quarta-feira, 7 de novembro de 2012

OLHOS VERDES QUE VESTEM RIMEL


-


Eu queria começar dizendo que talvez eu possa ser um pessimista. Não que eu me esforce para isso, algumas coisas simplesmente acontecem. Ou você nasce com isso, mais ou menos como orelhas de abano ou sorriso com covas. Porém, dizer que eu sou pessimista é simples demais. Tão sem sal e sem açúcar para um sujeito como eu que gosta de complicar as coisas.
Bem como um amigo que não vejo há tempos. Quando saíamos para beber e conhecer garotas ele sempre dizia mirando o dedo para uma bela garota: essa daí não! E não tinha discussão, tentávamos fazê-lo mudar de ideia, mas nada funcionava. Ao indagarmos sobre a birra que tinha com algumas garotas, apesar de bela ele profetizava: essa aí é uma pré-gorda, ela ainda não sabe, mas será gorda no futuro e como toda gorda, será carente e ciumenta. Não entendíamos muito na época, porém, ele preferia assim, esperar sempre o pior.

Já eu poderia dizer que sou um dramático irremediável, daqueles que fazem de uma recepção de dentista uma tragédia shakespeariana. Então isso pode ser uma coisa para se preocupar e talvez trocar a recepção do dentista pelo analista, ou seja, só um caso de ótica incomum.

De qualquer forma, essa dramaticidade se deve muito a falta de fé naquele romantismo aficionado pelas novelas e o cinema. Desacredito em moçinhos e pessoas que devolvem malas de dinheiro achadas na rua. Eu prefiro acreditar que existe sim, bondade em todos nós, mas na mesma quantidade que existe a maldade. Somos todos seres ambíguos. Se duvida, faça uma experiência. Coloque um grupo de pessoas numa sala e os deixe sem alimento e água por um bom tempo e terá uma carnificina seguida de um banquete de carne humana. Pode chamar de sobrevivência, instinto e etc., etc., etc. Eu chamo de natureza, fato corriqueiro. O ser humano só é bom por comodidade, para que a vida em sociedade seja algo possível e agradável. Basta os quesitos "viver" e "sociedade" estarem em risco e lá se vão o bom senso e civilidade. É simples assim.

Ainda falando dessa ambiguidade eu, ranzinza que sou, me pego reclamando de uma tempestade quando a mesma se despede para dar lugar ao sol de arco-íris e voltar a lamentar-me por não ter tirado um bom cochilo durante a chuva.

Praguejo por coisas que nem me lembro mais do porquê. Relembro coisas do passado só para fechar a cara e manter o estado de espírito, preciso disso, é minha fonte de agonia e inspiração. Caso contrário escreveria sobre flores do campo e crianças com lares perfeitos, um saco, tudo seria um saco de estrume sem pretendentes.

Pensei nisso ao conhecer uma garota e perceber que lá estava eu em busca de algo para reclamar. Como seria? Me foquei em seus pés, deveria ter uma unha torta ou um calo amarelo e nada. Então seriam as rugas dos joelhos que fariam meus olhos revirarem e não passou nem perto. Seu cabelo era lindo, loiro e cheiroso. A vaidade dela era tão grande quanto desejada. Os olhos eram verdes e vestiam rimel. Fui atrás de gorduras extras e ela era magérrima. Sabendo que sua aparência física estava em ordem pensei em buscar algo para acusá-la em nossa relação e nem assim obtive sucesso. Poucas vezes tive alguém que quisesse tanto me agradar. Desisti. Não dela, é claro, desisti de procurar nela, algo que me desse motivos para lamuriar, logo, sobrou-me discutir e reclamar de mim mesmo.


Bento. 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

GIULIARD BORSANDI VII


-

Indica-se ler os episódios anteriores: GIULIARD BORSANDI VI


Eu já pensava na morte da bezerra, pensava em como estaria Nelia, Ricardinho e a puta que pariu.
Ficar bêbado é uma merda, beber sozinho também. Começamos a pensar em coisas que não queremos pensar, em pessoas que não queremos pensar.
Aquela música de merda tocando no meu ouvido e fazendo meus tímpanos explodirem, já estava clamando pela tal bandinha que iria tocar naquela noite. Não que fosse muito boa, mas era melhor que aquela música eletrônica de retardado que me dava vontade de cortar os pulsos. Mais meia hora daquilo e eu acharia a banda Qasual, que era a atração da noite, quase um Led Zeppelin. Exagero meu, mas aquela música eletrônica me dava nos nervos. Jamaica gostava.

O bar já estava cheio e Jamaica não parava. De um lado para outro servindo os recém-chegados. Agora já estou na sexta caneca e consequentemente a sexta dose de whisky - Jack Daniels, abaixo disso é água suja - quando me surpreendo com uma mulher sentando ao meu lado, num vestido negro que, sentada, quase dava para ver suas nádegas.

- Oi. Posso me sentar aqui?

Ela tinha trinta e quatro anos. Suculenta. Um rosto de mulher que, sim, eu toparia levá-la até meu escritório para olhar debaixo daquele vestido, caso ela não fosse um trabalho.
Ela, era Janaina Alves, vocês devem conhecê-la como "mulher do pastor".

- Claro que pode. Você pode tudo.

Respondi dando mole para ela, pois realmente fiquei interessado naquele vestido e em tudo o que continha debaixo dele, porém me contive. Pô! O pastor iria me pagar uma bala por àquilo. Valia mais que uma transa com uma vadia qualquer.

Transar com vadias não pagava conta. E eu estava com muita sorte para ela aparecer ali, num dia de folga, quando eu já tinha perdido vários dias atrás de uma oportunidade de pegar aquela safada prevenida. Hoje ela tinha se descuidado, não por querer, mas o destino às vezes coopera. Quem diria que a puta apareceria no mesmo bar que seu delator, num dia de folga e num dia que o pastor estaria em casa dormindo. Pelo que eu sabia.

A mulher me olhava com cara de desejo, eu já estava bêbado e de pau duro, ela era gostosa e o álcool sempre me deixava mais excitado.

Era a sétima caneca, servi uma para ela, eu pensava em quanto eu ganharia com essa história do pastor e pensei em avisá-lo. Mas mesmo que eu a levasse para um quarto de motel, como eu poderia fotografar ou filmar esse tipo de coisa quando eu mesmo estivesse fazendo parte. Corria-se também o risco do pastor ficar puto comigo e não querer me pagar, nunca se sabe o que se passa na cabeça de um corno, principalmente um corno evangélico. Então fui devagar...

Paguei uns drinks para a moça e continuamos conversando. Ela me queria, estava claro para quem quisesse ver, não que eu fosse muita coisa, ela escolheu o primeiro que estava na frente dela, quis o destino que fosse eu, mas poderia ter sido o Zé, o Mané, ou até o Guião, se ali estivesse.

Era isso! Por isso que eu bebo, penso melhor assim. Dou um fora na mulher e ela vai procurar qualquer outro cara para satisfazer sua libido de mulher da vida.
Talvez eu até entenda o motivo para ela sair às escondidas para trair o marido, pelo pouco que conheci do pastor, duvido muito que ele tenha gás para apagar o fogo de uma gostosa como esta. Puta mulher gostosa.

 - Bem Janaina, gostei muito de conversar com você, mas sei que você deve estar querendo diversão essa noite e não ficar aqui perdendo tempo comigo...

Então Janaina me interrompe fazendo a sua cara mais sensual da noite:
 
 - Então nós vamos nos divertir em outro lugar?

Eu não consegui segurar o riso de criança que ganha um brinquedo novo. Porra! Meus hormônios me diziam para mandar o pastor para a puta que pariu e comer àquela senhora quantas vezes fosse possível, afinal, era meu dia de folga. Mas minha razão ainda estava sóbria e se eu tivesse que fazer uma social com ela depois do sexo provavelmente eu iria querer me matar, tamanho tédio, ou acabaria soltando alguma indireta que faria com que ela percebesse que eu sabia de sua vida mais do que ela já tinha me revelado.
Pensei que esse puritanismo ainda iria me foder, mas...

 - Não, gata. O que eu quero dizer é que sou casado e não quero atrapalhar sua noite, portanto, acho melhor você ir se divertir.

 - Mas eu também sou casada e se isso não é problema para mim, acredito que não será para você. Ela era uma profissional. Já devia ter feito aquilo várias vezes. Estava acostumada e totalmente disposta a arrumar uma transa.

 - Olha, não vou te julgar. Você deve ter seus motivos para isso. Porém, não traio minha esposa. Continuei mentindo.

Ela desistiu. Tomou o restante de seu Martini e me deu um beijo molhado no rosto. Quase enfartei com aqueles seios deliciosos próximos ao meu rosto. Senti seu perfume doce e meu pau ficou ainda mais rijo. Eu iria explodir.

Fiquei olhando ela se sentar numa mesa mais próxima do palco.
Uma mulher como aquela, rica, madura e muito gostosa, só poderia estar sozinha num bar como aquele com um só propósito; sexo selvagem com um cara que sequer perguntasse seu nome e que nunca mais o encontrasse na vida.

 - To te estranhando guri. Tá dispensando mulher, agora? Perguntou Jamaica sem me deixar notar que estava observando minha conversa com a mulher do pastor.

 - Só tenho olhos pra você magrela.

Respondi com um sorriso irônico nos lábios. Ela sorriu balançando a cabeça percebendo a ironia.
Evidente que eu não desperdiçava uma oportunidade de trepar se não houvesse um bom motivo. Como o de hoje com a mulher do pastor. Mas a parte de só ter olhos para Jamaica não era tão inverdade assim. Como já disse, ela era a única garota que eu conhecia que poderia me fazer esquecer a vadia da Nelia. Mas enfim...

Não demorou muito para que um roqueiro musculoso sentasse na mesma mesa que Janaina e começassem a conversar intimamente. Era agora, assim que saíssem do bar eu os seguiria e completaria meu trabalho. Afinal, eu sou Giuliard Borsandi, detetive particular. Mesmo que a contragosto.



Bento.

-

terça-feira, 28 de agosto de 2012

W.O


-


Hão de reclamar, assim como reclamam da forma como ando, como falo, como respiro. Falam até do ar da graça que me habita.

Eis que se me perguntarem; quem é o melhor humorista para você? Respondo fácil; eu. Cínico! Vão dizer.

Não. É isso mesmo. Eu. Humoristas do Brasil existem vários muito bons, porém quem me diverte mais sou eu.

Ora, todo o sarcasmo e ironia me diverte mais que qualquer coisa. Trato-me pior que qualquer outra pessoa e me divirto com isso.
Toda compaixão, autopiedade e cegueira que existem nos outros não se aplica a mim. Me trato como um desconhecido sem coração.

Um sarro diário da minha própria cara. É uma autossuficiência do humor. Brigo já sorrindo.

Egoísta. Vão dizer. É isso. Egoísmo do riso. Conto a piada e sou o primeiro que ri. Afinal, eu sou o alvo da piada, sempre. Nada mais justo.

É uma masturbação do humor. Dedico-me a me dar de presente o primeiro riso do dia, depois disso tudo é lucro.

Mas por quê? Por quê? Por quê? Simplesmente porque egoísmo seria depender dos outros até para rir. Se preciso agradar alguém, logo, que este seja eu.

Isto está errado! Vão sentenciar. Pois não serei eu que vou argumentar nem discutir por isso. Não eu. Se disser que está certo estarei dando um mínimo de razão para meu interlocutor, pois num debate sempre há acertos para os dois lados. Ninguém erra totalmente e vice-versa. Neste caso, por minha parte, nada é discutível.

Logo você que debate sobre tudo? Tentarão fomentar. Isto é outra verdade. Digo isso, pois, só é possível treinar argumentos argumentando. Como um jogador que só treina bola jogando.
No ímpeto de conhecer seu desafiante, eis de contrariá-lo, caso contrário, os dois concordam e vão para casa, mudos. Eu procuro o convencimento a todo custo. Abro as portas para me dar uma boa razão de mudar de ideia e apoiar sua causa, só precisa me convencer. Ganhar por W.O não me agrada em nada.



Bento.

-

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

ESSA NORMALIDADE QUE ME MATA


-


Certa vez eu disse que só me relacionei com santas. Todas inocentes, pessoas perfeitas e puras. Nenhuma dessas mulheres que passaram na minha vida tem nada, mas nada mesmo, para lamentar-se ou se arrepender. Pois bem.

Hoje dormi bem, o que é muito raro. Geralmente pego no sono momentos antes de ter de me levantar para mais um dia árduo de trabalho. Não hoje. Hoje dormi como um defunto. Duvido que não gelei como morto e parei de respirar. Foram mais de doze horas de sono profundo sem despertar nem para atender os desejos da bexiga. Tanto dormi que acordei naturalmente meia hora antes do despertador. Não, não pense que deixarei de chegar atrasado ao trabalho por causa disso, pois existe uma ordem natural para as coisas, um ciclo original, uma força maior para tudo. Assim como a noite dá lugar ao dia, assim como os pulmões exigem ar, assim como os amantes necessitam discutir para voltarem mais fortes, eu tenho de chegar atrasado em tudo. É assim.

Só sei que dormi como um gato e acordei disposto. Muito disposto para o meu gosto. Acordei e no caminho para o trabalho minha mente trabalhava com energia total bolando planos mirabolantes para o decorrer do meu dia. A barriga vazia exalava uma ansiedade e eu sentia-me feliz. Uma felicidade sem motivo, sem compreensão. Me peguei pensando: De onde vem essa felicidade toda? É esse o segredo? É só dormir e pronto?

Uma mente descansada normalmente é uma boa coisa. Só que nada que venha a ser normal se aplica muito bem quando se trata da minha vida. Digo isso porque tudo é uma questão de costume.
Não é tão simples assim, é preciso um tempo de adaptação e, normalidade e tempo são duas coisas que não fazem parte do meu cotidiano, logo, fiquei sem saber como agir. Então uma mente sã e descansada tende a agir com essa tal normalidade para pessoas normais. Já a minha mente, normalmente anda a mil, pensa em coisas que eu não quero pensar. Acelera como um maldito motor possante numa estrada reta e vazia. Já cansada é preciso freiá-la com noites mal dormidas, ressaca e desligamento do mundo. Quando descansada então... Quase entra em pane.

O dia foi passando e me vi desejando bom dia a todos. Fazendo favores para malditos filhos da puta que eu sequer gostava. Me vi tratando todas as pessoas bem, sem exceção. Sem fazer diferença de ninguém.  Entenda, estava eu cometendo uma puta injustiça sem tamanho e, se tem uma coisa de que não gosto, é exatamente essa tal injustiça. Nem todas as pessoas merecem o seu melhor. Se for assim, você coloca tudo no mesmo saco, os monte de estrume com bacanas e se mata. Corte os pulsos, dê um tiro na cabeça, sei lá. Não comigo amigo. Não trabalho desse jeito. Tomei uma atitude até então, drástica.

Meti o pé na porta do bar, acordei o dono daquele moquifo e ordenei: quero essa garrafa de conhaque, agora!

O cidadão ainda com seu pijama meteu a cara na janela: - Mas ainda são nove da manhã, me deixe dormir.

 - E daí? No Japão já são nove da noite e passou da hora de beber - Eu retruquei e passei a próxima hora tomando doses cavalares de destilado amargo, como a vida deve ser.


Bento.

-

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

MALDITA SEJA A ESPERANÇA


-


A pior coisa que existe chama-se; esperança.
Eu não me importo de estar no fundo do poço. Não me importo com os olhares de desaprovação como quem diz; tinha uma vida toda pela frente...
Não me importo.
Fazemos só aquilo que queremos fazer.
Somos quem podemos ser como já dizia um certo engenheiro famoso.
Estou cagando para o que acham ou deixam de achar sobre qualquer coisa que eu venha fazer ou escrever.

Se minhas linhas causam-lhe perturbação ou fervor.
Se às vezes pareço um suicida ou um beberrão desiludido e sujo.

O que me dói, o que me faz ter as tripas retorcidas como uma cólica pré-menstrual. O que me faz verdadeiramente querer quebrar a garrafa de destilado ainda cheia, desperdiçando assim o néctar dos deuses e enfiar os cacos em minhas artérias, é a esperança.

Nunca pedi por afagos. Nunca supliquei por compreensão. Cada um com seus problemas, eu não o ajudo com os seus e você não se mete nos meus. Vamos combinar que somos todos egoístas em busca de algo melhor para nós e pronto.

Não me façam de vítima que eu não me faço de herói. Se não posso ter a felicidade plena, também não quero esmolas.
Não sou eu quem vai pedir nada em troca. Deixei de pedir qualquer coisa há muito tempo e sinto que nada mudou. Sou eu, um Bon vivant admirador de fotos e sorrisos congelados e estava muito bem assim, obrigado.

Era sempre como um olhar desapercebido da calúnia que estava cometendo comigo mesmo.  
Sei que não é nada romântico. Mas imagine alguém apertando minhas bolas com toda força. Se acha que é pouco, use uma prensa. Imagine os olhos saltando das órbitas de tanta dor e a boca seca querendo engolir a própria língua. Tente imaginar seus ossos sendo quebrados em infinitas partes enquanto você ainda se mantém acordado mesmo com a dor. Tente pensar como é ter suas unhas retiradas por alicates à sangue frio com você suplicando misericórdia ao léu, sem ninguém para ouvi-la. Imaginou? É assim que me sinto quando olho uma fotografia sua. Porém repito, estava muito bem, obrigado.


Até alguém me dar uma porra de esperança de que um dia...
Um dia...

Isso tudo que me mata. O fundo do poço não é um lugar tão ruim assim. Pelo menos te isola das notícias boas. Àquelas notícias boas sem você.

Eu sou como um ex-viciado. Serei dependente até a morte. E um viciado em heroína, quando frente à frente com uma seringa se corrompe de imediato.
No meu caso, a heroína é você. A seringa são as pessoas dizendo que você pode tomar rumo e voltar a criar raízes, pois seu homem já não lhe serve mais, assim como eu também não lhe servi um dia.

Calma, calma. Essa esperança está dentro de mim, você não tem culpa nenhuma. Mas sou um viciado, lembra-se?

Qualquer menção ao seu nome me faz babar como um retardado. Qualquer proximidade do seu corpo me faz tremer. Voltamos à dependência de ocasião e minha clínica de recuperação é o exílio, como sempre.

Até quem sabe, um dia.


Bento.

-

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

TCHAU PARA QUEM FICA. ESCREVER, ESCREVER, ESCREVER

-


Está todo mundo indo para casa, parece. Tudo é cheio. Hora do rush tudo é cheio.
Quando você está prestes a deixar um lugar durante muito tempo parece que todos te reparam. E você repara em todo mundo.

Cheguei na sala de aula e não havia ninguém. Peguei um café e comecei a ler meu livro. Estava quase no fim, era um livro fino. Pena. O livro era bom.
No meio da leitura começou me dar um desassossego. Não! Não era essa a palavra. Era desespero mesmo. Tanto que me perguntei: "O que exatamente eu to fazendo aqui?”.

Já tinha sentido isso antes e fui ver a mostra do Raul numa estação de metrô.
Voltei no dia seguinte. Só que desta vez era diferente, não sei bem. Queria sair dali, era só isso que eu queria.
Eu comecei a pensar no quanto de dinheiro estava gastando com aquilo e percebi que não tinha a quantia. Um dinheiro que eu não tinha. Era isso! A conta não fechava.

Olhei em volta e os outros alunos começaram a chegar e me cumprimentar. "boa noite, boa noite", é segunda-feira, o que tem de bom? Quero meu quarto, meus textos e um trago.
Escrever é o que eu queria, porra!
Mas escrever não me dava dinheiro e aquela sala roubava meu dinheiro. Ou tomava seja a palavra certa, tanto faz.

Escrever não paga nem o cigarro, por isso tenho de trabalhar. Estudar não estava melhorando minha escrita, pelo contrário.
Estudar consumia meu dinheiro e atrapalhava a escrita. Aí pensei: "vou sair daqui" e parece que as pessoas reparam mais em você quando se está partindo.

Isso é uma merda. Dei uma última olhada nos outros alunos e parti. Ao descer as escadas encontrei todo o resto dos alunos perguntando onde eu ia. "Aonde vai? Aonde vai?" Foda-se onde vou. Não disse, mas poderia.

Mas eu sou dramático. Foi uma saída à francesa, como se fosse um adeus final. Não era nada disso, volto, ainda volto. Quando não sei, nem sei se volto, posso morrer amanhã. Pretendo voltar. Preciso me despedir do bar também, mas não hoje, um dia venho só para isso. Enquanto isso, vou. Preciso desafogar.

As contas precisam fechar, caso contrário, não estudo, não escrevo, só penso em contas. Simples assim.
Mas escrever é o que me dá mais prazer. Não preciso de mais nada, escrevo e pronto. Uns tragos, cigarros e algo para matar a fome e é só. Estudo só para poder viver da escrita, quem vai querer ler um cara que só escreve? Só um cara? Quem é esse cara? Não, tem que ter mais alguma coisa.

Sempre vi nesse tempo todo no bar uns mauricinhos que têm seus estudos pagos pelos pais passando o ano todo sentado na mesa do boteco reclamando da vida e do atraso nas matérias. Claro, ficam sempre no bar. Veja, não sou santo, também matei meia dúzia de aulas pelo bar. E daí? Não vou reclamar. Se não posso, não faço. Desistir de lutar é uma coisa. Insistir em tomar soco de um valentão com o triplo de seu tamanho e peso é burrice. A vida ensina, não tem atalho. Não para um tipo como eu.

Curioso é que escrever tem sido melhor até que transar. Prefiro.
Se dissesse isso há dez anos daria risada na minha própria cara e diria: "tá louco!" Sim! Quem não está louco está morto, acha que está vivo, mas está morto. Mortinho da Silva.

Reflito para ver se é isso mesmo e não tenho dúvidas, prefiro mesmo.
Escrever me faz bem, toma tempo, só que bem pouco. Não me custa nada e não tenho de ouvir reclamações do teclado me perguntando se vou ligar no dia seguinte. Ligo, eu sempre ligo, nem que seja para dizer: "vamos ser amigos, ok?"

Prefiro transar com as palavras porque tem sido mais prazeroso. Sou meio de fase, minha fase hoje é aquela de exclusão, não sei o que é. Com raríssimas exceções eu preferia me excluir.

Quando se passa muito tempo sozinho como eu você aprende a dar valor a quem te faz companhia e não cede seu tempo para qualquer pessoa. Você se acostuma e fica exigente ao mesmo tempo. Traduzindo: UM CHATO! Mas é isso que eu sou, um velho chato. Mas é isso que eu sou. Paciência.

Então repenso e não tenho dúvidas, escrever tem sido melhor que transar.
Faço isso só, a hora que eu quiser e quando não quero ligo a TV para matar o tempo. Tomo uns tragos, fumo, mato o tempo. É isso que eu faço e não ganho um puto para isso. Fazer o quê? Vivo disso, salvo a alma pelo menos. Salvo a alma enquanto ainda vivo, depois de morto que se foda.


Bento.

-

domingo, 29 de julho de 2012

GAROTA DE OLHOS SEMICERRADOS


-


Veja as novidades como mariposas de lâmpadas nas noites de calor. Vem de repente e assim como chega, parte, deixando suas asas na memória.

É claro que estou falando da garota de olhos semipuxados. Ou podem ser semicerrados, pela falta de óculos.

Tudo bem. Me peguei acusando-me de sanguessuga. Não pejorativamente, evidente que não. Não faço mal a ninguém, exceto a mim mesmo.
O que eu quero dizer é que utilizo de artifícios e esperanças conta-gotas para tornar as noites frias mais agradáveis. As manhãs menos sombrias. Confesso, confesso, confesso.

Mas eu sou só uma relação de má fé comigo mesmo. Não sou de me gabar, portanto prefiro respirar cautelosamente. Quase que pisando em ovos eu sigo remediando autopromoção.

Alguns nomes eu invento. Outros eu escondo para manter o rumo da história sem tanta intromissão. As histórias não são todas reais. Nem tem que ser.

Se apegar em todas as linhas, vírgulas e até nos erros gramaticais é tão indicado quanto viver a própria vida através dos olhos alheios. Eu mesmo quero mudar uma palavra ou outra quando releio um texto meu.

É o sentimento que vale a leitura. É a sensação e pelos do braço arrepiados que faz com que eu termine um texto e queira mais. Nem a interferência do cotidiano me faz parar alguns momentos no intuito de pregar cada letra exemplificando minha intenção. Só a falta de tempo faz isso. Logo, levo mais de um ou dois dias para terminar um texto e, sempre volto de onde parei. Voltam também a sensação, o hálito, os arrepios. Com a garota de olhos semicerrados não é diferente.

Antes era o cigarro e o café quem me serviam de despertador. Hoje são os cigarros, café e o sorriso leve de pensar como será ao encontra-la.
São só coisas que vou me apegando diariamente. É corriqueiro sim, mas é meu.

E de pensar que você pode, dependendo de seu humor, ao descontá-lo em mim, deixar de provar do cheiro de meu travesseiro. Talvez perder minha cara de sono e toda amassada de manhã.
Pode ser que deixará de me ver pular os degraus da escada por culpa de minha impaciência.
Descobri que como sempre o arroz e deixo a carne por último.
Pode perder a minha mania de lavar as mãos e meu hábito de dormir sempre do mesmo lado.
Pode não notar que assovio quando estou nervoso. Talvez perca a chance de saber que só tomo banho ouvindo música e que sempre amasso a lata de cerveja antes de beber. A minha mania de espelho que não passa de uma vaidade disfarçada. Minha mania de coçar as unhas e ranger os dentes. Não ouvirá eu praguejar mesmo quando estou feliz e me divertir com isso. Talvez não saberá que sou péssimo com o martelo e que as vezes gosto de ficar descalço para falar com meus pés.

Pode ser. Pode ser que abrirá mão de tudo isso e, o que não sai da minha cabeça, o que não me deixa dar as costas mesmo depois de cada palavra atravessada, é que mesmo sabendo que ao deixar tudo isso, quem sairá perdendo serei eu.


Bento.

-

sexta-feira, 27 de julho de 2012

BEATAS DE CAUSAS PERDIDAS

-


Sempre disse que a mulher é o ser de mais fé que existe no mundo. Beata de causas perdidas.
Nada é por acaso, as palavras "esperança" e "fé" só estão no feminino por ser inspiradas na força de vontade da mulher.

Toda mulher acredita que pode consertar tudo e todos. O cafajeste só existe porque a mulher insiste que pode fazer com que ele tome jeito. Mesmo com o fracasso de tantas que vieram antes, elas sempre acham que podem.

Ao criar um filho também não é muito diferente. O pai desiste depois de algumas tentativas frustradas, "esse não tem jeito mesmo". Já a mãe nunca abandona a cria. Santa esperança.

A certeza que eu tenho de que Deus não pode ser uma mulher se deve ao fato de que até Ele desiste em algum momento. Se não buscar Sua ajuda não terá nada. Já o diabo só pode ser uma mulher, afinal, por mais bom moço que seja, o diabo sempre espera que você desvie do caminho. Ele espera, não importa quanto tempo demore, ele tem esperança e tem tempo para isso.

Só que a mulher não tem todo tempo do mundo, logo, perde anos preciosos de sua vida acreditando em relações de uma mão só. Relações onde somente ela se arrisca, somente ela se doa, somente ela deseja.

Alguns homens tem fé como as mulheres, porém são raros.
A paciência de esperar da mulher é compreensível, afinal, até para dar a luz ela espera vários meses. Espera a primeira menstruação. Espera o príncipe encantado e o baile de quinze anos. Sempre esperando sem perder a esperança.

O que a mulher não sabe é que não se pode entrar numa guerra onde o inimigo não a deseja nem como amigo, nem como adversário. É entrar numa luta já como derrotado. Ninguém se arrisca por algo que não vislumbra, ninguém briga por algo que não almeja. O que tiver que ser seu, será. Afinal, é o Destino que dá as cartas desse maldito jogo mesmo. Nós não passamos de pessoas que portam as fichas. E blefar nesse jogo só nos faz perder mais e mais, por isso, só aposte na mão que está à seu favor.

Não se pode implantar amor onde não se pode implantar amor. Simples como os defeitos, não? Você pode plantar amor num solo fértil, aí sim, as chances de vitória aumentam consideravelmente. No entanto, se você já pratica a jardinagem de sentimentos durante meses e o solo não corresponde, não é agora, em período de seca de atenção e companhia que vai germinar o tal do amor que tanto deseja. Velhos ditado não são velhos por acaso e poucos são tão válidos quanto "quando um não quer dois não brigam".

Lutar por amor sozinho é como ser atirado num campo de batalha desarmado. Desculpem-me se insisto no comparativo de amor e guerra. Mas é isso que o amor é. Uma guerra entre a solidão e a felicidade. O bem contra o mal, onde só podem haver dois vencedores, ou nenhum.

Só que já adianto. Tudo isso é só suposição, pois quem é que entende essas coisas de amor? Ninguém, ninguém...


Bento.

-

domingo, 22 de julho de 2012

PERCO-ME NO RÍMEL

-


Poucas coisas no mundo são mais sensuais que ver uma mulher se maquiando.
Quem mora em São Paulo está acostumado. Por causa da correria diária, a cidade das multidões, é comum deparar-se com alguma garota maquiando-se nos coletivos, nos metrôs e etc.
Não importa muito se a mulher é linda ou se é um furúnculo em forma de gente. Claro que quanto mais bela melhor, porém, é a ação que encanta.

Falo da concentração, da técnica, de cada movimento cirurgicamente calculado.
Primeiro a sombra nos olhos marcantes, é a preliminar do encanto.
O lápis em torno dos olhos e já temos o feitiço pronto.

É como se eu estivesse olhando pelo buraco da fechadura. Estou ali, mas não estou ali. Elas não ligam, quem é você? Onde está? Como se chama? Não importa!
É a intimidade quem comanda cada movimento e, quem melhor que as mulheres para reger aqueles bastões, pincéis, e pós? Como um maestro numa orquestra, nos tira da lotação e aperto dos coletivos e nos levam ao céu de primavera infinita. O que é trânsito mesmo?

O rímel me faz lembrar que os olhos jamais podem ser lavados por lágrimas, não os dela. Chorar e estragar todo aquele trabalho artístico-artesanal? Não! Nenhum de nós somos dignos disso, seria como tacar fogo num Picasso, num Da Vinci.

Dou uma pausa na sequência dessa apologia à beleza. Dessa manifestação afrodisíaca para pensar. É assim, me perco no ato do embasamento feminino. Sou um tolo - talvez digam os machistas - provável que seja mesmo um tolo, mas poucas coisas me fazem esquecer das contas a pagar, dos problemas de relacionamento, pessoais, profissionais e, vê-las ornando narizes, testas, queixos. Somos nós, homens, todos escravos da manifestação íntima que nos intima a parar e idolatra-las por nos conceder tal visão que Deus, provavelmente, criou em seus melhores dias.

Faço então essa pausa, quando já estou completamente perdido em libido, em feitiço e sabor, para lembrar de uma antiga namorada. Era ela linda como poucas que eu já vi, porém não usava um batom sequer. Não precisava, fato. Mas um dia, não me lembro agora de quem foi a ideia. Se minha ou se dela. Na verdade, acho que foi minha. Mas bastou um lápis nos olhos e eu sabia que iria amá-la para sempre. Eu já sabia disso, porém foi ali que eu tive certeza. Amaria para todo sempre aqueles olhos com lápis e tudo que vinha com eles.

Bem, claro que, o meu "para sempre" durou mais que o "para sempre” dela e hoje ela desistiu do lápis nos olhos. Sobrou a ela as madeixas endurecidas por parafina. Para mim? Sobrou, bem...



Bento.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

PORRES, PORRES E MAIS... BEM, VOCÊS ENTENDERAM

-


Quando você acorda com o crepúsculo depois de ter quase acabado com o estoque de destilados do bar, na verdade, você não acorda. Seu corpo permanece no transe clínico da maledicência. É uma máquina que antes da sua noite autodestrutiva, perfeição de engenharia fomentada pelo Criador, hoje, com a maior ressaca do mundo, não passa de uma lata velha com motor a lenha. Nada funciona direito.
A cabeça não funciona, o reflexo apresenta defeitos. Após passar alguns minutos na privada você percebe que o intestino, rins e grande parte dos órgãos também estão temporariamente fora do ar. Então, sai do banheiro ciente de que a morte está próxima, o cheiro já é de defunto putrefato. Não se engane, somos todos um amontoado de carne que está em constante processo de putrefação.

Eu ainda estou na noite anterior e, o que é pior, a noite passada ainda está em mim. Só o que eu fiz foi dar uma pausa, uma cochilada de uma ou duas horas. A cabeça lateja e me avisa; mais algumas noites como esta e os danos serão irreversíveis. Grande merda. Como se eu já não estivesse num caminho sem volta.

Quando se está num caminho sem volta, o que te resta é continuar seguindo em frente. Há mais inconsciência que verdade nisso tudo. Seguimos andando, então.

Bem, após o banho já estava atrasado e o café me dava ânsia de vômito, mesmo assim continuei bebendo. Curioso é que minhas ânsias nunca se concluem. Acho que meu corpo gosta tanto de álcool que não quer desperdiçar nem uma gota. É o pecado do desperdício. Como um fígado ciente de seu compromisso de sustentabilidade. Talvez não faça sentido, mas essa palavra está tão na moda que quis usá-la para alguma coisa.

Já estou atrasado para o trabalho e ao apertar o tubo da pasta de dente errei três vezes a escova. Esses reflexos...
Minhas mãos tremem há anos. O porquê eu só suspeito, mas não vem ao caso.
Enfim, acertei as cerdas com a pasta na tentativa inútil de tirar o gosto de whisky amanhecido da boca. Nunca soube com o que se parece tal gosto, meia velha e suja talvez.

Olho-me no espelho e o álcool só mantém jovem as cobras e fetos no pote, pois eu estou mais velho do que nunca.
Olhei no espelho e não vi meu reflexo. Calma, não estou dizendo que virei nenhum vampiro, apesar da palidez e do gosto de sangue na boca por ter rasgado a gengiva com a escova de dentes, eu adoro alho. O que eu quero dizer é que o cara que eu vi ali, me olhando, nem de longe se parecia comigo.

Não sei quanto tempo se passou, mas ficamos um bom tempo nos encarando. Só fui desviar o olhar quando senti meus dedos sendo queimados pelo aviso do fim do cigarro. Joguei a bituca na privada e continuei a encarar aquele cara estranho. Lembrava vagamente o meu rosto, mas não era eu. Foquei em seus olhos e tentei achar-me naquelas esferas castanhas e lembrei que meus olhos costumavam ter um brilho que me orgulhava. Não poderia ser eu, pensei. "Como esse cara entrou aqui"?

Continuava encarando aqueles olhos e reconhecia que eram meus pelo farelo. Claro! Só poderiam ser meus, eu é que não encarava-os há uns dois ou três anos. Malditos olhos.

Eis que depois de toda essa viagem de espelhos e olhos que provavelmente se deve ao excesso de álcool em meu corpo e a falha de alguma parte do cérebro essencial para manter a sanidade, passei a buscar algum motivo forte para eu não deixar o trabalho pra lá e voltar a me deitar na cama e colocar o sono em dia. Trabalho esse um tanto quanto difícil quando se trata de um sujeito entediado como eu.

Pensei nas contas a pagar. No salário que viabiliza meus porres homéricos. Pensei até na garota de olhos cerrados que me faz sorrir inconscientemente. Bastou a imagem de sua franja caindo aos olhos e o cara no espelho me olhou sorrindo. Um sorriso tímido é bem verdade.
A legging e esmeraldas já não são suficientes para me fazer sorrir, muito menos para fazer-me levantar da cama.
Eu sempre tenho os piores pensamentos de manhã. É sempre como o apocalipse, o fim dos tempos. Tudo é um grande balde de merda e eu estou com a cabeça afundada nela. Não importa se de ressaca ou não, de manhã é sempre bosta por todos os lados. Pelo menos durante a meia hora que eu demoro para despertar com minha caneca de café e meus dois cigarros, antes do banho.

Hoje, ontem e, amanhã, acredito eu, serão os olhos levemente cerrados que me farão colocar o primeiro pé no chão e dizer uns três ou quatro palavrões à menos antes de me levantar.

Por hora, é só o que eu posso prometer. Porém, quem sabe, eu não dure tudo isso.


Bento.

-

sexta-feira, 13 de julho de 2012

GIULIARD BORSANDI VI

-

Indica-se ler os episódios anteriores: GIULIARD BORSANDI V


Decidi então tomar uma no bar para relaxar, ver gente, não que eu goste de multidões ou de muita gente falando na minha orelha, mas às vezes até um solitário como eu precisa de atenção.

Resolvi parar num bar ali pelo centro mesmo, perto do escritório, para o caso de o álcool me tirar o controle e eu poder ir embora andando sem nenhum acidente.
Não por mim, estou cagando por mim, faço isso pelas pessoas, pois apesar de não ser nenhum humanitário e não me importar por quem vive ou quem morre, não quero ter o peso de tirar uma vida nas minhas costas. Já tenho peso demais, mágoas demais.

Digo que estou cagando por mim porque no caso de um acidente vai ser um alívio. Ora seu maldito! Estou falando de suicídio mesmo, quem nunca pensou nisso? Foda-se!
O Ricardinho talvez, que nunca precisou fazer esforço para nada, teve tudo de mão beijada, tudo que tem foi o dinheiro do pai que comprou, como o cargo de jornalista investigativo que era para ser meu.

Ótimo! Tudo que eu precisava era me lembrar daquele comedor de puta, viadinho. É melhor mesmo eu ir para o bar.
Chego então por volta das 22h00min, a fila para entrar no bar vai da porta de entrada até a próxima esquina. Minha vida já é um tanto tediosa demais para que eu perca meu tempo em filas, logo, vou cumprimentar Guião, o segurança da casa. Ele é amigo do Cabelo e eu o conheci andando pelo prédio de Dom Pedro onde tenho o escritório.
Sim, eu só fui cumprimenta-lo com a intenção de furar a fila, caso contrário eu nem me moveria. Quem é você para me julgar?

 - Como tá Guião?

Não me perguntem o porquê deste nome, pois não saberei responder. Eu só conto a história, quem escolhe os nomes é o autor.

 - Giu, meu chapa! Comé que anda essa força?

Guião me cumprimentou com um abraço que quase quebra minha coluna em pedaços. Toda pessoa grande demais acha que todos temos a mesma força que elas.
Guião é um negro de uns dois metros de altura, chutando baixo e, tantos quilos quanto uma balança pode contar. Puta cara grande, principalmente perto dos meus quase um metro e oitenta e setenta quilos. Um bom cara, apesar de ser assustador, é uma figura.
O grandalhão tem uma leve dificuldade de respirar, muito pela obesidade, afinal sustentar todo aquele corpo só com dois pulmões é um desafio dos grandes, ainda mais com a quantidade de fumo que ele consume. Consume e vende os fumos do Cabelo na porta do bar.

 - Você está me matando Guião!!!

Eu disse quase que sufocado.

 - Porra, foi mal... E então, vai entrar ou está procurando alguém?

 - Hoje eu to de folga, só vou encher a cara.

O segurança então tirou seu corpo gigante do meu caminho para que eu pudesse entrar.

 - Vai lá poeta, pega leve com as meninas.

Passei pelo corredor escuro, virei a esquerda e assim que abri a porta fui atingido por uma onda de fumaça de cigarros -- que era demais até para mim que fumava descontroladamente -- e música alta.

O bar era dividido em duas partes, a pista de dança onde as pessoas dançavam como retardados transpirando em bicas com aquela música eletrônica que faziam meus tímpanos explodirem e ao fundo da pista tinha um palco que era usado por bandas de Rock underground em algumas noites.
Do outro lado era o bar, meu lugar preferido naquele lugar e onde trabalhava Jamaica, a barwoman que fazia os melhores drinks da cidade.

Jamaica na verdade era gaúcha, loira de olhos azuis que pareciam fazer parte da decoração e iluminação do bar. Sardas que cobriam seu pequeno nariz empinado, lábios rosas e cabelos loiros (quase brancos) parafinados estilo dreadlocks até o meio das costas, que ela por vezes deixava-os soltos ou enrolados acima da cabeça que me lembrava um ninho de passarinho. Lá pelos seus 1,70m de altura, magra, com seios perfeitos e braços longos cobertos por tatuagens, todos os dois, e piercing no nariz e no buço.
Parecia um anjo, uma tentação do inferno. Não ficava devendo nada para nenhuma supermodelo dessas grifes famosas, mas ela queria ser barwoman.

Jamaica era tão linda que poderia facilmente fazer-me esquecer de Nelia. Chegamos a transar uma vez no apartamento dela que ficava em cima do bar, porém ela gostava tanto de mulher quanto eu. Logo, tive de me contentar com as lembranças da minha ex-noiva.

Ao lado do bar ainda havia alguns bastões de ferro que subiam do chão ao teto e que algumas strippers dançavam em troca de alguns reais entregue em suas bocas e elásticos das calcinhas pelos velhos gordos que sentavam no bar e tomavam whisky com Tônica.

Fui direto me sentar no bar, é claro. E lá estava Jamaica, sempre absurdamente linda:

 - Olá guri. Quem é vivo sempre aparece.

Ela sorria com aqueles dentes perfeitos meio amarelados devido aos cigarros e percebi que tinha um piercing novo na língua.

 - Boa noite magrela.

Era assim que eu a chamava. - Piercing novo?

 - Você viu? Estou me acostumando ainda... Minha nova namorada tem um e eu fiquei com vontade também.

Ao ouvir "nova namorada" senti um ciúme inevitável e uma inveja gigante da vadia que transava com Jamaica.

 - Fico imaginando onde vai parar essa sua mania de piercing.

 - Se é lá que você está pesando, eu coloquei a semana passada...

Jamaica falava e sorria com sua voz deliciosamente maliciosa e seu sorriso contagiante. Não conseguia me manter alheio a ela. Bastava olha-la e meu corpo tremia como um adolescente babão. Chegava a gaguejar e me embaralhar com as palavras.

 - Pena que eu estou namorando, senão te mostrava.

 - Não fica me provocando que eu te pego aqui no balcão mesmo sua pilantra.

 - Hum... Que delícia.

Era impossível não ficar feliz perto daquele anjo do inferno. Mesmo para um amargo como eu, era impossível.
Jamaica me olhava com seus olhos de piscina e apoiava seus dois braços no balcão, o que fazia seus seios redondos e lindos ficarem juntos e apontados para a minha cara. Só aquilo já me excitava.

 - Vai trabalhar magrela! Me trás uma dose, vai.

Jamaica me trouxe um whisky e uma caneca de cerveja. Misturei os dois e tomei dois goles bem servidos para matar a sede.

Eis que já estou na quarta caneca e começa chegar gente. A casa suporta umas trezentas pessoas talvez, nos dias mais cheios, mas não hoje.
Hoje irá se apresentar uma bandinha meia boca, ninguém conhece, só quem frequenta o bar mesmo. Eu prefiro assim, menos gente roçando em mim.
Conheço a tal banda, tem umas músicas mais ou menos, só o vocalista que me desagrada, bebe demais, grita demais, e dança como se fosse uma lagartixa com esquizofrenia em cima do palco.
De qualquer forma, dá para aguentar.

O bar já está cheio e Jamaica não para. De um lado para outro servindo os recém-chegados. Agora já estou na sexta caneta e consequentemente a sexta dose de whisky. Jack Daniels, abaixo disso é água suja. Quando me surpreendo com uma mulher ao meu lado, num vestido negro que, sentada, quase dava para ver suas nádegas.

- Oi. Posso me sentar aqui?

Ela tinha trinta e quatro anos. Um rosto de mulher que, sim, eu toparia levá-la até meu escritório para olhar debaixo daquele vestido, caso ela não fosse um trabalho.
Ela era Janaina Alves, vocês devem conhecê-la como "mulher do pastor".


Bento.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O QUE VOCÊ QUER SER QUANDO MORRER?

-


Sempre que me perguntavam o que eu gostaria de ser quando crescesse eu sempre tive um milhão de respostas diferentes para responder a isso. Já pensei em tanta coisa.

Hoje se me fizessem a mesma pergunta eu diria que não gostaria de crescer, mas agora é tarde. De qualquer forma, continuo não simpatizando com a tal pergunta.

O correto seria; O que você quer ser quando MORRER?

Para essa pergunta eu respondo sem pestanejar. Quero ser eterno.

Independente de como vou viver, foi sempre a eternidade que fez meus olhos de criança brilharem como ao ver um brinquedo novo.

“Minha” eternidade não tem nada a ver com religião, paraíso, ou viver em graça ao lado de Deus e toda essa ladainha dos desesperados que buscam um objetivo para a vida e também para a morte. Apesar do nosso egocentrismo de querer ser a menina dos olhos do universo, somos como tudo que habita nele. Nascemos, vivemos (ou sobrevivemos - que é bem diferente de viver) e morremos. E é só isso.

Eu, definitivamente, não quero viver uma vida de privações esperando ser feliz nos jardins do Éden, quero aproveitar tudo o que há de bom aqui, em vida. Sentir na pele todos os prazeres da carne.

 Aliás, meu relacionamento com Deus é um tanto quanto peculiar, com tantas reclamações que tenho para lhe fazer é bem provável que se morresse hoje seria enviado diretamente ao inferno. Estaria sentado numa mesa de bar junto com alguns políticos do PT, pastores evangélicos, tomando algo gelado e alcoólico para resistir ao calor e uniríamos forças para falar mal Dele. Mas isso é outra história para um outro texto, voltando a falar da eternidade...

Também não estou falando daquela famosa eternidade idealizada por vilões dos filmes. Longe de mim querer perambular pela terra por centenas de anos como um vampiro ou coisa do gênero. Ficaria extremamente insatisfeito se passasse mais tempo neste mundo do que me foi destinado. Nem um segundo a mais, nem menos.

Estou falando de ser lembrado, de deixar uma herança ao mundo. Algo que poderá ser usado depois que eu me for, algo além de meus órgãos.

Talvez por isso me identifique com a escrita, nada resiste mais ao tempo que a comunicação por extenso.

Não precisa ser nada tão grandioso quanto Shakespeare, mas também não alcançaria meu objetivo com a inutilidade de um ex-big brother. Deve ser algo que esteja inevitavelmente ligado ao meu nome, que fosse repassado as outras gerações através dos livros de histórias ou jornais.

Já deixo bem claro que não tenho nenhuma vocação para virar santo, nem herói. Também não tenho vocação para terrorista ou criminoso como Bin Laden. Muito menos recebo mensagens do além como Chico Xavier. Portanto quero ser lembrado por palavras minhas, uma frase, uma crônica, uma música. Assim, nos dias dos finados, as velas acesas em minha homenagem não serão somente de meus parentes próximos.



Bento.

-

terça-feira, 19 de junho de 2012

UM OLHO NO PEIXE E OUTRO NA GATA (FUTEBOL)


-

Hoje é dia de Corinthians e estamos todos no bar, é claro.
Todos devidamente uniformizados e com cervejas nas mãos, menos eu. Eu tomo Dreher, afinal, além da "dureza", é a forma mais fácil de ficar "simpático" gastando pouco.

Ao meu lado -- não ao lado exatamente, mas em meu campo de visão -- existe uma estudante de jornalismo inteligentissima e linda de uma forma pré-colegial. Aquela que lembra professoras do jardim de infância, mas agora eu tenho libido de adulto, uma combinação quase explosiva.

Então temos a estudante com uma sensualidade de mulher e um rosto de menina conversando com um qualquer. Logo estamos dividindo a atenção dos lances perigosos na área do meu time em pleno jogo de libertadores com o (tomara que não) casal conversando.

Falando do jogo, está chato. Truncado no meio de campo o time adversário ataca mais. São as faltas que fazem o jogo travar no zero a zero, bem como o casal que eu observo. Eu gosto do placar do casal, do jogo, eu quero mais é ver gol do Timão.

Por falar em zero a zero, observo sem ouvir a conversa do casal por causa dos corintianos no bar pulando e cantando os hinos da torcida como no estádio.
Eu não pulo para não derrubar o Dreher e porque acho que em bar não se pula, sim no estádio, mas não no bar.
Quero beber, ver o Corinthians ganhar e a lindíssima estudante, agora já bêbada, sair ao menos, sozinha.

Eu levo um terço no pescoço, não que seja religioso ou devoto, eu diria que é mais estética, porém nada impede de apelar para Deus quando o jogador do time adversário está de frente ao nosso gol. Não apelo pelo casal, pois não acredito que haja intervenção neste caso.

Meus olhos seguem lá e cá e penso que poderia prestar mais atenção no jogo, afinal dependemos da vitória hoje, para seguir em frente no campeonato. Só que a garota me encanta de tal maneira que dependerei da situação entre a estudante e o desconhecido para terminar a minha noite bem.

O juiz causa discórdia no jogo apitando mais faltas para o outro time, mas pode ser só a visão de torcedor. Claro que a essa altura do jogo, o empate jogando fora de casa, não é de todo ruim. Meu time entende isso e passa a jogar na defesa, bem como a estudante que se afasta do periculoso e eu me animo.

A torcida adversária passa a jogar copos de mijo em nossos jogadores ao cobrar escanteios e meu sangue começa a subir, da mesma forma meu ódio ao ver a linda universitária começar a colocar os cabelos atrás da orelha e arrumar a bolsa em seu ombro, inquieta, sinal clássico de que o indivíduo estava obtendo sucesso em sua empreitada. Algumas mulheres dão sinais, que o homem que se preze tem de saber identificar.

Bom para o autor que o menino não soube aproveitar da embriaguez e gestos da garota e excelente que o zagueiro do meu time tirou uma bola praticamente em cima da linha. Logo, eu fiquei dividido entre a TV, a garota, as pernas da garota, o Dreher e o cigarro. Nessa soma, agora o jogo tinha mais de minha audiência para que passasse despercebido na observação do casal.

O cronometro corre sem parar, quem não corre é a bola, que não chega ao ataque para que possamos abrir o placar. O Dreher tomando conta de minhas veias e o casal tomando minha atenção, afinal a garota das pernas maravilhosas voltara a colocar os cabelos atrás das orelhas, sorrir, mexer na bolsa e se aproximar do maldito que também era estudante.

Os torcedores continuavam a gritar e pular ao meu lado, até que acontece uma falta perto de nossa área, muito perto. Apreensivo eu já estava, pois a garota estava preste a se despedir da ameba ambulante que passou conversando durante todo o jogo. Se fosse, seria agora, na despedida, que aconteceria o beijo que faria eu, no mínimo, querer ficar muito bêbado e desanimar.

A barreira estava feita, os jogadores se empurravam e andavam para frente disfarçadamente no intuito de diminuir o espaço e visão do batedor. Eu disfarçadamente cruzada os dedos para que a garota fosse embora sozinha e sem beijo.

O juiz tomava distância pronto para apitar e permitir a cobrança, os torcedores do estádio e do bar roendo as unhas. Um silêncio tão devastador que quase consigo ouvir o que o casal conversava, quase, mesmo assim não era possível.

O juiz apita, o cobrador não vai imediatamente para a bola. Faz drama. O mesmo drama que a garota faz para se despedir. O cobrador já está a dois passos da bola e o casal tem agora, suas bocas tão próximas que sentiam o hálito um do outro. O camisa 11 bateu na bola com jeito e ela viaja sem pressa em direção ao gol. Meu goleiro dá passos largos para o lado como um caranguejo e mantém seus olhos esbugalhados. A mão do cretino está no pescoço bem abaixo das orelhas da estudante. Queria eu, ser vesgo neste momento para poder olhar para os dois lances. Um olho no peixe e outro no gato. A bola ia em direção ao gol e o goleiro tentava acompanhá-la. As bocas se aproximaram e já faltavam poucos centímetros para que até seus cílios se tocassem.

Em onde eu fixaria os olhos eu não sabia. Na bola ou nas bocas? O goleiro pulou e passou despercebido pela gorducha seguindo seu caminho em paz até a rede. Nada poderia lhe impedir, nada a abalava. Os zagueiros já não se mexiam dentro da área. O cobrador inconscientemente já se dirigia a sua torcida para comemorar o gol da classificação que parecia inevitável. Eu já me preparava para o beijo inevitável. A bola foi. NA TRAVE! E caprichosamente saiu de campo por cima do travessão. A boca do garoto seguiu em direção a linda e deliciosa boca da garota e numa esquiva típica de mulher difícil encontrou apenas sua face esquerda.

Todos pularam e comemoraram como se fosse um gol do nosso time, a bola para fora, é claro. Até eu pulava e o Dreher foi pelos ares e serviu aos santos. Mas eu. Eu comemorava a solidão da garota a caminho de casa.

E o jogo? Ora, quem liga para o jogo?


Bento. 

terça-feira, 12 de junho de 2012

GIULIARD BORSANDI V


-

Indica-se ler os episódios anteriores: GIULIARD BORSANDI IV


Segunda-feira e eu tinha uma semana para resolver o caso do Tadeu antes de ir atrás da crente safada, a mulher do pastor. Provavelmente só vou vê-la na sexta de noite. Toda vez que penso no pastor e sua esposa dando para o obreiro fico curioso com a situação. Nunca entendi esse negócio de religião.
Mesmo antes de Nelia, Ricardinho e Dr. Hernandes desgraçarem minha vida eu não me ligava em religião. Acredito em Deus tanto quanto ele acredita em mim e quem me vê hoje, depois de todo o futuro que eu tinha planejado, acho que Ele nem lembra meu nome, ou finge que não lembra.

"Quanto mais alto está, maior o tombo", foi o que Tadeu me disse uma vez e agora ele está pedindo minha ajuda para descobrir se a putinha dele está sentando em outro pau.

Acho que termino este caso em dois ou três dias, hoje é segunda, quarta-feira eu acabo e me livro do Tadeu. Uma estudante de vinte poucos anos, auxiliar de escritório, não deve ser muito difícil de ser seguida. E não é que não goste do Tadeu, na verdade ele não fede e nem cheira, mas qualquer pessoa da redação ou da faculdade me faz lembrar meu auge e a vida que eu tinha antes, aí eu fico puto e quero beber.

Só me ligo nos dias da semana por causa dos trabalhos, para mim tanto faz, contanto que eles passem o mais depressa possível. Não me lembro do último aniversário que tive.
Não quero parabéns, nem bolo de aniversário. Muito menos parabéns de gente falsa, que bate nas suas costas desejando felicidades, sucesso e a puta que pariu. Esses são os piores. Tem gente que sabe o aniversário de todo mundo que conhece, anotam na agenda para não esquecer só para fazer essa merda de social, dar presentinhos, lembrancinhas. "Lembrei de você". Lembrou uma porra! Vai é me foder na primeira oportunidade que tiver.

Chega disso, não quero ficar aqui resmungando sozinho. Estou feliz, nem tanto, não pense que vou ficar todo serelepe pulando de alegria que nem uma bicha e dando bom dia para qualquer imbecil, porém esses 500 conto que Tadeu me adiantou vai ajudar bastante, a gasolina do DelRey já estava no osso e me lembrei que fazem dois dias que não tomo banho, então vou para casa.

Eu evito ir para casa porque tudo que está lá me lembra de Nelia. Nelia e a porra toda. Você deve ter percebido que eu tento me desvencilhar de meu passado de qualquer forma, mas é impossível, não consigo. Sou um fracassado. Sou um fracasso que já foi alguma coisa, o que é muito pior.

Cheguei em casa e tomei um banho enquanto a lasanha congelada esquentava no micro-ondas. Minha casa era na verdade um cômodo só, que eu dividia com móveis.
Cama num canto, guarda-roupa e TV em outro, um sofá no meio e no outro canto um micro-ondas e a geladeira. Comi a lasanha sentado do sofá vendo TV e tomando uma Heineken.

Curioso é que consigo passar dias com minha dieta especial a base de cigarros, café e Whisky, mas foi só colocar algum alimento no estômago para correr ao banheiro. Passei trinta minutos lá dentro sentado no vaso.

Depois de ver um pouco de TV e escrever alguns contos peguei no sono e só acordei às 21h00min. Adivinhem com quem sonhei enquanto dormia...

E lá se foi meu dia de folga, sobrara a noite para eu me divertir um pouco, resolvi ir para o bar.


Bento.

-

PUDESSE EU TER LIDO O FUTURO...



Direitos de Autor Reservados a: DIFFUSE - creative film studios
Actor: Diogo Lopes
Escrito por: Ana Luisa Bairos, Joana Pacheco
Texto revisto por: Margarida Vaqueiro Lopes
Operadores de câmara: Ana Luisa Bairos, Duarte Domingos
Pós-produção vídeo: Ana Luisa Bairos
Pós-produção áudio: Alexandre Pereira
Música original: Alexandre Pereira
Realização: Ana Luisa Bairos
Agradecimentos especiais: Eva Barros, Isa Pinheiro

sábado, 9 de junho de 2012

O PERDEDOR NEM SEMPRE É O MAIS TRISTE, PENA


-


Eu tenho alguns ídolos na minha vida. São pessoas nas quais eu me inspiro e me identifico.
Sempre gostei dos mais polêmicos, os mais autênticos. O anti-herói. Os que sofrem no final e depois do fim.
Os que perdem ou acham que vencem, mas perdem. Os dramáticos e solitários.
Abdiquei desde a infância de torcer pelos mocinhos pé no saco e chatos como corrida de São Silvestre.

Digo isso porque após anos, eu na mistificação de tornar o passado fresco - ninguém faz isso de caso pensado, eu não sou diferente disso, adianto - fico pensando sobre como é possível idolatrar uma lembrança. É como assistir um compacto de jogo de futebol e mesmo sabendo o placar final torcer para o atacante perna de pau fazer aquele gol perdido debaixo da trave, ou rezar para que o goleiro pegue aquele pênalti que mexeu o placar. E se sentir maravilhado com o jogo do campeonato passado mesmo com seu time perdendo.

Essas lembranças que me trazem você para perto por reflexo me faz chegar à conclusão que sou seu fã e só não peço autógrafo pelo fato de já ter um, dedicado ao meu nome, com cheiro e coração ainda guardado na caixa de charutos que chamei de "CAIXADE PANDORA DE AMORES FINADOS" num outro texto.

Sou presidente-fundador e único membro do fã clube mais antigo dedicado a você.
Não nego não nego. Busco sim algumas informações sobre sua vida, mas na maioria dos casos são os paparazzi que insistem em me manter informado sobre affaires, festas e aquela coisa toda de ídolos que deixam os fãs satisfeitíssimos de compartilhar.

Em resumo, sou seu fã por tudo que você pôde e pode fazer e eu não. Sou fã de sua beleza e sua liberdade de pensar e agir, não necessariamente nessa mesma ordem.
Sou seu fã por saber enganar-me - e aos paparazzi - tão bem e só deixar vazar notícias felizes. Eu não. Como já citei acima, invariavelmente gosto da dramatização, do final trágico e épico. E isso, claro, é culpa sua. Mas não vou entrar neste mérito.

Prefiro reforçar que tenho em meus ídolos uma inspiração e você definitivamente é a campeã em me inspirar. No intuito de fazer bem a você e mal para mim partindo, me deixou de presente um leque de opções e a força de me levantar da lona após o nocaute. E ainda hoje, sempre que dá o ar da graça - aliás, me pego pensando no último sorriso de meses atrás e não consigo desvendá-lo - sou atirado contra a lona e obrigado a beijá-la, porém me levanto antes do fim da contagem.

E caio, levanto, caio, levanto. Ali no ringue, na disputa de pontos perdi de lavada e continuo caindo e você permanece me vencendo.

Mas para quem ainda não entendeu eu repito pela última vez:
Sempre gostei dos mais polêmicos, os mais autênticos. O anti-herói. Os que sofrem no final e depois do fim.
Os que perdem e acham que vencem, mas perdem. Os dramáticos e solitários.


Bento.

domingo, 27 de maio de 2012

BEM VINDA OUTRA VEZ


-


Parei de andar, que no meu caso é semicorrer. Enfiei os dedos no bolso e com o indicador e o médio quase como uma pinça consegui retirar o molho de chaves para abrir o portão.
Todos os dias o mesmo horário, o mesmo caminho e geralmente os mesmos pensamentos habitando a cabeça. Só que hoje não tinham cachorros para me recepcionar, até meus cachorros descobriram compromissos em suas rotinas e eu continuava com os mesmos problemas, o mesmo caminho e horários.

Passei pela garagem rapidamente porque eu tinha pressa. Logo ela chegaria e do portão gritaria meu nome, alto, seco, só a primeira silaba, já era o bastante, mesmo que não dissesse nada, mesmo que falasse em hebraico, japonês, mandarim. Mesmo que resmungasse já era o bastante para eu reconhecer a entonação de sua voz.

Tinha pressa para me aprontar, louças, roupa de cama, banho, tudo. Abri a gaveta da cômoda e deixei a garrafa de conhaque repousando sobre as camisetas velhas, queria esconder que ainda precisava do líquido amargo para acordar, dormir, comer, andar, pensar com equilíbrio e para parar de pensar às vezes.

Sumiram também os gatos e eu passei a vista rápida ao telhado sem encontrar nenhum deles. Sem gatos, sem cachorros, sem vizinhos gritando, sem carros na rua e sem telefone tocando. Comecei achar que era meu dia de sorte e logo pensei em servir uma dose para comemorar, mas aí lembrei que ela estava vindo e tentei imaginar com que roupa ela estaria, de que forma teria preso o cabelo, ou se estaria solto. Tênis, sapato, sapatilha, chinelo? Não importava, não havia roupa alguma que a deixasse feia, era incrível.

Tão incrível que no começo ela acabava com minha autoestima, perto dela eu sempre parecia do avesso, desarrumado, tímido, burro e incapaz. E eu não dava a mínima. Estar ao seu lado me bastava e era tudo lindo. Agora não, agora ao seu lado eu me sinto esbelto, esperto, de uma soberba incomparável. Sinto-me o herói alado guardando a mocinha indefesa. Não que ela seja indefesa, bem longe disso, mas ela acha que eu não sei que ela finge precisar de mim só para que eu me sinta o homem dela e ela se sinta a minha mulher. Menos hoje.

Hoje ela reservou para ser minha heroína, com direito a capa, identidade secreta e tudo mais.
Ela quis assim e eu fiquei pensando se eu já fiz por merecer tais cuidados, se sou bom o bastante, se posso melhorar em alguma coisa, essas coisas de insegurança que toma conta do peito de vez em quando.

Encostei na cama esperando que ela chegasse e peguei no sono, quando acordei ela já estava ao meu lado vigiando meu sono, ao abrir os olhos ela recepcionou-os com um sorriso lindo, sorriso dela.
E ela disse que hoje era meu dia, disse para que eu não pensasse em nada e eu não pensei. Para que eu não me preocupasse que ela resolveria todos os problemas e eu não me preocupei.
Não me deixou sequer levantar, pois suas pernas seriam as minhas e que se eu quisesse algo logo ela traria.
Tentei dizer o quanto estava feliz pela visita mas fui interrompido por seus lábios rosados tocando os meus. Ela não queria que eu falasse e eu não falei

E para mim não poderia haver momento mais perfeito, puxando pela memória descobri que não havia mesmo, em toda minha vida.

Foi quando comecei ouvir latidos do lado de fora, eram os cachorros que tinham voltado. Ouvi os miados, eram os gatos que estavam no telhado outra vez.
O telefone tocou, era o silêncio indo embora de novo.
Os vizinhos brigando, era a realidade voltando ao normal.
Mas nada importava, pois ela estava ao meu lado, então me sentei, passei os olhos ao redor e não encontrei vestígios dela. Tudo ali estava exatamente como deixei antes de pegar no sono e me dei conta que ela nunca estivera lá.
Claro que não, ela se fora há muito tempo. Era a solidão pedindo passagem.
Então abri a gaveta e fui beijado pelo conhaque várias vezes, era a vontade de esquecer novamente.



Bento.

-

terça-feira, 22 de maio de 2012

BUKOWSKI RESERVADO

-


Eis que eu indiquei a leitura de Bukowski para um amigo contista e me deu vontade de ler o autor.
Já li algumas coisas, mas foi quase nada.
Sei que fui comprar um livro do Bukowski na banca e o Antônio, o chamo de Toninho, me diz com a cara lavada: 20 conto, Bento.

Porra! 20 conto?

Eu não tenho 20 conto para pagar num livro. Ok! Gasto com meus cigarros e Drehers bem mais que isso mensalmente. Mas já é fim de mês para mim. Mais duro que eu só o tórax daquela mulher do pagodeiro que foi preso.

Agora vão aumentar meu cigarro, e nem fumar eu poderei mais. Minha marca vai para 6 conto e eu provavelmente terei de parar de fumar, ou roubar para manter o vício. Na minha casa sumirão torneiras, micro-ondas e outras relíquias para comprar meu maldito cigarro. “Fui vencido pelo sistema”, diriam os pregos metidos a Che Guevara maconheiros que temos espalhados pelo país. Trabalho como um condenado e não me sobram 20 conto para ler Bukowski.

Aí tive a brilhante ideia de ir até a biblioteca, claro, como pude ser tão burro de não pensar nisso antes?
Fui até a biblioteca Mário de Andrade e eis que me deparo com o Destino me esperando na porta, pronto para rir da minha cara. Deveria ter previsto que ele me pregaria uma peça diurna de segunda-feira. É esse o dia favorito do Destino.

 - Todos os títulos de Bukowski estão alugados. Disse a bibliotecária.

Velha nariguda. Eu pensei.

 - Tem certeza? Olha de novo.

 - Senhor... Todos os títulos de Bukowski estão alugados.

Velha maldita parece uma máquina repetindo a mesma frase assim. Quem em sã consciência torna-se bibliotecária? Pude imaginar na hora ela dizendo "É, eu tenho 20 conto para comprar um livro" e ela nem precisa, trabalha num biblioteca.
Velha safada exploradora de livros gratuitos. Só ela deve estar com uns três títulos do Bukowski.

Voltei puto para o trabalho. Quem lê Bukowski? Ninguém que eu conheço lê Bukowski! Um ou dois no máximo.
Onde estão essas pessoas que leem o velho alemão depravado para que possamos sentar num bar e conversar tomando uma?

Fiquei puto, reclamando da vida e amaldiçoando os miseráveis que alugaram os livros que eu queria. Um reclamão chato. Reclama, reclama, reclama e fica chato. Fumei uns dois cigarros pensando nisso e cheguei numa conclusão.
Se existem tantas pessoas assim que leem Bukowski na cidade, o mundo ainda tem salvação.

Bom saber.


Bento

-

domingo, 20 de maio de 2012

GIULIARD BORSANDI IV

-

Indica-se ler os episódios anteriores: "GIULIARD BORSANDI III"



Em alguns capítulos anteriores eu falei sobre um amigo de redação que cuidava dos classificados do jornal. Só que na verdade não era bem um amigo, um colega, no máximo. Quando eu caí não tinha ombro amigo para me escorar, a única que poderia ter feito isso era Nelia, que como vocês já sabem se bandeou para o outro lado, o lado mais forte. Eu não estou reclamando, tudo que tive foi por méritos próprios, sem a ajuda de ninguém. O mundo é assim, todos querem ficar por perto quando você tem dinheiro, fama e mulheres, quando não se tem nada disso ficam só os covardes, os falidos, que acham que um grupo de coitados se torna mais forte. A vida não é uma cooperativa, porra! Você está sozinho, num mundo de bilhões de pessoas, você está sozinho!

Mas aí, depois do sonho que tive com Nelia, onde acordei babado, finalmente abri a porta e quem eu vejo ao lado do Cabelo foi justamente esse colega, o Tadeu.

 - Essa campainha está dando choque sabia?

Ele nem me dera bom dia e já estava reclamando da merda da minha cabra, digo, campainha. É por isso que não gosto de dar moral para as pessoas, ela acham que podem fazer o que bem entendem só por achar que tem intimidade com você. Está dando choque nesse filho da puta e mesmo assim ele continuou enchendo meu saco até me acordar e me tirar do sonho com Nelia. Eu deveria usar o 38. e meter uma bala no meio dos olhos deste marqueteiro metido a jornalista.
Eu acordo mal humorado, na verdade, estou todo tempo de mau humor, só quem está na minha pele pode entender, ou seja, só eu.

 - É um teste! Para saber se realmente estão precisando de um investigador ou só estão querendo encher o meu saco.

Virei às costas e fui até a gaveta do scotch tomar o primeiro trago do dia, acordei cedo. Geralmente só acordo depois das 13 horas, ninguém acorda cedo disposto a contar para um desconhecido que está sendo passado para trás. E geralmente eu durmo muito tarde.

 - Então eu passei no teste.

Tadeu entrou atrás de mim e sentou na cadeira que tinha do lado oposto ao meu da escrivaninha. Cabelo parado na porta olhava para o sujeito que havia entrado no meu escritório com ar de desconfiado, mas Cabelo era igual a mim, não tinha muita paciência e nem confiava em muita gente.

 - Tá de boa aí Giu?

 - Suave Cabelo. E obrigado.

 - Precisando, eu to lá embaixo.

Então Cabelo nos deixou a sós para falarmos, eram dois lances de escadas de madeira oca comida pelos cupins que habitavam aquele prédio desde o tempo do Brasil colônia.

 - Bom, Tadeu. O segundo teste é: Você me acordou cedo e eu não gosto disso. Então vou te dar cinco minutos do meu tempo para você me convencer que merece minha atenção.

Ele parecia feliz em me ver, mas tinha bebido recentemente, bebido muito. Seu rosto magro como eu lembrava depois de tantos anos era agora bem mais magro, barba por fazer. Os lábios brancos denunciavam a ressaca e os olhos, denunciavam a tristeza.
Percebi na hora que o problema era mulher.
Um homem só se acaba desse jeito quando tem mulher na história. Por isso tem gente que diz que a pior droga do mundo são as mulheres e nada pior na vida de um homem que uma vadia.
Um homem aguenta tudo; levar porrada, trabalho pesado, eliminação do time do coração, morte da mãe... Homem só não aguenta uma vadia em sua vida. É assim desde que o mundo é mundo.


 - Primeiro eu quero dizer que lamento muito o quê aconteceu lá no jornal.

 - Poupe o meu tempo e o seu. Passado é passado. E sei que você não veio aqui depois de tanto tempo só para dizer que lamenta.

Esse animal não entendeu nada. Quero me livrar dele o mais rápido possível e ele aí dando voltas. Eu não gosto de ver ninguém do meu tempo de jornalista. Todos eles me fazem lembrar do fato ocorrido e de Nelia. E eu não preciso de ajuda para lamentar o meu amor perdido. Vadia!
Meu dia vai ser ótimo, já estou até vendo.
Uma vadia no sonho e um corno na minha frente. O que virá depois? Minha mãe?

 - Vá direto ao assunto Tadeu. O que é? Casamento?

 - Não, não me casei.

 - E o que você quer de mim?

 Tadeu me contou sua história, ele não casara, mas tinha uma namoradinha. Disse que desconfiava dela, o que é normal, todo mundo desconfiava de todo mundo, alguns só não assumem. Por isso é que eu prefiro ficar sozinho, na verdade não prefiro, porém não vou me entregar a qualquer vagabunda só pela solidão, para isso inventaram o sexo casual. Mas isso é outra história, voltando ao Tadeu...

Ele estava disposto a casar com essa tal namoradinha, já tinha pagado as alianças, faltava só o convite. Então me procurou para ter certeza se ela era a mulher certa. Como se eu fosse Deus, porra! Mesmo se eu for atrás dela e achar alguma coisa, não quer dizer que ela não seja a pessoa certa. Existem milhares de casamentos que só sobrevivem por causa das traições, eles saem da rotina e voltam para casa renovados, sem falar nos voyeurs, nos que transam a três. Cada um sabe onde o calo aperta. Não vou julgar.

Resumindo era isso; eu iria investigar a garota para saber o que ela andava fazendo quando não estava sentando no pau do Tadeu. Passei meus honorários e disse que não iria dar desconto pela nossa "amizade" e tal e tal. Sabe como é, amigos, amigos... Mas dei um toque:

 - Eu vou investiga-la, mas uma vez ouvi um ditado que quem procura acha. Você está pronto para o que eu posso encontrar?

 - Sim...

Não botei muita fé, é por conta e risco dele.

 - Então, negócio fechado. Eu mantenho contato, agora saia.

Nos despedimos e eu pedi para que fechasse a porta quando saísse.

Ao invés de procurar informações da namoradinha de Tadeu eu me servi de mais uma dose de scotch e acendi um cigarro, era meu café da manhã. Eu tinha tempo, afinal a mulher do pastor só sairia para dar o rabo na sexta-feira, que era quando ele iria viajar e hoje ainda era segunda.

 E logo o sonho com Nelia invadiu minha mente. Maldito sonho...



Bento.

-

sábado, 12 de maio de 2012

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DA RESSACA


-

Confesso que penso em minha insistência de exaltar o álcool, bem, convenhamos, me saio melhor falando sobre o que gosto.

Então estamos todos no bar e o testemunho da alegria está estampado no rosto de todos em volta. É uma fraternidade talvez ilusória -- sei que alguns vão dizer -- e eu não vou argumentar, porém acredito que transborda a sinceridade no porre, pois bêbado não mente, assim como as crianças e quem não gosta de voltar a ser criança mesmo que só nas verdades vomitadas?

Eis que tenho a ressaca como uma das minhas melhores amigas, tanto que a trato como senhora Ressaca, assim como trato o tédio como Tédio. Tanto respeito que sinto que merecem nomes próprios.
Sempre disse que escrevo melhor quando a Ressaca me faz companhia, assim, desacelerando meus pensamentos e dando um rumo as palavras como um quebra-cabeça. Recita em meus ouvidos frases flutuante de meu inconsciente.

Eu não tenho a pretensão de explicar o que é uma ressaca daquelas de deixar os pelos do corpo arrepiados e as mãos trêmulas. Prefiro que sintam na pele, mas como disse para uma amiga “nipo-nordestina”, gosto de analisar as coisas, mais que isso, dentre tantos vícios, sou viciado em análise. A ponto das pessoas próximas dizerem "Bento e suas teorias", a reflexão é o lubrificantes das engrenagens do cérebro.

Então eu falo de ressaca como se fôssemos parentes próximos. Ela me dá o que eu quero e eu tiro proveito disso.
É desnecessário dizer que em toda relação existem abalos nas estruturas e nem sempre são flores.

 Quem conhece sabe que a Ressaca é tendenciosa, tenderá sempre para a falta de escrúpulos que tem consigo mesmo, o segredo está em colocá-la em seu devido lugar.
Não sei quanto ao resto, mas a pós-embriaguez possui personalidade, portanto haverá dias que ela te visitará com um humor totalmente lamentável, que chega a lembrar o Tédio, é quando ela inspira músicas, parábolas e apelidos como "Maldita Ressaca".

Tem dias que ela baterá na sua porta com flores e chocolates fazendo você sorrir com as histórias da noite anterior, mesmo daquelas que não nos orgulhamos tanto. É como encontrei-a parada no pé da minha cama hoje cedo, vigiando meu sono  e coleções de sonhos esquecíveis. Me deu um belo beijo de bom dia e serviu-me de café fresco e cigarros. Então sentei na cama para ouvi-la e juntos criamos planos mirabolantes para consertar as falências de pudor da noite anterior. Como é sábia a Ressaca.

Vou confessar aqui que algumas vezes bebo só para ter a ressaca em minha companhia, uso os destilados como convite -- venha tomar um café comigo e colocamos a fofoca em dia. Eu digo.

Agora eu vou mais longe e dizer que existe uma purificação na ressaca, há um desprendimento das canalhices mundanas no sentido de criar uma hegemonia dos sentimentos passionais que ficam todos ao seu favor na intenção de arquitetar uma compreensão mútua entre você e esses sentimentos.

Dito isso, sinto uma imensa vontade de achar que a origem da palavra ressaca deveria ser "cura da alma" mesmo em sua falência.

Mas eu sei que sou um romântico e possuo a tendência de fazer parecer "bom moço" todos e tudo que me faz bem, porém tenho adquirido uma política de "morde e assopra" que nem mesmo eu entendo e sei donde houve início. Sendo assim, fingirei polemizar citando àquelas características físicas e lúcidas como dores de cabeça, apologia à preguiça e sede que beira a demência. Bom, na verdade eu mudei de ideia, não vou cometer a sobriedade -- até porque não estou sóbrio -- de citar as características físicas da ressaca. 


Bento.

-