quarta-feira, 28 de agosto de 2013

CLÍNICA DE REABILITAÇÃO ZACARIAS BARBACENO

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Sabe quando baixa uma coisa na carne e você não sabe de onde vem? Simplesmente vem e pronto. Foi assim. Desisti. Não sei porque veio, nem como veio, só veio.
Bem, por vezes é melhor descomplicar as coisas. Não existe meio termo. Odeio meio termo. Sou de extremos e pronto! Ou é meu ou não é.

Estou num processo de enclausuramento. Muito tempo sem fazer nada e isso pode estar me deixando mais desequilibrado do que eu normalmente sou. Esse afastamento, esse casulo antissocial faz parte de um processo literário, um fim de ciclo purificador de mente, ou melhor dizendo, destilador de ideias.

Não. Se perguntar se estava totalmente são quando tomei tal atitude derradeira responderei na lata: claro que não. Caso contrário não teria coragem de abrir mão, de dilacerar a libido, tornar mais distante o que eu sequer tinha. Mas foi para o bem, não vou negar. Fará o bem, ou não. Porém, devo arriscar. Como eu disse, sou de extremos. Me dou melhor com o drama da realidade de não ter do que com a esperança de que um dia terei. Não sou de futuro, doo-me ao presente, o resto é resto.

Sou de presente, do que posso tocar, beijar, desejar o minuto seguinte, nunca a semana seguinte. O mês então...
Prefiro a morte a aguardar a vontade alheia. O que não quer dizer que darei uma de macaco e pularei em outro galho. Simplesmente tornar-me-ei só, como de costume. Serei eu e a companhia de mim mesmo. Muito mal comportado como sempre.

Abro mão de roubar-lhe os sonhos, os devaneios e etc. Prometo-lhe, farei isso em silêncio, só pra mim. Não mais usufruirei de suas frases, exceto nos diálogos comigo mesmo. Não mencionarei mais seu nome, com exceção quando para chamar a gata. Não passarei mais que meia hora olhando suas fotos. Não desejarei mais seus lábios, sequer suas mãos em meus ombros.

Ainda creio que te inventei. Criei defeitos e qualidades, parentes e inimigos. Como toda personagem, criei enredo e cenário.
Por isso também acredito que assim como te criei, terei o poder de descriar. Como você mesma quis e pediu. Passarei a borracha, ou apertarei o botão Delete para afastar-te de minha mente. Sem final feliz, então sem final. Haverá de alguém interpretar um fim que me favoreça. Caso contrário, será só mais um fim.

Então descobri uma coisa sobre mim com a sua ajuda. Descobri que me exponho vorazmente aos olhos alheio porque preciso. Descobri que de tanto afastar os outros por vezes preciso deles por perto. Que deixo meus defeitos na vitrine para não cometerem o erro de se aproximarem sem aviso prévio, como as placas de "Cuidado com o Cão". Que escrevo não para mudar sua opinião, mas para sentir-te por perto, fazendo-me companhia. Descobri que tenho carência de você, abstinência de você e por isso, só por isso, me internarei nos Carentes Anônimos para curar-me de meu vício.



Bento.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

ALÉM DE MAIS SEXY, MAIS CRUEL

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"Neste texto contém links para os contos citados, basta clicar nas palavras de cores distintas"

Desde pequenino eu quis ser muitas coisas. Sempre fui um desajuizado, desajustado e incoerente. Lembro-me de querer ser advogado por assistir Advogado do Diabo e desejar àquilo. Os filmes continuaram sendo um prazer mesmo quando muito jovem e eu já quis ser cineasta de Hollywood. Cinema sempre foi um desejo imenso. Queria inventar histórias e eu sempre fui bom nisso. Depois de um tempo eu quis ser Rockstar e consegui. Claro, nada comparado às minhas bandas favoritas, digo isso por tamanho sucesso. Porém, consegui alcançar shows inesquecíveis e noites intermináveis, garotas e bebedeiras gratuitas que meus amigos podem testemunhar em minha defesa. Claro que tem ainda muito a ser feito, no entanto, as histórias pra contar são muitas.

Uma coisa que eu nunca quis e nunca me permiti foi a profissão de palhaço. Nunca gostei de circo, entretenimento barato. Ora, mas quem sou eu? Quem sou eu para criticar uma profissão tão reconhecida? Bom, este é meu texto, resguardo-me o direito de dizer o que bem entender. Nunca me permiti entreter nem servir de passatempo para ninguém. Erros ou não, foda-se, não me use de forma que não seja mútua. Atração por atração que pelo menos sejamos concordantes e condescendentes espectadores, caso contrário eu dispenso. Mais tarde quis tornar-me escritor, coisa que me coube ainda em contar histórias, bem como cineasta e Rockstar, mas desta vez com um pouco menos de vaidade. Continuaria com minhas histórias e personagens, todavia, a escrita quem me domaria neste caso. Então hoje finalmente sonhei. Eu já disse em alguns dos meus textos que pouco me lembro dos sonhos que tenho. Acredito que sonho mais acordado que dormindo, deve ser isso.

Alguns eu até lembro, mas trato logo de tentar esquecê-los. Não pensem que estou falando de pesadelos, isso é outra coisa. Estou falando de sonhos mesmo.

Mas sonhos que nunca irão se realizar é melhor tratar de expulsá-los da memória, pois servem só pro desagrado matinal.

Hoje sonhei que as personagens que criei em meus contos ganhavam vida e conversavam comigo. Ferozes eles me impunham um final mais feliz nas suas tristes histórias.

O beija-flor exigia suas asas de volta, colocaria o dedo em riste se o tivesse. Disse nunca em sua vida de beija-flor ter ouvido falar de um que não tivesse asas. Que a espécie era famosa por causa disso, pela possibilidade de parar no ar e sua velocidade ímpar em bater suas asas. E com os olhos cheios de lágrimas ainda me confessou sobre seu amor pela Rosa Branca. No fim chegava combinar choro e soluço na mesma frase. O que tornava difícil a compreensão.

Eu, me sentindo um pouco pai dele, criador da situação da qual se encontrava e não posso negar, sentindo-me um pouco culpado também disse que não poderia fazer nada sobre.
Disse ainda que entendia sua mágoa, pois tinham me tirado as asas também e que sua história era um reflexo da minha. Só poderia mudar a dele quando a minha tivesse um final diferente.

O beija-flor não aceitou minha resposta, porém quando iria contra-argumentar o Cabo Procópio tomou sua frente com sua postura ereta de militar me deixando um pouco assustado, disse que sua história deveria ter terminado diferente. Que ele deveria ter morrido na guerra, ele não queria viver sem ter em quem pensar, com quem viver, com quem desabafar. Entretanto tantos que morreram na guerra e deixaram suas famílias a sós.

Quando o Cabo terminou não demonstrava lágrimas, mas tentava esconder as mãos tremulas, não sei se era nervosismo, tristeza ou sintoma da guerra.

Respondi ao Cabo que não poderia deixá-lo morrer na guerra, do contrário não haveria história e ele nunca existiria. E que assim como seu autor ele estaria fadado a viver sua vida como o Destino decidiu, ou não viver.

Talvez fosse por causa de sua doutrina como soldado, mas o Cabo me surpreendeu com a atitude de me dar as costas e aceitar meus argumentos sem reclamar.

Preparando-me para acordar vi Domênico, ou se preferirem, o Dom, se acotovelando entre a multidão de personagens para chegar até a mim.

Domênico estava irreconhecível. Pálido e magro vi que tinha dificuldade de se movimentar.
Quando se aproximou a ponto de poder enxergar seu corpo inteiro, descobri que o motivo do seu andar rastejante e sua aparência deprimente eram os três tiros no peito que havia recebido de uma de suas amantes.

Um dos tiros tinha atingido seu pulmão esquerdo e ele falava com dificuldade. Tanto que teve que agarrar-se em meu colarinho para falar em meu ouvido.

- Eu nunca quis terminar assim. Você mais que ninguém sabe que eu não queria esse fim.

Sua fala era uma mistura de tosse com cochicho. Continuou.

- Eu quis mais que tudo nessa vida um amor, alguém que eu pudesse contar meus segredos. Alguém que conhecesse meus defeitos e os aceitassem. E sei que você tinha o poder de me providenciar isso, mas não! Sempre preferiu atender os caprichos de Dom, aquele crápula, aquele cafajeste...

Neste momento achei que Domênico, ou Dom, ou os dois morreram novamente tamanho era a falta de ar dos dois. O corpo semiputrefato debatia-se em colapso. Aquele tiro tinha causado um grande estrago.

Mas não era a morte, era Dom que reivindicava seu direito de também falar.

Dom como sempre, com sua personalidade totalmente oposta da de Domênico, me surpreendeu mesmo assim, quando reparei o sorriso em seu rosto. O desabafo de Dom foi surpreendente por não haver desabafo. Dom me agradeceu...

 - Como poderia eu, um gentleman, reclamar de meu pai, meu criador? Principalmente quando ele é criador de um final sheakesperiano como este, uma linda história de amor, egocêntrico, mas amor. Romance, tragédia, digno de uma continuação. A verdade é que aquela vidinha que eu levava já estava muito pra baixo. E convenhamos, o Domênico é um chato. Sempre com aquela choradeira de amor pra lá, amor pra cá. Minha paciência já tinha acabado mesmo.

Fiz questão de dizer aos dois que fiz o fim de ambos não pensando em um ou em outro. O fiz esperando o pior, como sempre. Esperando assim que o Destino me surpreendesse.

Eu agradeci os elogios de Dom, mas acho que deveria respeitar mais a vontade de Domênico.

 - E você Domênico  como pode exigir de mim um final feliz se eu mesmo não acredito em um. Não sei o sabor de um.

Eu sou só um escrevinhador, se é que posso me descrever assim. Um escritor não reconhecido, um dramático mal humorado. Não exija de mim mais do que eu posso dar.

E todos reclamavam.

O Pedro que pedia para eu converter a vizinha velha e crente em roqueira para que as reclamações cessassem.

Enésio que pedia seu pênis de volta, pois o que seria de Enésio sem pênis? Enésia talvez? E já era visível alguns de seus traços masculinos dando lugar aos caprichos de mulher.

 - Enésio meu filho. Sou apenas um poeta de veia dramática, criando histórias tristes. Com uma relação de dependência com meu próprio pênis. Um homem como qualquer outro, letrista amaldiçoado pela miséria que vê prazer apenas no que o membro pode nos oferecer. Assim sem mais. E sem ele, seria eu mais uma personagem reclamando de meu Criador.

E todos os outros mortos em meus contos que tentavam chegar mais perto, como num filme de horror oitentista, trash, com cheiro de corpos em decomposição. Sangue seco em seus corpos, miolos pendurados, tripas arrastando no chão, bem como Carolinne e logo depois Helena trazia os restos de Cidão num saco plástico preto arrependida de abandoná-la. Amapolo ainda tinha vestígios das penas de sua época como pombo exigindo de mim que eu o fizesse voar. Alaor gostaria de um pai hétero.
Rodrigo Paulo que de Paulo não tinha nada me exigia no mínimo um whisky novo. E Patrício gostaria de um novo capítulo para que pudesse continuar em sua ânsia de assassino. Entre tantos outros personagens que exigiam de mim mais do que eu poderia dar no momento. Logo, depois do primeiro drink do dia, após o café e o cigarro, dentre outras discussões comigo mesmo e com outras pessoas, concluí que fui autor também de algumas paixões em minha vida. Que uma garota magricela em questão não passou de uma personagem que eu mesmo criei. Que os sonhos que tinha com ela todas as noites não passavam de uma premonição do que aconteceria com todos os outros personagem dos contos que criei.
Dei a luz uma garota que eu achava que pudesse existir, com pernas finas, barriga chapada, tatuagens e com uma beleza ímpar, tal qual só poderia ter saído de minha mente fértil. Jamais existiram beijos e apartamentos com camisetas velhas de Rock n' Roll, drinks durante a madrugada e diálogos instantâneos sobre o cotidiano e as dores do mundo. Nasceu de mim, nome, sobrenome, pintas, defeitos e dedos dos pés. Tudo meu. Eu criei, mas não passara disso. Outro sonho com outra personagem, que acima até de Alicia, além de mais sexy, mais cruel ainda.

Enfim acordei, abri um whisky novo e resolvi escrever linhas de contos mais realistas e parar de sonhar.



Bento.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

QUANTOS CORINTHIANOS CONHECEM A DEMOCRACIA CORINTHIANA?

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"A Democracia Corinthiana foi um movimento surgido na década de 80, Isso no período da ditadura militar. O Corinthians foi o primeiro clube a utilizar a camisa com dizeres publicitários. Por iniciativa do publicitário Washington Olivetto (criador do termo 'Democracia Corintiana') o time estampava em suas camisas frases de cunho político, como "diretas-já", "eu quero votar para presidente"." - FONTE Wikipédia
Outra "revolução" partindo do clube paulista foi lá em 1910, em sua fundação, quando o futebol nacional recém chegado da Europa ao país tratava-se de um esporte elitizado. Daí surgiu a alcunha de "Time do Povo", primeiro clube formado por operários, trabalhadores de baixa renda e etc.

Hoje, no ano de 2013, o Sport Club Corinthians Paulista é assunto na mídia do país inteiro por causa de um selinho de Emerson Sheik num amigo de anos - um dos principais jogadores do atual time, multicampeão e feitor de dois gols na final da Libertadores, talvez o título mais esperado pela torcida. Numa época em que grande parte dos países já reconhecem as relações homoafetivas, isso parece normal, apesar de sempre haver aqueles que são contra e não se limitam à suas próprias escolhas de sexualidade, eles precisam impor suas escolhas à todas as outras pessoas, e falando de corinthianos, os verdadeiros corinthianos, não posso deixar de citar que cai numa contradição e torna nula a luta de Sócrates, Casagrande e Wladimir de DIREITOS IGUAIS  para todo SER HUMANO.


Sei que muitos vão dizer que nós corinthianos nunca deixamos passar uma oportunidade de brincar com o apelido de "Bambi" aos são-paulinos, alusão clara sobre a sexualidade dos jogadores e torcedores do time do SPFC. Para estes, eu já adianto, a diferença entre corinthianos e são-paulinos é que neste caso do SHEIK, nós estamos levando a sério, não pelas brincadeiras que possam derivar disso, mas sim por defender o direito garantido por lei e pelo bom senso, de que num mundo livre as pessoas possam tomar decisões que cabem apenas a elas mesmas.  Digo isso sobre o poder midiático que o Corinthians tem pelo tamanho de sua torcida. Não podemos deixar escapar a oportunidade de defender esses direitos com unhas e dentes e lábios, e engrandecer ainda mais a história deste clube de tamanho imensurável e revolucionário. E daqui a alguns anos termos mais essa conquista, de que mudamos o país novamente com nossas próprias mãos. Para aqueles que discordam de minha opinião, independente de agremiações, deixo aqui também o meu RESPEITO, afinal, também defendo a liberdade de concordar ou não do que bem entenderem, a LIBERDADE também é garantida para vocês.


Bento.

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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

VÉSPERA DE QUINZE DE AGOSTO AINDA ME INCOMODA

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Existe uma literalidade dentro de mim que não cabe ao autor julgar se tens qualidade ou não. Isso pode impressionar às vezes, pode causar estranheza em outras, até alcanço certos objetivos interessantíssimos por meio desta, só que não me apetece. Mas tenho de confessar, um dia houve a caretice cravada em meu peito que arranquei-a sem medo de sangrar. Não que eu me esforce para isso ou aquilo, as coisas simplesmente acontecem. Para alguns eu sou só um metido a poeta e o que escrevo não tem significado nenhum. O que eu posso dizer? Sou um poeta autossuficiente e deixei as amabilidades já faz algum tempo. É preciso lamber a sarjeta para sentir o sabor das minhas letras.

Eu passo muito tempo pensando nas anomalias características de minhas escolhas imprecisas e inconscientes, sem expectativas, sem lamentações no final, pois com o tempo você se acostuma sempre com o pior de todo mundo. Outro dia me disseram que meus textos, minhas histórias, são todas muito cheias de depressão, cabalísticas talvez. Eu digo que são só mais próximas da realidade, da realidade da maioria, afinal nem tudo começa com "era uma vez" e termina com "felizes para sempre" como todo mundo espera. Algumas pessoas passam a vida toda como se estivessem nus em plena Avenida Paulista e morrem com a solidão do sol, bom só quando longe, bem longe.

Por um bom tempo da minha vida eu vivi nos piores lugares da cidade, bebendo coisas da pior qualidade, pois nos meus bolsos tinham apenas cigarros amassados e algumas moedas para manter-me por fora da realidade por algumas horas. Muitos pensam que beber é como fugir, ou um ato de covardia e isso não é nem de longe verdade. Na verdade é de uma imbecilidade do tamanho do mundo, uma coisa que beira o ridículo e a ignorância. É preciso culhões para abrir as portas dos seus mais profundos sentimentos e consciência. É preciso coragem para querer descobrir a verdadeira personalidade que escondemos por debaixo da máscara e de nossos conceitos básicos de regras que escolhemos como base para forjar a imagem que desejamos que o mundo veja. Não é fácil abrir mão disso e não é fácil conhecer-se verdadeiramente, é bem possível que não gostemos do que vemos. É isso que o álcool faz com você, liberta-o das mentiras, da mediocridade de podar a insanidade aprisionada neste corpo.

Durante muito tempo eu via-me morando num porão úmido, com a companhia de lesmas, ratos e baratas. Traças e teias de aranhas faziam a decoração do lugar e havia textos e músicas espalhados por todas as paredes. Talvez tenha sido a minha pior fase, ou o final dela. É preciso estar no fundo de tudo, no cú do inferno astral, é preciso enfiar a cabeça na merda para buscar fôlego e sair dela depois.  Eu não estou dizendo que todos precisam conhecer o abismo da morte para continuar vivendo, algumas pessoas passarão pela vida sem sequer compreender o motivo de tudo ou de nada. Porém, não conheço nenhuma pessoa que valha a pena ser citada que não tenha passado por boas sucessões de insucessos. Depois disso, tudo muda e você não vai querer ser outra coisa. Quando sentimos algo à flor da pele, queremos que tudo seja assim e viciamos. Só que a maioria das coisas e pessoas são tão insignificantes que elas não nos bastam, queremos mais e mais. Viciados em sentir.

Bom, hoje eu me vejo em tempos bem melhores e não dou a mínima, pelo menos não dou o valor que eu dava há anos. Alguns hábitos nunca nos abandonam. A visão do submundo nunca nos deixa. Então quando ouço sobre fossos de lamentações entre outras coisas me soa como convite para um parque de diversões.

E depois de passar por escuridões e por algumas vinganças contra meu próprio ego, mesmo depois de tudo, as vésperas dos dias quinze de agosto ainda me incomodam, assim como um peito mofado me faz querer passear por ele.


Bento.

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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A DIFERENÇA ENTRE EU E VOCÊ É QUE EU PREFIRO JACK DANIEL'S

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Aqui estamos nós. Mais uma madrugada gelada de São Paulo, de um inverno tenebroso onde é claro, só o álcool para ajudar a diminuir os arrepios. Parei de escrever por sempre citar a mesma coisa. Estou com um "vício", um cacoete. Quando começo a teclar meus pensamentos sempre sai a mesma coisa sobre a mesma coisa e isso está me deixando com uma sensação de incapaz. Odeio isso. A incapacidade sempre bate um pouco mais forte em meu peito por parecer que eu tenha que provar muita coisa para um monte de gente. Não que eu tenha, mas seria uma questão de honra, por todos os bêbados do mundo. Quando você quer levar uma vida exatamente da forma que você quer você precisa mostrar para algumas pessoas que não é preciso ser um filho da puta ou um bunda mole cuzão que tem que seguir todas as regras medíocres que lhe pregam. Convenhamos, só os idiotas seguem esse tipo de alienação pregadas por nossos avós e eu digo isso por vocês, pois eu nunca tive avô nenhum.

Tenho assistido algumas coisas muito trash. Nas horas vagas, que têm sido muitas. Coisas ofensivas. Coisas desregradas, com libido à flor da pele. Violência, terror, sangue "esporrando" por todos os lados. Agressivas como assassinatos, pornografias extremas e mutilações, coisas do tipo. É mais ou menos como uma droga, uma coisa mais forte para desviar esse tipo de emoção que faz com que eu sempre escreva sobre a mesma coisa. Em busca de algo que me faça voltar ao “normal.” Minto! Estou só tentando me enganar. Estou buscando um motivo para enraivecer e tornar-me oco como sempre fui para parar de passar vontades que jamais matarei. Ficou claro isso?

Sequer lembro como era e isso me preocupa. Então tenho buscado coisas mais agressivas para chegar em algum lugar, só que não está funcionando. Quando você passa a vida se machucando você torna-se um Casca Grossa. Não é qualquer coisa que consegue te ferir. Você passa a ficar imune a algumas coisas. É estranho, pois se parece com alguém que perdeu o medo, mas ninguém perde aquilo que nunca teve e isso está fadado ao nada, ao sem sentido, ao limbo da merda do cavalo do bandido. Gelado como o gelo adicionado no whisky e eu odeio que adicionem gelo no meu whisky ou em qualquer destilado. Eu gosto do original, da receita original e nada que você tenha de adicionar alguma coisa permanece da forma como o criador gostaria que fosse apresentada. Sirva-se de uma boa dose de whisky, num copo propício, por favor, não cometa o pecado de beber um scotch ou um bordon em qualquer copo. Agora olhe bem para ele. Cheire, enfie a merda do seu nariz no copo e respire profundamente. Você consegue sentir? Isso é o cheiro da criação, cheiro de libido, de vida. Seu sangue está começando a correr mais rápido pelas suas veias agora, e você nem bebeu ainda.

Agora olhe para o líquido que está em seu copo. Encare-o com verdade e mente aberta. Não importa o preço da bebida, mas quanto maior melhor. Está olhando? Você se vê nele? Forte, firme e com personalidade. Vai dizer que você não está querendo estar no lugar dele? Independente de qualquer coisa, ele sai da garrafa e está pronto para enfrentar seus problemas, mesmo que seja momentâneo ninguém está nem aí. Pense no agora, esqueça o futuro. O futuro é um cara que levamos nos ombros sem ter certeza nenhuma dele ou de sua fidelidade para com os nossos desejos e só o que temos é o presente. E agora que você encarou e cheirou e está decidido, a primeira dose você tem de tomar como homem. De uma vez só. Vamos lá, você consegue.

Ufa! A primeira dose já foi. É como o medo de altura, depois que você olhou para baixo uma vez o resto é resto. Vamos para a segunda. Encare-o de novo. Bem mais fácil desta vez não? Você já está quase pedindo para o garçom deixar a garrafa. Vê como você já não pensa mais no futuro. Foda-se o futuro, vamos viver o hoje, o agora. Desce a garrafa e vamos ficar bêbados e mandar o mundo e os problemas se foderem, pois é isso que eles merecem. Um belo dedo do meio bem enfiado no cú. E vamos torcer para que esse cú não seja o nosso.

A cada dose de whisky vai ficando mais fácil. Depois da terceira ou quarta você nem sente mais o amargo. É só a loucura descendo pela sua garganta. Prazerosamente descendo pela sua garganta até o seu fígado e ele também agradece, pois é outro viciado igual a você. O whisky não é muito diferente da vida. Quanto mais merda você põe para fora mais fácil é para cagar depois.
Quanto mais você sofre mais fácil fica depois.
Quanto mais murros em ponta de faca você dá mais murros você dará. Com o sofrimento não é diferente, e eu volto a dizer, você só pode perder aquilo que já teve um dia. E se você quer falar de sofrimento comigo, eu já pensei em pelo menos cinquenta formas diferentes de me suicidar. Mas isso foi em outros tempos, numa época distante. Sempre fui um covarde nestes termos, ainda bem. Pois sequer eu mereço tanto de mim mesmo.
Cheers.



Bento.

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quarta-feira, 31 de julho de 2013

QUEM NÃO RECONHECE UMA JANELA NÃO PODE RECLAMAR DO CHEIRO DE MOFO POR FALTA DE SOL

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Ainda bem que passamos anos em aulas de escrita, pois se tivéssemos que falar sobre o engenho de janelas estaríamos fadados ao ostracismo. Eu pouco sei, você se mostra saber menos ainda.

Isso foi um devaneio qualquer que teimava em latejar em minha cabeça enquanto esvaziava algumas latas de cervejas que sobrara na geladeira da festa privada que houve em meu quarto na noite anterior.

Por falar nisso, lembrei que uma vez fiquei trancado para fora, tinha perdido as chaves em algum lugar que sentei-me para beber. Nos raros momentos que não trago o bar para meu lar eu vou até Maomé como a montanha fez. Só para variar. Foi neste caso que percebi um grande problema em meu quarto. Não tem janelas. Tenho três vitrôs e nenhuma janela. Ninguém pula um vitrô. Essa é a diferença entre janelas e vitrôs. Vitrôs são como ilusões de liberdade, por eles você vê o mundo do lado de fora, mas jamais poderá desfrutá-lo através deles.

Uma janela sim. Você abre, pula, como criança fazendo arte e toma o mundo para si. Já um vitrô é como ir à praia de sapatos. Você vê a areia e o mar, mas não pode tocá-los. Entende a diferença?


E tudo bem também se está satisfeita com os diálogos quinzenais, bom, eu não. Mas se tem medo de perder o cargo de musa, fique tranquila, isso é vitalício.


Bento. 

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terça-feira, 30 de julho de 2013

DÉCIMO SÉTIMO DIA DESTE MÊS CANCERIANO

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Por um acaso eu lembrei que ficaria mais velho neste mês. Uma atendente nova na loja de bebidas que faço minhas compras semanalmente pedira minha identidade para provar que eu era maior de idade. Vê se pode? Com essa cara de Bon Vivant, escrevinhador dramático e incoerente, após tantos anos me vi tendo de provar idade para comprar uma bebida? Então por isso, acabei me lembrando que ficaria ainda mais velho neste mês. Por sinal, eu odeio aniversários.
Não o aniversário só, mas os telefonemas de pessoas que não dão a mínima para porra nenhuma que eu faço e se sentem na obrigação, como se fosse algo muito educado dar-me as felicitações.

Tudo bem, também não faz muita diferença quando você tem que lidar com idiotas o ano todo, um dia mais outro menos não me causaria muita dor de cabeça. O que realmente me assusta em todos esses dias dezessete deste mês canceriano são os cabelos brancos que insistem em multiplicar-se. Este cronometro que não para de regredir até chegar ao zero. E é muito mais nestes dias que eu me pego lembrando que eu não conquistei nem um quarto do que planejava há dez ou quinze anos atrás. Em contrapartida eu não estou careca, barrigudo e com alguns filhos pendurados em meu orçamento mensal. O que me permite gastar ainda mais com bebidas, cigarros e noites intermináveis. Ah essa minha teimosia de querer ver um lado bom para tudo.

O fato é que sou um cara velho, bem mais velho que minha idade diz. Abro um parênteses agora para dizer que a meia hora atrás eu via o presente como desesperado, após alguns drinks está tudo bem obrigado. Também é fato que sou um dinossauro contemporâneo com gostos estranhíssimos e um bom senso extremista que mais me atrapalha do que me ajuda. Portanto, é mais um ano, ou menos um ano de vida para raspar a merda do sapato que acumulei durante a idade e continuar caminhando.
E o corpo acusa.
Te faz lembrar que você não é mais um garoto de 16 anos que se regenera como um mutante. O fígado já te pede para pegar mais devagar, que talvez ele precise de férias. O problema é que quando trabalho bebo por ter de trabalhar e quando estou de férias, bebo por estar de férias, ou seja, meu fígado que vá atrás das leis trabalhistas que ele achar que tem direito. Ou até o dia dele me deixar na mão e eu não ter mais que me preocupar com aniversários, com pessoas idiotas se sentindo na obrigação de me dar felicitações quando passam o ano inteiro torcendo pela minha tristeza, afinal, nenhum escrevinhador que se preze pode se dar ao luxo de ser feliz o tempo todo.  Alguém me disse isso e eu concordo. E eu estou escrevendo isso exatamente neste dezessete de julho, sentado em minha varanda, bebendo whisky com cerveja e esperando anoitecer para poder ganhar um beijo de uma garota linda e prepotente, inteligente e pessimista, poetisa e musa, louca e saborosa. Que me dará um beijo que por pelo menos um momento me fará esquecer que ela ainda não me merece. Para o bem ou para o mal. Espero que seja pelo bem dela. Pois mal por mal eu tiro de letra.



Bento.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

ESTE TEXTO NÃO É PRA VOCÊ, APESAR DE SABER QUE É, PELO MENOS DISFARCE

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A cada parágrafo que eu escrevo é um soco que dou em minha cabeça.
Mais um parágrafo, uma dose de whisky, acendo outro cigarro e volto a tentar não me envolver com algumas coisas medíocres que observo pelas janelas da alma. Só que é difícil.

Eu quero agora ir dormir e amanhã acordar mais razoável, só que não consigo, pois tenho um imenso desejo de xingar e amaldiçoar o mundo com todas as minhas forças. Talvez seja a grande quantidade de álcool que corre nas veias, numa cumplicidade de não ter o que eu quero e ter um monte de coisas que não me fazem diferença e que não me esforço quase nada para ter. Qualquer religioso imbecil poderia dizer que isto é derivado de alguma força divina, de um blablabla corriqueiro e que eu sequer vou gastar mais linhas para falar sobre isso. Só o que vou dizer é que o álcool deveria estar amenizando de alguma forma tudo isso, porém, que não está passando nem perto. E então, isso tem grande parcela nas bostas que eu faço e falo durante a madrugada, então se puder me perdoar por qualquer coisa, faça, mas somente se quiser, caso contrário, bem, foda-se.

Estou eu aqui procurando defeitos, tentando mediocrizar e tornar-te comum como toda e qualquer coisa, juntar o desejo com todos os outro na mesma caixa e colocar lá fora, para o lixeiro levar, junto com as garrafas de whisky, as latas de cerveja e os maços de cigarro. Tento e eu sou super criativo, usando artimanhas, insultos, me passando a perna, no entanto eu sempre saio como vilão. Ah maldição.

Eu, na minha raiva incontrolável, estou querendo ver tudo em pedaços e então estender meu chapéu, aquele mesmo que eu prometi colocar debaixo do braço e partir, para sobrar alguns pedaços comigo e outros que eu possa guardá-los nos bolsos.

Logo depois, como todo bêbado, mudo de ideia e esvazio os bolsos. Ora. Eu sou de preferir inteiros. Sou de preferir sonhos, sorrisos, lábios, pernas finas... Oh, as pernas finas.

Sou um intransigente. Para falar a verdade. Sou um dos poucos homens que conheço. Pois por aqui é preciso coragem e atitude. É preciso culhão e eu tenho bolas enormes num saco também gigante e é tudo o que eu tenho. Cérebro e bolas. No entanto, ninguém come cérebro e bolas, ainda bem, e ninguém vai ao shopping e passa as bolas na máquina de cartões de crédito. Ninguém vai ao bar e mostra as bolas na hora de pagar as contas. Ou gostaria de viver num lado do mundo onde os fracos não tivessem vez, mas não é preciso ter culhões para ser homem hoje em dia. Por isso, meu melhor seja por aqui, nas entrelinhas, parágrafos e contando com sua leitura e quem sabe convencimento, quem sabe o despertar do falecido.

Ainda que por aqui, as desilusões são rotineiras. Só os amaldiçoados como eu tem tanto bom gosto. Porém, sou um amaldiçoado e pronto. Ah esse meu bom gosto que ainda me mata.
O relógio já marca a hora das assombrações, três da manhã, o álcool acabou e as assombrações, almas penadas, todas elas, de todos os demônios que tive que trazer para o meu lado do balcão e eles torcem, rezariam se acreditassem em Deus. Rezam para que eu alcance todos os meus desejos, pois com o meu gênio...
Ou talvez eu só esteja bêbado. E o álcool acabou, assim tive que sair para comprar mais, pois a raiva ainda existe, a vontade ainda me domina e os olhos ainda enxergam os pés. Que espécie de bêbado eu sou que ainda enxerga os próprios pés? Preciso de menos sangue nas veias, volto com as garrafas e começa a chuva, que gelada me tira mais ainda a embriaguez. Então eu encontro vários amigos bêbados e até os bêbados desconhecidos que se tornariam meus amigos e qualquer um deles olham para os meus olhos com atenção, como são vislumbrados e atentos a todos os detalhes. A maquiagem improvisada no espelho, e você sabe o meu fraco por mulheres e o ato de maquiar-se, mesmo assim fez de propósito. Aliás, quem não sabe? Os olhos seguem os cabelos, a espinha que teimou em nascer na esperança de tirar-lhe uma pequena fração da beleza e eu digo: fracassou. Eu que sou teimoso, mais que qualquer espinha desviava o olhar só que ele é mais forte e volta para o deleite. Se isso não é paixão então o mundo não é mundo, é outra coisa.

Quem eu estou querendo enganar? Leia as coisas que eu escrevo e chegará numa conclusão que qualquer idiota poderia chegar, até quem não sabe ler. Até quem não me conhece e quem não me vê há anos. Sou um trouxa rendido pedindo asilo. Eu que tento terminar um livro só consigo escrever a mesma coisa, sobre a mesma coisa e estou perdido como escritor, fadado a cometer os clichês dos outros escritores cuzões que não conseguem separar as coisas. Se isso não é paixão então eu sou gordo com talentos santíficos.

Sou culpado de toda essa merda. Eu sei. Deveria eu ser suficientemente esperto para perceber que neste caso eu sou o budista em meio suas crenças greco-romanas com centauros, cupidos, ninfas e etc. Mas quer saber? Eu sempre fui metido a esperto e isso sempre me levou aos caminhos já tão conhecidos por mim. Chega ser ultrajante, riquezas masculinas adquiridas por tantos anos que eu poderia dar aulas sobre o assunto, caso fosse um militar seria eu um amontoado de honrarias imaculadas e invejadas, porém, sou um mal agradecido. Sou um incontente, não um infeliz, um incontente. Um amaldiçoado ingrato. Sou o que sou, mas também sou orgulhoso e arrogante, menos é claro quando sou ignorado, deixado de lado, ridicularizado, menosprezado, e todos os "ados" negativos que eu deixo de lado, pois a mínima atenção que recebo me traz um prazer inenarrável. Só não posso deixar que todos saibam disso para não abrir um precedente, então este será nosso segredo. Mas se isso não é paixão, então vamos todos sair na rua de roupas de banho neste inverno do Alasca que faz em São Paulo.

Pode até ser impressão minha, e talvez seja mesmo. Deve ser coisa de idiota apaixonado egocêntrico como sou, mas se pensa que não reparei nos olhos vidrados e ouvidos atentos enquanto ouvia minhas histórias desconhecidas até então com personagens que coincidiram em nosso caminhos alheios. Eu só não sei o significado do olhar, não sei se eram por mim ou pelas histórias, assim como não sei o motivo de rubrar por uma piada minha. No entanto, como eu frisei, sou um egocêntrico irremediável, logo, tomei para mim. E até sobre isso, eu repito. Se isso não é paixão, da minha parte é claro, se não é paixão, então eu deveria escrever coisas alegres e com finais felizes sobre situações que eu desconheço tomando como inspiração garotas fáceis, com personalidades completamente diferentes da minha e com sérios problemas de interpretação de texto. E por fim, o álcool finalmente fez valer o seu motivo de existência e eu passei a pensar mais rápido do que pude escrever, portanto, parei por aqui, pois mais que isso seria sem sentido.



Bento.

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segunda-feira, 15 de julho de 2013

CARTA DE DESPEDIDA DE UM LOUCO APAIXONADO PARA UMA DOIDA QUE NÃO SABE DO QUE SE TRATA

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Para você que não acredita, se meu fígado fosse um cara, ele tentaria me assassinar diariamente. Tamanho o trabalho que eu dou para ele.
Cheguei a ponto de dormir bebendo e acordar no meio da madrugada para fumar um cigarro e tomar uma dose. Só que isso foi antes, agora espero até de manhã, para tomar umas. Cheguei a ponto de dormir ao lado de garotas e acordar ao lado de outras que eu nem sabia de onde vieram, mas isso foi antes, antes de entender, ou me dar conta, que um apartamentozinho com uma vista para a avenida, uma xícara de algo quente e uma bela garota de camiseta e calcinha me é suficiente.

E eu era um cara cheio de asas para o seu lado. Fiz promessas, dediquei-lhe músicas e textos. Escrevi sobre você nas paredes do quarto. Vestia-me para sair como quem fosse para um encontro com você mesmo sabendo que não estaria lá. Adotei uma gata e coloquei seu nome. Adoro gatos, tão rebeldes e ela é marrenta e arisca como a dona do nome. Falei de você para os meus amigos e amigas e elas ficaram todas derretidas quando souberam que te mandei flores, menos você. Já os amigos todos já evitam me encontrarem no bar, pois o assunto tem sido sempre o mesmo. Até eu estou de saco cheio de mim. Até você.

Assisto novela só pelo motivo de ter uma garota que me lembra você e eu odeio novelas. Que situação a minha.
Já você me lembra aquele personagem de filme com tesouras na mão que vive me podando, vive cortando as minhas asas. Você insiste que não. Porém não me resta nenhuma pena.

Chegamos a um ponto de dizer que minhas palavras eram só palavras e não significavam nada, veja só. Logo eu, que sou um escrevinhador impulsivo e modéstia à parte, dos bons. Daqueles que não escreve clichês e coisas água com açúcar. Sou desses autores que conquistam pela realidade impiedosa, calamitosa e imperecível. Mesmo assim, para você, por você, preferiria que fosse qualquer idiota modista e medíocre que seguisse a linha do romantismo precário e de final feliz, se fosse para ter sua atenção.

E mesmo não dando a mínima atenção às minhas palavras eu saí dos palcos e do conforto de meu sucesso e fui além, no entanto, mesmo assim, não foi o suficiente. Mais que isso eu dependeria de seu aval, vamos lá, não que eu seja um bunda mole, só odeio a inconveniência de forçar algo que depende da vontade de um par e nesta, me parece um tesão individual. Uma masturbação de "Querer Muito".

Agora, não me force a uma sabedoria que eu não posso ter, sendo que me parece que até mesmo você tem dúvidas. Porém também não vou me enganar. Seus dias nublados só parecem ser tão ruins quando é para dividi-los comigo. De resto eles são límpidos e esbeltos. Talvez eu que traga sua má sorte. E é por isso, não só por isso, mas também por isso, que lhe escrevo esta última carta.

Garanto-lhe que não será por mim que acordará com mensagens inquisitoras. Prometo-lhe que não terá que me chamar pelo meu primeiro nome com uma falta de libido extrema. Garanto-lhe que não terá mais perguntas que te deixarão impaciente como as enxaquecas e problemas pessoais. Prometo-lhe que não precisará mais se fazer de desentendida por indiretas e insoluções pregadas por mim. Se usasse um chapéu estaria eu, neste exato momento, pegando-o, colocando abaixo do braço e partindo. Sem mais. Sem subterfúgios, sem cartões, sem desculpas. Desta vez eu parto, mas não por medo e sim por falta de zelo e cumplicidade. Por falta de carinho recíproco e por uma impaciência destinada a ambos. E eu fui paciente. Minha língua já tem seu gosto de tanto que te lambi. Parto por falta, falta de ti. E por excesso de confiança, quando o meu melhor que eu tenho para te oferecer tornou-se pouco. Baixam-se as cortinas e eu me despeço. Na verdade, acho que fui despejado de você. Logo, meus móveis estão pendurados numa Kombi caindo aos pedaços e o que me resta é o novo aluguel ou condomínio que possa vir por aí. Só não tente desmoralizar o que faço de melhor, pois você tem grande parcela de culpa por eu ser tão bom no que faço.



Bento.


quarta-feira, 10 de julho de 2013

NÃO SE CORROMPA TANTO PARA ESCREVER

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Tenho então, certa peculiaridade em viver. Uma coisa diferente em dar meus passos pelo asfalto neste mundo de malucos. Uma vez eu disse e nem sei de onde tirei isso, mas disse. Foi um vômito, não alcoólico, porém, bêbado quando disse: "gosto de fazer tudo com estilo próprio, sem inspirações". Eu nem sei o motivo pelo qual disse isto. Nem sei se concordo com o que disse. Só que as coisas me fazem mais feliz quando saem do meu jeito. Então eu saio na rua para comprar cigarros com a mesma roupa que dormi e não me importo muito, foco apenas no objetivo, que são os cigarros que me faltam naquele momento.

É certo que não ligo muito para situações rotineiramente planejadas. Não suporto nenhum compromisso religiosamente assumido. Odeio trabalhar, o problema é que eu gosto mais de dinheiro do que certos princípios, logo, o trabalho é a única coisa que aceito fazer obrigatoriamente.

Assim muita gente deve olhar para o meu estilo de vida e pensar que seja tudo maravilhoso, ou que eu não tenha nenhum futuro e só a segunda opção pode ter algum sentido. Estou dando voltas para dizer que o fato de acordar ao meio dia e que meus cafés da manhã geralmente são meia dúzia de garrafas de Heineken após uma boa dose de whisky para abrir o apetite, e que acendo um cigarro antes mesmo de abrir os olhos quando acordo não é tão bom quanto uma porção de gente pensa. E essa porção de gente que lê minhas narrativas sobre minha vida e adoram, sequer teriam estômago para viver elas mesmas de tal forma. As pessoas sempre admiram aquilo que não podem ter. Não se pode medir as coisas que eu abro mão para sobreviver da maneira que eu acho ideal e normalmente o que serve para mim não servirá para a maioria das pessoas que assistem ou leem uma situação como esta. Não servirá, pois como eu disse: é preciso estômago, mais até que estômago é preciso abdicar de um conforto sociável.

Meus amigos, por exemplo, além de poucos, não são tão presentes quanto os amigos comuns. No entanto, não os culpem, eu prefiro assim, afinal, com uma personalidade característica como a minha, para mantê-los é preciso que afastem-se para deixar que a saudade ajude-os a me aturar. O eu em excesso é prejudicial para qualquer sanidade e ainda assim só tenho amigos desequilibrados.

Com as garotas é a mesma coisa. É preferível que não se mantenham por muito tempo. Repare em seus olhos e perceba o quanto eles brilham ao ouvir minhas histórias. Sempre tão agradecidas retribuem uma preliminar ou outra, mas ainda assim é preferível que não se mantenham por muito tempo. Perde-se o encanto, pois eu não deixo de tomar os meus cafés da manhã alcoólicos, não deixo de escrever sobre minhas insanidades e de exercer minha displicência em relação ao futuro. E nenhuma garota se vê ao lado de um escritor possivelmente falido falando sobre as desgraças da vida. Então eu lembro do que me disseram uma vez, que um dia eu vou envelhecer, ficar feio, ultrapassado e o número de garotas entrando e saindo do meu quarto diminuirá drasticamente e que eu olharei para o passado com grande arrependimento. O que essa pessoa que me disse isso não sabe, é que eu já olho para o passado com grande arrependimento, ou seja, sem novidades. Se alguém aí não tem o mesmo problema me conte o segredo. E tem mais, odeio palpiteiros.

Olhe para o mundo de um débil com olhar de telespectador e tudo parecerá maravilhoso até os nossos caminhos se cruzarem e perceber que minha cama é muito mais aconchegante ao dormir do que quando acordar. E que apesar de prazerosas, muito prazerosas, todas as bebedeiras geram muito mais prazeres que as ressacas. E que a vida de Bon Vivant escrevinhador de contos desgraçados somente é atraente em películas e livros. Que a abstinência de álcool e nicotina torna-me um ser irreconhecível e insuportável. Que eu sou um sujeito calamitoso e que odeia cortar as unhas. E que eu passo metade dos meus dias sentado numa cadeira de praia, no telhado, ouvindo Rock em discos antigos, bebendo cervejas e escrevendo, já a outras metade eu passo dormindo. Por isso, não há motivo para invejar-me por qualquer coisa. Por mais que sua vida pareça ruim, eu sou o resultado de tudo que possa dar errado e me orgulho de tornar isso público. Levando sempre em conta que aumento algumas tragédias e fatos para dar um tom de dramaticidade e estilo próprio em tudo que eu escrevo.



Bento.

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