser chupado por uma banguela, mas nunca é tarde. Esta, talvez me odeie, mas tenho sérias dúvidas. O que acontece é que ela se convenceu de que eu sou o pior do mundo, mas não consegue esquecer os bons momentos, logo, sempre quer reviver os bons momentos de outrora. Só que todos sabemos que há coisas que nunca se repetem.

Outro dia recebi uma ligação de uma garota casada. Em outros tempo traía seu marido comigo, mas isso faz muito tempo. Teve um filho recentemente e depois de tanto tempo de fidelidade forçada queria voltar a traí-lo. Esta não me odeia, tenho certeza. Poderia dizer que até me ama, do jeito dela, mas talvez seja amor. Contudo, não mais do que ama o marido. Melhor pra mim, pior pra ela.

Tive uma relação conturbada com uma garota de pernas finas uma vez. Digo conturbada, pois nunca estávamos disponíveis ao mesmo tempo. Quando ela quis eu estava ocupado me diminuindo, e quando eu estava disponível ela estava ocupada com outros relacionamentos. De qualquer forma, por mais que em algumas vezes quisesse me odiar ela não conseguia. Não conseguia, pois para odiar é preciso dar importância, nutrir qualquer sentimento para depois querer o mal. Mas a única coisa que a garota de pernas finas sentia era vaidade. Gostava do drama que eu fazia, e eu sou bom com dramas. Fazia bem ao seu ego estar entre as linhas dos meus textos e esperava ansiosa para ler sobre si. Sentia-se musa de seu autor predileto. E ela era. E eu era. Hoje não mais, nem pra mim, nem pra ela. Hoje ela lê outras coisas, eu escrevo sobre outras e assim a vida segue. Mas definitivamente não me odeia.

Já Nelia, talvez seja a única que nutre algum ódio e rancor por mim. Odeia porque me amou. Odeia, pois não pude ser o homem que ela queria que eu fosse. Odeia-me porque eu era só um garoto. Odeia porque eu não podia fazer malabarismo em faróis, porque não podia dormir em redes, porque não podia desvendar o mundo. Também pudera, sequer conseguia me desvendar. Meus segredos e sonhos, o que eram? Meus amigos e familiares, quem eram? Odeia então, porque eu não era capaz de acompanhá-la em sua jornada para desvendar seus traumas. E ainda pensando nisso, vejo que não tenho nada em comum com essas garotas nem com seus ideais e suas fantasias. Algumas delas queriam apenas um escritor falido para se sentirem o centro de algo importante, contudo, eu nem sou tão escritor assim e nem tão falido assim. E mesmo não sendo, vivendo a realidade da minha escrita, perceberam que não é tão fácil estar ao lado de um beberrão teimoso que precisa de sexo como um alcoólatra precisa de álcool e eu preciso tanto de ambos.



Bento.

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